* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

E tem gente que ainda assina essa merda de jornal!...


adaptado dos blogs Cidadania e Tijolaço


FOLHA DE SÃO PAULO

26 de dezembro de 2001

Comércio de São Paulo “festeja” queda de 2% nas vendas

Para quem esperava uma queda nas vendas de até 5% em relação a 2000, o Natal deste ano foi bom. A avaliação é do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti, ao prever que as vendas foram 2% menores do que as registradas no ano passado. (…)

*

Que gracinha, né?

E aí, quando registramos o melhor Natal da nossa história, a manchete da Folha na primeira página é essa:





Mais engraçado que isso só as análises de um tal Sardemberg ou uma Miriam Leitão.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Por que as pessoas querem ouvir Francisco e não querem ouvir Aécio



por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo
 

Duas pessoas querem conversar. Uma se chama Francisco. A outra se chama Aécio. 

Francisco fala da desigualdade que aflige o mundo. Critica a ganância que leva tão poucos a terem tanto. Defende os pobres incondicionalmente. Fica claramente feliz quando está no meio deles. A defesa entusiasmada e intransigente dos pobres fez de Francisco, para muitos, a personalidade mais fascinante do mundo, no pouco tempo que a humanidade teve para conhecê-lo. Levou também a ataques por parte dos que defendem a iniquidade. A direita americana chamou Francisco de marxista.

Francisco disse que não é marxista, e de fato seria curioso um papa adotar o marxismo, uma doutrina que diz que a religião é o ópio do povo. Mas disse com amor, como sempre: Francisco afirmou que tem amigos marxistas, e que são em geral boas pessoas.

Por tudo isso, todo mundo quer ouvir a voz de Francisco por um mundo novo.

E então vamos a Aécio - Ele quer conversar com os brasileiros, como disse este ano. Vamos ver o que ele tem a dizer:

Numa entrevista a uma rádio de Pernambuco publicada ontem pelo site do PSDB, Aécio falou de sua visão de futuro. Ele estava numa região que é o símbolo da iniquidade brasileira. O Nordeste foi tratado, ao longo dos séculos, a pontapés pela elite sulista brasileira.

Mas ele não falou de desigualdade. Não falou dos pobres. Não falou da ganância. Não falou que é triste o mundo tão iníquo. Em vez disso, Aécio prometeu um governo mais enxuto e mais eficiente.

A agenda mundial é a iniquidade. Não é só o papa que retrata isso. Em Nova York, o candidato que se elegeu prefeito com uma vitória esmagadora centrou sua campanha nisso. Falou que não pode haver tantos pobres em Nova York. Abraçou-os. Tomou o lado deles contra Wall Street e sua plutocracia predadora. E teve uma das vitórias mais acachapantes da história de Nova York. Isso em Nova York. 

Ao povo sofrido do Nordeste brasileiro, Aécio fala de um governo mais enxuto. E quer ser ouvido. Fala também de um ética. Como se 2013 não tivesse terminando sem que os brasileiros nada soubessem sobre a meia tonelada de cocaína apanhada num helicóptero de uma família amiga dele, os Perrellas. Como se seu partido não estivesse no meio de um formidável escândalo ligado a propinas no Metrô de São Paulo.

Tudo isso posto, todo mundo quer ouvir Francisco. Tudo mundo quer falar com ele.

E ninguém parece muito interessado na conversa que Aécio propôs.

Entendamos. Se Francisco tivesse proposto um Vaticano “mais enxuto e mais eficiente” ele estaria falando sozinho, como tantos papas antes dele. Estaria numa solidão patética, como Aécio no Brasil com uma conversa que mostra uma desconexão total com a realidade.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Nossa, que raro hoje em dia ler um texto tão lúcido!...






mais um opúsculo do queridinho deste blog, Mauro Santayana



Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida, muitos marxistas que eram boas pessoas.

A declaração do Papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.

A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo – no Brasil, particularmente, está ficando “chic” ser de extrema direita – baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.

Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, “Museus do Comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, cem milhões de mortos ao comunismo.

Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os Alemães e seus aliados perderam 850 mil homens e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho – que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil – a Alemanha Nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.

Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece que, sem a heróica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética – que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes – boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.

Espalha-se, na internet – e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso – que o Golpe Militar de 1964 – apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos – foi uma contra-revolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do estado de direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck Presidente da República em 1965.

1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais (militares de alta patente) – não todos, graças a Deus – golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.

Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do Papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras – e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo cultural” – representam um apelo à razão e um alento.

Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano.

Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Onde isso tudo vai levar?...



adaptado de um arrazoado de Dom Cristovão, no blog do Professor Hariovaldo

Tudo leva a crer que Frau Ánguela Mérql foi comprada com petrodólares bolivarianos vindo em caixas de visqui diretamente de Cuba, e está conduzindo a Alemanha a uma ditadura bolivariana com forte intervenção estatal na economia.

O primeiro sinal foi o endosso à indignação da búlgara usurpadora do planalto tupiniquim, contra o sistema de inteligência dos irmãos do North. Quem pode ser contra a inteligência? Apenas os bolcheviques!...

Agora uma de suas empresas de ponta, que nunca d'antes na história teve interesse neste país, começa a disseminar textos propagandísticos que contradizem tudo aquilo que é arqui-sabido pelos leitores de nossa Proba Imprensa Gloriosa - PIG.

Estarão eles tão mal informados sobre a terrível crise pela qual passa nesta terra esquecida pelo Senhor?... É possível, considerando que o mago do ilusionismo, o Molusco exilado de Garanhuns, continua à solta, viajando por todo o mundo falando bem deste bananal. Mas também é possível que o vírus do lulopetismo já tenha infectado de maneira irrecuperável o coração da Europa.

Nossa única esperança é uma intervenção militar com apoio da 4ª Frota dos EUA, com a imediata deposição de Dilma e indicação de Dom Chirico de Alagón e Bragança para presidente dos Estados Unidos do Brazil.

Eu já doei minha BMW XGT, modelo 2013, ao guardador de carros aqui da rua. Não quero ser confundido com a gentalha...

Que São Serapião nos ajude a enfrentar esta tormenta e retornar aos gloriosos tempos de FHC!...

Modelo adequado para o populacho bananeiro





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pantomima II - O capanga da Globo no judiciário



por Miguel do Rosário, no O Cafezinho


Ao produzir um espetáculo midiático grotesco para encarcerar os réus petistas, Joaquim Barbosa trouxe instabilidade ao sistema prisional do Distrito Federal. E agora, a Globo, por incrível que pareça, mais uma vez coloca a culpa na… petralha!...

Reportagem do Globo diz que a tensão na Papuda é causada, “principalmente em razão das regalias concedidas a eles pela administração penitenciária. Entre esses privilégios estava um dia especial de visitas, medida derrubada pelos juízes substitutos da VEP.”

A alquimia da mídia é uma coisa extraordinária. Jamais na história do Brasil, presos foram tão enxovalhados, de maneira tão sensacionalista. Ao mesmo tempo em que agredia a imagem dos presos de maneira espetacular, a mídia divulgava sobre supostos “privilégios” dos réus. Ao fazer isso, gerava mais animosidade contra réus já encarcerados. Animosidade em setores da opinião pública e junto aos próprios presos. Ou seja, é o privilégio de ser linchado… com risco, inclusive, de ser linchado fisicamente dentro da prisão. Que privilégio!

E agora, o Globo dá uma manchete sensacionalista, chamando para uma matéria na qual procura, inacreditavelmente, pôr a culpa de uma eventual rebelião dos presos da Papuda nos… réus petistas. Ou seja, os caras estão dentro de uma cela, sem privilégio nenhum, sendo enxovalhados dia e noite pela imprensa, e agora são novamente condenados por uma rebelião que sequer aconteceu, uma rebelião talvez apenas inventada por um judiciário posto em crise pelo despotismo insano de Joaquim Barbosa. Os serviços de inteligência do Distrito Federal não identificaram risco nenhum de “rebelião” na Papuda, mas a mídia é capaz de promover uma, já que os presos acabam tendo acesso às notícias.

O único “privilégio” dos presos petistas era receber visitas na sexta-feira, o que foi uma medida do presídio para dar conta das caravanas de parlamentares, ministros e autoridades dispostas a visitar os presos políticos do mensalão. Como policiais presos recebem visitas num dia especial, a administração da Papuda tomou uma medida similar em relação a presos envolvidos num caso que ainda provoca, para um lado e para outro, grande comoção nacional. Não era “privilégio”. Era sensatez.

Na verdade, a Globo, com ajuda de seu mais novo capanga no judiciário, Joaquim Barbosa, resolveu adotar o estilo de sequestradores barra-pesada. Os réus petistas se tornaram reféns da mídia. Se o governo não ceder aos interesses dos barões, a mídia irá torturá-los lentamente, até o fim dos tempos.

O governo está numa situação complicada, porque à mídia interessa produzir crise institucional. Ela quer provocar Dilma e o governo a cometerem qualquer deslize para pedirem um impeachment, ou, na falta disso, constrangê-la. O artigo de Miriam Leitão, na semana passada, dizendo que Dilma “enfraqueceu a democracia” ao estar presente em evento do PT onde o STF foi duramente criticado, tem esse sentido. As redes sociais do PSDB reproduziram o artigo de Miriam Leitão freneticamente.

Só que as crises passam, e tudo que temos visto agora será cobrado. Os golpistas não perdem por esperar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As invasões de Xópe... "Rolezinho"!... então a coisa está assim:



por Mauro Donato, no Diário do Centro do Mundo

Quando milhares de jovens da periferia “invadem” um shopping center, como ocorrido recentemente no Shopping Itaquera e neste último final de semana no Shopping Internacional de Guarulhos, o recado a ser compreendido é o oposto do que a média da opinião pública formula.

Eles não invadiram os shoppings para demonstrar sua raiva contra o capitalismo, combater a sociedade de consumo ou qualquer outra panfletagem. Nada disso. Antes, são adoradores do funk ostentação, desejam os mesmos bens materiais utilizados pela elite, muitos deles inclusive calçavam tênis de mil reais e bonés que custam inexplicáveis 200 paus (um boné!!). São pessoas que querem ostentar luxo da mesma maneira que a madame faz, diga-se.

As invasões em massa nesses centros aglutinadores da classe média têm o objetivo de alertar para algo muito mais profundo do que apenas “zoação”, ou “tocar o terror”. Sempre discriminados, o que esses jovens desejam é ser aceitos nesses guetos brancos, limpos, cheirosinhos, seguros e com ar condicionado. Ao contrário do que pensa a maioria, não estão invadindo para roubar. Querem mostrar que gostariam de estar invadindo para comprar, gastar. São fãs do falecido MC Daleste e sonham com relógios dourados, carros caríssimos, grifes exclusivas, champanhe e camarote.

Por que esse comportamento na pele de um jovem negro de periferia é sinônimo de mau gosto, de vazio, de futilidade, mas na carcaça lipoaspirada da madame é símbolo de status e poder? Eu não vejo nenhuma diferença.

Vestindo grifes que são vendidas nos mesmos shoppings invadidos, a única diferença entre esses jovens e as madames é a cor da pele. E o tratamento ao qual estão sendo submetidos diante dos olhos de todos, com fotos nos jornais de seguranças privados apontando armas de fogo contra meninos negros nas praças de alimentação desses locais, nada mais é do que uma ampliação daquilo que é realizado silenciosamente todos os dias, há décadas.

O mundo está ao contrário e essas pessoas e corporações não repararam. O jovem universitário, “bem nascido”, morador de Pinheiros, está morando em ocupações, brigando por melhorias nos serviços públicos, lutando ao lado de desabrigados e questionando a ganância e especulação imobiliária ao passo que o morador de Itaquera quer finalmente colocar as mãos nos objetos que durante toda a vida representaram o obstáculo para sua aceitação na sociedade. “Se o que me diferencia do outro é o quanto ele tem e eu não tenho, então agora posso comprar também.” Mas o tratamento dado a ele é diverso, é repressivo, é preconceituoso. Ao entrar na loja, será perseguido pelo segurança, receberá o desdém da vendedora, enfrentará olhares cínicos dos demais “consumidores”.

Se ele hoje está sendo expulso do shopping na base da pura segregação (pois em nenhuma das invasões ocorreu nenhum furto nem qualquer outra atitude ilícita que justificasse o cartão vermelho), não há absolutamente nenhum fato novo. As únicas diferenças são a quantidade de expulsos ao mesmo tempo e o detalhe que agora todos estão vendo isso na TV. Horrorizados, claro.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Transformaram Mandela numa boneca Barbie




por  Greg Palast no Truthout -  tradução de Ana 
Amorim


Eu não aguento mais.... a semana inteira assisti Nelson Mandela ser reduzido a uma boneca Barbie. Da empresa de notícias Fox até a família Bush, os políticos e especialistas de mídia que bloquearam o Movimento anti-Aphartheid e que não tiveram problema nenhum em manter Mandela por detrás das grades por 27 anos, vestem hoje a sua imagem da maneira que lhes é mais conveniente.

Pobre Mandela. Se não é uma boneca, é uma estátua. Ele se junta agora a Martin Luther King como outro monumento em bronze cuja função é nos dizer que o Aphartheid foi “derrotado” - citando a ridícula manchete doTimes (NYT).

É mais nauseante do que hipocrisia e ignorância. A Barbie Mandela veste uma nova versão do racismo, Apartheid 2.0, que esta piorando tanto na África do Sul como nos Estados Unidos.

A classe dominante cria bonecos comemorativos e estátuas de revolucionários como forma de nos dizer que as suas causas estão ganhas, e portanto podemos ir para casa.

Por exemplo, alguns meses atrás, a Suprema Corte dos Estados Unidos anulou o Ato dos Direitos ao Voto, o maior feito do Martin Luther King, sob a alegação enganosa de que, “evasões discriminatórias flagrantes são raras”, e assim, as práticas eleitorais Jim Crow agora foram “erradicadas.”

“Erradicada?” Em que planeta? A última movimentação dos Republicanos da Flórida para remover 181.000 eleitores de cor – assim como o mau cheiro das favelas de Cape Town – deixam claro que nem Jim Crow, nem o Apartheid foram derrotados. Eles apenas se retiraram temporariamente.

Aliás, os nosso superiores nos EUA e na Europa declararam que King acabou com a segregação, Mandela derrotou o Apartheid; e portanto, as novas vítimas da injustiça racial deveriam calar a boca e deixar de se lamentar.


O homem que andou lado a lado de Mandela

Para substituir os Mandelas de plástico e metal por um de carne e osso, eu conversei com Danny Schechter, um reporter que conheceu Mandela pessoalmente, e mais profundamente, do que qualquer outro jornalista norte-americano.Um dos grandes de sua geração, Schechter produziu o  South Africa Now, um programa semanal para a estação de televisão PBS, de 1988-91, trazendo a causa de Mandela para os norte-americanos estupidificados e entorpecidos pela isca vermelha de Ronald Reagan.

Schechter acaba de completar a difícil tarefa de produzir o documentário oficial que se faz par à versão de Hollywood da vida de Mandela,  Long Walk to Freedom [Longo Caminho para a Liberdade]. O filme ficcional é sobre triunfo e perdão. O documentário de Schechter,  Inside Mandela [Mandela Confidencial], oferece muito disso, mas conhecendo Mandela, Schechter inclui a raiva, o desespero e o seu legado magoado: uma África do Sul corroída e ainda dominada pelo brutal apartheid econômico.
Hoje, uma família branca média possui quatro vezes mais renda do que uma família negra. Bem vindos a “liberdade.”

A imprensa dos EUA e Europa se concentraram na santificada habilidade de Mandela em solenemente abdicar da amargura e de todo desejo de vingança, e pelo seu perdão aos seus captores, semelhante a Jesus. Isso para assegurar a todos nós que “bons” revolucionários são aqueles que não responsabilizam ninguém por assassinatos, pilhagens, e horrores cobertos de sangue – ou exigem compensações. Esse é o Mandela vestido como Mahatma Gandhi – dando a outra face para bater, e beijando os seus carcereiros.

Schechter não brinca com bonecos mamulengos. Ele conheceu a Mandela pessoalmente - e Mandela como sendo um dentre um grupo de líderes revolucionários.

O círculo de Mandela sabia: Você não pode perdoar aqueles que você derrota até você derrotá-los. E apesar de todo o alarido, Mandela não derrotou o apartheid somente usando sua simpatia.

Nos anos 80, diz Schechter, os brancos sul africanos enfrentavam a seguinte dilema: Os cubanos derrotaram as tropas Sul Africanas na vizinha Angola estavam agora prontos para se mover para a África do Sul. Os vietnamitas que haviam derrotado o poderoso EUA estavam aconselhando as forças militares da ANC, sob comando de Mandela.

E assim, enquanto Mandela estendeu uma mão perdoando – na outra mão ele segurava Umkhonto we Sizwe, a lança no coração do apartheid. E os companheiros de Mandela deram um nó: um embargo internacional, embora permeável, que sitiou a economia sul-africana.

Vendo as inscrições na parede (e pressentindo o seu sangue no chão), os cartéis do ouro e diamante de propriedade dos brancos, a Anglo-American e DeBeers, apoiadas pelo Banco Mundial, vieram até Mandela com uma barganha: os negros africanos poderiam ter o poder de voto... mas não o poder econômico.

Mandela escolheu apertar a mão de seu demônio e aceitou a continuação do apartheid econômico. Em troca por salvaguardar os interesses do diamante e do ouro e proteger o controle da propriedade da terra, das minas e dos negócios pelos brancos, ele obteve a concessão da presidência, ou pelo menos o título e o escritório.

Foi uma barganha que fez sangrar o coração de Mandela. Ele enfrentou a ameaça direta de um embargo do capital, e tendo presente a sujeição sofrida pelo seus aliados Cubanos sobre a nacionalização dos recursos, Mandela engoliu o veneno com um sorriso forçado. Sim, uma nova classe média negra sul-africana recebeu uma fatia do “bolo” mineral, mas isso só muda a cor da mão que segura o chicote.

1% do Arco-Íris

No final, todas as revoluções representam uma coisa: os 99% versus o 1%. O tempo e a história podem mudar a cor do aristocrata, mas não a sua ganância, contra a qual Mandela parecia quase totalmente impotente.

Então a vida de Mandela foi em vão, a sua história de vida uma fraude? De forma alguma. Nenhum homem só é uma revolução.
Temos muito a aprender de uma ampla perspectiva da história de Mandela, de sua tão louvada compaixão pacífica assim como a sua muito acobertada determinação fria e cruel. A rachadura da parede da prisão do apartheid, o fim da guerra racial, se ainda não é uma paz racial, é um feito real de Mandela – e de seus companheiros revolucionários – cujos nomes em sua maioria nunca serão escritos em bronze.

Lendo o novo livro de Schechter Madiba A to Z: The Many Faces of Nelson Mandela (como Mandela é conhecido pelos negros Sul Africanos) e vendo o filme, não feito por Hollywood, de Schechter, fica uma forte impressão: De Moisés a Martin e Mandela, os nossos profetas nunca atingem a Terra Prometida.

Isso deverá ser realizado por nós. O caminho é longo. Comecem a andar.




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Arte

Carpe diem




alegoria pensada por Francisco A. Lisboeta, in blog do Professor Hariovaldo


Quando Cabral deixou os ares por mares nunca d’antes navegados e comprou 300 passagens primeira classe, com direito a água, na TAP (Te Alçamos ao Paschoal), um marinheiro ex-perto, do alto do Morro d’Ajuda, profetizou e teve suas palavras repercutidas no PIG (Portugas In Gotas): “Vai dar merda!” Mas as trocaremos por Incenso da Bahia, Ouro das Minas e Mirra dos Bandeirantes (penso que isso tem outra história, mas no momento não estou a recordar qual seja embora tenha a ligeira impressão que também deu fezes.)

É só conferir a reportagem do Orgástico daquele 21 de abril de 1500, três meses após o carnaval, onde o repórter PVC (Paulo Vinicius Coelho não, ele nega.) é o Pero Vaz de Caminha, ganhador de quatro prêmios Isso e cinco prêmios Aquilo e embora também negue, é freqüentador assíduo da IC (Ilhas de Caras), escreveu profeticamente, com o patrocínio oficial das Igrejas, Associação dos Militares de Pijama e da Associação Comercial, Industrial & Mídia e demais coisas afins que forçou o STF (Somos Todos Fódas) a custear-lhe as passagens e demais despesas tascou:

Abonado El Rey,

Escrevo essas mal traçadas linhas para reivindicar 501 anos de vitalícios empregos bem remunerados.

  • Os direitos de exploração dos minérios, rios e cascatas e sistemas bancários.
  • Os direitos federativos do Ney-mar, Didi, Pelé, Pepe, Tostão e Rivelino e todos os derivativos que deles vierem (Arenas, transporte, imagens, vestuários e todas as aplicações financeiras decorrentes).
  • Direitos sobre a prostituição, trafico (drogas e pessoas) e associação na fronteira dos Guaranis e das Pontes Pretas.

Como medida cautelar dessa missiva 470 rogo-lhe indulgências antecipadas, alforrias para as escolas de samba, perdão das dividas trabalhistas dos clubes de futebol e seus dirigentes, decapitação e degredo para os comunistas e esquerdizantes em geral, miopia para nossa justiça e imprensa e a doação, para o meu nome, das terras de Santa Cruz demarcadas pela FUNAI e Latifundiários da pequena extensão que vai do Oiapoque ao Arroyo Chuí.

Esperando que tenhas desfrutado das quatro galés que lhe enviei cujo conteúdo por parecer bajulação e compra de votos deixo de discriminar, suplicando que deixes pelos menos umas quatro mulatas sargentelícas para meu sobrinho após seu gaudio e refestelado gozo,

Teu sempre,

Caminha
.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pantomima: O bufão vazador



adaptação botocuda de original de Conceição Lemes, no Viomundo



PROLOGO

O artigo 5° da Constituição do Brasil de 1988 diz:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

O seu parágrafo X especifica:

são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

O artigo XII da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948, assevera:

Ninguém será sujeito a interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Todo homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

O Código Penal Brasileiro, 1941, em relação à violação do Segredo Profissional, artigo 154, estabelece:

Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem: sujeito a Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

No mesmo sentido, a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, do Ministério da Saúde, 2011, em seu artigo 5º, determina:

Toda pessoa deve ter seus valores, cultura e direitos respeitados na relação com os serviços de saúde, garantindo-lhe:

II – o sigilo e a confidencialidade de todas as informações pessoais, mesmo após a morte, salvo nos casos de risco à saúde pública;


O artigo 73 do novo Código de Ética Médica 102, do Conselho Federal de Medicina (CFM), veda ao médico:

Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.

Parágrafo único. Permanece essa proibição: a) mesmo que o fato seja de conhecimento público ou o paciente tenha falecido; b) quando de seu depoimento como testemunha. Nessa hipótese, o médico comparecerá perante a autoridade e declarará seu impedimento; c) na investigação de suspeita de crime, o médico estará impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo penal.


Apesar de toda a legislação, códigos e diretrizes, seduzidos pela mídia, médicos, especialmente de famosos, de vez em quando quebram em off o sigilo profissional e atropelam direitos de seus pacientes, violando a Constituição e o Código de Ética Médica.

Em 32 anos como repórter de saúde e medicina eu vi isso acontecer várias vezes. Algumas emblemáticas.

Uma delas, com o ex-governador de São Paulo, Mário Covas, morto em 2001 por um câncer de bexiga. Diferentemente do que fez o ex-presidente Tancredo Neves, falecido em 1985, Covas exigiu que a população fosse informada claramente sobre a sua doença. Porém, provavelmente alguém da equipe médica que o tratava no Instituto do Coração (Incor-SP) passou da conta. Através da imprensa e não pelos seus médicos, ele descobriu que tinha metástase na meninge. Isso nunca poderia ter acontecido. Ele deveria sido o primeiro a ser informado.

Em maio de 2011, o prontuário médico da presidente Dilma Rousseff, com todas as informações sobre a sua saúde, foi vazado para revista Época.

Embora Dilma tivesse sido bastante transparente em relação aos seus diagnósticos e tratamentos, inclusive a respeito de seu linfoma, em 2009, alguém do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, se prestou a fazer o trabalho sujo. O “serviço” pode ter sido feito até por um médico para cair nas graças do jornalista e, depois, no futuro, ser recompensado com espaço na publicação.


2º ATO

Nas três últimas semanas, o alvo tem sido José Genoino, ex-presidente do PT e um dos réus da Ação Penal 470, o chamado mensalão. Os seus direitos enquanto paciente estão sendo acintosamente violados. Nem o Champinha, que,em novembro de 2003, matou um casal de namorados em São Paulo, teve seus dados médicos tão expostos na mídia.

Condenado a 6 anos e 11 meses em regime semiaberto, Genoino, em 15 de novembro, apresentou-se em São Paulo para ser preso, sendo transferido para Brasília, no dia seguinte.

Com histórico de hipertensão arterial, submetido à cirurgia para tratar dissecção da aorta (julho de 2013) e acidente vascular cerebral (agosto de 2013), Genoino passou mal durante o voo. A sua pressão arterial subiu, teve palpitações e dores no peito. Isso levou-o a pedir prisão domiciliar.

Em 21 de novembro, voltou a passar mal e foi levado do Complexo Penitenciário da Papuda para o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, onde ficou internado por três dias.

Desde a manhã de 24 novembro, Genoino está em prisão domiciliar na casa de uma filha residente em Brasília. Aí, aguarda a decisão definitiva do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, sobre o pedido de prisão domiciliar.

Durante esse período, Genoino passou por três juntas médicas oficiais:
  • A primeira, por solicitação da Vara de Execuções Penais, foi realizada em 19 de novembro por uma equipe de médicos legistas do Instituto de Medicina Legal da Polícia Civil do Distrito Federal.
  • A segunda, determinada pelo ministro Joaquim Barbosa, foi feita em 23 de novembro, por profissionais da Universidade de Brasília (UnB), quando ele já estava de alta hospitalar.
  • A terceira, em 25 de novembro, foi realizada por médicos do Serviço de Perícia Médica da Câmara dos Deputados.

Genoino teve conhecimento dos laudos das perícias da UnB e da Câmara dos Deputados pela mídia. Só depois teve acesso oficialmente a eles.

O da Câmara foi divulgado às 16h, em coletiva à imprensa. Genoino só foi recebê-lo às 19h.

O laudo da UnB foi vazado para a imprensa por um dos integrantes da junta médica ou, quase certamente, por baixo no próprio STF.

Em nenhuma das situações, Genoino foi consultado previamente se autorizava ou não a publicização deles.

– Nós não divulgamos laudo–, respondeu-me a assessoria de imprensa do STF quando, nessa terça-feira 10, perguntei pelo do ex-deputado Roberto Jefferson, delator do mensalão.

3º ATO

Condenado a 7 anos e 14 dias de reclusão em regime semiaberto, Jefferson pediu para cumprir a pena em casa devido à fragilidade da sua saúde.

Por ordem do ministro Joaquim Barbosa, ele passou por perícia médica, realizada por especialistas do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

O laudo da perícia, segundo a assessoria de imprensa do STF, foi encaminhado a Barbosa no dia 5, quinta-feira. A primeira notícia sobre ele foi divulgada pela Globo News no domingo, 8. Informou que não foi encontrada “qualquer evidência” do câncer do qual ele se tratou após a retirada de um tumor no pâncreas em 2012.

4º ATO

Na busca que fiz hoje, 11 de dezembro, nos grandes portais, inclusive dos jornalões, não encontrei nem sinal da íntegra do laudo de Jefferson, ao contrário dos de Genoino, exibidos exaustivamente pela mídia.

– Por que então o laudo do Genoino foi divulgado? – questionei a assessoria de imprensa do STF.

– Não fomos nós!

– Foram então os médicos?

– Não sei, os jornalistas conseguiram com alguém.

Todos os indícios,porém, apontam que o laudo de Genoino, feito pela junta médica UnB, vazou no próprio STF e não antes. Os carimbos de recebimento do documento sugerem isso.

Explico. No laudo da UnB, assim como nos demais de Genoino enviados ao ministro Joaquim Barbosa, existem vários carimbos de protocolo de recebimento. Portanto, assim que chegou ao STF, ele foi protocolado. Se tivesse vazado anteriormente em outro lugar, por exemplo, no hospital onde foi feito, o laudo não teria o protocolo de recebimento do Supremo.





5º ATO

Não bastasse isso, a imprensa sempre teve acesso aos laudos antes dos advogados do acusado.

“Não tem qualquer sentido essa divulgação à revelia, é tirado do paciente Genoino seu direito inalienável de decidir divulgar ou não seus dados de saúde”, critica o doutor Dirceu Greco. “Com tanta coisa acontecendo, essa questão pode parecer pequena, mas ela é muito importante. É por aí que começa o cerceamento do direito de cada um de nós à intimidade, sigilo e confidencialidade. ”

Dirceu Greco é professor titular de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro titular da Câmara Técnica de Bioética do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Ele prossegue: “É muito atual e apropriado este fragmento do texto No caminho com Maiakóvski, do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa: ‘[...] Na primeira noite eles se aproximam
 e roubam uma flor
 do nosso jardim.
 E não dizemos nada.
 Na segunda noite, já não se escondem;
 pisam as flores,
 matam nosso cão,
 e não dizemos nada.
 Até que um dia,
 o mais frágil deles
 entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, 
conhecendo nosso medo,
 arranca-nos a voz da garganta.
 E já não podemos dizer nada’”.

“Assim, no afã da visibilidade a qualquer preço, perdem a noção do que é apropriado e, pouco a pouco, vão solapando nossos direitos”, acrescenta Greco. “Felizmente, a patologia dele [doença cardíaca], não é cercada de preconceito. Sem autorização do paciente, o médico não pode revelar a terceiros, a mídia incluída, nenhum diagnóstico, mesmo no caso de patologias simples, como por exemplo, unha encravada. Imagine se fosse HIV ou outra situação onde ainda existe grande preconceito?!”


GRAN FINALE 

Mais um jogo político de cartas marcadas, como aconteceu durante todo o julgamento do mensalão.

Até na doença, Genoino é tratado de forma ultrajante pela mídia, pela direção da Câmara dos Deputados (manobrou a divulgação do laudo) e pelo STF. Também talvez até por algum médico da junta da UnB. Além de ilegal, era desnecessária a íntegra dos laudos. Quanto a Roberto Jefferson, mídia, STF e equipe médica do Inca agiram adequadamente. Dois pesos e duas medidas.

Em tempo: eu, Conceição Lemes, defendo que seja concedida a prisão domiciliar tanto para Genoino quanto para Jefferson. Questão de direito e de humanidade.

A demência foi identificada por autoridades de saúde como "um desastre global prestes a acontecer"



por James Gallagher, na seção Ciência e Saúde BBC Brasil


O termo demência é usado para descrever quadros médicos em que ocorre a perda - temporária ou permanente - das capacidades cognitivas de um indivíduo. Há múltiplas causas, entre elas, disfunções metabólicas, infecções, desnutrição ou doenças degenerativas como o Mal de Alzheimer.

Nesta semana, representantes do G8 - as oito maiores economias do planeta - se reunirão em Londres para discutir formas de lidar com o problema.

O governo britânico, que ocupa a presidência rotativa do G8, anunciou nesta quarta-feira que está dobrando a verba dedicada à pesquisa sobre demência para 132 milhões de libras (mais de meio bilhão reais) até 2015. Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde em 2012, o Brasil é o nono país do mundo com o maior número de casos, com 1 milhão de pacientes com demência.

A BBC perguntou a especialistas da área quais seriam suas prioridades se recebessem os fundos necessários e carta branca para lidar com o problema.

Antecipar diagnósticos

No dia em que seu médico lhe diz que você tem demência, você pode pensar que está vivendo o estágio inicial do problema. No entanto, não é o caso.

O processo de morte das células do cérebro tem início entre dez e 15 anos antes de que os problemas de memória se tornam aparentes.Ou seja, quando o paciente faz o teste de memória e recebe o diagnóstico, ele já está sofrendo da doença há pelo menos dez anos.

A essa altura, um quinto dos principais centros de memória do cérebro já estão mortos. Para alguns especialistas, isso talvez explique a ausência de êxito em testes com medicamentos para tratar o problema: eles estão tentando tratar a doença quando já é tarde demais.

O foco na antecipação do tratamento "é absolutamente essencial nas pesquisas", disse o neurologista Nick Fox, doNational Hospital for Neurology and Neurosurgery, em Londres. Já houve algum progresso. Agora já é possível ver algumas das proteínas associadas ao Mal de Alzheimer em tomografias do cérebro, mas o desafio é usar esses recursos para prever o desenvolvimento da demência.

"Houve imensos avanços em tecnologias que produzem imagens so cérebro. Vivemos uma nova era e isso é muito empolgante", disse Fox.

Outros métodos estão sendo investigados, como, por exemplo, técnicas que identificam a presença, no sangue de uma pessoa, de substâncias químicas que ofereçam indícios do desenvolvimento futuro da demência.

Outro ponto que os pesquisadores ressaltam é que há vários tipos de demência. O Mal de Alzheimer, a demência vascular e a demência com Corpos de Lewi têm sintomas similares, mas talvez requeiram tratamentos diferentes.

Interromper mortes de células

Não há remédios capazes de interromper nem desacelerar o progresso de qualquer forma de demência. Havia muita esperança em duas drogas para tratar o Mal de Alzheimer - Solanezumab e Bapineuzumab - mas elas fracassaram nos testes. Os experimentos sugerem, no entanto, que existe uma pequena chance de que a droga Solanezumab surta efeito em pacientes em estágios bem iniciais da doença. Uma nova série de testes está sendo feita em pacientes com demência moderada.

"Se o Solanezumab tiver efeito sobre casos moderados de Mal de Alzheimer, então o caminho seria dar (a droga) cada vez mais cedo", disse Eric Karran, diretor de pesquisas da ONG britânica Alzheimer's Research UK.

Alcançar a cura é, obviamente, o sonho de todo especialista nesse campo. Mas retardar a evolução da demência já traria um impacto gigantesco. Segundo cálculos, se conseguíssemos atrasar em cinco anos o desenvolvimento da doença, já cortaríamos pela metade o número de pessoas vivendo com demência.

Drogas para sintomas

Existem algumas drogas que ajudam as pessoas a viver com os sintomas da demência, mas não são suficientes. Há medicamentos capazes de aumentar as sinalizações químicas entre as células do cérebro que sobreviveram. Mas o mais recente medicamento desse tipo, Memantine, foi aprovado em 2003 nos Estados Unidos. Desde então, não apareceu nenhum outro.

O médico Ronald Petersen, diretor do Alzheimer's Disease Research Centre na Mayo Clinic, Estados Undios, disse à BBC: "Isso é terrível quando você leva em conta os bilhões que foram investidos nessa doença". "Existem 44 milhões de pessoas com Mal de Alzheimer e também temos de tratá-las" (além de encontrar uma cura). "Precisamos desenvover drogas para tratar os sintomas e retardar o progresso da doença, como fazemos com (pacientes que sofreram) ataques cardíacos".

Minimizar riscos

Você quer cortar radicalmente suas chances de desenvolver câncer de pulmão? Não fume.

Quer evitar um ataque cardíaco? Faça exercícios e adote uma dieta saudável. Mas se quiser evitar demência, não há respostas definitivas. A idade é o maior fator de risco. Na Grã-Bretanha, uma em cada três pessoas com idade acima de 95 anos tem demência. Há indícios de que exercícios regulares e dieta saudável tenham efeitos positivos em prevenir ou retardar o desenvolvimento da demência. Mas ainda não se sabe com clareza de que forma o histórico familiar, o estilo de vida e o meio-ambiente se combinam para que um indivíduo tenha ou não demência.

O geriatra Peter Passmore, da British Geriatrics Society e da Queen's University Belfast, na Irlanda do Norte, disse que o melhor conselho até agora é: "Manter o coração saudável para evitar danos ao cérebro". "Evite a obesidade, não fume, faça exercícios regularmente, controle a pressão sanguínea, o açúcar e o colesterol." "Isso tem poucas chances de fazer mal e pode até fazer bem!"

Como cuidar eficazmente

A demência tem custos imensos para a sociedade, mas as contas médicas respondem por uma porção pequena da custo total. O custo real está no tempo passado em casas para idosos e na renda perdida por familiares que abandonam seus empregos para cuidar de parentes doentes.

As pesquisas também precisam ser direcionadas para a busca da melhor maneira de se cuidar de pacientes com demência. E também de preservar a independência do paciente pelo maior tempo possível. Estudos já mostraram que a ingestão de remédios antipsicóticos pode ser cortada pela metade se equipes que trabalham com os pacientes receberem o treinamento adequado.

Doug Brown, da Alzheimer's Society, disse que talvez um dos campos mais fáceis de pesquisa sobre demência seja o estudo de como cuidar dos pacientes. "Podemos fazer muitos estudos sobre a assisência e os cuidados que oferecemos às pessoas com demência hoje para que vivem da melhor forma possível".

Papa Francisco, nos EUA, comete o “pecado” de criticar ganância capitalista




Raul Juste Lores, na Folha UOL (Vixe, vixe...)


O papa Francisco se tornou o mais novo vilão entre os conservadores americanos, depois de ter criticado a ganância e as desigualdades do capitalismo.

Na semana passada, o radialista Rush Limbaugh, ícone do movimento Tea Party, chamou-o de marxista.

“Ele tritura o capitalismo e a América, e o Obama tem orgasmos só de ouvi-lo”, afirmou. O presidente havia citado o papa no dia anterior, dizendo que concordava com sua crítica contra a “distribuição de renda mais desigual”.

Adam Shaw, editor da conservadora rede Fox News, disse que o papa é “o Obama do catolicismo”. “Assim como a América se decepcionou com Obama, esse papa será um desastre para a igreja”.

Sarah Palin, candidata republicana a vice-presidente em 2008, disse que o papa “parece marxista”. Ela acaba de lançar um livro sobre “a guerra contra o Natal” provocada por “uma sociedade cada vez mais antirreligiosa”.

USANDO A BíBLIA

O editor-chefe do blog The Dish, Andrew Sullivan, disse à Folha que “os evangélicos estiveram usando a Bíblia contra gays e contra o aborto. Agora, estão sofrendo do mesmo remédio, afinal a Bíblia do papa é a mesma, e ela prega a justiça social”.

“Só quem não acompanha a igreja se surpreende com a fala do papa. João Paulo 2º já falava de ganância no capitalismo”, diz.

A popularidade do papa ainda é alta no país: 78% dos católicos e 58% da população em geral têm visão positiva de Francisco, segundo pesquisa do instituto Pew. O comparecimento às missas, porém, continua o mesmo desde que ele se tornou papa, em março –39% dos católicos americanos vão semanalmente à missa.

A Igreja Católica americana brigou com o presidente Barack Obama por conta do plano universal de saúde aprovado por ele. Funcionárias de hospitais e colégios católicos terão direito à cobertura de tratamentos anticoncepcionais, como prevê o plano –a igreja pedia isenção dessa obrigação.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mais uma transnacional impoluta entra na roda para dançar...



por Fernando Brito, no Tijolaço


A Brookfield Incorporações, imobiliária que pagou à máfia dos fiscais da Prefeitura de São Paulo, na gestão Gilberto Kassab, não é nenhuma empresinha pequena, sem poder para resistir aos achaques de uma fiscalização corrupta, ainda mais porque a propinagem reduziu, em alguns casos, a menos de 2% o imposto que deviam à municipalidade.

É o braço imobiliário – de alto luxo – da Brookfield Asset Management’s, antes conhecida como Brascan (de Brasil-Canadá), uma multinacional tristemente famosa no Rio e em São Paulo como “Light”… (aqui em Santa Catarina como CONFLORESTA - nota dos índios aqui)

É curioso que se vende a imagem de que o brasileiro genericamente é corrupto, o servidor público é genericamente corrupto e se apresenta os empresários, sobretudo as grandes multinacionais, como exemplos de eficiência e mais eficiência.

Siemens, Alstom e, agora, a Brookfield estão mostrando que a história é outra, mas se são apresentadas, depois dos casos aparecerem, como “colaborando com as autoridade”.

Como nos outros casos, não passa de conversa fiada. O pagamento de propinas pela Brookfield já tinha sido denunciado ano passado   por uma diretora demitida da empresa por supostas irregularidades – tal como na Siemens, com Adilson Primo.

Essa história, felizmente, vai começar a ter fim com a nova Lei Anticorrupção sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff, que entra em vigor no dia 1° de fevereiro.

A partir daí, empresa que corromper vai ter de pagar até 20% de seu faturamento bruto – bruto! – de multa e pode ser até fechada por isso. E isso é punição administrativa, sem contar as sanções judiciais.

Mesmo que a empresa queira fazer um acordo de leniência, isso só pode ocorrer se ela procurar espontaneamente as autoridade.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Imagem surreal


Belíssima imagem da tempestade "Bodil" sobre a Dinamarca - foto Gautam Trivedi no Twitter

E então?... assassinaram o pé-de-valsa?...


pescado no Brasil Econômico


A Comissão Municipal da Verdade de São Paulo informou nesta segunda-feira que o relatório a ser divulgado amanhã traz evidências de que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, morto em um acidente de carro em 1976, teria sido assassinado pela ditadura militar naquele ano durante viagem de carro, e não em um acidente de carro, como diz a história oficial.

"Não temos dúvida de que Juscelino Kubitschek foi vítima de conspiração, complô e atentado político", afirma o vereador Gilberto Natalini, presidente da Comissão Municipal da Verdade.

As circunstâncias da morte do presidente são investigadas pelo órgão municipal. O relatório, de 29 páginas, se baseia em depoimentos de testemunhas e inclui mais de 90 "indícios, evidências, provas, testemunhos, circunstâncias, contradições, controvérsias e questionamentos" de que JK foi vítima de um complô planejado por militares quando viajava pela Rodovia Presidente Dutra, próximo a Resende (RJ).Pela versão oficial, o ônibus teria batido levemente no automóvel que, desgovernado, chocou-se com o caminhão.

Em 1964, com o golpe militar, Juscelino perdeu o mandato de senador e teve direitos políticos suspensos. Nos anos seguintes, tentou organizar uma frente pela redemocratização do país, junto com Carlos Lacerda e João Goulart, mas não logrou sucesso naquela empreitada.

domingo, 8 de dezembro de 2013

El caballo de Troya



do sempre ótimo Mauro Santayana, no JB Online

O lançamento, na semana passada, da seção em português da edição de internet do jornal espanhol El Pais, elucida e ilustra, com clareza, a visão neocolonial e rasteira que continua dominando o comportamento dos espanhóis com relação ao Brasil — apesar da condição de crise e de extrema fragilidade que caracteriza a Espanha neste momento.

Sem entrar nos detalhes do regabofe promovido pelo Grupo Prisa em São Paulo, vale a pena analisar o fato, e o que se pode ler nas entrelinhas do evento e da publicação.

Controlado em pouco mais de 30% pela família Polanco, e com o restante do capital na mão de investidores e fundos internacionais — não espanhóis — o Grupo Prisa, que edita o El Pais, tem atravessado sucessivas crises nos últimos anos.

Em 2008, o valor de suas ações despencou 80%, o lucro diminuiu em 56%, foi preciso suspender o pagamento de dividendos aos acionistas e vender ativos imobiliários, entre os quais a própria sede do jornal El Pais, no valor de 300 milhões de euros, para fazer frente a compromissos.

Isso não impede, no entanto, que o Grupo Prisa seja conhecido tanto pelos altíssimos salários que paga aos seus executivos — Juan Luis Cebrian ganha mais de 1 milhão de euros por mês — quanto pelos problemas que tem com os sindicatos locais.

Os jornalistas do grupo têm ido às ruas protestar contra as frequentes ondas de demissões que varrem as redações de suas publicações e emissoras. A última, no mês passado, atingiu a revista ON Madrid.

Com uma dívida de mais de 3 bilhões de euros, o Prisa multiplicou por 6 suas perdas até setembro deste ano. El Pais perdeu 25% de sua circulação desde 2008. A circulação do diário esportivo AS caiu 23% e a do diário econômico Cinco Dias, quase 30%, e o faturamento em publicidade — segundo informa também o jornalista Pascual Serrano, na revista asturiana Atlántica XXI — diminuiu pela metade nos últimos anos.

Na mesma matéria, Serrano relata como coube a Javier Moreno — o mesmo executivo que veio lançar a seção em português do El Pais em São Paulo — em outubro do ano passado, explicar a seus jornalistas que o Grupo Prisa estava “arruinado”, para justificar a demissão de quase um terço do pessoal.

Isso não impediu, no entanto, Moreno de adotar um tom entre paternal e triunfalista no seu pequeno discurso na capital paulista, para um grupo de seletos convidados. O viés neocolonial fica claro quando ele se refere ao El Pais como um veículo, procurado por inúmeros “intelectuais, artistas e políticos” de nossa região, para “defender seus projetos e conectar suas inquietações com o resto do mundo ibero-americano”, e expõe o caráter intervencionista — considerando-se que se trata de uma publicação estrangeira — quando diz que o jornal estará ligado às “inquietações e batalhas — da sociedade brasileira — para consolidar seus avanços econômicos e sociais, e as liberdades democráticas”.

Dá a entender que a imprensa do Brasil não é livre, ou competente, na medida em que afirma que “centenas de milhares de brasileiros se informaram na edição América de El Pais, sobre as maciças manifestações de julho passado” — como se no Brasil houvesse censura ou necessidade de recorrermos a publicações estrangeiras para saber o que ocorre por aqui. E, finalmente, dispensou a modéstia quando se referiu “às expectativas que o projeto — de lançamento do El Pais Brasil — suscitou em amplos segmentos da sociedade brasileira”.

Pelo hábito se reconhece o monge. Como se pode ver pelas primeiras matérias, o El Pais está vindo ao Brasil para defender nossas minorias; lembrar que o presidente Peña Nieto está — segundo o FMI — se comportando melhor do que o Brasil, embora o México vá crescer menos da metade do que nós neste ano; que gastamos muito com nossos estádios na Copa; que não conseguimos reduzir a criminalidade; que temos o menor crescimento entre os países emergentes, etc, etc, etc .

A verdade sobre a Espanha dos dias de hoje não está no coquetel servido aos convidados em São Paulo, pago com o lucro auferido aqui mesmo no Brasil por empresas como a Vivo — devedora em mais de 1 bilhão de dólares do BNDES — ou do Grupo Indra, também espanhol, cuja publicidade já começa a aparecer na edição “brasileira” de El Pais.

A Espanha real está na ausência sutil — como um elefante, desses que o pai gosta de abater — do príncipe Felipe, que deveria ter vindo ao Brasil na mesma ocasião, para abrir um seminário econômico e participar do lançamento de El Pais.

Pouco antes da decolagem, foi localizada uma avaria em um flap do avião que deveria transportá-lo a São Paulo. Ao procurar o avião substituto, do mesmo modelo, descobriu-se que ele também estava em solo, sem condições de voar. Mecânicos tentaram, durante mais de sete horas, consertar o problema, sem conseguir, até que o infante e sua comitiva desistissem de fazer a viagem e voltassem para casa para desfazer a bagagem.

Por causa do problema do avião, em solo e sem manutenção como o próprio país, no lugar de sua majestosíssima presença, o príncipe teve de mandar, ao Brasil, uma mensagem em vídeo pela internet.

Tudo somado, pelo que se pode ver pelo lançamento de sua seção em português, o El Pais, apesar de, aparentemente, abrir espaço para comentaristas de diferentes tendências — até artigo do Lula já saiu na edição em português — continuará, agora na língua de Machado de Assis, fazendo o que sempre fez: defendendo e protegendo a cada vez mais combalida “Marca Espanha”; atuando como um Cavalo de Tróia dos interesses neoliberais e eurocêntricos em nosso continente; e das empresas espanholas — com milhares de reclamações de consumidores como o Santander e a Telefónica (do qual o próprio Grupo Prisa é acionista)— que atuam no Brasil.

Nesse contexto, o melhor negócio que os futuros leitores podem fazer é “comprar” a Espanha pelo que vale — altamente endividada e com um crescimento de menos 1,6% este ano, segundo o FMI — e vender pelo preço que o El Pais acha que vale. Com a imagem e o valor que vai tentar nos impingir.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mandela - nosso tributo e constatações





por Paulo Moreira Leite, em seu blog na IstoÉ



Nelson Mandela morreu na condição rara e merecida de herói da humanidade. A derrota do apartheid sul-africano marcou uma derrota fundamental do sistema colonial, construído ao longo de cinco séculos de história.

A estatura atual de Mandela não deve obscurecer o cidadão concreto nem a situação real de onde ele emergiu. Sua luta envolveu adversários poderosos e bem colocados na economia mundial, que tiveram um papel decisivo na preservação de um regime que sempre causou horror na maioria (algumas?) das pessoas do século XX – mas era mantido e alimentado em função dos ganhos que gerava a seus beneficiários, dentro e fora do país.

Não se pode compreender a longa temporada de Mandela na prisão – de onde saiu, certa vez, com princípio de tuberculose – nem a absurda sobrevivência de um sistema de opressão dos mais infames que a humanidade já conheceu sem entender o papel das chamadas potencias ocidentais em sua preservação.

***

Na década de 1980, quando a luta contra o apartheid já provocava gestos de repúdio internacional e até boicote econômico, o presidente Jacques Chirac, principal estrela do conservadorismo francês do período, fez diversos exercícios para reforçar a musculatura da elite branca que submetia o país inteiro. Sob François Mitterrand o governo francês havia conseguido impor sanções através da ONU e retirou o embaixador de Pretória. O país também dava abrigo a exilados importantes. De volta ao poder, Chirac reabriu a embaixada, cortejou lideranças negras que negociavam pactos de preservação com o regime sul-africano e ainda enviou uma comitiva de parlamentares em missão de boa vontade: “o apartheid não existe,” disseram eles, de volta a Paris.

Chirac era capaz de dizer frases de um tipo de pedantismo bem conhecido: “Condeno o apartheid de forma veemente mas a questão é extremamente complexa.”

O fato é que não estava só em meio a tantas “complexidades”. Líderes da grande reação conservadora dos anos 1980, que implicou em ataques a direitos e conquistas dos trabalhadores e da população mais pobre no mundo inteiro, Ronald Reagan e Margareth Thatcher mostraram, também no África do Sul, que tinham uma visão bastante peculiar, “complexa”, é claro, daquilo que chamavam de estado mínimo e direitos individuais. Davam-se as mãos para reforçar o estado máximo que combatia Mandela enquanto sustentavam, por exemplo, a ditadura também máxima de Augusto Pinochet no Chile. Com o velho pretexto de que era preciso combater o comunismo, faziam o possível para evitar toda mudança, toda alteração no estado de coisas que pudesse democratizar o país e entregar o governo a sua maioria de cidadãos. Thatcher chegou a opor-se a simples missões de caráter humanitário a África do Sul, lembra Jack Lang, ex-ministro de Cultura da França, no livro “Nelson Mandela, lição de uma vida.”

Quando Mandela conquistou o direito de fazer pronunciamentos públicos, um dos assessores de Thatcher desqualificou suas declarações como uma prova de que “o sofrimento não havia lhe ensinado nada”.

***

Principal liderança política de um continente que forneceu a mão de obra que colocou de pé boa parte da riqueza que se conhece no planeta, e jamais foi devidamente recompensada por isso, é natural que Mandela seja alvo de estudo e admiração. O empenho dos aliados do apartheid para preservar um regime criminoso ajuda a entender mesmo vitórias tão admiráveis estão longe de constituir um conto de fadas.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Reminiscencias de uma gloriosa ditadura



por Helio Fernandes, angu misturado dos blogs de um sem-mídia e do Saïd Dïb

Na instalação do golpe de 64, os que tomaram o Poder, fizeram uma remodelação geral na fórmula clássica das ditaduras.

Em todos os países, antes de 64, existiam as ditaduras fixas com um ditador também fixo, civil ou militar. Fosse no Ocidente ou no Oriente, em qualquer lugar do mundo. Também não se discutiam ideologias ou convicções político-filosóficas. Foi assim sempre.

Em 1964, os generais que tomaram o Poder inovaram completamente. Em vez da ditadura fixa com um ditador também fixo, que não tinha prazo para permanecer no Poder, ficariam enquanto durasse a força militar que os mantinha.

Surpreenderam o Brasil e o mundo com a modificação. Instalavam uma ditadura fixa, mas com um ditador rotativo. Até então era inimaginável. (Isto jamais foi escrito ou comentado). Criaram também quatro itens que pretendiam, com arrogância e autoritarismo, regular e submeter quem poderia ser presidente (“presidente”, com aspas) e como deveriam se comportar.

1 – O presidente teria que ser general. Com isso liquidavam a concorrência dos que falavam em Forças Armadas.
2 – General de 4 estrelas.
3 – Da ativa, assim, simples e taxativo.
4 – Não poderiam tentar a reeleição de forma alguma, teriam que passar o cargo a alguém que preenchesse os itens anteriores.

Mas como é difícil, praticamente impossível planejar para um futuro distante e imprevisível, os fatos se recusam a acontecer, são modificados até de forma instantânea. Foi o que aconteceu com a ditadura brasileira. Acertaram na longevidade no Poder, também não empossaram ninguém que não fosse general. Mas como em todos os lugares, eles se estraçalhavam. Não davam vez aos civis, mas brigavam ostensivamente entre eles.


O PODER INSUPERÁVEL DOS MINISTROS DA GUERRA

Castelo Branco surgiu do nada e do desconhecido. E até do desprezível. Na FEB era tenente-coronel, comandante das forças que teriam que tomar o Monte Castelo. Cometeu erros de principiante. Contestado ali mesmo, chorou em público, confessou as leviandades militares. 

Mais tarde, o general Floriano de Lima Brayner, chefe do Estado-Maior do comandante-geral, Marechal Mascarenhas de Moraes, escreveu dois livros terríveis a respeito de Castelo e da sua incompetência e imprudência militar em ação. Em 1955, como chefe da Casa Militar do presidente Nereu Ramos, o general reafirmou tudo. Castelo não pôde se defender. Mas também não poderia ser “presidente”, com aspas ou sem aspas.

Dois nomes eram cotadíssimos para chefiar o governo golpista. Costa e Silva favoritíssimo, conspirava desde o início como comandante do II Exército. O outro, Cordeiro de Farias, pelos títulos. Participou da FEB como general (poucos estiveram lá, dos que foram “presidentes”, a não ser Castelo, com as restrições que mostrei). Interventor no Rio Grande do Sul, governador eleito pelo voto direto em Pernambuco, só que chegou tarde ao Rio (onde tudo acontecia), foi preterido. Ganhou um ministério civil, ficou ultrapassado.

em primeiro plano da esquerda pra direita: Costa e Silva, Ernesto Geisel e Castelo Branco


COSTA E SILVA NÃO SE CONFORMOU

Desesperado, assistiu de longe as articulações de Castelo, as conversas e as promessas a Juscelino, a posse em 9 de abril. Garantiu o Poder com a conquista do Ministério da Guerra. Não perdia a oportunidade de deixar bem claro que quem mandava era ele, e seria sucessor de Castelo.

Planejou viagem ao exterior, os amigos advertiam que podia ser demitido enquanto viajava. Foi, no aeroporto garantiu a manchete de todos os jornais, retumbando de forma arrogante: “Embarco ministro e volto ministro”. Foi o que aconteceu.

Nas ditaduras, o ministro da Guerra garante o “presidente”, mas é obrigatoriamente o seu sucessor. Foi mantida a regra. Castelo tinha candidatos (no plural), teve que empossar Costa e Silva. Mas este, impensada e imprudentemente, nomeou ministro da Guerra o general Lira Tavares, um intelectual sem tropas.

Entrou para a Academia, mas tarde embaixador na França. Não sucedeu a Costa e Silva, mas também não o garantiu. E quando, no meio do mandato, Costa e Silva teve o AVC que seria fatal, logo “decretaram que estava incapacitado”. O que iria fazer um general-intelectual, contra os inimigos da Costa e Silva, todos armados e entrincheirados?


OS GOLPES DENTRO DO GOLPE

Garantida a posse de Costa e Silva, Ernesto Geisel, apavorado, foi promovido a general de quatro estrelas e um mês depois estava no Superior Tribunal Militar, protegido de possível perseguição de Costa e Silva. Golbery, general da reserva, foi para o Tribunal de Contas, também vitalício.

Aí, em julho ainda de 1967, dois fatos rigorosamente inesperados, inexplicáveis, imprevisíveis.

1 – Castelo Branco morre num desastre de avião no Ceará.
2 – No seu velório no Clube Militar e em reuniões fechadíssimas num escritório da Pedro Lessa (ali pegado), “confraternização” geral. Militares e civis se juntam. Linha-dura e castelistas que sempre se hostilizaram conversam. Há um consenso de que “as coisas não podem continuar como estão”.

Surgia a tão desejada "unanimidade": 1964 voltaria a ser o denominador comum, com a cara que quase todos queriam, linha-dura e castelistas irmanados, perseguindo o que chamavam de “verdadeira revolução”.
Não se falou em AI-5, claro. Mas foram designadas 5 pessoas (2 civis e 3 militares) para “acelerarem as coisas”. Foram identificados os “amigos” e os “inimigos”, uma única decisão definitiva: “Deveria haver o maior sigilo, o presidente Costa e Silva não poderia saber de coisa alguma, não merecia mais a confiança de ninguém”.

Costa e Silva realmente não soube de nada. Cercado pela mais completa mediocridade, civil e militar, gastava o tempo com filmes de bangue-bangue e informes “colhidos” por Gama e Silva, que jamais se transformavam em “informações”. Mais ou menos em abril de 1968, “descobriam” o pretexto, Costa e Silva e o governo não souberam de nada.

Licença para processar deputado, heroísmo de Djalma Marinho, liderança de Daniel Krieger contra o golpe, manobras na Câmara, e Costa e Silva, isolado, ignorado, desprezado. Dias antes, inesperadamente recebe Krieger (que era boicotado), sabe das coisas, não podia fazer mais nada. O problema chegou oficialmente a ele no dia 12 de dezembro, quando a Câmara votou e negou a licença para processar Marcio Moreira Alves

Incapacitado Costa e Silva, com o vice Pedro Aleixo sem poder assumir, incapacitado (sem aspas) por ser civil, empossaram uma Junta (os Três Patetas”), com um general, um brigadeiro, um almirante. Imediatamente. Ernesto Geisel e Golbery se aposentaram, voltaram para a militância política que jamais abandonaram.


A DERROTA DO FAVORITO - ORLANDO GEISEL

Para a “eleição”, pela primeira vez colocaram urnas nas unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica, mas os candidatos eram apenas dois generais: Orlando Geisel e Afonso Albuquerque Lima. Favoritíssimo, Geisel perdeu para o nacionalista Albuquerque Lima, de grande prestígio. Mas logo os irmãos Geisel, coma participação fundamental de Golbery, deram o golpe, inventaram uma crise militar.

“Queimado”, Geisel fez esta declaração pública: “Albuquerque Lima não pode ser presidente. Como é que eu, que tenho quatro estrelas, vou bater continência para um PRESIDENTE de três estrelas?”. Valia tudo.


A “DESCOBERTA” DE MÉDICI, QUATRO ESTRELAS E DO SNI

Lembrado o nome dele, recusou. Não queria mesmo. Tendo sido nomeado representante do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, em Washington, ficou poucos meses. Veio embora. “Estava muito chato”, era o que dizia aos amigos, sobre um dos cargos militares mais disputados. Insistiram, insistiram, aceitou ser “presidente”. Como só tinha um inimigo, o general Golbery, fez só esta pergunta a Orlando Geisel: “Quais são as relações entre vocês dois?”.

Orlando Geisel, encarregado da articulação, respondeu: “Não nos falamos há anos”. Estavam juntos todos os dias, mas Orlando Geisel queria Médici “presidente”, assim ele seria ministro da Guerra todo-poderoso, o que aconteceu
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NUNCA SE TORTUROU TANTO, TODOS SABIAM, CRESCIA O DOI-CODI

Continuou a tortura, só que passou a ser institucionalizada. Já existia o DOI-CODI, versão carioca da paulista OBAN. Só que a violência aumentou muito. A impressão que se tinha é que Médici não sabia de nada, mas era impossível. A tortura era praticada no país inteiro, mas no Rio e em São Paulo ganhou níveis sem precedentes.

Golbery ficou mais de 4 anos, atuante, preparando a candidatura Ernesto Geisel, sem que Médici percebesse. Ele havia comprado em Brasília uma chácara maravilhosa, de lá articulava tudo. Era presidente da Dow Chemical, a poderosa fabricantes de napalm, um arma incendiária mortífera e assassina. No governo de Ernesto Geisel, mandou de verdade.


AS CRISES QUE ABALARAM OS GENERAIS TORTURADORES

A de 1975, o assassinato de Herzog, não foi a primeira, mas a mais rumorosa. A ação direta e fulminante (já contada aqui) do próprio “presidente”, salvou seu mandato, mas prolongou a ditadura. Havia muito descontentamento, o golpe que dividira os generais desde o início, passou a ser contestado. O ministro da Guerra, Silvio Frota, queria ser o sucessor de Geisel, chefiou o movimento contra ele, em outubro de 1978. Foi derrotado.

O chefe da Casa Militar de Geisel, Hugo Abreu, outro que queria ser “presidente”, só que ninguém tinha apoio dele. Também foi repudiado, não foi promovido, levou “carona”, teve que ir para a reserva. E Geisel escolheu João Figueiredo, outro general chefe do SNI.

Silvio Frota escreveu ou publicou um livro até interessante, só que não se livrou da raiva contra Geisel, visível nesta frase: “Eu sempre soube que Ernesto Geisel era comunista”. Figueiredo teve problemas de toda ordem, precisou até se operar no exterior.

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PS – Todo o governo de Figueiredo foi dominado pelo general Octavio Medeiros, que na primeira linha destas notas, aponto como sucessor dele.
PS2 – Era quatro estrelas e chefe do SNI. Parecia que todos tinham que surgir de lá.
PS3 – A sucessão que não houve, o massacre da Tribuna e a tragédia do Riocentro, planejadas e comandadas por ele.
PS4 – A última palavra ainda não foi dada, isso cabe à Comissão da Verdade. Que parece oscilar para um lado ou para o outro. Até quando?

sábado, 30 de novembro de 2013

O helicóptero era um "Transformer"

O MP-MG processará o helicóptero por carregar 1/2 ton de cocaína sozinho. Piloto e proprietários foram enganados!... 

É um Transformer!...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Utilidade publica dos índios aqui: cadastro ambiental rural


Flavia Camargo, no ISA - Instituto Sócio Ambiental


O cadastro ambiental rural (CAR), instituído em âmbito nacional pela Lei 12.651/2012, poderá ser uma importante ferramenta para a gestão ambiental das propriedades rurais. Entretanto, tendo em vista as perspectivas atuais, se não houver mudanças efetivas no processo de estabelecimento do CAR nacionalmente, esse instrumento poderá se tornar uma ferramenta inócua.

O sistema nacional que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) está desenvolvendo apresenta fragilidades, o que poderá comprometer a qualidade do CAR. Esse sistema será adotado pelos estados que não tiverem sistemas próprios de cadastramento. Estima-se que 15 estados irão adotar o referido sistema.

Com o objetivo de simplificar o processo, esse sistema retira a obrigatoriedade de um técnico para a realização do cadastro e, assim, permite que o próprio produtor rural faça a sua planta do imóvel com a delimitação do perímetro e das respectivas áreas de conservação, diretamente sobre a imagem de satélite. Embora possa parecer que essa estratégia facilitará, a princípio, a inscrição dos produtores, ela dificultará a validação do CAR.

Elaborar plantas georreferenciadas (art. 5º do Decreto 7.830/12) não é uma tarefa trivial, principalmente se considerarmos a necessidade de uma precisão mínima para identificar as Áreas de Preservação Permanente (APP) que, de acordo com a nova legislação, poderão ter dimensões a partir de 5 metros. Além disso, identificar as APPs em função da declividade poderá ser uma tarefa ainda mais complexa. Também não é simples compreender a legislação florestal, a qual possui uma série de termos técnicos e situações particularizadas conforme a data do desmatamento e o tamanho da propriedade. Não sendo tarefas fáceis e tendo em vista a baixa capacitação técnica dos produtores rurais no que tange a essas questões, o mais provável é que muitos dos dados do cadastro que serão inseridos diretamente por eles conterão uma série de erros e imprecisões.

Como todos esses cadastros deverão ser validados pelos órgãos ambientais, é fácil perceber que o trabalho desses órgãos será muitas vezes maior do que seria no caso de os cadastros serem elaborados por técnicos qualificados, como já ocorre no Pará, Mato Grosso e Bahia. Se mesmo nesses estados há falhas nos cadastros, é razoável supor que no sistema nacional haverá muito mais falhas. Quanto menos acurados e fidedignos forem os dados inseridos pelos proprietários, maior trabalho terão os fiscais no processo de validação do cadastro, já que terão que atuar mais fortemente junto aos produtores para que as pendências e inconsistências possam ser resolvidas. Além disso, será complicado diferenciar os produtores que simplesmente erraram daqueles que intencionalmente inseriram informações falsas para diminuir seus passivos ambientais.

Demora pode validar ocupações e usos irregulares

Uma questão relevante é que o CAR deveria considerar as especificidades de territórios de comunidades tradicionais, como os quilombolas. Isso pode ser feito oferecendo-se um espaço para inclusão no sistema de um campo específico para territórios protegidos de uso coletivo, a invalidação de registros de ocupantes irregulares de suas terras e o reconhecimento das práticas agrícolas tradicionais. No sistema de cadastro do Estado de São Paulo, por exemplo, nenhuma dessas questões foi contemplada e elas só poderão ser verificadas na etapa de validação, cuja demora pode validar ocupações e usos irregulares, entre outros.

A demora na manifestação do órgão ensejará a validade temporária dos cadastros (art. 2º do Decreto 7.830/12). Dessa forma, esses cadastros, que não foram feitos com a acurácia e a qualificação técnica necessárias, ficarão valendo para todos os fins previstos em lei, até que os órgãos ambientais se manifestem. Isso poderá prejudicar, inclusive, as políticas de incentivo econômico à conservação que estão sendo formuladas e que precisam de um cadastro de qualidade para funcionar.

Nesse sentido, é preciso rever essa estratégia de CAR baseada no “desenho” feito pelos produtores, sem um responsável técnico. O CAR é para ser um instrumento de planejamento territorial e de monitoramento da cobertura florestal dos imóveis rurais e para isso precisa atender a determinadas especificações técnicas. Facilitar a inscrição no CAR, prescindindo da qualidade, é criar um instrumento sem eficácia, que não justifica todo o investimento público já realizado.

Para tanto, deve-se exigir dos grandes e médios produtores que se inscrevam no CAR por meio do acompanhamento técnico necessário, para que possam devidamente apresentar a planta e o memorial descritivos exigidos na lei (art. 29, inciso III, Lei 12.651/12). Para os pequenos produtores será mais eficiente disponibilizar, desde o início do processo, os técnicos para a inscrição no CAR. Dessa forma, o Poder Público, por meio da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) e de outras parcerias, atenderá ao seu dever legal de prestar apoio técnico e jurídico aos pequenos produtores (art. 8, § 2º, Decreto 7.830/12), garantindo já na entrada do processo de cadastramento as informações fidedignas, para que os órgãos ambientais possam validá-las.

Prazos

Uma das justificativas apresentadas pelo MMA para que o CAR tenha um processo o mais simplificado possível é a de que os prazos da lei são exíguos. Todos os produtores deverão estar inscritos no CAR até dois anos após a implantação do sistema. Como a lei não determinou um prazo para que os cadastros sejam validados, o MMA não está atento ao fato de que um sistema como esse poderá até possibilitar o cadastramento no prazo de dois anos, mas implicará numa morosidade significativa no processo de validação, tendo em vista o número de imprecisões e erros que o sistema induzirá.

Outro argumento utilizado para se preterir do apoio técnico é que poderá não haver profissionais suficientes para realizar o CAR no tempo hábil determinado pela lei. Mesmo que isso seja uma possibilidade, este também não é um argumento válido. Que valor teria um CAR com uma série de inconsistências e pendências? De que adianta acelerar o processo de cadastramento dos produtores para cumprir os prazos se os órgãos ambientais (que também têm poucos técnicos) terão maior dificuldade em validar os cadastros.

Um caminho possível para contornar essa limitação é promover a capacitação dos técnicos de ATER e de outras entidades para a realização do CAR. Se o número de técnicos capacitados ainda não for suficiente para promover o cadastramento no prazo da lei, é mais coerente adiar os prazos do que abrir mão de um cadastro com a qualificação técnica mínima necessária.

É importante destacar ainda que embora não exista prazo expresso na lei para a validação do CAR, há prazos legais para a adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA). Diante desse quadro, fica a pergunta: como os produtores poderão aderir ao PRA sem que seu CAR esteja validado? Não podemos conceber que o PRA será definido sobre um CAR não validado e muito menos que o processo de validação seja feito com menor rigor, para que os prazos do PRA sejam cumpridos.

Em suma, permitir um sistema frágil de cadastramento para que metas quantitativas sejam atingidas não apenas impossibilita resolver o problema como cria outros. Tendo em vista que o CAR será um instrumento fundamental não apenas para o PRA, mas também para uma série de outras ações governamentais, a preocupação central do MMA deve ser garantir um CAR de qualidade. Para isso, reiteramos a necessidade de que os mesmos tenham o devido acompanhamento técnico. Todas as organizações e movimentos sociais que trabalham com a questão ambiental no meio rural deveriam exigir que o MMA, como coordenador do processo, assegure a qualidade do CAR, caso contrário, não teremos um instrumento adequado para orientar as ações necessárias à conservação ambiental nos imóveis rurais.