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* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O que é o Instituto Royal?... um mocó?...






Por Carlos Alberto Lungarzo, na revista Fórum


Ativistas dos direitos animais, desarmados, entraram num bunker de tortura de bichos protegido por guardas, para liberar 178 beagles, o que deve ser considerado um gesto até agora ímpar no Brasil, análogo aos feitos dos ecologistas e os pacifistas no mundo desenvolvido.

Não é por acaso que a mídia, alguns blogueiros, os profissionais da ciência e diversos membros do establishment se unificaram numa ampla perseguição contra os ativistas.


Esta é a primeira vez que uma petição no Brasil tem 660.014 assinaturas (às 11:00, 30/10) em apenas um de vários sites que acolhem o protesto.

Os especialistas em assuntos gerais dizem que o instituto era uma referência nacional. Mas, afinal, ninguém responde:

O que é o Instituto Royal?...  Busca Inglória!...

Durante décadas no Brasil, eu nunca havia ouvido falar do Instituto Royal de São Roque, SP. Envergonhado, comecei uma busca com pouco retorno, através da internet.

Encontrei o verbete “Instituto Royal” no Google, mas associado apenas a protestos contra o trato cruel de animais (desde 2012), ou, a partir do dia 18/10/13, associado com a liberação dos beagles. Não encontrei nenhum site nem página, que indicasse a estrutura, função, staff, propósitos e história do Instituto. Quase toda ONG têm pelo menos um pequeno site com todos esses dados, salvo que…

(Procure no Google a palavra “instituto”, e acrescente diversos nomes. Verá que todos os institutos têm um site com uma aparência como a deste aqui.)

O único que encontrei foi uma página de 23 linhas, criada nas coxas e claramente às pressas pouco após a libertação dos cachorrinhos, explicando, superficialmente e sem dados, que o Royal era muito bom e tudo estava nos conformes. Obviamente, essa “informação” só serviu para aumentar as suspeitas.

A maior dúvida era que tipo de coisa era o Royal:

Um instituto dentro de uma estrutura pública, por exemplo, da USP? Ou um instituto dentro de uma estrutura privada, por exemplo, da PUC? Um instituto federal, como o IMPA? Ou Estadual como o BUTANTÃ? Ou Privado como o ETHOS? …. Uma empresa com fins lucrativos? Uma ONG?

Alguém me disse que era uma OSCIP e procurei nos Registros de domínios da Internet. As OSCIPS são um tipo de Organizações semelhantes as ONGs, mas que podem ter parceria com o poder público, e gozam de muitos direitos e outros tantos deveres, alguns dos quais nem sempre são bem usados. Vide.

Eis o que achei no Registro.br:

Domínio: institutoroyal.org.br
Servidor DNS: ns11.srv22.netme.com.br
Servidor DNS: ns12.srv22.netme.com.br
Expiração: 2014-07-02
Status: Publicado
domínio: institutoroyal.org.br
titular: Inst. de Ed. p/ Pesq. e Desenv. Inov. tec. Royal
documento: 007.196.513/0001-69
responsável: Silvia Ortiz
país: BR
c-titular: INROY
c-admin: INROY
c-técnico: INROY
c-cobrança: INROY
servidor DNS: ns11.srv22.netme.com.br
status DNS: 29/10/2013 AA
último AA: 29/10/2013
servidor DNS: ns12.srv22.netme.com.br
status DNS: 29/10/2013 AA
último AA: 29/10/2013
criado: 02/07/2009 #5725335
expiração: 02/07/2014
alterado: 25/10/2013
status: publicado
Contato (ID): INROY
nome: Instituto Royal
e-mail: royalinstituto@gmail.com
criado: 25/10/2013
alterado: 25/10/2013


O problema continua. Onde a gente encontra tudo isto: o histórico “científico” do Royal, seus protocolos experimentais, a lista de seus colaboradores e clientes, os produtos realmente aplicáveis que foram viáveis graças a seus testes, os registros de suas experiências longitudinais, etc.

Aliás, é o Royal conhecido no exterior? Qualquer Instituição Brasileira respeitável é conhecida em todo Ocidente, pelo menos, pelos especialistas. Esta pergunta é relevante, porque nem organizações radicais de defesa dos animais, como PETA (vide), incluem o Royal na sua lista de desafetos. Ou seja, para os ecologistas, Royal nem merece aparecer na lista dos vilãos.

Formulo em minha própria linguagem uma pergunta que já fez a batalhadora atrizLuisa Mell: Por que ninguém, salvo as elites e as forças repressivas, consegue entrar nesse maravilhoso instituto? (Veja o blog de Luisa aqui?).

Aliás, o Royal obteve seu credenciamento pelo CONCEA (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal) somente em agosto de 2013, mais precisamente há poucas semanas. O Deputado Estadual por São Paulo, Fernando Capez fez notar, num incisivo e emocionante discurso na ALESP que, sendo assim, nos anos anteriores de funcionamento as experiências não eram supervisionadas. Mas as coisas estranhas continuam: Em 2012, apesar disso, o Royal recebeu oficialmente R$ 5.249.498,52. Para quê?... (1) O lugar onde está instalado o Royal foi declarado para funcionar comocanil. (Video 1 (2) o deputado paulista descendo o sarrafo no CONCEA e no insituto). Estranho, se até poucas semanas atrás a finalidade era outra e não havia fiscalização do CONCEA, então os testes e as torturas de animais poderiam ser aplicados sem qualquer protocolo a verificar.

De acordo com as generosas regras, uma Oscip tem cinco anos para se credenciar. Então, o Royal não estava em infração de acordo com a lei. Mas, seus trabalhos começaram, dizem, em 2005. Então, como é possível que as autoridades do Royal digam ao jornal O Estado de São Paulo, que os ativistas defensores dos animais “fizeram perder 10 anos de pesquisa”? (video 2, das esfarrapadas explicações do instituto).

Isto significa que, nos primeiros 5 desses 10 anos, o patrimônio genético coletado estava em outros institutos e foi transferido ao criar o Royal?... ou que foi acumulado por pesquisadores individuais ou pequenos grupos que se uniram para formar o Royal?... ou alguma outra coisa igualmente espúria?...

NOTAS AQUI DA TABA

(1) Mas em 2010/2011 já haviam recebido mais R$ 4,9 Mega do MCT 
(2) assistir o video linkado é muito recomendado

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Black blocs, again and again!... apedrejados pela esquerda e pela direita



Por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

Ninguém gosta dos black blocs exceto eles próprios.

Cheguei a essa conclusão depois de ver Dilma, pelo Twitter, condená-los pelo ato “covarde” de bater num coronel da PM. Segundo Dilma, eles têm protagonizado cenas de “barbárie”.

Você lê o Globo e a Veja e lá estão eles, atacados como vândalos, baderneiros, criminosos, bandidos etc.

A direita e a esquerda estão unidas no ódio aos black blocs por diferentes razões. Para a direita, eles são um incômodo porque denunciam escandalosamente a desigualdade social brasileira.

Para a esquerda, especificamente a ligada ao PT, eles são um incômodo porque mostram que não estão satisfeitos com os avanços sociais feitos nos últimos dez anos por governos petistas. Em consequência, atrapalham a marcha de Dilma rumo ao segundo mandato.

No meio do calor das discussões parece ficar de lado uma questão crucial: por que irromperam na cena brasileira estes mascarados pouco amistosos e extremamente combativos?

Sem responder a isso a polêmica em torno dos black blocs é estéril. Os black blocs são os filhos não amestrados da iniquidade. Poucos dias atrás, uma militante do grupo concedeu uma entrevista cândida à BBC Brasil, republicada pelo DCM.

Ela contou que virou black bloc por causa da “concentração de renda”. Não viu nos partidos políticos convencionais nada que a interessasse.

Eis o ponto.

O PT, com as alianças no poder em busca da “governabilidade”, deixou de ser atraente para jovens inconformados, idealistas, indignados com tanta miséria no Brasil.

Eles querem algo novo. E é então que entram em cena os garotos do Passe Livre e do Black Blocs. Ao contrário de outros grupos que poderiam e talvez deveriam estar protestando nas ruas – sindicatos e UNE, por exemplo – eles não têm o rabo preso com o PT.

Querem que o Brasil melhore socialmente – com PT ou sem PT. Por isso são tão detestados pelo PT.

A emergência dessa nova categoria de manifestantes – que não têm nada a ver com os demagogos que falam em “corrupção” para comover a classe média como já aconteceu em 1954 e 1964 — mostrou uma coisa. O Brasil pede um partido de esquerda que represente, hoje, o que o PT foi em seus primeiros tempos.

O PT poderia caminhar mais para a esquerda e atender aos anseios dos neomanifestantes? Eis a grande questão. Pessoalmente, não acredito. Os compromissos em nome da “governabilidade” tornam virtualmente impossível fazer alguma coisa muito diferente do que se fez nos últimos dez anos.

Como proteger os índios decentemente, para ficar num só caso, se alianças com ruralistas são vitais para que o governo toque a sua vida?

Uma coisa parece certa: a Rede Sustentabilidade não é a novidade que os inconformados das ruas pedem. Mudam os personagens, mas os compromissos permanecem: Marina jamais falou em aumentar o imposto dos mais ricos porque vai depender deles para tentar se eleger.

Spinoza dizia sobre certas coisas que o importante não era gostar ou desgostar delas, mas entendê-las. Ninguém parece estar entendendo os black blocs.

Querem que eles sumam? Experimentem reduzir a desigualdade social que está na origem deles.

O resto é silêncio, como escreveu Shakespeare.


Black Blocs again




texto de meu amigo Romulo Mafra (lolo) de Itajaí/Navegantes, no
O menino que não machuca  






NOTA DO INDIO AQUI
mantive a forma escrita característica do autor e grifos originais





já escrevi algumas vezes minha opinião no Facebook sobre os Black Blocs, manifestações violentas e afins. acho que já dá pra trazer pra cá um pouco do que escrevi lá. e começo com o que escrevi hoje, sobre o rolo lá em São Paulo, durante uma manifestação que, novamente, acabou de um forma que já tá virando previsível:

São Paulo em chamas… caminhões e ônibus queimados (já passam de oito, parece), carros e caminhões assaltados, lojas saqueadas, na manifestação contra a morte de um garoto de 17 anos pela PM (segundo versão do policial, por engano).

e agora pouco, há 3 minutos atrás, a Record mostrava uma cena ao vivo da captura de algumas pessoas, só que quando chegam, a polícia, em vez de prender, começa a espancar o rapaz… quando o espancamento começou a ficar mais sério, infelizmente, cortaram a imagem.

tristes (todas) imagens desta segunda-feira. A coisa está ficando muito, muito séria. e o problema está em todos os lados.

o problema, agora, é que estas ações provocadas agora à noite, são “embasadas” até politicamente pelas pessoas que acham que esse é o caminho pra se mudar alguma coisa. Enquanto isso, centenas e centenas de pessoas se sentiram acuadas pelos criminosos que tentaram ou roubaram carros, caminhões, ônibus, empresas (a PM teve de cercar uma parada de caminhões, das maiores da região, pois queriam invadir pra saquear).

claro que temos de contextualizar TUDO isso, e aí, sinceramente, este povo todo não estaria errado, pois estaria, em tese, lutando contra a exploração diária com que vivem diante de um capitalismo cada vez mais selvagem e que mata diariamente, de várias formas, seja pela fome, seja pela exclusão social, pela violência do estado contra negros e/ou pobres, pelos preconceitos a que são submetidos, e este é o único jeito que conseguem expressar seu estado de exclusão do Capitalismo.

sei que vão me criticar por esta contextualização — o que não quer dizer que ache que é melhor modo pra se lutar contra o Capitalismo (neste momento não acho) –, mas ela é real, acreditemos ou não nela.

Onde está o grande problema do nosso tempo?

além do Capitalismo, que gera todos estes problemas, descontando ele, é claro, o problema é a FAMÍLIA, o núcleo familiar, que abandona seus filhos na busca insana pelo TRABALHO/DINHEIRO (ou seja, o problema é o Capitalismo que faz estas famílias abandonarem tudo em nome do $uce$o). este sim é o pior dos problemas! e que, infelizmente, continuará ignorado pela maioria, que prefere achar outros tipos de culpados.

enfim, sobre estes tipos de manifestações, inclusive as de cunho político (e esta de hoje não foi, foi simplesmente rebeldia popular — que acaba virando criminosa, de acordo com a lei), só servem pra se aumentar a repressão policial.

e como diz Kroptikin, em sua crítica ao famoso anarquista Bakunin, “nenhuma revolução social pode triunfar se não for precedida de uma revolução nas mentes e nos corações do povo”, e acho que nem se precisa explicar muito esta frase, né?

claro que estas manifestações violentas, que violenta INCLUSIVE O TRABALHADOR (como uma amiga do Rio que falou dos pontos de ônibus depredados e que colocaram os trabalhadores que precisavam dele todos na chuva nesta segunda), TALVEZ, daqui algum tempo, tenham servido para alguma coisa, mas, no calor do momento (e no calor do momento sempre podemos estar equivocados), só vejo esta violência servindo para a maior repressão (e as pesquisas já apontam que a maioria esmagadora da população está contra as manifestações violentas) e esvaziamento das manifestações populares.

é o que analiso neste momento. e isso pode mudar futuramente.

domingo, 27 de outubro de 2013

O que dizem nossos vira-latas agora?...


por Fernando Branquinho, em seu blog

Nossos colonizados vira-latas urraram quando a presidente Dilma denunciou o governo do presidente Barack Obama (EUA) como espião, e o acusou de desrespeitar os direitos humanos e solapar a democracia. Isso na Assembléia Geral da ONU. E propôs uma nova ética nas comunicações. Nossa mídia não perdoou o que chamou de "absurda prepotência" tupiniquim. E depois as mídias de esgoto propagaram que Dilma defendeu a censura nas comunicações eletrônicas, pois teve apoio da China e Rússia, que são países que de uma forma mais sutil, a praticam.

Nada como um dia atrás do outro: agora México, Alemanha e França protestam junto ao governo americano pela "deslealdade" da espionagem.Merkel e Hollande suspeitam de escuta dos celulares. Por coincidência os grampos e espionagem em e-mails acontecem quando EUA e Europa discutem um acordo de livre comércio, que poderá ser inviabilizado pois empresas norte-americanas poderiam ter em seu poder informações privilegiadas. Assim como tiveram com dados roubados da Petrobrás sobre o pré-sal. Quando Dilma denunciou ficaram em cima do muro para não bater de frente com o aliado imperialista. Agora a ficha caiu.

Se os brasileiros de baixa auto-estima criticaram nosso governo de ser incompetente para impedir a espionagem, que nossos sistemas de defesa não prestam, que nada presta no Brasil, como ficam agora diante de duas potências de alta tecnologia na área de telecomunicações também serem atingidas pela espionagem na internet e grampos telefônicos? Vão dizer que a Alemanha é incompetente em telecomunicações? O problema é muito maior: há um governo criminoso, ladrão de informações, apunhalando seus aliados pelas costas. Alguns até já podiam saber, mas agora a reação vem sendo mais forte porque há interesses econômicos poderosos no roubo de informações privilegiadas.


Para completar a ficha criminal do governo Obama, a Anistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram seu governo como assassino pelo uso de drones, que vem matando indiscriminadamente e sem respeitar soberanias nacionais gente em diversos países. Obama diz que o uso de aviões assassinos é ético, legal e inteligente.

Além de espionar para empresas ganharem dinheiro, o governo Obama mata gente inocente sem respeitar os outros países. E os nossos "colonizados" ainda acham que a América é um bom exemplo para nós.

sábado, 26 de outubro de 2013

Maravilha!... GP da Holanda de F1, ano 1967



Vídeo sensacional de ótima qualidade de imagens de um Grande Premio de Formula dos tempos gloriosos e heroicos, em 1967.

Trata-se do GP da Holanda daquele ano, no perigosíssimo circuito de Zandvoort, no meio de umas dunas e perto do mar. O vento soprava areia sobre a pista, que ficava escorregadia tornando a vida dos pilotos um inferno. Houve muitos acidentes fatais naquela pista e 3 pilotos da Formula 1 pereceram lá.

Para mim esse vídeo tem um significado especial, pois em 1967 eu era um garoto de 10 anos e ainda lia preferencialmente revistas em quadrinhos Disney, mas nada sabia de automobilismo. No final daquele ano as revistas Mickey e Almanaque Tio Patinhas fizeram uma promoção de distribuir encartes com figurinhas sobre a Formula-1. Foi o meu primeiro contato com este esporte. Colecionei algumas daquelas fotos dos carros (não todas) e passei a me interessar um pouco pela coisa, pois já tinha assistido corridas de automóveis de rua em Blumenau, onde morava.

Junto a cada figurinha do álbum havia um breve histórico explicativo de cada carro e equipe. Lembro que os carros que mais me impressionaram eram os BRM’s, lindos, com sua pintura azul marinho com o bico laranja. Depois disso sempre pintava meus carrinhos de rolimã dessas cores: Azul marinho com uma parte laranja na frente.

Nunca pensei que um dia pudesse assistir uma corrida daquelas, o que a barulhenta internet e o VoceTuba hoje nos permite. Isso é fantástico!...

A corrida em tela também mostra os tempos românticos e “a facão” da Formula 1, com os mecânicos enchendo o tanque com latas de gasolina e funil, ou lubrificando com pequenas latinhas de óleo Esso. Esse grande premio também representa a gloria da equipe Lotus, que vence logo na estreia do seu novo modelo 49, pilotada pelo fantástico Jim Clark (que morreu num acidente nas pistas menos de um ano depois). O novo carro vinha com novo motor, o Cosworth DFV, com 4 valvulas por cilindro, que a partir dai foi o maior vencedor  na categoria de todos os tempos, mantendo uma hegemonia  por quase duas décadas.

O vídeo não tem dublado ou legendado, portanto vão ter que se virar em ingles mesmo, mas ainda assim deve valer muito a pena para os que conheceram aqueles tempos gloriosos da Formula 1.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Depois de "privatizado" o Pré-Sal (?!?!), voltemos ao Mensalão

por Luis Nassif em seu blog 




Luis Greco, 35, e Alaor Leite, 26, apresentados na Folha como "doutor e doutorando, respectivamente, em direito pela Universidade de Munique (Alemanha), sob orientação de Claus Roxin, traduziram várias de suas obras para o português" escreveram o artigo "Fatos e mitos sobre a teoria do domínio do fato".

Nele, liquidam com a versão da teoria engendrada pelo Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

O artigo é duro: "Desde o julgamento do mensalão, não há quem não tenha ouvido falar na teoria do domínio do fato. Muito do que se diz, contudo, não é verdadeiro. Nem os seus adeptos, como alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, nem os que a criticam, como mais recentemente o jurista Ives Gandra da Silva Martins, parecem dominar o domínio do fato. Talvez porque falte o óbvio: ler a fonte, em especial os escritos do maior arquiteto da teoria, o professor alemão Claus Roxin. Mesmo os técnicos tropeçam em mal-entendidos, de modo que o público merece alguns esclarecimentos".

A explicação sobre a teoria é radicalmente oposta à que foi vendida ao público pelos Ministros do Supremo. Pelo STF, o "domínio do fato" visaria alcançar mandantes de crimes cuja culpabilidade não pode ser levantada por provas. Seriam culpados meramente diante da presunção de que, sendo chefes, os crimes não poderiam ter passado ao largo deles.

Os autores mostram como a lei brasileira trata as autorias: "O Código Penal brasileiro (art. 29 caput), embora possa ser compatibilizado com a teoria do domínio do fato, inclina-se para uma teoria que nem sequer distingue autor de partícipe: todos que concorrem para o crime são, simplesmente, autores".

A verdadeira teoria do dominio do fato diz exatamente o contrário: "Para o domínio do fato, porém, o autor, além de concorrer para o fato, tem de dominá-lo; quem concorre, sem dominar, nunca é autor. Matar é atirar; emprestar a arma é participar no ato alheio de matar. Na prática: a teoria do domínio do fato não condena quem, sem ela, seria absolvido; ela não facilita, e sim dificulta condenações. Sempre que for possível condenar alguém com a teoria do domínio do fato, será possível condenar sem ela".

Quando esteve no Brasil, Roxin deu entrevista rebatendo as interpretações dadas pelo Supremo. De volta à Alemanha foi alvo de terrorismo por parte dos alunos, possivelmente insuflados por algum Ministro do STF que domina o alemão. Insinuaram que ele estaria sob suspeita de vender pareceres para réus. Sem familiariedade com o vale tudo de alguns Ministros do STF acumpliciados com a mídia, Roxin mandou desmentidos débeis.

Agora, seus alunos e tradutores trazem os fatos. E escandalizam-se com o uso da presunção de culpa: "A teoria do domínio do fato não é teoria processual: ela nem dispensa a prova da culpa, nem autoriza que se condene com base em presunção --ao contrário do que se lê no voto da ministra Rosa Weber, que fala em uma "presunção relativa de autoria dos dirigentes".

Por piedade, evitaram mencionar o Ministro Luiz Fux que chegou ao cúmulo de afirmar que cabia aos réus demonstrar sua inocência.

Não se trata de uma disputa de interpretação entre Gilmar e companheiros e Roxin: trata-se de entender as teses que Roxin desenvolveu. Fica claro que houve uma mistificação, na qual entraram vários Ministros do Supremo. E o dolo é tanto maior quando maior foi o descaso com que receberam as explicações de Roxin.

Como é possível que um episódio dessa amplitude tenha contaminado a maioria dos Ministros do mais alto tribunal brasileiro? Onde estava o desconhecimento, onde a malícia?

Durante meses, a defesa da Constituição esteve nas mãos solitárias de Ricardo Lewandowski, único defensor da legalidade. Lewandowski foi duro nas sentenças, insurgiu-se contra um percentual pequeno das condenações. Mas com sua posição, consolidou uma trincheira de dignidade, mais tarde reconhecida. Não se tratava de condenar ou absolver, mas de não manipular a lei.

Agora, gradativamente o mundo jurídico retorna ao leito da legalidade. Juristas conservadores, como Ives Gandra e Cláudio Lembo se uniram às vozes dos que se indignaram com os abusos. A reação do mundo jurídico provocou até a reviravolta oportuna de Celso de Mello, épico ao atropelar a lei e promover o linchamento, e, quando a poeira baixou, épico ao refugar o linchamento. É um amante das epopeias.

Luis Roberto Barroso e Teori Zavaski vieram se juntar a Lewandowski, na recomposição da dignidade perdida do STF. O Ministério Público Federal está em mãos responsáveis.

Mas a verdadeira história ainda está para ser contada.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Novidades na mídia mundial



por Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo


A notícia recente mais importante do mundo da mídia foi a de um bilionário que resolveu investir milhões numa empresa jornalística. Não estou falando de Jeff Bezos e do Washington Post, mas de Pierre Omidyar e do site que está criando com Glenn Greenwald, o jornalista e advogado responsável pelos furos sobre o esquema de espionagem dos Estados Unidos.

Omidyar também foi abordado pela família proprietária do Post, mas a conversa não prosperou. “Esse processo me fez pensar sobre que tipo de impacto social pode ser criado se um investimento semelhante for feito em algo totalmente novo, construído a partir do zero. Algo em que eu estaria pessoalmente envolvido”, escreveu ele em seu blog.

Está pondo US$ 250 milhões no projeto. Greenwald deixa o jornal inglês The Guardian, no que definiu como oportunidade de uma vida. A equipe ainda terá Laura Poitras, a documentarista que trabalhou nas entrevistas com Edward Snowden, e Jeremy Scahill, correspondente da revista Nation, escritor e documentarista dedicado a contar histórias da política externa americana.

Ou seja, dá para ter uma ideia do que vem por aí. Diferentemente de muitos de seus colegas que enriqueceram com tecnologia e continuam na área, Omidyar tem interesses mais amplos. Criou, há anos, um site com a mulher Pam para divulgar informações sobre o vírus ebola. Acredita que as pessoas “são basicamente boas”.

Nascido na França numa família de iranianos exilados, Omidyar tem 46 anos. É filho único. Seu pai é médico e a mãe é uma acadêmica reconhecida. Em 1995, fundou o eBay, a gigante do e-commerce. A Forbes calcula sua fortuna em US$ 8,5 bilhões. Seu perfil no Twitter tem duas frases: “Seja você. Seja cool”. Ele vive com Pam no Havaí, onde financiou empreendimentos de jornalismo cidadão. Ali já havia uma tentativa de cobrar transparência das autoridades. “Eu desenvolvi um interesse em apoiar jornalistas independentes de maneira a fazer seu trabalho, tudo em prol do interesse público. E eu quero encontrar um modo de converter leitores do mainstream em cidadãos engajados. Acho que dá para fazer mais nesse espaço e estou animado em explorar as possibilidades”, disse no blog.

O site — que ainda não tem nome definitivo; por enquanto, NewCo — será para todos os tipos de consumidores de notícias. “Vai cobrir esportes, negócios, entretenimento, tecnologia: tudo o que o usuário quiser”, diz Jay Rosen, crítico de mídia e professor de jornalismo da Universidade de Nova York, que foi consultado sobre a NewCo.

Embora Omidyar seja um filantropo, seu objetivo, nesse caso, é fazer dinheiro. “Você precisa de editores, você precisa de outros olhares sobre as matérias, você precisa de advogados e de maneiras de suportar a pressão. Você precisa bilhetes de avião!”, disse a Rosen.

Sua aventura é um exemplo de que há formas de viabilizar o jornalismo independente. O modelo de negócios ainda está se desenhando, mas o homem que fez o eBay e que colocou um quarto de bilhão de dólares está trabalhando nisso. Para Omydiar, o sucesso editorial estará no ponto de equilíbrio entre os blogs, a participação fundamental de comentários em posts e o jornalismo tradicional. A aliança com Greenwald, que tem milhares de seguidores e é uma voz ativa per se, cai como uma luva.

Omidyar está preocupado com a liberdade de imprensa nos EUA. “Eu vi os problemas decorrentes do enxugamento das redações. Quis pôs a mão na massa para saber como é o dia a dia de jornalistas e editores e aprender como as salsichas são produzidas”, declarou ao New York Times. “Quando há uma ameaça desse tamanho, isso não é apenas um problema para nossa democracia como para que a democracia funcione em qualquer lugar. A NewCo servirá para combater essa ameaça”.

É uma aposta clara no conteúdo de qualidade. A ideia burra de que a Internet está matando o bom jornalismo e de que ele não é viável economicamente na web está sendo enterrada dia a dia. “Há limites no que a tecnologia pode alcançar. Entrar na produção de conteúdo e na comunicação ampla é muito atraente”, diz Omidyar.

Mais que tudo, o que a parceria entre Omidyar e Greenwald mostra é que, daqui por diante, os negócios mais interessantes na mídia, em todo o mundo, se darão no jornalismo digital.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Engraçadinho era o Pedrinha-de-Prata (Silber Stein)!...






por Fernando Brito, no Tijolaço


Um amigo liga e me diz que não pode ser verdade a informação que dei no post anterior de que parte da área onde está o campo de Libra já tinha sido leiloada – e depois devolvida – como diz hoje a Agência Reuters tivesse sido oferecida por apenas R$ 250 mil no Governo Fernando Henrique.

É verdade.

Não posso garantir a informação da Reuters, é claro, mas se é correto que o Bloco Marítimo 4 da Bacia de Santos – e pelos mapas de localização é – tinha parte sobreposta à atual área de Libra, foi, sim.

E aqui está a prova, no edital da ANP, que reproduzo na imagem acima.

A ANP, na ocasião, era chefiada por David Zylbersztajn, genro de Fernando Henrique Cardoso e tinha em sua cúpula o senhor Adriano Pires, hoje o bam-bam-bam das Organizações Globo e do Instituto Milenium para assuntos de petróleo.

Já que a nossa mídia está ouvindo os dois deitarem falação – negativa – sobre o leilão de Libra, porque é que não lhes pergunta sobre a venda, a preço de banana, de parte de sua área?

Em tempo, era tão barato que, mesmo com esse preço, a Agip arrematou a área por R$ 134 milhões, ágio de 53.564%!

Viva a imprensa brasileira!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O caso das biografias - Pau que bate em Francisco não bate em Chico?...




por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo




Nos anos 70 a TV Globo me proibiu. Foi além da Censura, proibiu por conta própria imagens minhas e qualquer menção ao meu nome. Amanhã a TV Globo pode querer me homenagear. Buscará nos arquivos as minhas imagens mais bonitas. Escolherá as melhores cantoras para cantar minhas músicas. Vai precisar da minha autorização. Se eu não der, serei eu o censor.

Aplausos de pé para Chico Buarque. Num artigo publicado pelo Globo Chico trouxe luz, e a dose necessária de complexidade, para um assunto que está sendo debatido de forma simplista, maniqueísta e tola. O trecho em itálico com o qual se inicia este artigo é o fecho do texto de Chico.

Uma pequena atração a mais nas palavras de Chico é a pancada dada na Globo e publicada pelo Globo. Não é que a Globo tenha virado boazinha: são os novos tempos na mídia, apenas.

Provavelmente o roteiro completo é o seguinte. O Globo pediu a Chico um texto. Ele mandou. Em outras épocas – por exemplo, na citada por ele, os anos 1970 – o editor teria amassado o artigo e jogado no lixo. Ninguém ficaria sabendo de nada.

Agora é diferente. Se o Globo não publica, o texto vai parar em outro lugar, provavelmente na internet. Acaba saindo, e o Globo passa por censor de Chico mais uma vez. “Ah, não mudou nada essa empresa”, concluiriam – acertadamente, aliás – muitos.

Chico foi inteligente e o jornal nada pôde fazer além de publicar uma explicação que não explicava nada no final de um artigo que não contribui em nada para o prestígio da Globo ao relembrar um passado de cumplicidade lucrativa e descarada com a ditadura.

Em seu artigo, Chico traz uma suposta revelação. Ele diz que o biógrafo de Roberto Carlos não o entrevistou, embora o tenha colocado na lista das pessoas que ouviu ao longo de quinze anos de trabalho. O biógrafo rebateu com uma foto na qual está com Chico. Tudo é nebuloso, como se vê.

A questão das biografias – voltemos ao tema – é menos fácil de tratar do que muitos gostariam. Dizer que Chico, Caetano e Gil estão fazendo censura é ignorar a desproteção absurda que você tem no Brasil em casos de assassinato de caráter, uma possibilidade frequente em biografias não autorizadas.

Buscar a justiça é virtualmente inútil. Tudo é moroso, angustiosamente moroso, e se você é indenizado a cifra costuma ser ridícula.

É o mesmo caso da mídia, aliás. Tente se ressarcir de uma calúnia. Num caso que mostra o quanto a justiça brasileira é ruim para proteger a privacidade e a reputação das pessoas, diretores da Petrobras caluniados só conseguiram incomodar Paulo Francis por processá-lo nos Estados Unidos.

Francis disse várias vezes que eles eram corruptos. Como falou no Manhattan Connection, em solo americano portanto, os acusados puderam processá-lo na justiça dos Estados Unidos. Francis teve que apresentar provas. O fim da história é conhecido: Francis não tinha prova de nada e, colocado diante de uma indenização milionária, entrou em desespero. Seu coração não aguentou.

No universo das biografias o cenário não é diferente. Chico lembra um caso exemplar: a Companhia das Letras foi obrigada a pagar um dinheiro para filhas de Garrincha. Injusto? A editora ganhou, o autor ganhou – e as filhas?

No caso de estrelas como Chico, Caetano, Gil e Roberto Carlos, o dinheiro é secundário. Mas o problema – a desproteção na justiça – é o mesmo.

Tanto para a mídia como para as biografias, indenizações severas acabam forçando os autores a ter mais cuidado com o que publicam. É o que acontece nos países mais avançados socialmente. Mas não é o que temos no Brasil.

Todos os países que administram bem os limites da mídia têm nas indenizações rápidas e elevadas um dos pontos cruciais. No Brasil, quando o assunto aparece, a tropa de choque da mídia sai gritando que se trata de “censura”. Nas biografias, a lógica é a mesma.

O que os artistas podem fazer para que a legislação brasileira favoreça menos o assassinato de caráter? Pouco. Mas, em vez de esperar uma justiça decente, eles podem se mexer para se proteger contra a desproteção.

É o que estão fazendo. É o que eu faria. É o que muita gente que os acusa de censores faria.



Post Script Botocudo

Este blog ainda não tem uma opinião formada sobre este imbróglio. Tudo parece ter se precipitado pelo fato de que a associação dos editores entrou em 2012 com uma ação no STF pedindo que seja afastada a exigência legal de autorização prévia de biografias. Ocorre que somente agora neste mês a ministra Carmen Lúcia decidiu pela realização de audiência pública. Talvez seja esta a razão do alvoroço de biografáveis que tem agitado as páginas virtuais de notícias. Querem formar opinião pública para que seja favorável às suas pretensões?... Vamos acompanhar isso...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Mas Ed Fields também tem críticos ferrenhos em seu próprio quintal - e agora?...



por Heitor Scalambrini Costa - Professor da Universidade Federal de Pernambuco, no Viomundo

Conhecer claramente o que pensa o presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) Eduardo Campos é uma incógnita. Muda com as nuvens. E segue a risca o que costumava dizer o imperador romano Frederico III: “Não sabe reinar, quem não sabe dissimular”. Ser um candidato presidenciável competitivo, mesmo negando esta pretensão, vai requerer alianças. E o PSB a nível nacional mostrou nas ultimas eleições que não tem nenhum “pudor” em se aliar à direita, ao centro e à esquerda.

Como não tem abrangência nacional, mesmo tendo crescido eleitoralmente, vai precisar de palanques nos diversos estados, pois não basta somente ter votos em Pernambuco para eleger seu candidato a presidente do Brasil.

Mas isto não será problema quando o objetivo é alcançar o poder. Outros já fizeram alianças incompreensíveis para o eleitor e a sociedade, e conseguiram chegar lá, em passado recente.

“Visões alternativas”, “programa de governo contemporâneo, moderno”, “caça aos marajás e a corrupção”, “competência administrativa”, “choque de gestão” são meras expressões/artifícios eleitorais, utilizados pela propaganda eleitoral dos partidos políticos e candidatos para iludirem o eleitor. Primeiramente a estratégia do quase futuro candidato é sair fortalecido de seu Estado e da sua região para o embate nacional. Ao vender a imagem de um governante moderno, eficiente na gestão pública, que se vangloria de empregar princípios da meritocracia e do monitoramento de metas; utiliza o marketing politico/eleitoral através da propaganda, descolada da realidade, vendendo ilusões.

Antes de se lançar verdadeiramente como candidato ele sabe que deverá administrar bem Pernambuco.A qualidade dos serviços públicos (e o financiamento das políticas públicas) como forma republicana de inclusão social foi deixada de lado em Pernambuco. Daí uma urbanização verticalizada e desordenada, paraíso da especulação imobiliária.

Este modelo promove relações promíscuas dos gestores públicos com agentes e promotores do que chamam “desenvolvimento econômico” sustentável. Seria isso o “choque de gestão”, privatizar serviços públicos? Oferecer e mesmo “vender” o estado e a cidade a empresários, investidores, turistas e outros?

Nunca se viu por estas bandas tantas facilidades aos capitais nacionais e internacionais, um verdadeiro capitalismo sem risco. Ah! Se o doutor Arraes estivesse vivo, com certeza não se calaria. Para o governo, ao que parece, a solução para todos os problemas passa pela privatização. Hoje se pratica uma política deliberada de favorecimento da iniciativa privada pelo poder público, sendo esta a tônica da gestão que comanda nosso Estado. Agora o modelo é o das concessões. Mudou o nome, mas o fato é que o PSB em Pernambuco (e no Brasil) clona as privatizações dos governos do PSDB e do PT/PMDB.

Vamos, a seguir, analisar brevemente o que acontece com alguns dos serviços essenciais oferecidos à população, nas áreas de saúde, educação, saneamento e infância/juventude, desmascarando assim a propaganda oficial, na contra mão da subserviência onipresente, provinciana, “bairrista” que tomou conta da imprensa pernambucana quando se trata de temas relacionados ao governador.

Saúde

Ao mesmo tempo em que foi promulgada a Constituição Brasileira de 1988 — cujo teor prescrevia o direito universal do acesso à saúde pública, integral e gratuita — expandiu-se no País, em um movimento contraproducente ao que estava disposto na Carta Magna, o setor empresarial de saúde suplementar, impulsionado por entidades pautadas por práticas estritamente comerciais, alheias à natureza do serviço prestado e às necessidades dos pacientes.

A saúde pública em Pernambuco caminha a passos largos para que o gerenciamento das unidades de saúde venha a ser transferido para Organizações Sociais (OS).

Em estados em que este modelo foi adotado, como São Paulo, as consequências foram desastrosas, antidemocráticas e antissociais. A terceirização da saúde pública criou diversos problemas, pois gera a mercantilização de um sistema que por dever é de responsabilidade do poder público e por direito, da população, que deve ter acesso a uma saúde de qualidade, ágil e resolutiva. Com a privatização dos serviços públicos, os médicos, os profissionais da saúde e os usuários assistiram a um processo acelerado de sucateamento, artifício utilizado pelo gestor público para justificar a manutenção do serviço de privatização.

Além disso, a terceirização gera uma rotatividade desastrosa nas contratações. Profissionais são contratados sem concurso público, sendo muitos deles sem qualificação adequada, o que gera grande desassistência aos usuários do sistema.

Em São Paulo, desde maio de 2012 a Justiça do Trabalho proibiu todas as contratações de funcionários nas parcerias entre a Secretaria de Saúde e as OS, por suposta terceirização irregular de mão de obra, mas a Procuradoria do Estado tenta reverter essa decisão. Desde 1998, tramita uma ação direta de inconstitucionalidade para julgar a validade desses convênios. Nos últimos anos, houve também outras tentativas de impedir judicialmente os contratos com as OS, mas uma decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal (STF) é aguardada.

Em Pernambuco este é um dos serviços públicos que aparecem nas pesquisas de opinião como entre os mais mal avaliados. Mesmo com as construções (o que “dá mídia”) de prédios — hospitais, unidades de pronto atendimento, recuperação física de hospitais e postos de saúde — a ausência de profissionais, a falta de medicamentos e de condições de trabalho são evidentes e impossíveis de maquiar, de esconder da população, que vive um martírio diário quando necessita de atendimento.

A administração da saúde publica em Pernambuco é desastrosa, como no restante do Brasil.

Educação

A educação nacional é uma das piores dentre 40 países que se consideram civilizados, avaliados em relação ao sistema educacional, segundo uma ONG inglesa. O Brasil ficou classificado em penúltimo lugar.

Em Pernambuco, quando o assunto é educação, o ensino público tem se mostrado precário, insatisfatório e ineficaz. A situação da infraestrutura física das escolas é deplorável, juntamente com as condições de trabalho e salarias dos principais protagonistas, os docentes. A precariedade neste setor é tão evidente que, apesar de o governo tentar encobrir a realidade com propaganda — além de ações pontuais e isoladas, que sempre resultam em espaços na mídia — os indicadores de desempenho são vergonhosos.

Se levarmos em conta o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica/2011 (Ideb), calculado com base no conhecimento dos alunos (Prova Brasil) e na taxa de aprovação, mesmo considerando a grande facilidade para maquiagem de resultados, a situação das escolas estaduais pernambucanas é decepcionante e trágica.

Com uma levíssima evolução em relação ao IDEB de 2009, Pernambuco não alcançou a meta proposta pelo Ministério da Educação, de 4,6. As escolas do Estado tiveram uma média de 4,3, sendo a média do Brasil de 5 (de 0 a 10).

Onde se diferencia a gestão estadual na área da educação, se comparada com o restante do Brasil? Números mais recentes, divulgados em março de 2013, pelo relatório De Olho nas Metas — elaborado pelo Movimento Todos pela Educação, que acompanha os indicadores nacionais — mostram que a rede pública não atingiu as metas estabelecidas.

Foram quatro estados que não tem muito o que comemorar na educação, segundo este relatório: além de Pernambuco, Alagoas, Amapá e Roraima.

Se escolas consideradas pelo governo estadual como de referência e modelo de infraestrutura — propagandeadas pelo turno integral (pelo menos duas vezes por semana) e pela ampla distribuição de tablets — apresentam deficiências visíveis e denunciadas publicamente, como a falta de merenda, salas com mais de 45 alunos, sem ar-condicionado, laboratórios inutilizados e com equipamentos eletrônicos doados à escola e aos alunos de péssima qualidade, apresentando defeitos em poucos meses de uso, tentem imaginar o que acontece com as escolas que não são de referência.

As denúncias vão desde a drástica redução de mais de 30% no quadro de trabalhadores na educação nos seis anos do atual governo, de 2007 a 20012, até a tentativa midiática de convencer a população de que a educação vai bem, com as viagens ao exterior de bem menos de 1% dos estudantes da rede pública para intercâmbio encobrindo as mazelas e as situações deploráveis encontradas nas escolas.

Mesmo naqueles espaços de tempo integral, como o Ginásio Pernambuco, as promessas não são cumpridas.

Todo este incompetente modelo de gestão mostra claramente que mesmo com o discurso fácil da valorização do professor e de investimentos na infraestrutura das escolas, o mundo real está distante do mundo das promessas vazias. Em Pernambuco a educação não é prioridade, como comprovam a situação das escolas e dos docentes, e os indicadores nacionais sobre a qualidade do ensino.

Saneamento

A eliminação da enorme lacuna nos serviços de água e esgoto constitui um dos maiores desafios para a política pública brasileira. A situação do saneamento é trágica. Em 2010, mais da metade da população (54%) não possuía acesso à rede de esgoto. Do esgoto coletado, apenas 30% eram tratados.

A Lei do Saneamento (11.445/07) prevê como princípio a universalização do acesso. Mais avançar é que são “outros quinhentos”. Segundo a Agência Nacional de Águas, 55% dos municípios podem sofrer desabastecimento nos próximos quatro anos, 84% das cidades necessitam de investimentos para adequação de seus sistemas produtores de água e 16% apresentam déficits decorrentes dos mananciais. A falta de saneamento tem efeitos nefastos sobre a saúde e o meio ambiente. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as doenças por veiculação hídrica ampliam a mortalidade infantil e podem causar perda da capacidade de aprendizado escolar de até 18% em crianças com até cinco anos.

De acordo com o Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil, que considera os cem maiores municípios brasileiros, a média de internações por diarreia é 546% maior para os dez piores do que nos 20 municípios mais bem colocados.

Como é alardeado, o Brasil está entre as maiores economias do mundo, mas nenhuma autoridade federal é capaz de dizer com alguma segurança quando será universalizado pelo menos o serviço de esgotamento sanitário. A questão do saneamento é uma vergonha nacional, pois menos de dois terços dos lares brasileiros — 62,6% — têm acesso a saneamento, por meio de rede coletora ou de fossa ligada à rede, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

No caso pernambucano existe uma triste realidade, pois hoje menos de 40% dos domicílios são saneados e menos de 40% recebem água tratada. A solução apontada pelo governador socialista: promover formas de privatização dos serviços de saneamento básico, através de parcerias público-privadas (PPP), sob o argumento de que o setor público, sozinho, não tem os recursos e nem capacidade de gestão dos projetos. Tais modificações no setor ocorrem num momento de baixo nível de reflexões, de formulação e de forte desmobilização da sociedade civil.

As lições procedentes da experiência internacional, sobretudo nos Estados Unidos, Europa e América Latina mostram que o que esta sendo adotado é um caminho equivocado, frequentemente adotado por razões imediatistas, com o objetivo de satisfazer interesses privados e não de solucionar os problemas dos serviços. Mesmo com a pouca discussão e as enormes perguntas não respondidas, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) assinou em 15/02/2013 o contrato de Parceria Público-Privada para ampliação e recuperação dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos de 14 municípios da Região Metropolitana do Recife e da cidade de Goiânia, na Mata Norte do Estado. São investimentos estimados em 4,5 bilhões de reais nos próximos 12 anos.

O consórcio vencedor é formado pela Foz do Brasil (braço da Odebrecht) e a Lidemarc. Neste episódio da assinatura do contrato que validou a PPP merece destaque a posição do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que inicialmente constatou irregularidades no contrato, mas voltou atrás e acabou acatando e aceitando a remuneração média do valor investido proposto pelo consórcio, de 8,41%. A média desse valor para as PPPs no Brasil varia de 6 a 6,5%.

O atual governo socialista sustentava que, com a assinatura desta parceria público-privada, não haveria aumento nas tarifas, mas no dia seguinte foi anunciado o aumento nas tarifas de água. A Compesa é uma das empresas mais criticadas pela população, pelos péssimos serviços prestados. A desfaçatez da direção da empresa é tão grande que seu presidente, um dos meninos de ouro do atual governador, “administrador eficiente (?)”, chegou a se comprometer junto à imprensa afirmando que logo após o anúncio federal da redução das tarifas elétricas a empresa reduziria a conta de água dos pernambucanos. Mas o que se viu foi um aumento nas tarifas da ordem de 7,98%. Com a chiadeira geral e querendo seduzir a população, ele anunciou que o valor do aumento ficaria em 5,19%.

Outra promessa não cumprida pela Companhia, neste caso envolvendo o próprio governador, foi de que não haveria mais racionamento de água em Pernambuco. Outra grande mentira deslavada.

É importante que os gestores públicos não mintam e que compromissos assumidos sejam cumpridos. Isso significa respeitar o povo, mas não é isso que acontece. Quem sofre as consequências é a população iludida.

Infância e Juventude

O caso do tratamento dispensado à infância e juventude em Pernambuco é emblemático.O que se verifica são promessas não cumpridas de uma reestruturação geral no sistema socioeducativo para adolescentes e infratores, o descaso e o sucateamento que marcaram o ano de 2012 com rebeliões e assassinatos.

O saldo da violência e destruição foi considerado um dos piores do Brasil e teve repercussão nacional e internacional. O curioso é que a Secretaria da Infância e da Juventude não se pronuncia quando ocorrem as barbáries. Deixa a bomba chiando nas mãos da própria Fundação de Atendimento Socioeducativo, a famigerada Funase.

Sucedem-se as rebeliões, motins, mortes e mutilações nas unidades da Funase em todo o Estado.

O xis do problema é o seguinte: por que o Governo do Estado não consegue exterminar o ovo da serpente na Funase? Resposta: esta não é uma prioridade da ação governamental. Falta decisão política.

Enquanto não se desenvolvem políticas públicas estruturadoras nesta área, Pernambuco é lembrado como o Estado que não apoia e protege a juventude e a infância. Há futuro com este descaso? A gestão pública estadual alega que não tem dinheiro para os investimentos em saúde, educação, saneamento e para crianças e jovens, e entrega ao setor privado estas atividades essenciais para a população. Ao mesmo tempo, constata-se que existe uma alta carga tributária sobre os assalariados, gordas desonerações para os mais ricos e fartos créditos subsidiados pelo BNDES a algumas empresas.

Mesmo assim, os serviços essenciais e a infraestrutura continuam precários, caminhando para serem privatizados. Nisso tudo uma pergunta que não quer calar: como se consegue facilmente tantos recursos para um estádio de futebol, mas não para financiar adequadamente a saúde, a educação, o saneamento, a infância e a juventude?

Assim, finalizo esta breve análise critica da situação de alguns setores fundamentais para a sociedade depois destes anos de governo socialista em Pernambuco. Deixamos claros os problemas e a exclusão que afligem a população. O outro lado, o das promessas e ilusões, este é mostrado pela grande mídia, cujos interesses, em muitos casos, não são nada republicanos.

Finalizaremos este tema com o terceiro e último texto, falando dos governantes que são transformados em gênios e salvadores da pátria, da noite para o dia, e como uma eficaz máquina de propaganda faz milagres.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Black bloc - desvendando um enigma




Por Miguel do Rosário, no seu O Cafezinho


NOTA INICIAL DESTE BLOG ABORÍGENE

O descritivo se ajusta as idiossincrasias relativas ao Rio de Janeiro. Em outros rincões as motivações e características podem diferir significativamente

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O movimento black bloc adquiriu uma magnitude tal no Rio de Janeiro que não nos resta outra saída senão procurar compreendê-lo. A repressão não adiantará muito, porque se se trata realmente de uma tendência com apoio popular, qualquer violência do Estado apenas servirá para legitimá-la ainda mais e fazê-la crescer. Quando uma revolta recebe apoio popular, como está acontecendo, ela se torna bíblica.

Quando isso acontece, cidades inteiras podem ser destruídas.

Meus leitores sabem que já fiz críticas pesadas aos mascarados, à baderna e depredação enquanto tática de luta. Na manifestação das centrais, amigas minhas se sentiram diretamente agredidas pelos black blocs, que a certa altura se voltaram contra os próprios manifestantes. Tive vontade de reagir inclusive fisicamente àquela agressão covarde. Passaram-se os meses, os protestos continuaram, os próprios black blocs assumiram posições mais objetivas; politizaram-se; muitos tiraram a máscara.

Dias atrás, conversei com alguns deles, na Cinelândia. Foi algo chocante vê-los de cara limpa, sem máscara. A máscara e as roupas pretas lhes emprestam uma aura maligna e revolucionária, que atrai os olhares e o interesse de muita gente. Tem inclusive uma energia fortemente sexual, o que explica o interesse de artistas como Caetano Veloso, sempre tão pacato e democrático.

É chocante por ver como o ser humano se transforma com facilidade. Em bandos, mascarados, com adrenalina em alta, os black blocs são terríveis e ameaçadores. Abordados solitariamente, antes das confusões, sem máscara, deparamo-nos com jovens frágeis e incultos da periferia, que estão ali muito mais por instinto do que por ideologia.

Tenho lido longas dissertações sobre a origem do movimento na Europa. Pode ser que a ideia tenha vindo de lá, tudo vem de algum lugar, mas é evidente que o Brasil, como em tudo que faz, reinventa o movimento à sua maneira. Para entender os black blocs do Rio de Janeiro é preciso entender a realidade das periferias.

Talvez aí encontremos uma explicação inclusive para a agressão aos sindicalistas no dia 11 de julho, e à antipatia profunda entre setores da esquerda bon vivant (na qual eu me incluo) e os mascarados. O Rio de Janeiro não é apenas uma cidade dividida entre áreas ricas e pobres. Há uma divisão ainda mais radical e profunda que isso. A periferia do Rio tem regiões que parecem, efetivamente, sobreviventes de uma guerra nuclear acontecida há pouco.

No ano passado, procurando uma gráfica em Bonsucesso, passei pelo Buraco do Lacerda, um mergulhão que passa por baixo de uma avenida. Ruas esburacadas, destroços de prédios, muito lixo por toda parte, bueiros sempre exalando mau cheiro, cracudos desfilando segurando pedaços de pau e pedras. De vez em quando, topa-se com um aglomeração apavorante de crianças, adolescentes e adultos usando drogas numa esquina. Um cenário apocalíptico.

Esse é o Rio de Janeiro que todos tentamos esconder, inclusive eu, blogueiro de esquerda. Porque é um Rio feio, sujo, pobre, fedorento, perigoso, ameaçador.

Alguns anos atrás, Paris e outras cidades da França viveram uma série de grandes revoltas em suas periferias. Também houve muita perplexidade, visto que a França é um dos países com maior rede de proteção social. Os jovens que incendiavam carros e ônibus não passavam fome e tinham acesso a escolas públicas e hospitais de razoável qualidade (o que não é o caso dos subúrbios do Rio). A periferia pobre de Paris é feia como qualquer periferia do mundo, mas infinitamente mais organizada e mais limpa que a do Rio. Não é um cenário desolador. Os projetos de moradia popular são decentes e os serviços funcionam regularmente.

Porque então tanta revolta? Uma das explicações mais frequentes dadas pela riquíssima escola sociológica francesa era que os jovens da periferia viviam uma crise de identidade. Eles não se viam representados politicamente e, sobretudo, não se viam na TV. Sim, uma das conclusões mais repetidas pelos intelectuais era que o jovem francês da periferia, descendente de imigrantes árabes e africanos, não se via representado nos meios de comunicação. Talvez possamos transplantar alguns conceitos para o Brasil.

A revolta desorganizada muitas vezes beneficia grupos conservadores, estes sim muito bem organizados. Após as mencionadas revoltas na França, quem ganhou as eleições foi Sarkozy, que imediatamente tomou medidas ainda mais duras contra pobres e contra periferias; as turbulências estudantis de maio de 68, na mesma Paris, resultaram em muitos anos de conservadorismo político.

Entretanto, isso não é uma lei, até porque não existe esse tipo de lei em sociologia. Tudo pode acontecer. Importante observar que o conceito de periferia é bastante vago no Rio de Janeiro. Temos regiões bonitas e tranquilas nos subúrbios, e outras devastadas em áreas próximas ao centro. Mas as áreas semi-destruídas prevalecem. De qualquer forma, elocubrações acadêmicas não adiantam muito. Urge encontrar uma solução. O Rio precisa de paz, estabilidade, desenvolvimento, justamente para resolver seus gravíssimos problemas políticos, sociais, urbanísticos. O que fazer? Essa resposta talvez se tornasse paradigmática para todo o país.

Sem pretender ser o dono de nenhuma verdade, acho que a resposta tem de se dar, simultaneamente, em dois planos: um deles é o terreno simbólico e midiático. O jovem precisa de uma resposta política, e para isso os governos locais, junto com o legislativo, precisariam ousar mais. Por exemplo, os debates legislativos regionais precisam, urgentemente, ser transmitidos pela TV aberta. Em vez de assistir Malhação ou coisa que o valha, o cidadão fluminense precisa ter acesso ao que vereadores e deputados estaduais estão fazendo.

Só assim, por exemplo, um debate sobre um novo plano de carreiras e salários dos professores poderia ser aprovado ou não pela população. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, afirma que o plano que enviou à Câmara é muito bom, que aumenta salários, etc. O sindicato da categoria diz que não, e apresenta seus argumentos. É preciso deixar a população opinar também. A tática de usar a grande imprensa, com entrevistas da secretária de educação à Veja, cujo blogueiro Reinaldo Azevedo iniciou então uma defesa alucinada da proposta do prefeito, não dá mais resultados. Pelo contrário. A Globo, assustada com o rumo dos acontecimentos, também resolveu se alinhar caninamente a Sergio Cabral. Isso só piora as coisas. A revolta se alastra da política para a mídia.

Os governos tem de acreditar no bom senso do povo, que não é dado ao rancor político. Cabral e Paes foram eleitos com grande maioria de votos, então porque não investem na comunicação direta com o povo, ao invés de correrem para debaixo da saia da Globo?

Sei que é fácil falar. Porém, o pior que se faz é ficar parado. Nenhuma ousadia é fatal, dizia Henry Miller. Toda essa violência tem de ser canalizada para algo positivo. E a solução tem de passar pela democracia e pela política. No auge da crise de junho, Dilma foi a TV e ousou. Sua proposta foi a mais radical possível. Propôs uma assembléia constituinte para fazer uma reforma política. Ela se arriscou. O status quo, incluindo a grande mídia, rejeitou a assembléia constituinte e enterrou mais uma vez a reforma política. Mas a população aprovou a ousadia da presidente. Ela ofereceu alguma coisa. Em seguida, mandou trazer milhares de médicos cubanos para atender a população pobre. A medida é uma resposta concreta, e ao mesmo tempo é uma resposta política. Que respostas Cabral e Paes estão oferecendo à população? Manchetão do Globo sobre a nova UPP no Lins? Depois das notícias sobre o que fizeram a Amarildo de Souza na UPP da Rocinha, não me parece que seja uma ação de impacto. Eu apoio as UPPs, mas não é isso que vai resolver. O próprio Beltrame, desde o início, alertava: tem que investir no social, mais e mais; UPP sozinha não vai adiantar.

E tem a questão da Globo, que também oprime a população. Se Cabral e Paes tivessem investido na democratização da mídia, ajudando rádios e tvs comunitárias, jornais de bairro, isso também lhes ajudaria a enfrentar a crise política atual, porque uma das razões da violência que levam jovens a aderirem a táticas black blocs é a sensação de opressão. Não há nenhum meio por onde se pode protestar contra o governo, a não ser enviando cartinhas para Globo, que não são publicadas, nem lidas na TV. Não digo que essas medidas conteriam os black blocs, mas poderiam minimizar a situação. Por que o sindicato dos professores aceitou a participação dos black blocs? Não seria porque sentiram-se isolados, oprimidos, cercados, pelo governo de um lado, e pela Globo de outro?

Seja como for, Cabral e Paes não tem outra saída a não ser lembrar a lição que Mario, grande liderança da esquerda romana, ensinou a seu sobrinho, Julio Cesar: fique ao lado do povo, é nele que reside a força. Essa lição mudou o mundo, e vale até hoje. Como políticos, ambos sabem dessa verdade, mas a esqueceram enquanto administradores. Uma lei para aumentar impostos dos ricos, e tirar dinheiro e poder da Globo, por exemplo, distribuindo-os aos pobres, teria um grande impacto político junto à sociedade.

A informação de que a Secretaria de Educação da prefeitura tem um convênio com a Fundação Roberto Marinho, pela qual esta última recebe milhões de reais, causou enorme perplexidade e revolta. E revolta é um sentimento que só se expressa em sua plenitude com alguma violência, verbal ou física. Alguns tem condições intelectuais, políticas e mesmo financeiras de expressar sua revolta através de manifestações escritas ou orais.

Outros não. Quem ouvirá um jovem da periferia? Quem lerá seus manifestos? Quando ele se vê na TV, quebrando agências bancárias, incendiando latas de lixo, enfrentando a polícia, ele tem a sensação de que rompeu a dolorosa invisibilidade que a elite pretende lhe impor eternamente. Criar um subúrbio edulcorado, onde a maioria das cenas se passam no interior de uma mansão de um ex-jogador de futebol milionário, como a Globo fez numa de suas novelas, não ajuda muito a reduzir essa sensação de invisibilidade experimentada pelo jovem da periferia.

Como iniciei o texto falando no perigo da revolta no Rio se tornar bíblica, encerremos esta reflexão com um poema sombrio do Velho Testamento.

Abaterei o orgulho dos arrogantes,
e humilharei a pretensão dos tiranos.
(…) Então Babilônia, a pérola dos reinos,
a jóia de que os caldeus tanto se orgulham,
será destruída por Deus como Sodoma e Gomorra.
Nunca mais será habitada,
nem povoada até o fim dos tempos.
(…) as feras terão aí seu covil,
(…) os chacais uivarão nos seus palácios,
e os lobos nas suas casas de prazer.
Sua hora está próxima
e seus dias estão contados.


(Isaías, 13-14)


Sementes terminais: éprácábá!...



Na semana em que se  comemora o Dia Mundial da Alimentação, um fato extremamente grave ameaça a soberania e a segurança alimentar e nutricional na nossa Bananolândia. Trata-se do Projeto de Lei (PL) n° 268/2007 de autoria do Deputado Eduardo Sciarra – PSD/PR, que se aprovado permitirá a produção e comercialização de sementes transgênicas terminais, ou seja, sementes conhecidas como TERMINATOR, que após a colheita não voltam a germinar, obrigando os agricultores a comprar sementes a cada safra e assim se tornar reféns eternos. Essas sementes ainda possuem alto risco de tornar também estéreis as que estejam sendo cultivadas em propriedades próximas por polinização.
O projeto está trâmititando na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJC) na Câmara e já foi aprovado na Comissão de Agricultura, mas recebeu voto contrário da Comissão do Meio Ambiente.
Seria de muito bom alvitre que toda a sociedade se manifestasse junto aos Deputados que compõem a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sobre os gravíssimos riscos da perda de biodiveridade do país e da insegurança alimentar que esse projeto ameaça trazer. 
Já existe  uma campanha organizada por:
ActionAid Brasil
ANA – Articulação Nacional de Agroecologia
AS-PTA
Centro Ecológico
Centro Sabiá
CONTAG
Cooperativa AECIA
Cooperativa Econativa
FASE – Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional
FBSSAN – Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional
FESANS/RS
Grupo ETC
GEA – Grupo de Estudo em Agrobiodiversidade
Movimento dos Pequenos Agricultores
MMTR-NE
MST
Multirão Agroflorestal
Plataforma Dhesca Brasil
Rede de Mulheres Negras para Segurança Alimentar
Rede Ecovida de Agroecologia
Terra de Direitos
Via Campesina Brasil

Contra o Projeto de Lei 268/2007 no Brasil

domingo, 13 de outubro de 2013

Uma caixa preta, muito preta


por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

O que levou um dos principais homens da Receita Federal, Caio Cândido, a sair fora com alarido é ainda uma incógnita. O que é certo é que a Receita Federal tem que passar urgentemente por um choque de transparência. É o interesse público que está em jogo, e ele não pode se subordinar a nenhum outro – sobretudo político. O dinheiro dos impostos constrói – ou não constrói – escolas, hospitais, estradas, portos etc. A sociedade tem que saber mais, muito mais, sobre a imensa caixa preta que é a Receita Federal.

Cândido alegou interferências externas, políticas, destinadas a facilitar a vida de grandes devedores. Que devedores são esses? Quais as supostas facilidades? A sociedade tem que saber.

Num mundo menos imperfeito, a mídia traria um pouco de luz à escuridão fiscal. Mas acontece que a mídia tem sido amplamente beneficiada pelos modos e costumes fiscais brasileiros. Para começo de conversa, elas não pagam imposto sobre o papel que utilizam. É o chamado “papel imune”, uma mamata antiga contra a qual Jânio Quadros tentou em vão se erguer, há mais de meio século.

Fora isso, as empresas de mídia se adestraram no chamado “planejamento fiscal” – uma forma de sonegação dentro de brechas abertas por leis frouxas. “PJs” fajutos – pessoas jurídicas fora da CLT – inundam as redações das grandes empresas.

Qual delas quer mexer nisso?

As companhias jornalísticas brasileiras não têm interesse nenhum num choque de transparência na Receita. Cabe ao governo enfrentar privilégios e mostrar aos brasileiros as entranhas da Receita.

Os protestos de junho demonstraram a insatisfação dos brasileiros com a manutenção de regalias que prejudicam o combate ao mais dramático problema nacional: a desigualdade.

“Planejamento fiscal” é uma praga planetária. A diferença é que em outros países – Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, Itália – o cerco a espertezas é hoje intenso.

A principal forma de combate é, exatamente, a transparência. Na Inglaterra, a Receita local divulgou a miséria que pagaram de impostos britânicos nos últimos anos corporações como Google, Starbucks e Amazon.

Os principais executivos delas, no Reino Unido, foram intimados a dar satisfações no Parlamento. A mensagem foi: se querem estar presentes entre os britânicos, têm que pagar impostos britânicos.

No Brasil, tudo é vedado. Soube-se neste final de semana, pelo jornal mineiro Hoje em Dia, que a Globo recebeu 776 notificações da Receita nos últimos dois anos.

Sabia-se já alguns meses de sérios problemas – fraudes é uma palavra mais adequada — na aquisição dos direitos da Copa de 2002.

Tudo isso ocorre, absurdamente, longe dos olhos da sociedade.

Recentemente, o governo alemão lançou uma ofensiva contra contas secretas no exterior e outras práticas sonegadoras. O presidente do Bayern de Munique, que era visto como um cidadão exemplar, caiu na rede – e está na iminência de ser preso.

“Nenhum país pode dar certo se as pessoas acham que podem se dar bem sonegando impostos”, disse o governo alemão no momento do cerco.

O governo brasileiro deveria dizer o mesmo – e agir.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Fukushima Daiishi e os tomates assassinos

Gado sem dono na cidade de Okuma, em Fukushima, perto da usina nuclear de Daiichi


por Regina Scharf, no Pagina 22

A cidade japonesa de Fukushima, palco do primeiro grande acidente nuclear da era da internet, está envolta em um denso nevoeiro de desinformação. As redes sociais têm circulado imagens de centenas de baleias mortas e tomates monstruosos, e um gráfico em cores vibrantes que indica que a pluma de radiação estaria inundando a Costa Oeste do continente americano. Horrores que seriam decorrentes da explosão em março de 2011.

Nenhum dos três dramas passa pela peneira na hora do vamos ver. A tal mortandade de baleias foi ilustrada com uma foto de cetáceos que encalharam em uma praia da Nova Zelândia um ano e meio antes do acidente de Fukushima. Os vegetais mutantes, como os tomates semelhantes a bolhas de sabão empilhadas, com brotos laterais esverdeados (veja aqui), noticiados até pela rede americana ABC, vieram de uma coletânea de variedades fora dos padrões comerciais.

Segundo o Ministério da Saúde do Japão, das 280 mil amostras de alimentos produzidos nas imediações de Fukushima e avaliados entre abril de 2012 e maio deste ano, apenas 2.300 apresentavam presença de césio 134 ou 137 acima do limite recomendado pelo governo japonês.

Quanto ao gráfico de expansão da pluma de radiação, atribuído à agência americana que acompanha questões atmosféricas, a NOAA: ele foi tirado de contexto. Trata-se, na verdade, de uma projeção da altura das ondas formadas pelo tsunami que levou à explosão de Fukushima. “Graças à diluição, qualquer contaminação no Japão chegaria aos Estados Unidos em um nível abaixo de detecção”, declarou recentemente David Yogi, porta-voz da agência ambiental americana, a EPA. Vários acadêmicos assinaram embaixo.

Por trás dessa cacofonia sem pé nem cabeça há problemas reais que acabam ficando sem audiência porque não vêm embalados em imagens espetaculares, cores berrantes e luzinhas pisca-pisca. A dura realidade não tem o menor sex appeal.

O reator nuclear de Fukushima está longe de estabilizado. No começo de agosto, a autoridade japonesa responsável por questões nucleares admitiu que água altamente radioativa tem vazado da unidade para o Pacífico, criando uma situação de emergência.

A Tepco, operadora da usina, não está conseguindo conter essas perdas e tem tomado medidas meramente paliativas. A empresa mantém cerca de mil tanques de grande porte, mais ou menos improvisados, para estocar água contaminada, que correm risco de sofrer novos vazamentos. De um deles vazaram recentemente 300 toneladas de efluentes radioativos e o problema levou mais de um mês até ser detectado. Também há indicações de contaminação do lençol subterrâneo sob a usina.

O primeiro ministro Shinzo Abe afirmou, no começo de setembro, que está “tudo sob controle” – declaração contestada pela própria Tepco e por grupos de pescadores que continuam impedidos de trabalhar.

Com tantos motivos reais para apreensão, por que as massas preferem se ocupar de lendas urbanas?

A primeira razão é que há interesses envolvidos. No caso específico de Fukushima, a culpa pela desinformação deve ser compartilhada pelo governo japonês, que não prima pela transparência, o lobby nuclear, disposto a defender o seu, e alguns grupos ambientalistas abilolados que vendem seu peixe a qualquer preço. Nos meses que se sucederam à catástrofe, o controvertido Radiation and Public Health Project, uma entidade que bate de frente contra o uso da energia atômica, tentou provar que 14 mil americanos tinham morrido em decorrência de Fukushima. Seu argumento baseou-se no fato de que o número de mortes nos EUA tinha subido 4,46% nas 14 semanas após o acidente, em relação ao ano anterior. Não colou.

A segunda razão é que a complexidade técnica é muita e atordoa quem não tem um ph.D em Física. E a terceira é o nosso enorme apetite por teorias conspiratórias. Segundo uma pesquisa sobre a credulidade dos americanos, feita com 1.247 eleitores em março deste ano, 7% deles não acreditam que astronautas chegaram à Lua e 4% – sim, 4 em cada 100 adultos alfabetizados e bem alimentados – estão certos de que répteis disfarçados de humanos estão tomando o poder no planeta. Claro, o preço dessa ingenuidade é alto.

Dispensável lembrar que os céticos vêm barrando os esforços para frear o aquecimento global há duas décadas. Ou que as incautas vítimas do chamado Golpe Nigeriano – atraídas por um email que promete o repasse da fortuna deixada por um finado general africano – perderam US$ 9,3 milhões em 2009, segundo um dos raros levantamentos sobre esse tipo de conto do vigário. E ingênuos somos todos – ao menos quando anestesiados pelo Facebook.


Marina, Caiado e os sonháticos: sem constrangimento nenhum!...


por Altamiro Borges, em seu blog

Nem os “sonháticos” da Rede sonhavam com esta possibilidade. O ruralista Ronaldo Caiado, líder do DEM na Câmara Federal, declarou o seu apoio entusiástico à aliança entre a "verde" Marina Silva e o governador Eduardo Campos. O demo já havia embarcado na canoa do cacique do PSB em Goiás e briga para que o seu partido o apoie nacionalmente. Pragmático, ele festejou a adesão da ex-rival ambientalista. “Marina prega ética e transparência, o que combina com minha biografia”, afirmou ao blog da jornalista Fabiana Pulcineli, hospedado no jornal goiano O Popular.

Na maior caradura, o líder dos ruralistas - famoso pelas práticas violentas dos seus jagunços - ainda pregou que “o momento é de equilíbrio. Temos de acabar com esse maniqueísmo. Não há motivos para queda de braço. Nós não vamos disputar com a Marina nem ela conosco... Não tenho preconceito para debate. É momento de diálogo e de se estabelecer pontos de concórdia. Quem gosta de cizânia e de satanizar produtores rurais é o atual governo”.

Criador da reacionária União Democrática Ruralista (UDR), que defende os interesses do latifúndio e rechaça a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) contra o Trabalho Escravo, Caiado agora propõe “acabar com o maniqueísmo” e “estabelecer pontos de concórdia”. Será curioso vê-lo ao lado de Marina Silva nos palanques de Eduardo Campos. A ex-verde – que se arrogava defensora do “novo na política” e do fim das alianças espúrias e pragmáticas – também terá outras companhias inóspitas e constrangedoras na campanha presidencial de 2014.

Bornhausen: a “velha política”

Paulo Bornhausen, secretário de Desenvolvimento Econômico Sustentável de Santa Catarina e filho do prócer das hostes Arenistas/Pefelê, Jorge Bornhausen – um dos símbolos do conservadorismo no país – também comemorou a filiação de Marina Silva ao PSB. “Em nível estadual, pouco muda com sua vinda. Já no nível nacional, uma terceira via se fortalece. Iremos trabalhar para que a disputa não fique polarizada entre PT e PSDB, como sempre esteve nos últimos anos. A ideia é apresentar uma alternativa, uma via que se diferencie dessa velha política que os dois partidos estão fazendo”.

“Constrangidos” e “desolados”

Diante destas curiosas parcerias não é de se estranhar que muitos “sonháticos” da Rede, que não conseguiu a sua legalização, estejam acuados. Segundo a Folha desta terça-feira, eles “reagiram mal à notícia de que Marina Silva se filiaria ao PSB. Em mensagens trocadas no final de semana, antes da entrevista coletiva que a ex-senadora deu ao lado do governador Eduardo Campos (PE), integrantes do grupo que coordena a Rede em São Paulo se disseram ‘constrangidos’ e ‘desolados’ com a filiação”.

Coordenadores chegaram a chamar a migração de ‘volta à velha política’ e disseram que o fato de terem começado a discussão sobre um futuro sem a Rede era por si só uma situação ‘vexatória’. Outros defenderam a ‘purificação’ da sigla. Mesmo os que apoiaram a aliança nacional entre os dois partidos disseram ver obstáculos ao acordo em São Paulo”. Marina Silva, que passou mal na segunda-feira e foi levada a um pronto-socorro de Brasília, ainda não conseguiu convencer os seus fieis seguidores.

Sonháticos e pragmáticos

Ainda é cedo para saber quais os efeitos da exótica aliança. Eduardo Campos festeja a adesão e Marina Silva garante que a aliança criará uma terceira via capaz de enfrentar o “chavismo petista”. Mas até colunistas da mídia famosos por sua militância oposicionista estão perplexos. Eliane Cantanhêde, a da “massa cheirosa”, questiona se dará certo o casamento entre “os sonháticos e os pragmáticos”. Para a “calunista” da Folha, “do ponto de vista dos votos, ou da aritmética, pode haver uma soma zero, pois o resultado não parece aumentar a hipótese de segundo turno".

O desafio de Campos e Marina, a partir do anúncio de sábado, é somar suas forças, não subtrair uma da outra. É unir o sonho da Rede (que não está morta...) ao pragmatismo e à bandeira da eficiência dos apoiadores de Campos. Ou os votos dos sonháticos urbanos, indigenistas e ambientalistas aos de pragmáticos como Jorge Bornhausen, criador do PFL e do DEM, e Ronaldo Caiado, líder ruralista. A força de Marina tem de atrair o seu eleitor para o desenvolvimentismo de Campos. E Campos tem de convencer o seu de que sustentabilidade não é atraso”, conclui a tucaninha.

A flexibilidade circense na política


Já o jornalista Jânio de Freitas, com posições mais independentes, duvida do sucesso da empreitada:
Tudo indica que Marina Silva e Eduardo Campos voltaram os olhos para o futuro e viram apenas um momento do presente. Em um só lance, os dois plantaram fartos problemas para a sua adaptação mútua, em meio a igual dificuldade de seus grupos. Políticos costumam ter flexibilidade circense, mas não é o caso, por certo. Bem ao contrário”. Para ele, a tendência é que aflorem fortes tensões na surpreendente aliança logo que saírem as primeiras pesquisas eleitorais.

Os seguidores de Marina nem esperam por próximas pesquisas, já entregues à campanha pela cabeça da chapa. As simpatias dos dois grupos vão mostrar o que são, de fato, quando se derem as verdadeiras discussões sobre liderança, temas de campanha, respostas às cobranças do eleitorado, a batalha. A história das eleições, mesmo a recente, já legou exemplos suficientes de que acordos, garantias, alianças e comunhões são passíveis de também desmanchar-se no ar. É só bater um ventinho mais conveniente para um dos lados”. A conferir!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Isto é incrivel: a Folha de São Paulo publicar uma coisa assim...



por Luiz Carlos Bresser-Pereira, na Folha de São Paulo (vixe, vixe, isso aqui?...)



Nestes últimos meses vimos a direita recuperar o dom da palavra. Em 2002 ela se apavorara com a perspectiva da eleição de um presidente socialista. O medo foi tanto e contaminou de tal forma os mercados financeiros internacionais que levou o governo FHC a uma segunda crise de balanço de pagamentos.

O novo presidente, entretanto, logo afastou os medos dos ricos que então perceberam que não seriam expropriados. Pelo contrário, viram um governo procurando fazer um pacto político com os empresários industriais e que não hostilizava a coalizão política de grandes e médios rentistas e dos financistas.

Por outro lado, o novo governo de esquerda pareceu haver logrado retomar o crescimento econômico, ao mesmo tempo que adotava uma politica firme de distribuição de renda. Na verdade, beneficiava-se de um grande aumento nos preços das commodities exportadas pelo país, e da possibilidade (que aproveitou de forma equivocada) de apreciar a moeda nacional que se depreciara na crise de 2002.

Lula terminou seu governo com aprovação popular recorde, e com a direita brasileira sem discurso. Deixou, porém, para sua sucessora, a presidente Dilma, uma taxa de câmbio incrivelmente sobreapreciada, que, depois de haver roubado das empresas brasileiras o mercado externo, agora (desde 2011) negava-lhes acesso ao próprio mercado interno.

Sem surpresa, os resultados econômicos dos dois primeiros anos de governo foram decepcionantes. E, no seu segundo ano, foram combinados com o julgamento do mensalão pelo STF, transformado em grande evento político e midiático.

Com isto o governo se enfraqueceu, e a direita brasileira recuperou a voz. Mas uma voz vazia, liberal e moralista. Liberal porque pretende que a solução dos problemas é liberalizar os mercados ainda mais, não obstante os maus resultados que geraram. Moralista porque adotou um discurso de condenação moral de todos os políticos, tratando-os de forma desrespeitosa, ao mesmo tempo que continuava a apoiar em voz baixa os partidos de direita.

Quando, devido às manifestações de junho, os índices de aprovação da presidente caíram, a direita comemorou. Não percebeu que caíam também os índices de aprovação de todos os governadores. Nem se deu conta de que a presidente logo recuperaria parte do apoio perdido.

Quando o STF afinal garantiu a doze dos condenados do mensalão um novo julgamento de alguns pontos, essa direita novamente se indignou. Agora era a justiça que também era corrupta.

Quando o deputado José Genoino (condenado nesse processo porque era presidente do PT quando as irregularidades aconteceram) manifestou o quanto vinha sofrendo com tudo isso --ele que, de fato, sempre dedicou a sua vida ao país, e hoje é um homem pobre--, essa direita limitou-se a gritar que o Brasil era o reino da impunidade, em vez de perceber que o castigo que Genoino já teve foi provavelmente maior do que sua culpa.

Os países democráticos precisam de uma direita conservadora e de uma esquerda progressista. Mas cada uma deve ter um discurso que faça sentido, em vez do mero moralismo que a direita vem exibindo.