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sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Colapso do Cassino


NOTA PRELIMINAR: 

Embora esse artigo seja relativamente longo, descreve clara e didaticamente o grande imbróglio do possível colapso do cassino financeiro internacional e como agem os gângsteres da especulação criminosa, e de quebra, o apadrinhamento do FED e dos governos das maiores economias ocidentais a essa calamidade. O autor deste brilhante texto já é habituèe aqui no nosso blog indígena. 

  




Análise de Paul Craig Roberts, no Global Research, tradução do Viomundo




Desde o início da crise financeira e do Quantitative Easing [QE, equivalente a emissão de dólares pelo Tesouro dos Estados Unidos] há uma questão diante de nós: como o Banco Central norte-americano pode manter taxa de juros zero para os bancos e taxa de juros reais negativas para poupadores e acionistas quando o governo dos Estados Unidos está acrescentando 1,5 trilhão de dólares à dívida nacional todo ano, através dos déficits de orçamento? Não faz tempo o Banco Central anunciou que manteria a política por mais 2 ou 3 anos. Na verdade, o Fed [BC norte-americano] está preso a esta política. Sem a taxa de juros artificialmente baixa, o serviço da dívida nacional seria tão grande que levantaria dúvidas sobre a qualidade do crédito do Tesouro dos Estados Unidos e a viabilidade do dólar, e os trilhões de dólares em derivativos relacionados à taxa de juros e outros derreteriam.

Em outras palavras, a desregulamentação financeira que levou à jogatina de Wall Street, a decisão do governo dos Estados Unidos de resgatar os bancos e mantê-los flutuando e a política de juros zero do Banco Central colocaram o futuro dos Estados Unidos e de sua moeda em uma posição perigosa e insustentável. Será impossível continuar a inundar os mercados de ações com 1,5 trilhão de dólares em novos papéis todo ano quando a taxa de juros dos papéis é inferior à taxa de inflação. Todos os que compram papéis do Tesouro estão comprando um bem em depreciação. Além disso, o risco de investimento nos papéis do Tesouro é muito alto. As baixas taxas de juros significam que o preço pago pelo papel do Tesouro é muito alto. Um aumento na taxa de juros, que virá mais cedo ou mais tarde, vai provocar o colapso do preço dos papéis do Tesouro e provocar perdas de capital dos investidores, tanto domésticos quanto estrangeiros.

A pergunta é: quando é mais cedo ou mais tarde? A proposta deste artigo é examinar a questão.

Vamos começar respondendo a uma pergunta: como esta política insustentável conseguiu durar tanto tempo?
Um número de fatores contribui para a estabilidade do dólar e do mercado de ações. Um fator muito importante é a situação na Europa. Existem problemas reais lá e a imprensa financeira mantém nosso foco na Grécia, na Europa e no euro. A Grécia vai deixar a União Europeia ou será expulsa? Os problemas da dívida soberana vão se estender à Espanha e Itália e essencialmente a todos os lugares com exceção da Alemanha e da Holanda?

Haverá o fim da União Europeia e do euro? São todas questões muito dramáticas, que mantém o foco longe da situação norte-americana, que provavelmente é muito pior.

O mercado dos papéis do Tesouro também é ajudado pelo temor que os investidores individuais sentem em relação ao mercado de ações, que se transformou num cassino pelas “negociações de alta frequência”.

“Negociação de alta frequência” é negociação eletrônica, baseada em modelos matemáticos. Firmas de investimento competem na base da velocidade, capturando ganhos em frações de um centavo e ficando de posse dos papéis por apenas alguns segundos. Não há investidores de longo prazo. Contentes com seus ganhos diários, eles liquidam suas posições ao final de cada dia.

“Negociações de alta frequência” são responsáveis por de 70 a 80% do mercado de ações. O resultado é a azia dos investidores tradicionais, que estão deixando o mercado de ações. Eles acabam comprando papéis do Tesouro, porque estão incertos sobre a solvência dos bancos, que pagam quase nada de juros, enquanto os papéis de dez anos do Tesouro pagam taxa nominal de juros de 2%, o que significa, usando o Índice de Preços ao Consumidor oficial, que os investidores estão perdendo 1% de seu capital por ano [diferença entre a taxa de juros paga pelo Tesouro e a inflação].

Usando a medida correta de inflação dos Estados Unidos, de John Williams (shadowstats.com), os investidores/emprestadores estão perdendo mais. Ainda assim, a perda é cerca de 2 pontos percentuais menor que se o dinheiro ficasse depositado nos bancos. Ao contrário dos bancos, o Tesouro pode pedir ao Banco Central dos Estados Unidos que imprima dinheiro para resgatar seus papéis. Assim sendo, o investimento nos papéis do Tesouro pelo menos dá um retorno nominal, ainda que o valor real de retorno seja muito menor.

A mídia financeira prostituta [presstitute no original - jogo com a palavra Press] nos diz que a fuga de investidores na dívida soberana europeia — do euro em risco — e a fuga de investidores do contínuo desastre do mercado imobiliário, em direção ao papéis do Tesouro, acabam fornecendo o financiamento para os déficits anuais de U$ 1,5 trilhão de Washington. Investidores influenciados pela imprensa financeira podem, de fato,  estar respondendo assim. Outra explicação para a estabilidade das políticas insustentáveis do BC norte-americano é o conluio entre Washington, o Banco Central e Wall Street. Trataremos disso mais adiante.

Ao contrário do Japão, que tem a maior dívida nacional de todas, os norte-americanos não são donos de sua própria dívida pública. A maior parte da dívida dos Estados Unidos é de propriedade de estrangeiros, especialmente da China, Japão e da OPEP, dos países exportadores de petróleo. Isso coloca a economia dos Estados Unidos em mãos estrangeiras. Se a China, por exemplo, for indevidamente provocada por Washington, poderia jogar U$ 2 trilhões em bens denominados em dólar nos mercados mundiais. Todos os tipos de preço desabariam e o Banco Central dos Estados Unidos teria de imprimir dinheiro rapidamente para comprar os instrumentos financeiros despejados pela China.

Os dólares impressos para comprar os bens descartados pela China expandiriam a provisão de dólares nos mercados de moedas e derrubariam a taxa de câmbio do dólar. O Banco Central dos Estados Unidos, sem moeda estrangeira para comprar os dólares, teria de apelar para swaps cambiais com a Europa, com seus problemas de dívida soberana, por euros; com a Rússia, cercada pelo sistema de mísseis dos Estados Unidos, por rublos; com o Japão, um país até o pescoço com seus compromissos com os Estados Unidos, por ienes. Assim, o BC norte-americano compraria dólares com euros, rublos e ienes.

Estes swaps cambiais seriam registrados contabilmente, seriam irresgatáveis e tornariam o uso de novos swaps problemático. Em outras palavras, mesmo que o governo dos Estados Unidos fosse capaz de pressionar seus aliados e marionetes a trocar suas moedas fortes por dólares depreciados, não seria possível repetir o processo. Os integrantes do Império Americano não querem ficar com dólares mais que os BRICs.

No entanto, para a China se livrar de seus bens em dólares todos de uma vez, seria custoso, já que o valor dos bens cairia no momento em que eles começassem a ser descartados. A não ser que a China enfrente um ataque militar dos Estados Unidos e precise enfraquecer o agressor, a China, como um ator racional, preferirá sair do dólar lentamente. Nem o Japão, a Europa ou a OPEP querem destruir sua própria riqueza, acumulada com os déficits comerciais dos Estados Unidos, mas há indícios de que todos pretendem se livrar de seus bens denominados em dólar.

Ao contrário da imprensa financeira dos Estados Unidos, os estrangeiros que têm bens em dólar observam o orçamento anual dos Estados Unidos e o déficit comercial do país, observam a economia que afunda, observam a jogatina a descoberto de Wall Street, observam os planos de guerra da hegemonia delirante e concluem: “Tenho de ser cuidadoso para sair disso”.

Os bancos norte-americanos têm um forte interesse em preservar o status quo. Eles são donos de grandes quantidades de papéis do Tesouro e potencialmente serão maiores donos ainda. Os bancos podem emprestar do BC dos Estados Unidos a taxa de juros zero e com esse dinheiro compram papéis do Tesouro, de vencimento em 10 anos, que pagam juros de 2%. Ou seja, os bancos têm lucro nominal de 2% para usar contra eventuais perdas em derivativos. Os bancos podem emprestar dinheiro do BC de graça e usá-lo como garantia para suas transações em derivativos. Como diz Nomi Prins, os bancos não se livram dos papéis do Tesouro porque isso seria jogar contra seus próprios interesses e sua fonte de financiamento grátis. Além disso, no caso de uma fuga estrangeira dos dólares, o BC dos Estados Unidos poderia aumentar a demanda estrangeira por dólares exigindo que bancos estrangeiros que operam nos Estados Unidos aumentassem suas reservas, que são denominadas em dólar norte-americano.

Eu poderia prosseguir, mas acho que é o suficiente para demonstrar que mesmo os atores envolvidos no processo, que poderiam acabar com ele, têm muito a ganhar não balançando o barco. Preferem, silenciosa e lentamente, sair do dólar, antes que a crise bata. Isso não é possível indefinidamente, já que o processo gradual de saída do dólar resultará em quedas contínuas dos bens denominados em dólar, que levarão a uma corrida em busca da porta de saída, mas o povo norte-americano não é o único povo delirante no mundo.

O lento processo de saída do dólar pode derrubar a casa norte-americana. Os BRICs — Brasil, a maior economia da América do Sul; Rússia, a economia com armas nucleares e produção independente de energia, da qual a Europa ocidental (marionete de Washington) depende para energia; a Índia, que tem armas nucleares e é um dos dois gigantes da Ásia; a China, que tem armas nucleares, é o maior credor de Washington (depois do próprio BC dos Estados Unidos), fornece produtos manufaturados e de alta tecnologia e é o novo espantalho para justificar a próxima guerra fria lucrativa do complexo industrial-militar;  a África do Sul, maior economia da África — estão em processo de formação de um novo banco. O novo banco vai permitir a estas cinco grandes economias conduzir comércio entre si sem usar os dólares norte-americanos.

Além disso, o Japão, marionete dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial, está próximo de fechar um acordo com a China pelo qual o iene japonês e o yuan chinês serão trocados diretamente. O comércio entre os dois países asiáticos será conduzido em suas próprias moedas, sem o uso do dólar. Isso reduz o custo do comércio entre os dois países, ao eliminar o pagamento de comissões na conversão dos ienes e dos yuans em dólares e de volta em ienes e yuans.

A explicação oficial para este novo relacionamento direto, que evita o uso do dólar norte-americano, é conversa de diplomata. Os japoneses esperam, como os chineses, sair da prática de acumular cada vez mais dólares estacionando o dinheiro dos superávits comerciais em papéis do Tesouro dos Estados Unidos. O governo marionete do Japão espera que Washington não exija o cancelamento do acordo com a China.

Agora chegamos aos detalhes. A pequena porcentagem de norte-americanos que está informada sobre o que está acontecendo fica em dúvida sobre o motivo pelo qual os banqueiros escaparam de seus crimes financeiros sem serem processados. A resposta pode ser que os bancos “muito grandes para falir” são adjuntos de Washington e do Banco Central dos Estados Unidos na manutenção da estabilidade do dólar e do mercado de papéis do Tesouro, diante da política insustentável que acabamos de explicar.

Primeiro vamos dar um olhada em como os grandes bancos podem manter a taxa de juros dos papéis do Tesouro baixas, menores que a inflação, apesar do constante aumento da relação dívida/PIB dos Estados Unidos —  preservando assim a capacidade do Tesouro de sustentar a dívida.

Os bancos muito grandes para falir têm um enorme interesse em manter a taxa de juros baixa e no sucesso das políticas do Fed [Banco Central]. Os grandes bancos estão em posição de garantir o sucesso da política do BC. O JPMorganChase e outros bancos gigantes podem derrubar a taxa de juros dos papéis do Tesouro e, com isso, forçar alta no mercado de ações, ao vender Interest Rate Swaps (IRSwaps), swaps de taxa de juros.
Uma companhia financeira que vende IRSwaps promete pagar taxa de juros flutuante em papéis com taxa de juros fixa. O comprador está comprando um acordo que requer dele pagar uma taxa de juros fixa em troca de receber uma taxa de juros flutuante.

A razão para o vendedor do IRSwap fazer o negócio é sua crença de que a taxa de juros vai cair. A própria venda faz a taxa cair, provocando aumento no preço dos papéis do Tesouro. Quando isso acontece, como demonstram os gráficos aqui, há uma recuperação no mercado de papéis do Tesouro que a mídia financeira prostituta atribui a “fuga em direção ao porto seguro do dólar e dos papéis do Tesouro”. Na verdade, há indícios de que os swaps são vendidos por Wall Street sempre que o Banco Central precisa evitar o aumento da taxa de juros para proteger sua política insustentável. A venda de swaps cria a impressão de uma fuga em direção ao dólar, mas nenhuma fuga acontece. Como os IRSwaps não exigem troca de valores ou bens reais, são apenas uma aposta nos movimentos da taxa de juros, não há limite no volume de venda de IRSwaps.

Este aparente conluio sugere a alguns observadores que a razão pela qual os banqueiros de Wall Street não foram processados por seus crimes é que eles são parte essencial da política do Banco Central de preservar o dólar norte-americano como moeda mundial. Provavelmente o conluio entre o BC e os bancos é organizado, mas não tem necessariamente de ser. Os bancos são beneficiários da política de juros zero do BC. É do interesse dos bancos apoiá-la. Um conluio organizado não é necessário.

Vamos agora tratar do ouro e da prata. Baseado em análises confiáveis, Gerald Celente e outros analistas previram que o preço do ouro seria de 2 mil dólares por onça no fim do ano passado. Ouro e prata continuaram durante 2011 sua alta de dez anos de duração, mas em 2012 o preço do ouro e da prata foram derrubados, com o ouro caindo 350 dólares de seu valor recorde, de U$ 1.900 por onça.

Em vista da análise que apresentei, qual é a explicação para esta reversão? A resposta mais uma vez é a aposta na queda dos preços. Gente que tem conhecimento do setor financeiro acredita que o BC (e talvez também o Banco Central Europeu) faz vendas a descoberto através de bancos de investimento, garantindo quaisquer perdas com o apertar de uma tecla de computador, já que bancos centrais podem criar dinheiro do ar.

Gente de dentro me informa que uma pequena porcentagem dos que compram querem a entrega física do ouro ou da prata, mas se contentam depois com acordos financeiros. Não há limite para a venda de opções de ouro ou prata. Estas vendas podem exceder o valor total da quantidade conhecida de ouro ou prata.

Gente que tem acompanhado o processo por anos acredita que a venda dirigida pelo governo de opções de compra de ouro ou prata acontece faz muito tempo. Mesmo sem participação do governo, os bancos podem controlar o volume das negociações de papel lastreado em ouro e lucrar com as oscilações decorrentes. As vendas recentes tem sido tão agressivas que não apenas reduzem a alta de preços dos metais, mas provocam sua queda. Essa agressividade é sinal de que o sistema está prestes a dissolver?

Em outras palavras, “nosso governo”, que alegadamente nos representa, em vez dos poderosos interesses privados que elegem “nosso governo”, com suas contribuições multimilionárias de campanha, agora legitimado pela Suprema Corte republicana, está fazendo o possível para nos privar — meros cidadãos, escravos, trabalhadores escravos e “extremistas domésticos” — do direito de proteger nossa riqueza da política de deboche da moeda praticada pelo Banco Central. Vendas a descoberto [naked short-selling] evitam que aumento da demanda por barras físicas de ouro ou prata aumentem o preço dos metais.

Jeff Nielson explica outra forma pela qual os bancos fazem vendas a descoberto de ouro e prata, ainda que não os possuam fisicamente. Nielson diz que o [banco] JPMorgan é curador do maior fundo de prata existente e é também o maior vendedor de prata a descoberto. Sempre que o fundo aumenta sua reserva de barras de prata, o JP Morgan vende uma quantidade igual a descoberto. As vendas compensam o aumento que resultaria de maior demanda física pela prata. Nielson também diz que os preços de metais podem ser contidos com o aumento das garantias exigidas dos interessados em comprar ouro ou prata. A conclusão é de que os mercados de ouro e prata podem ser manipulados tanto quanto os mercados de papéis do Tesouro e de taxas de juros.
Por quanto tempo podem continuar as manipulações? Quando a proverbial m…. vai atingir o ventilador?
Se soubessemos a data precisa, seriamos os próximos megabilionários.

Seguem alguns catalisadores que podem detonar o fogo que consumirá o mercado de papéis do Tesouro e o dólar norte-americano:

1. Uma guerra, exigida pelo governo israelense, contra o Irã, começando na Síria, que interrompa o fluxo de petróleo e, portanto, afete a estabilidade das economias ocidentais ou que leve os Estados Unidos e suas marionetes da OTAN a um conflito armado com a Rússia ou a China. O aumento nos preços do petróleo degradaria ainda mais as economias dos Estados Unidos e da União Europeia, mas Wall Street ganharia direito nas vendas de petróleo.

2. Uma estatística desfavorável que acorde os investidores para o estado da economia dos Estados Unidos, uma estatística que a mídia prostituta não consiga esconder.

3. Um confronto com a China, que leve o governo chinês a decidir que derrubar os Estados Unidos para um status de terceiro mundo valha um trilhão de dólares.

4. Outros erros no mercado de derivativos, como o recente do JPMorganChase, que derrube de novo o sistema financeiro dos Estados Unidos e nos relembre que nada mudou.

A lista é longa. Existe um limite para o número de erros estúpidos e políticas financeiras corruptas que o restante do mundo está disposto a aceitar dos Estados Unidos. Quando aquele limite for atingido, acabou para o “único superpoder do mundo” e para os donos de bens denominados em dólar.

A desregulamentação financeira converteu o sistema financeiro, que no passado serviu a empresas e consumidores, num cassino cujas apostas não estão cobertas. Estas apostas descobertas, juntamente com a política de juros zero do Banco Central, expuseram o padrão de vida e a riqueza dos norte-americanos a grande declínio. Aposentados que dependem de sua poupança e investimento não ganham nada e são forçados a consumir seu capital, com isso acabando com o capital dos herdeiros. A riqueza acumulada é consumida.

Como resultado da transferência de empregos para o exterior, os Estados Unidos se tornaram um país dependente de importações, de bens manufaturados, roupas e sapatos estrangeiros. Quando a taxa de câmbio do dólar cai, os preços nos Estados Unidos sobem e o consumo nos Estados Unidos sofre. Os norte-americanos vão consumir menos e seu padrão de vida vai cair dramaticamente.

As sérias consequências dos enormes erros cometidos em Washington, em Wall Street e nos escritórios das corporações estão sendo enfrentados como uma política insustentável de taxa de juros baixa e por uma imprensa financeira corrupta, enquanto a dívida se acumula. O Banco Central já passou por esta experiência antes. Durante a Segunda Guerra Mundial o Fed manteve as taxas de juros baixas para ajudar o Tesouro a financiar a guerra, reduzindo assim os juros pagos na dívida acumulada no esforço de guerra. O BC manteve os juros baixos comprando papéis da dívida. A inflação resultante, no pós-guerra, levou ao Acordo BC-Tesouro de 1951, pelo qual o Banco Central deixou de monetizar a dívida e permitiu o aumento das taxas de juros.

O presidente do Fed, Bernanke, tem falado sobre um “estratégia de saída” e disse que quando a inflação ameaçar, ele poderá evitá-la tirando dinheiro do sistema bancário. No entanto, ele só pode fazer isso vendendo papéis do Tesouro, o que significa aumento na taxa de juros. Um aumento na taxa de juros ameaça a estrutura dos derivativos, causando perda no mercado de ações e aumento no custo das dívidas privada e pública. Em outras palavras, evitar a inflação causada pela monetização da dívida causaria problemas mais imediatos que a inflação. Em vez de provocar o colapso do sistema, o BC não escolheria inflacionar?

Eventualmente, a inflação erodiria o poder de compra do dólar, o uso dele como moeda de reserva mundial e a nota do crédito do governo dos Estados Unidos seria rebaixada. No entanto, o Fed, os políticos e os gângsters financeiros prefeririam uma crise mais tarde, em vez de uma crise agora. Entregar um navio que afunda para a próxima geração é melhor que afundar com ele. Enquanto os swaps de taxa de juros puderem ser usados para impulsionar os preços dos papéis do Tesouro e enquanto as vendas a descoberto de ouro e prata puderem ser usadas para evitar o aumento no preço dos metais, a imagem falsa dos Estados Unidos como porto seguro para os investidores pode ser perpetuada.

No entanto, os 230 trilhões de dólares [U$ 230.000.000.000.000 - no original] em apostas em derivativos feitas por bancos norte-americanos podem trazer suas próprias surpresas. O JPMorganChase foi obrigado a admitir que sua perda recente de 2 bilhões de dólares em derivativos foi maior que isso. Quanto mais, ainda não sabemos. De acordo com o Controlador da Moeda, os cinco maiores bancos dos Estados Unidos emitiram 97,7% de todos os derivativos. Os cinco bancos que emitiram 226 trilhões em derivativos são jogadores comprometidos. Por exemplo, o JPMorganChase tem um total de U$ 1,8 trilhão de bens em carteira, mas U$ 70 trilhões em apostas em derivativos, uma relação de 39 dólares em apostas em derivativos para cada dólar na carteira. Tal banco não precisa perder muitas apostas até sucumbir.

Bens, naturalmente, não são capital sem risco. De acordo com o relatório do Controlador da Moeda, em 31 de dezembro de 2011 o JPMorgamChase tinha U$ 70,2 trilhões em derivativos e apenas U$ 136 bilhões em capital. Em outras palavras, as apostas do banco em derivativos são 516 vezes maiores que o capital que cobre aquelas apostas.

É difícil imaginar uma posição mais irresponsável e instável para um banco, mas o Goldman Sachs é o campeão. Com apostas de U$ 44 trilhões em derivativos, o banco tem apenas U$ 19 bilhões em capital, resultando em apostas 2.295 vezes maiores que o capital do banco para cobrí-las.

Apostas na taxa de juros representam 81% de todos os derivativos. São estes derivativos que sustentam os altos preços dos papéis do Tesouro, apesar dos massivos aumentos da dívida dos Estados Unidos e de sua monetização.

As apostas em derivativos dos bancos dos Estados Unidos, de U$ 230 trilhões, concentradas em cinco bancos, são 15,3 vezes maiores que o PIB dos Estados Unidos. Um sistema político falido que permite a bancos desregulamentados fazer apostas 15 vezes maiores que a economia dos Estados Unidos é um sistema destinado a fracasso catastrófico. Quando se espalhar a informação sobre esta fantástica falta de responsabilidade dos sistemas político e financeiro dos Estados Unidos, a catástrofe vai se tornar realidade.

Todos querem uma solução, então vou sugerir uma. O governo dos Estados Unidos deveria simplesmente cancelar os U$ 230 trilhões em apostas em derivativos, declarando-as nulas. Como bens reais não estão envolvidos, apenas a jogatina em valores, o único grande efeito de cancelar todos os swaps seria tirar U$ 230 trilhões de risco do sistema financeiro. Os gângsters financeiros que querem continuar a lucrar enquanto o público subscreve suas perdas iriam gritar e protestar alegando a santidade dos contratos. No entanto, um governo que pode matar seus próprios cidadãos ou jogá-los na masmorra sem processo legal pode perfeitamente abolir todos os contratos que quiser em nome da segurança nacional. E, com certeza, ao contrário da guerra contra o terror, purgar o sistema financeiro da jogatina dos derivativos melhoraria muito a segurança nacional.

terça-feira, 26 de junho de 2012

EUA, Agrobiz e o Paraguai - como tudo isso se mistura



Luiz Carlos Azenha no Viomundo

A reação de Washington ao golpe “democrático”  no Paraguai será, como sempre, ambígua. Descartada a hipótese de que os estadunidenses agiram para fomentar o golpe — o que, em se tratando de América Latina, nunca pode ser descartado –, o Departamento de Estado vai nadar com a corrente, esperando com isso obter favores do atual governo de fato.

Não é pouco o que Washington pode obter: um parceiro dentro do Mercosul, o bloco econômico que se fortaleceu com o enterro da ALCA — a Área de Livre Comércio das Américas, de inspiração neoliberal. O Paraguai é o responsável pelo congelamento do ingresso da Venezuela no Mercosul, ingresso que não interessa a Washington e que interessa ao Brasil, especialmente aos estados brasileiros que têm aprofundado o comércio com os venezuelanos, no Norte e no Nordeste.

Hugo Chávez controla as maiores reservas mundiais de petróleo, maiores inclusive que as da Arábia Saudita. O petróleo pesado da faixa do Orinoco, cuja exploração antes era economicamente inviável, passa a valer a pena com o desenvolvimento de novas tecnologias e a crescente escassez de outras fontes. É uma das maiores reservas remanescentes, capaz de dar sobrevida ao mundo tocado a combustíveis fósseis.

Washington também pode obter condições mais favoráveis para a expansão do agronegócio no Chaco, o grande vazio do Paraguai. Uma das preocupações das empresas que atuam no agronegócio — da Monsanto à Cargill, da Bunge à Basf — é a famosa “segurança jurídica”. Ou seja, elas querem a garantia de que seus investimentos não correm risco. É óbvio que Fernando Lugo, a esquerda e os sem terra do Paraguai oferecem risco a essa associação entre o agronegócio e o capital internacional, num momento em que ela se aprofunda.

Não é por acaso que os ruralistas brasileiros, atuando no Congresso, pretendem facilitar a compra de terra por estrangeiros no Brasil. Numa recente visita ao Pará, testemunhei a estreita relação entre uma ONG estadunidense e os latifundiários locais, com o objetivo de eliminar o passivo ambiental dos proprietários de terras e, presumo,  facilitar futura associação com o capital externo.

Finalmente — e não menos importante –, o Paraguai tem uma base militar “dormente”  em Mariscal Estigarribia, no Chaco. Estive lá fazendo uma reportagem para a CartaCapital, em 2008.  É um imenso aeroporto, construído pelo ditador Alfredo Stroessner, que à moda dos militares brasileiros queria ocupar o vazio geográfico do país. O Chaco paraguaio, para quem não sabe, foi conquistado em guerra contra a Bolívia. Há imensas porções de terra no Chaco prontas para serem incorporadas à produção de commodities.

O aeroporto tem uma gigantesca pista de pouso de concreto, bem no coração da América Latina. Com a desmobilização da base estadunidense em Manta, no Equador, o aeroporto cairia como uma luva como base dos Estados Unidos. Não mais no sentido tradicional de base, com a custosa — política e economicamente custosa — presença de soldados e aviões. Mas como ponto de apoio e reabastecimento para o deslocamento das forças especiais, o que faz parte da nova estratégia do Pentágono. O renascimento da Quarta Frota, responsável pelo Atlântico Sul, veio no mesmo pacote estratégico.

É o neocolonialismo, agora faminto pelo controle direto ou indireto das riquezas do século 21: petróleo, terras, água doce, biodiversidade.

Um Paraguai alinhado a Washington, portanto, traz grandes vantagens potenciais a interesses políticos, econômicos, diplomáticos e militares estadunidenses.

sábado, 23 de junho de 2012

Paraguai - Foi golpe sim!...


por Luis Nassif,  em seu blog

O presidente do Paraguai foi alvo de um golpe de Estado, assim como Fernando Collor, do Brasil e Andrés Perez, da Venezuela.
Esse padrão de golpe é histórico mas se aprofundou com a redemocratização latino-americana e com os ecos de Watergate.
Consiste no seguinte:
1. São eleitos presidentes sem base política no Congresso. O Congresso não pode derrubar simplesmente o presidente eleito.
2. Aguarda-se então um fato qualquer, que possa deflagrar uma catarse na opinião pública.
3. Em cima do fato, a mídia dispara campanhas amplificando e dramatizando.
4. Criado o clima de comoção popular, o Congresso se vê com legitimidade para decretar o impeachment. Embora Collor não fosse uma Madre Tereza de Calcutá - como não o foram FHC e Lula -, o motivo invocado para sua queda foi ridículo: o tal Fiat Elba. Não fosse esse, invocar-se-ia qualquer outro.
Essa  "metodologia" de golpe foi exercitada  contra presidentes de "direita", como Collor e Perez, ou de "esquerda", como Lugo cou Chávez. Mas é sinal, também, da dificuldade do continente em consolidar sua democracia e das midias nacionais em respeitar as instituições.
Aliás, o correto, em processos de impeachment, seria a dissolução do Congresso simultaneamente à destituição do Presidente, zerando o jogo.
PS - O fato de provavelmente Lugo ser um desastre administrativo não muda em nada a natureza do golpe.


NOTAS ÍNDIAS


1. Abc notícias: "Papa envia desejo de paz e concórdia para o Paraguai". E nem uma ave-maria para o ex-padre Fernando Lugo?


2. EUA foram o primeiro país a reconhecer o novo governo.


Porque hoje é sábado!... Led Zeppelin



Dois clássicos dos menisnos do Lead Zepp, gravados em agosto de 1994, para o lendário show Unplugged da MTV, com a participação da Sinfônica de Londres e músicos marroquinos.

Kashmir




The Rain Song



Anonymous ataca web de Presidencia del Paraguay


El grupo Anonymous atacó la página de la Presidencia de la República, donde al ingresar aparece una publicación del sitio argentino Infobae con un titular categórico: "Federico Franco no podrá gobernar".



Captura de pantalla de la web de Presidencia hackeada por Anonymous.

Los hackers hicieron de las suyas en medio de la conmoción en Paraguay por el cambio de gobierno. Al acceder ahttp://presidencia.gov.py, aparece un artículo de Infobae donde el politólogo italiano Marcello Lachi afirma que el nuevo presidente paraguayo no podrá gobernar.

El material original del diario argentino online completo puede leerse en este enlace.

Anonymous viene realizando ataques sistemáticos a los portales oficiales. El más reciente fue contra el Parlamento , revelando las contraseñas de los emails de los legisladores. A comienzos de esta semana también atacaron la página del Banco Central del Paraguay.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rio+20: Rascunho Zero, nota?... Zero!...



por Francisco Carlos Teixeira, na Carta Maior


O Rio (de Janeiro) está em festa! Claro que os moradores comuns, aqueles que vão ao trabalho, que usam os aeroportos, que pegam táxis e trafegam pelas linhas de acesso ao centro da cidade não estão contentes. 

Engarrafamentos, passeatas que fecham avenidas, lotação de voos e outros dissabores estão no pacote. O humor carioca já apelidou a Conferência de Rio+20 "minutos" – margem mínima de atrasos... Mas, em compensação, as ruas estão cheias de gente alegre, colorida, diferentes e muito curiosos sobretudo, como as belas moças, de peito nu, dos “Tambores de Safo”. Os hotéis estão lotados, pousadas e mesmo moradias abrigam o pessoal dos movimentos sociais. Nas ruas manifestam-se mulheres, índios, gays, camponeses, sem-tetos e, claro, funcionários públicos em greve.

Em fim, a cidade cumpre seu papel de cidade de acolhimento, cosmopolita e amigável com todas as tribos.

A irritação, e mesmo certa decepção, ficou por conta das reuniões preparatórias do Documento Base a ser discutido e assinado pelos representantes aqui presentes. O chamado Documento Zero, inicialmente realista, apontando para as graves necessidades de alimentos, energia e água da humanidade até 2030 – em termos de história isso quer dizer “amanhã pela manhã” – não foram contemplados com a gravidade imposta pela realidade. A direção da diplomacia brasileira – anfitriã a quem cabia dirigir os trabalhos – foi fraca e muito mais interessada em “costurar” consensos superficiais do que aprofundar decisões.


Ao contrário de Copenhague em 2009, quando em face de uma tentativa dos Estados Unidos e da China Popular em esvaziar o processo de tomada de decisões, o Brasil e a França (representando a União Europeia) fizeram esforços e tomaram decisões autônomas, a diplomacia brasileira no Rio este ano optou por eliminar os pontos mais difíceis, transformou metas objetivas em promessas para o futuro e transferiu para 2015 as decisões que (com atraso) já deviam ter sido decididas. Por fim, abandonou a parceria com a França como país líder no desenvolvimento sustentável.

A Rio+20 tornou-se uma conferência criadora de uma mapa, de uma “folha de rota”, mas não uma conferência decisiva.

Uma agenda internacional confusa
O momento de reunião da Rio+20 é, em seu conjunto, é muito ruim. A crise econômica mundial – choque brutal sobre a Zona do Euro, fragilidade da economia americana, paralisia do Japão e desaceleração dos países emergentes – é, sem dúvida, um quadro de pessimismo, com a maioria dos países lutando por emprego e crescimento da renda. Além disso, o calendário diplomático mundial foi mal pensado. Com as eleições nos Estados Unidos e na Europa – exceção valorosa para François Hollande – a maioria dos chefes de estado não estão disponíveis para uma agenda tão longa na Rio e, muito menos, para promessas de encarecimento da produção e do consumo através da limitação da “economia fóssil”. 

Para piorar a situação, a reunião do G-20 no México, ficou colada na Rio+20, fazendo com que muitos chefes de estado não pudessem ficar fora de seus países tanto tempo. E, incluímos aí, o ministro do exterior do Brasil, que ausente, não pode tomar as iniciativas necessárias, deixando as decisões sobre o Rascunho Zero nas mãos dos diplomatas formados na “escola do consenso”.

Tudo isso era previsível. Tudo isso era agenda aguardada. Houve imprevisão.

As decisões não tomadas
Para conseguir tal consenso a diplomacia mundial, e em especial a brasileira, aceitou a limitação castratadora do Documento Base. Pontos fundamentais foram afastados, in limine, das decisões em pauta, a saber:

i. A transformação do PNUMA (Programa das Nações Unidas para Meio-Ambiente, criado em 1972) numa agencia mundial, com poderes normativos e reguladores;

ii. Total silêncio sobre a proposta de criação de um imposto sobre as transações financeiras mundiais (o “hot Money”) para financiar a nova “economia verde”;

iii. O estabelecimento de metas objetivas, gerais, com clara distribuição entre os países, capazes de serem verificadas, de imediato.

Ao abrir mão de tais questões, num debate diplomático baseado, de forma equivocada, na ideia de que pouco é melhor do que nada, a Rio+20 esvaziou suas principiais expectativas.

A diplomacia brasileira perdeu uma chance única para surgir como um polo inovador e ousado, comportando-se de forma tradicional e como se o tema tivesse que ser tratado como uma das muitas crises retóricas existentes no âmbito da ONU.

O Secretário-geral a ONU, Bam Ki-moon, normalmente invisível, foi, em seu discurso de abertura, inciso e não deixou de demonstrar sua decepção, e o presidente François Hollande, foi, por sua vez, claramente ousado e propondo metas e ações imediatas, são as exceções, até o momento, no pavilhão de conferencias do Riocentro. Infelizmente o Brasil ficou na retaguarda da luta pela sustentabilidade.

Esperemos que nos próximos dias, quiçá horas, o Itamaraty acorde para o imenso dano que pode representar uma Rio+20 fraca e sem objetivos claros.


Comentário de aborígene


A conclusão do autor é semelhante ao confuso arrazoado da urubóloga da Globosta Miriam Leitão, que tratamos aqui no blog há uns dois posts atras, mas quaaanta diferença...


Rafael Correa - entrevista







Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra de conspiração, de desestabilização e desgaste





entrevista concedida à Carta Maior (Brasil), La Jornada (México) e Pagina 12 (Argentina)


Representante de uma nova geração de líderes políticos da esquerda latinoamericana, o presidente do Equador, Rafael Correa, foi lançado para a linha de frente do cenário político mundial com o pedido de asilo político feito, em Londres, pelo fundador do Wikileaks, Julian Assange. Há poucas semanas, Assange entrevistou Correa e os dois conversaram, entre coisas, sobre um tema de interesse de ambos: as operações de manipulação conduzidas pelas grandes corporações midiáticas. Agora, durante sua passagem pela Rio+20, Rafael Correa voltou com força ao tema. 

Em uma entrevista especial concedida à Carta Maior e aos jornais Página/12, da Argentina, e La Jornada, do México, analisa este que considera ser um dos principais problemas do mundo hoje: o poder das grandes corporações de mídia que, na América Latina, agem como um verdadeiro partido político contra governos que não rezam pela cartilha desses grupos. “Essa é a luta, não há luta maior. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra, de conspiração, desestabilização e desgaste”.

Na entrevista, Correa fala sobre o pedido de asilo de Assange, relata o debate sobre uma nova lei de comunicações no Equador e faz um balanço pessimista sobre os resultados da Rio+20.

Há um argumento segundo o qual a liberdade de imprensa é propriedade dos meios de comunicação empresariais. Imagino que essa não seja a sua opinião.

Correa: Não nos enganemos. Desde que se inventou a impressora a liberdade de imprensa, entre aspas, responde à vontade, ao capricho e à má fé do dono da impressora. Devemos lutar para inaugurar a verdadeira liberdade de imprensa que é parte de um conceito maior e um direito de todos os cidadãos, que é a liberdade de expressão, que defendemos radicalmente. No entanto, o poder midiático que faz negócios com o objetivo de ter lucro, até isso quer privatizar. Então, se eles têm tanta vocação para comunicar, como dizem, que o façam sem finalidades lucrativas, porque para mim isso é uma contradição.

Este é um grande problema na América Latina e também em nível planetário. Tenho tomado conhecimento que existem posições semelhantes às nossas, mas houve um tempo em que nos sentíamos muito sozinhos, quando fomos vítimas de um ataque tremendo por não abaixar a cabeça diante de um negócio muitas vezes corrupto e encoberto sob a capa da liberdade de expressão. Essa é a luta, não há luta maior.

Presidente, nestes dias foram divulgados telegramas pelo Wikileaks onde apareceram jornalistas equatorianos que eram considerados informantes pela embaixada dos Estados Unidos. Isso confirma as hipóteses levantadas quando você foi vítima de um golpe de Estado.

Correa: As mentiras deles sempre acabam sendo derrubadas. Entidades que financiam esses empórios midiáticos, certas organizações que, em nome da sociedade civil, nos denunciam ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a SIP, ante todos os lados. Agora vemos que esses senhores são identificados via Wikileaks como informantes da embaixada (estadunidense). Wikileaks que nunca é publicado pela maioria da imprensa comercial. Não é só isso. Essa gente é financiada pela USAID, que vocês conhecem. A USAID financiou com 4,5 milhões de dólares a estes supostos defensores da liberdade de expressão, supostamente para fortalecer a democracia e a ação cívica. Na verdade, para fortalecer a oposição aos governos progressistas da América Latina e os povos da região tem que reagir contra esse tipo de prática.

Independentemente da solicitação do senhor Assange – ele solicitou asilo político -, ele disse que quer vir para o Equador para seguir cumprindo sua missão em defesa da liberdade de expressão sem limites, porque o Equador é um território de paz comprometido com a justiça e a verdade. Isso que o senhor Assange disse é mais próximo da realidade do Equador do que as porcarias que o poder midiático publica todos os dias.

Sabemos que o senhor ainda não tomou uma decisão sobre a situação que está atravessando alguém que revelou informações secretas sobre conspirações dos Estados Unidos e está pagando com a prisão por ter trabalhado pela liberdade de imprensa.

Correa: Se, no Equador, alguém tivesse passado a centésima parte do que passou Assange, nós seríamos chamados de ditadores e repressores, mas como o que Assange divulgou afeta as grandes potências e isso evidencia uma moral dupla e como os Estados nos tratam por meio de suas embaixadas, então é preciso aplicar todo o peso da lei contra Assange. E o chamam de violador.

Eu não quero antecipar minha decisão. Recebemos o pedido de asilo, analisaremos as causas desse pedido e tomaremos uma decisão quando for pertinente. Ele está em nossa em nossa embaixada em Londres sob a proteção do Estado equatoriano.

É claro que há aqui uma dupla moral, uma para os poderosos e outra para os débeis, uma para os que querem manter o status quo e para sua imprensa, e outra para os governos que querem mudar esse status quo e para a imprensa alternativa. Todos os dias há julgamentos em países desenvolvidos contra jornais. Neste caso não há problema, porque isso é civilização, mas, processar em nosso país um jornal ou um jornalista é qualificado como barbárie. E não é verdade que nós criminalizamos a opinião, pois em nosso país todos os dias publicam tudo, todos os dias publicam que há falta de liberdade de expressão. Qualquer um pode dizer que o governo é bom ou mau, que é competente ou incompetente. Mas o que não pode se dizer em um meio de comunicação é que o presidente, ou qualquer cidadão, é um criminoso de lesa humanidade e que ele disparou sem aviso prévio contra um hospital, porque isso é difamação, isso é delito em qualquer país.

O caso Assange pode dar origem a uma tensão diplomática entre Equador e Grã-Bretanha?

Correa: Isso é a última coisa que queremos, mas nós não vamos pedir permissão a nenhum país para tomar decisões soberanas. O Equador não tem mais alma de colônia nem alma de vassalo. Se dar asilo, refúgio ou residência a fugitivos da justiça provocasse deterioração, a relação da América Latina com os Estados Unidos estaria deterioradíssima. Porque, provavelmente, Argentina, Brasil, México e outros países não devem estar de acordo que qualquer fugitivo que viole a justiça. Esse não é o caso do senhor Assange, mas sim de corruptos como os banqueiros que quebraram o Equador em 99 e fugiram para os Estados Unidos, onde gozam hoje de uma vida bastante cômoda.

Vocês têm um Murdoch no Equador?

Correa: No Equador, temos seis famílias que representam heranças familiares, não é propriedade democrática, um capitalismo popular onde há 10 mil acionistas em um empório. Os meios de comunicação no Equador são manejados por meia dúzia de famílias, que decidem o que os equatorianos devem saber e conhecer. Vocês se dão conta da vulnerabilidade que temos como sociedade? A informação depende dos interesses e dos caprichos de meia dúzia de famílias. Mas se um governo soberano e digno não as chama para consultar sobre o nome dos ministros ou sobre a indicação de embaixadores, como ocorria antes, vão com tudo para cima desse governo porque ele não se submete aos seus caprichos. É um problema mundial, mas em outros países é atenuado com participação, profissionalismo muito profundo, uma ética muito forte, tudo o que brilha por sua ausência aqui no Equador.

Presidente, um funcionário da Usaid acaba de dizer que eles estão ajudando as oposições a estes governos.

Correa: Franqueza anglo-saxã.

Impunidade?

Correa: Impunidade e arrogância. 

Essa ideia nos fala de um tempo da informação como arma de guerra e a América Latina sofre uma verdadeira invasão dessas fundações como a USAID, a NED, o IRI. Isso não torna muito perigosa a nossa situação? A presença das ONGs destas fundações não é perigosa para o Equador?

Correa: Oxalá consigamos despertar os povos latino-americanos para essa situação. As direitas, os grupos de poder, sabem que nas urnas não conseguirão nos derrotar. Daí as campanhas contínuas de desgastes, de propaganda, de difamação, de enfraquecimento e desestabilização. Nós vivemos isso desde os primeiros dias de governo. Desde o primeiro dia de governo. O mesmo ocorre na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e em todos os governos progressistas da região. Sofremos as campanhas desses meios que são a vanguarda do capitalismo, do status quo dos partidos tradicionais de direita que se afundaram por seus próprios erros, para difamar, para distorcer a verdade com a cumplicidade de veículos da mídia internacional.

Essa é a contradição de que fala Ignacio Ramonet. Na Europa hoje há desemprego, estagnação, resgate de milionários, resgate de bancos e não de cidadãos, e os jornais dizem que isso é necessário, que é sério, técnico e correto. Que as pessoas morram de fome, precisamos salvar o capital! Enquanto isso, em países como o Equador, que é um dos que mais crescem na América Latina, que reduziu a pobreza, gerou mais emprego, tem a taxa de desemprego mais baixa da região e da história, todos os dias nos dizem que isso é populismo e demagogia, que é preciso mudar de governo. 

Estamos ante uma campanha propagandística para defender os poderes fáticos que sempre dominaram nossos países. A direita perdeu as eleições nos Estados Unidos e agora chegam essas organizações para financiar esses grupos na América Latina. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra, de conspiração, desestabilização e desgaste.

Por isso pergunto sobre o tema da informação como arma de guerra, como a arma letal antes do primeiro disparo.

Correa: Estou convencido disso. Alguns ainda imaginam a imprensa, sobretudo na América Latina, como o quarto poder nascente, que floresceu quando chegaram as democracias, quando ocorreram avanços técnicos e se multiplicaram as publicações, quando se avançou na alfabetização e as grandes massas passaram a poder ler. Esse poder impediria que o poder político, o poder do Estado, ultrapasse certos limites. Assim chegou a desinformação. Lembremos, por exemplo, do affair Dreyfus na França, quando por racismo e xenofobia se acusou um capitão judeu, como denunciou Emile Zola em seu famoso editorial “Eu acuso”. Essa imprensa limitava os excessos do poder político, mas esse vigoroso e ingênuo cachorrinho, bem intencionado, que lutava pelos interesses dos cidadãos, converteu-se de repente em um mastim feroz, com um poder ilimitado, raivoso, que não só tenta encurralar o Estado como também os próprios cidadãos. 

O poder midiático na América Latina, como ocorre no Equador, é frequentemente superior ao poder político. Precisamos tirar certos estereótipos de cena ou do ambiente de certa burocracia internacional como alma de ONG, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos que fala de pobrezinhos jornalistas e de malvados políticos. Isso não é certo. Os políticos são, muitas vezes, patrióticos. A antipatia que certos jornalistas alimentam, desfiando seus ódios e amarguras, acaba fazendo com que se metam inclusive em questões pessoais, com a família, etc. Então, vejamos a realidade. Trata-se de tabus e nos ensinaram a ter medo de criticar esses negócios, como se, criticando-os, estaríamos criticando a liberdade de expressão. Esses são os negócios da má imprensa.

Presidente, viremos a página e passemos à crise

Correa – É que esse tema (da mídia) me apaixona. É um tema acadêmico que me apaixona, ao qual dedicarei meu tempo quando sair da presidência. Pretendo me dedicar a ele, investigar e escrever porque se trata de um problema gravíssimo, porque estamos nas mãos de um poder midiático que superou inclusive o poder financeiro e político, e domina o mundo.

Você resumiu ontem em uma palavra o documento final da Rio+20, classificando-o como “lírico”...

Correa – É assim. Não há compromisso concreto. Podem verificar. Onde há um compromisso em cifras, por exemplo, com o limite de emissões de gases, compensações, acordos, acordos vinculantes como seria uma declaração de direitos da natureza em um tribunal internacional do meio ambiente, como propôs o Equador. Não há nada disso. Fala-se de cuidar melhor do planeta, mas não há um compromisso concreto. O avanço é muito pequeno.

A que atribui a ausência dos Estados Unidos e da Alemanha? Elas podem ter contribuído para essa falta de compromissos concretos?

Correa – Vai mais além. O problema não é técnico. Todo mundo sabe qual é o problema, todo o mundo sabe quais são as respostas. O problema é político. Quem gera os bens ambientais e quem consome esses bens ambientais? Se os países ricos ou os países em desenvolvimento podem consumir gratuitamente um bem que outros geram por que é que vão se comprometer a compensar e cuidar. Não farão isso a não ser que esteja em perigo evidente sua própria existência ou seus próprios interesses. 

Então, o problema é político, é a relação de poder. Imagine que a situação fosse a inversa, que a Floresta Amazônica, por exemplo, estivesse nos Estados Unidos e que eles fossem geradores de bens ambientais e que nós dos países em desenvolvimento fôssemos os consumidores. Já teriam nos invadido em nome dos direitos humanos, da justiça, da liberdade, etc., para exigir compensações. Então, esse é um problema de poder. Enquanto não mudarem as relações de poder, muito pouco se irá avançar.

Considera então que o saldo provisório da Rio+20 é um fracasso?

Correa – Sim. Não se conseguiu avançar quase nada. Não há compromisso concreto, nada concreto. Nem sequer dinheiro. Houve uma reunião do G-20 no México e a maioria, 80% dos que estavam lá, regressaram para suas casas. Não vieram para a Rio+20. Não interessa. Apenas alguns poucos vieram para a Cúpula, sobretudo latino-americanos.

Houve também a Cúpula dos Povos, um encontro muito interessante.

Correa – Quisemos participar, mas não foi possível, estava muito longe. Infelizmente foi um problema de logística. Mas vamos ter um evento de direitos da natureza, paralelo à Cúpula, nos mesmos locais da Cúpula, para o qual convidamos 400 dirigentes de organizações sociais alternativas, progressistas de esquerda que buscam a justiça de nossa América e do mundo inteiro. O presidente Evo Morales também participará dessa conferência.


Mais temas dessa entrevista, aqui

Cidades inteligentes em cinco passos


Cezar Taurion, no Portal 2014

Os gestores de empresas e os governantes de países, estados e cidades poderiam pensar em uma sequência de etapas como:

1) Determinar os sistemas mais relevantes e os interrelacionamentos entre eles. Para cidades e governos isto significa identificar os sistemas mais problemáticos e que causam maior impacto, seja social, ambiental ou econômico na vida dos cidadãos. Para algumas cidades podem ser os congestionamentos. Para outras, a segurança pública. E para uma terceira, estes dois fatores e mais uma elevada taxa de desemprego. Já os CEOs devem identificar quais os sistemas que causam maior impacto na operação de suas empresas e quais os impactos que estas operações causam nos sistemas do planeta.

2) Quantificar as ineficiências. Cada sistema tem seu conjunto de KPIs (Key Perfomance Indicators) que podem ser usados para medir e visualizar as ineficiências. Alguns exemplos, ligados ao sistema de saúde, podem ser a taxa de mortalidade infantil, o crescimento dos gastos com saúde pública ano a ano, o número de médicos ou dentistas por 1.000 habitantes e assim por diante. 

3) Analisar as causas das ineficiências. Uma vez identificadas, é absolutamente essencial determinar as suas causas. É importante também determinar que stakeholders (governos, empresas, cidades) serão mais críticos na definição da solução.

4) Identificar e estimar os benefícios. As ineficiências sistêmicas envolvem múltiplos atores. Estes precisam ser motivados e o seu nível de contribuição está diretamente relacionado com os benefícios que obterão. Assim, uma estimativa dos benefícios a serem alcançados por cada ator envolvido tem que ser claramente quantificado.

5) Implementar a solução. A imensa maiora das soluções irá envolver mais de um ator. A solução só será completa se houver uma colaboração entre todos os envolvidos. A visão isolada e setorizada tem que dar lugar a uma visão mais holística e colaborativa. Um problema como a segurança pública, por exemplo, envolve diversos sistemas de uma cidade, e não apenas os seus responsáveis diretos. Mas, em todas as soluções a tecnologia tem que ser envolvida e inserida. Os interrelacionamentos têm que ser explicitados e as ineficiências entre eles eliminadas. Eventualmente a própria legislação e os comportamentos e posturas sociais têm que ser mudados, o que pode demandar ampla campanha de motivação.

Um exemplo de como atuar de forma integrada será nas cidades. As cidades, pela sua complexidade, representam um microcosmo do planeta, envolvendo em menor escala todos os problemas que afetam nossa sociedade global. Assim, uma cidade inteligente é um ponto de partida para um planeta mais inteligente.

O termo cidade inteligente (CI) tem vários significados. Podem ser encontradas na literatura várias descrições do que seja uma cidade inteligente, como um equivalente de cidade digital, cidade da informação, cidade conectada, telecidade, cidade baseada no conhecimento, comunidade eletrônica, espaço comunitário eletrônico etc.

Um outro significado foi dado pela World Foundation for Smart Communities (ou "Fundação Mundial de Comunidades Inteligentes", em tradução livre), que associa cidades digitais ao crescimento inteligente, um tipo de desenvolvimento baseado nas tecnologias da informação e da comunicação. "Comunidade Inteligente é aquela que fez um esforço consciente para usar a tecnologia da informação para transformar a vida e o trabalho dentro de seu território de forma significativa e fundamental, em vez de seguir uma forma incremental" (California Institute for Smart Communities, 2001). Esta é a definição que eu adoto.

Assim, o uso das potencialidades de instrumentação e interconexão que as tecnologias nos oferecem hoje será usada para criar um ambiente mais inteligente, onde os sistemas, processos e infraestrutura de uma cidade serão providos de mais inteligência, para oferecerem uma melhor qualidade de vida para seus habitantes.

À medida que as cidades crescem em população (em 2025 quase 2 bilhões de pessoas estarão morando em cidades com um milhão ou mais de habitantes) e importância econômica, elas se reposicionam no contexto da economia global, adquirindo mais e mais influência, não só econômica, mas também política. Em termos econômicos, se reposicionam como hubs de uma sociedade mais voltada a serviços. Entretanto, precisam melhorar de forma substancial sua infraestrutura para poderem desenolver este novo papel com proficiência.

Operacionalmente as cidades são constituídas por um conjunto de sistemas básicos que formam o cerne do seu funcionamento: são os sistemas de gestão ou serviços de coordenação dos diversos setores que compõem a administração urbana, os sistemas que atendem aos cidadãos (segurança pública, saúde e educação), o que atende ao transporte público, aos serviços de comunicação, fornecimento de água e energia e assim por diante.}

Estes sistemas, em sua imensa maioria, oferecem espaço para melhorias signficativas, sejam porque operam em cima de infraestruturas antigas ou porque o crescimento acelerado da urbanização excedeu a capacidade do sistema em prover os seus serviços de forma adequada. Mas, estas melhorias não serão alcançadas da forma usual. 

Não iremos melhorar de forma substancial o trânsito simplesmente abrindo mais ruas e avenidas, simplesmente porque as cidades não têm mais espaço para estas novas ruas. Precisamos é de uma nova forma de pensar e agir, embutindo novas tecnologias nestes sistemas básicos, criando uma cidade inteligente.

Uma cidade inteligente não surge de uma dia para outro, é uma jornada longa. É um processo revolucionário, não evolucionário, que demanda nova maneira de se fazer as coisas. Demanda um novo patamar de colaboração, não apenas entre os diversos setores de uma instância de governo, como a municipal, mas desta com os órgãos dos governos estadual e federal. E vai se defrontar com resistências às mudanças, a relutância em mudar o conhecido e entrar em uma região ainda a ser desbravada, com novos parâmetros e maneiras de se pensar e agir.