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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Santo Padre de luxo e o Bolsa Familia



Por Maria Rodrigues, no blog do Nassif

Hoje, acordei com o rádio ligado na Canção Nova reproduzindo a missa realizada em São Paulo. Tudo ía bem quando, durante o sermão, o padre descambou para fazer política. Começou atacando quem rouba indo aos mensaleiros; depois, entrou de cheio nos benefícios do Governo Federal, atacando-os ferozmente; teve até minutos de brincadeiras com o assunto.

Ele diz que conheceu um homem que todos os dias vai pescar, e fica horas diante de um lago. "Esse homem não precisa trabalhar, porque a família recebe todas as bolsas possíveis, o suficiente pra ele poder pescar diariamente", disse. E nessa toada o padre deixou de ser padre, imitando os ministros do STF que deixam de ser ministros quando lhes convém ser apenas políticos.   [...]


Comentário de Ruy Acquaviva

Isso dito por um representante de uma instituição que protege pedófilos e que produziu um dos maiores escândalos fiinanceiros do mundo, no banco do Vaticano, a maior lavanderia de dinheiro da Europa.
Quanta moral tem esse padre para falar contra quem recebe o Bolsa Família?... Um sujeito sustentado pela grana que recebe dos fiéis, da qual não precisa pagar imposto graças a uma lei absurda....

Tese coxinha: este Bananal caminha a passos largos para o abismo



por Edu Guimarães, no feicebúc  [adendos botocudos entre colchetes]

Vejo hoje nos jornais que eles ficaram "surpresos" com o crescimento de 2,3% do PIB brasileiro em 2013. Além dessa "surpresa", o nível de investimento (acima de 18%) também "surpreendeu" essa mídia esquizofrênica.

Claro que não podiam dar boas notícias sem inventarem uma notícia ruim: o consumo cresceu "apenas" o mesmo que o PIB - em anos anteriores, o consumo crescia acima da economia.

Ora, bolas...

O consumo cresceu menos porque o governo aumentou os juros fortemente (a Selic aumentou quase 50% no ano passado) a fim de controlar a inflação [e aplacar a sanha do setor financeiro rentista]. E crescer mais de 2% com inflação controlada e sobre o mais alto patamar de consumo da história é um feito.

Temos, então, o seguinte quadro na economia brasileira: a mais baixa taxa de desemprego da história (pouco mais de 4%), inflação sob controle (pelo décimo ano seguido, ficou dentro da meta do BC), o terceiro maior crescimento econômico entre as grandes economias (somos a sexta maior), investimento privado subindo...

Não é por outra razão que até José Serra e Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-ministro das Comunicações de FHC) disseram ver "exagero" no que a mídia diz sobre a economia brasileira.

Não é exagero, é crime de lesa-pátria. A mídia busca assustar investidores pensando só nas eleições deste ano - sabotando a economia, acha que vai eleger Aécio Neves ou  pior, Eduardo Campos/Marina Silva.

É revoltante. Apesar de a economia estar bem, poderia estar melhor. O investimento, por exemplo, poderia estar em patamar bem mais alto se não fosseo alarmismo da mídia, que assusta os investidores.

Chega a ser inacreditável. E o que é pior: cidadãos comuns, que se prejudicam ao comprar esse discurso sabotador da mídia, acham que estão abafando ao repercutirem essa imundice.

O Brasil é mesmo um país incrível. Sofre sabotagens o tempo todo e, mesmo assim, avança.

Tentam sabotar um evento internacional que poderia nos render grandes vantagens (a Copa), sabotam a economia assustando investidores e nem assim conseguem deter o desenvolvimento e a justiça social cada vez maiores.

Se houvesse uma forma de impedir esses criminosos, a vida dos brasileiros melhoraria a passos largos. Infelizmente, não dá para fazer isso. As liberdades individuais incluem até o direito de o sujeito ser um grande canalha [e mentiroso].

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O modelo Ucrânia / Venezuela pode ser aplicado na China?...

Xi Jinping e Barack Obama em 2013



por (excerto) Peter Lee, no China Matters   e na Redecastorphoto - tradução da Vila Vudu


A recém descoberta paixão do governo Obama por agitação de rua para derrubar governos eleitos não cúmplices de Washington passa agora pelo seu segundo teste em campo, na Venezuela.

Caracas começa a aparecer nas imagens “jornalísticas” como cidade gêmea de Kiev.

A juventude neoliberal conservadora das universidades privadas já está nas ruas procurando briga e pretextos para treinamento pró violência direitista e golpista, como viram fazerem os seus irmãos fascistas ultranacionalistas na Ucrânia.

Se o artigo de Carl Gibson em Reader Supported News cita corretamente documento autêntico, a USAID, com a ajuda de consultores e da Colômbia, já tinha mapeados planos para desestabilizar a Venezuela mediante sabotagem econômica no final de 2013; e, pelo relato de Gibson, também para incitar os tumultos e confrontações de rua:


"Sempre que possível, a violência deve causar mortos e feridos. Encorajar greves de fome de vários dias, mobilizações massivas, problemas nas universidades e em outros setores da sociedade que atualmente estão identificados com instituições do governo [de Maduro]".


Não tenho dúvida alguma de que Leopoldo Lopez, o líder da oposição na Venezuela, é o homem dos EUA em Caracas. O artigo de Gibson também acrescenta, como detalhe, que há um telegrama distribuído por Wikileaks que parece ligá-lo ao Centre for Applied NonViolent Action and Strategies, CANVAS, a ONG de fachada, mantida com dinheiro norte-americano, para promover democracia cum [conceito para "enrrabar"] baseada em golpe de mudança de regime, que o presidente Yanukovich expulsou de Kiev pouco antes de ser deposto.

A Venezuela parece ser fraturável por linhas de classe (não por linhas étnicas, de russos versus ucranianos; nem regionais/ tribais, de cirenaicos versus tripolitanos, como a Líbia; nem confessionais, de sunitas versus xiitas, como a Síria). Assim sendo, o trabalho de catapultar para o poder um grupo pró-elites norte-americanas pode ser mais sangrento e mais prolongado que a aventura ucraniana.

Mas não há dúvidas de que os EUA têm dinheiro e paciência para luta prolongada, sobretudo porque os povos sacrificados estão a milhares de quilômetros de distância de Washington.


Mas e agora?... Será que isso vai funcionar na China?...

Acho que, no caso da República Popular da China, o "chega-pra-lá" vai ser a seguinte jogada de intercepção:

(1) que os EUA promoverão ativamente   a subversão política dos inimigos, o que não é “mito” nem é “teoria conspiratória” com os quais os governos alvos ou se consolam ou se auto-aterrorizam!;

(2) os chineses não deixarão que se constitua nenhum partido de oposição (na China), muito menos que chegue às urnas; e não permitirão nenhuma aglomeração na praça central da cidade; e

(3) a China ameaçará preventivamente todos os ativistas que tenham laços com os EUA ou o ocidente, como sendo subversivos de fato e contrarrevolucionários.

Nada garante que a vigilância ampliada na República Popular da China se traduza em algo próximo da liberalização democrática pela qual o ocidente tanto anseia, para os estúpidos cidadãos chineses. Em vez disso, o plano prevê que o regime chinês atire-se com unhas e dentes sobre os dissidentes, bem rapidamente e como uma tonelada de tijolos.

É terrível ironia que Barack Obama, exemplo glorioso e premiado de progressista, tenha dado tapa rápido no cachimbão da mudança-de-regime de Dick Cheney... e, agora, já parece que não vive sem ele.

É provável que Obama esteja tentando só passar a mão em uma ou duas vitórias bem baratinhas de política exterior e fodam-se as consequências, porque daqui a dois anos ele cai fora e a presidenta Clinton dará jeito em tudo.

Aquele Alfred Nobel que se vê na medalha do Prêmio da Paz que deram ao presidente Obama já deve estar chorando lágrimas de sangue.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Geopolítica é isso ai: Venezuela no bico do corv... da águia carniceira

 Blood Eagle, acrilico sobre tela de Duri Kral

FC Leite Filho* / Moniz Bandeira, no Dialogo do Sul

O cientista político e historiador Moniz Bandeira, autor do livro A Segunda Guerra Fria advertiu que o que ocorre na Venezuela é produto da mesma estratégia aplicada nos países da Eurásia, na chamada “primavera árabe” e outra vez na Ucrânia. Segundo Moniz, autor de mais de 20 livros sobre as relações dos Estados Unidos com a América Latina e agora com a Europa e a Ásia, há um esquema de Washington para subverter os regimes, que foi aperfeiçoada, desde o governo de George W. Bush, e começa com com o treinamento de agentes provocadores.

- Tais agentes infiltrados organizam manifestações pacíficas, com base nas instruções do professor Gene Sharp, no livro From Dictatorship to Democracy, traduzido para 24 idiomas e distribuído pela CIA e pelas fundações e ONGs. O objetivo é levar os governos a reagirem, violentamente, e assim poderem ser acusados de excessos na repressão das manifestações e de violar os direitos humanos etc., o que passa a justificar a rebelião armada, financiada e equipada do exterior e, eventualmente, a intervenção humanitária – explica o cientista político.

A estratégia, ainda segundo Moniz Bandeira, hoje residindo na Alemanha, consiste em fomentar o Political defiance, i.e., o desafio político, termo usado pelo coronel Robert Helvey, especialista da Joint Military Attaché School (JMAS), operada pela Defence Intelligence Agency (DIA), para descrever como derrubar um governo e conquistar o controle das instituições, mediante o planejamento das operações e a mobilização popular no ataque às fontes de poder nos países hostis aos interesses e valores do Ocidente.

- Ela visa a solapar a estabilidade e a força econômica, política e militar de um Estado sem recorrer ao uso da força por meio da insurreição, mas provocando violentas medidas, a serem denunciadas como “overreaction by the authorities and thus discrediting the government”. A propaganda é “a key element of subversion” e inclui a publicação de informações nocivas às forças de segurança, bem como a divulgação de rumores falsos ou verdadeiros destinados a solapar a credibilidade e a confiança no governo, diz o historiador brasileiro.

Trata-se do que o coronel David Galula definiu como “cold war revolutionary”, i.e., atividades de insurgência que permanecem, na maior parte do tempo, dentro da legalidade, sem recorrer à violência.

- Assim aconteceu na Sérvia, na Ucrânia, Geórgia e em outros países, pela Freedom House e outras ONGs americanas, que instigaram e ajudaram, com o emprego de ativistas, a impulsar as demonstrações na Síria, como expus, documentadamente, em a A Segunda Guerra Fria. Agora está sendo aplicada na Venezuela e, seguramente, tentam aplicar no Brasil com os black block.

As conclusões de Moniz Bandeira estão fartamente no livro A Segunda Guerra Fria, editado recentemente pela Editora civilização Brasileira, inclusive com edição em e-book nas diversas ofertas do mercado, como a Amazon.com

Sobre o livro

Os Estados Unidos por trás das revoltas da chamada Primavera Árabe e como mentor dos atos de terrorismo de Estado no Oriente Médio, são algumas das conclusões do novo livro do cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, há 17 anos residindo na Alemanha, e que chega ao Brasil sob o título “A Segunda Guerra Fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos – Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio”. É lançado pela Editora Civilização Brasileira, com prefácio do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Aprofundando e atualizando as questões apresentadas em “Formação do Império Americano”, seu último livro sobre a região, de 2005, traduzido até para o chinês, o autor de mais de 20 obras e considerado a maior autoridade na análise da influência da política norte-americana no Brasil e no continente, faz algumas revelações, nesta obra, que deixariam pasmado qualquer observador menos atento da cena internacional:

“Foram a CIA e o Inter-Services Intelligence (ISI) do Paquistão e o Ri’ãsat Al-Istikhbãrãt Al-’Ãmah, o serviço de inteligência da Arábia Saudita, que institucionalizaram o terrorismo em larga escala, com o estabelecimento de campos de treinamento no Afeganistão, a fim de combater as tropas da União Soviética (1979-1989), fornecendo aos mujahin toda sorte de recursos e sofisticados petrechos bélicos - de 300 a 500 mísseis antiaéreos Stinger, dos Estados Unidos”. Antes, ele havia assinalado logo no início, à página 37, que o terrorismo, na realidade, não era novo e nos anos 1960 e 1970, tanto a Organização para a Liberação da Palestina (OLP), quanto a Frente de Libertação Nacional (FLN), da Argélia, e a Frente de Libertação da Eritreia (FLE) recorreram a esse método de luta, sem que configurasse ameaça internacional. Tais ações seriam parte da estratégia dos Estados Unidos e da Europa para travar a influência, primeiro da União Soviética, e depois da Rússia e da China naquela parte do mundo que controla dois terços da produção mundial de petróleo.

Outros dados da operação afegã: ”A CIA forneceu em torno de 3,3 bilhões de dólares, dos quais pelo menos a metade proveio da Arábia Saudita. Mais de US$ 250 milhões fluíam mensalmente, para os mujahidin da Arábia Saudita e de outros países árabes… Entrementes, agentes do ISI e da CIA recrutavam e treinavam entre 16.000 e 18 mil mujahihin, aos quais Usamah (Osama) bin Ladin uniu um contingente de 35.000 árabes-afegãos. O MI6,  da Grã Bretanha, também colaborou na operação, apoiando, com equipamentos de rádio e instrutores, os mujahidin de Ahmad Shah Massoud (1953-2001), um sunita-afegão-tadjique que posteriormente comandaria a Aliança Norte contra os Talibãs”.

O livro, de 714 páginas, é muito minucioso e didático, mostrando, com abundantes mapas, gráficos e documentos confidenciais, cada uma das situações da região, abalada mais recentemente com as revoltas iniciadas na Tunísia, Líbia, Egito, Yemen e Síria. Cada episódio vem encadeado em capítulos sempre precedidos de resumo e de ementas. São exemplos as razões profundas da derrubada e do linchamento físico do ex-homem forte da Líbia, Muammar Gadaffi, , a resistência do presidente da Síria, Bashar Al-Assad, e a impopularidade dos rebeldes sírios, por devastarem as cidades e o embuste dos direitos humanos, usado pelas grandes potências para justificar sua intervenção.

Quanto à Líbia, o livro relata a política de boa vizinhança tentada por Gaddafi, que incluiu a renúncia à energia nuclear, o restabelecimento de relações com Washington, Londres e Paris. Mas o que se viu em seguida foi “a revolução fabricada pelo DSGE da França, a matança de entre 90.000 e 120.000 pessoas, Gaddafi linchado, brutalizado, abusado, assassinado”. O resultado do que ele chama de disputa pelo “sramble” petrolífero foi que a Líbia virou “um país sem governo e sem Estado, o vacuum político e as disputas tribais”.

Na Ucrânia acontece exatamente o que?...



por Flavio Aguiar, no Brasil Atual

Na Ucrânia houve de tudo, menos uma revolução popular. Tudo começou com uma série de manifestações empilhadas umas sobre as outras: uma juventude ansiosa por se identificar com a União Europeia, uma classe média cansada pelas sucessivas vagas de corrupção dos sucessivos governos, uma insatisfação com o autoritarismo e o fechamento do governo de Viktor Yanukovitch, o desejo de maior ascendência de grupos do oeste do país em detrimento de grupos do leste do país.

A repressão que o governo desencadeou abriu caminho para uma intensificação do descontentamento, açulado pelos partidos de oposição representados no Parlamento e pelo encorajamento internacional – da União Europeia a políticos norte-americanos, republicanos e democratas. De todos o mais animado foi o senador republicano John McCain, em dezembro, gritando na praça da Independência (Maidan), foco e espaço das concentrações: “O mundo livre está com vocês! A América está com vocês!” Melhor lembrança da Guerra Fria e do dito “A América para os [norte-]americanos” seria impossível. Como nos velhos “bons” tempos, o alvo continua sendo a Rússia.

No pano de fundo destas confrontações estão as desigualdades do país. O leste e o sul – junto à Rússia e ao Mar Negro são mais desenvolvidos e industrializados do que o oeste, mais pobre. O leste, de um modo geral, tem seu foco econômico voltado para a vizinha Rússia, de que depende o abastecimento de gás do país, vital para a indústria e para o aquecimento durante o rigoroso inverno. Se a Rússia endurecer a questão do fornecimento de gás, cortando-o ou simplesmente cobrando o preço de mercado, a Ucrânia literalmente congela – em todos os sentidos. Entretanto para o oeste, mais próximo da União Europeia, a aproximação com esta significaria em tese uma maior autonomia em relação ao governo central e às demais regiões do país, além de mais oportunidades de colher investimentos. Pelo menos em tese.

Há também a questão do histórico repúdio aos russos, maior no oeste, um repúdio cujas últimas e trágicas edições foram uma relação ambígua – para dizer o mínimo – de movimentos nacionalistas ucranianos com o regime nazista da Alemanha, e um conflito sangrento e frequentemente descrito como “inútil” com o regime soviético. No leste há também um fator étnico: o número de habitantes russos é muito grande, o que mexe com os brios dos movimentos nacionalistas. E é bom lembrar que na Europa, ao contrário da América Latina, nacionalismo é sempre coisa de direita.

Se este é o pano de fundo, deve-se levar em conta o que acontece nos bastidores e também no palco da política ucraniana. Nos bastidores pairam as sombras dos grupos econômicos – assim como na Rússia liderados pelos chamados “oligarcas” – que se formaram depois do desmanche da ex-União Soviética, dos processos de privatização de tudo, feitos a toque de caixa, e da independência. Estes grupos de oligarquias é que dão as cartas – o poder do dinheiro – para os que estão no palco, os políticos e seus partidos.

Entretanto na Ucrânia não houve, pelo menos até o momento, um Vladimir Putin que, na Rússia, digamos, “botou a casa em ordem”, oferecendo aos oligarcas a manutenção de suas fortunas recém-feitas (sobretudo durante o governo de Boris Yeltsin) desde que não se metessem em política. Enfiando os principais desobedientes na cadeia ou mandando-os para o exílio – confortável, na verdade – Putin e seu neoczarismo disfarçado de república impuseram uma espécie de “pax romana” em seu território.

Na Ucrânia não houve este Putin, mas uma guerra de grupos ora antagônicos, ora aliados, pelas benesses dos oligarcas e pelos espaços de poder, o que conduziu todos a uma política onde alianças ocasionais são apenas passos para uma ideal tomada total do poder, no melhor estilo do “para mim e os meus tudo, para os demais, os rigores da lei”. Este foi o conflito que se estabeleceu entre o atualmente já ex-presidente Viktor Yanukovitch e sua maior rival, Yulia Tymoschenko, que já fora primeira-ministra por duas vezes, líder do partido chamado de União de Toda a Ucrânia – Pátria Mãe, diríamos em português, embora em ucraniano seja “Pátria Pai”.

Yanukovitch, chegando à presidência em 2010, ensaiou e pôs em prática uma reforma constitucional para aumentar a concentração de poderes em torno da presidência, alijando os demais partidos – inclusive o do Tymoschenko – até mesmo das suas franjas. E através de denúncias de corrupção e de um julgamento carregado de suspeitas botou Yulia na cadeia. Aqui pode-se ter uma ideia das complicações da política ucraniana. Yanukovitch é visto em geral como próximo da Rússia e Tymoschenko, como aliada da União Europeia. Pois o primeiro processo aberto contra ela acusava a ex-primeira ministra de abuso de poder e superfaturamento no contrato de fornecimento de gás para Gazprom, a principal empresa russa do setor e uma das maiores do mundo que, como a Petrobras, reúne capitais privados, mas tem seu controle acionário e de fundos nas mãos do Estado.

Entrementes, o pró-Rússia Yanucovitch se aproximava da União Europeia e apressava-se a assinar um acordo de livre comercio com ela. Nesta altura, Moscou acendeu a luz vermelha. Para se entender isto precisamos sair do teatro da política ucraniana e olhar o terreno em volta onde ele está localizado. Três grandes jogadores estão assentados neste terreno, como os bispos de um jogo de xadrez, mais um cavalo que joga com dois deles, contra o terceiro. Os jogadores são a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos, e o cavalo é a OTAN, a aliança militar que teve como principal inimiga a antiga União Soviética e que agora, além de policiar o norte da África e áreas próximas, continua, nem que seja por força do hábito, a cercar seu adversário histórico, atraindo para si os ex-satélites deste.

Os interesses dos Estados Unidos e da União Europeia não são coincidentes na região, pois na atual conjuntura interna de Washington não interessa atiçar o confronto – a não ser na retórica – com a Rússia, devido às necessidades de acertos na Síria, no Irã, etc. Já a UE tem interesse em desembarcar seus avatares dentro do teatro ucraniano, ampliando sua área de influência econômica. Outro fator que complica este movimento é o temor histórico dos Estados Unidos de que, mesmo com rivalidades marcantes, a proximidade entre Alemanha e Rússia termine por forjar uma aliança estável e poderosa que desenvolva um outro núcleo regional de poder. Na base de um movimento destes estaria novamente o gás russo, de que a Alemanha já depende e vai depender mais quando – e se – cumprir a promessa de desativar suas usinas nucleares.

De um modo ou de outro, o fato é que a Rússia colocou um sinal de “Pare!” nos movimentos de Yanukovitch: prometeu 15 bilhões de euros em empréstimos quase a fundo perdido – coisa que a UE, às voltas com suas próprias quebradeiras, não tem condições de oferecer à quebrada Ucrânia – baixou ainda mais o preço do gás e pôs à disposição um acordo de livre comércio consigo mesma, mais outros países da região, ex-repúblicas, como a Ucrânia, da antiga União Soviética. Yanukovitch, que já estava com a caneta na mão e embarcando para Bruxelas, tampou aquela e desceu do avião. Junto aos projetos de novos capitalistas e da classe média do oeste ucraniano (onde o desemprego também é grande entre os jovens), que já sentiam o doce odor dos euros ao alcance da mão, este recuo foi a gota d’água.

Voltando ao cenário político, a gota d’água acabou se transformando num mar de sangue. É verdade que as manifestações foram reprimidas duramente pela polícia. Mas rapidamente sua linha de frente e também seu espaço foram ocupados por movimentos de extrema-direita, nacionalistas xenófobos, antirrussos, antidireitos humanos, anti-imigrantes, antissemitas, antietc., tradicionais na Ucrânia. São grupos de combate, armados, que fizeram frente a uma polícia que progressivamente foi se tornando caótica e desorganizada. Estes grupos são ligados, mas não necessariamente subordinados, ao Partido Svoboda, de extrema-direita, que tem representação no Parlamento. Na última semana os confrontos chegaram ao paroxismo.

Na frente de negociação assentaram-se à mesa três ministros de Relações da União Europeia (Alemanha, França e Polônia), Yanukovitch, três partidos de oposição e mais um representante da Rússia. Enquanto isso, na praça em frente, o conflito de agudizou, com armas de fogo de parte a parte, e franco-atiradores que provavelmente eram de ambos os lados, embora a polícia tivesse ainda maior poder de fogo. O resultado foi de centenas de feridos e muitas dezenas de mortos; as cifras destes últimos variavam entre cerca de 50 a mais de 70, com pelo menos 11 policiais. A certa altura o noticiário chegou a informar que 70 policiais tinham sido “sequestrados” pelos “manifestantes”.

Coloquei “manifestantes” agora, logo acima, entre aspas, porque houve um movimento constante por parte da mídia do Ocidente de idealizar o que ocorria na praça principal de Kiev, apresentando os acontecimentos como um confronto desproporcional entre a brutal repressão do governo e os “amantes da liberdade”. Apesar desta cortina de fumaça, logo começaram a vazar as informações de que estes últimos eram na maioria e na realidade verdadeiras gangues neofascistas que não aceitavam nenhuma negociação nem nada, a não ser a queda de Yanukokovitch e o afastamento da arqui-inimiga Rússia.

Na mesa de negociação chegou-se a um acordo, envolvendo um recuo nas reformas constitucionais promovidas pelo presidente, eleições em dezembro deste ano e a formação de um governo provisório de coalizão. Mas na praça a força policial vinha recuando cada vez mais diante dos “manifestantes”, a tal ponto que estes ampliaram os espaço sob seu controle, chegando inclusive a tomar as entradas do palácio presidencial. Sentindo-se sem condições de segurança, Yanukovitch deixou a capital em direção ao nordeste do país.

Seguiu-se nesta altura um verdadeiro golpe de estado no novo estilo “legalizado” corrente em várias ocasiões neste século 21 (Honduras, Paraguai, Grécia, Itália...): o Parlamento declarou que Yanukovitch “abandonara o cargo” e destituiu-o da presidência, com vários ex-membros de seu partido bandeando-se para o lado da oposição, antecipando as eleições para maio e libertando Tymoschenko, que já declarou-se candidata.

Que acontecerá no futuro? É uma boa pergunta. Antes de conjecturar, um parêntese: e as Forças Armadas da Ucrânia? Trata-se mesmo de um parêntese. Depois da independência em relação à ex-União Soviética, as FFAA abriram mão do arsenal nuclear que estava acantonado em seu território, passando-o à nova Rússia emergente, e diminuíram seu contingente de quase 800 mil para pouco mais de 300 mil homens. Estão entre a cruz e a caldeirinha, realizando manobras tanto com a Rússia quanto com a Otan, que já se declarou de braços abertos para receber este novo aliado quando ele quiser aderir. O namoro está no ar, e só não se concretizou por causa da vigilância do chá-de-pera da Rússia. Até o momento, pelo menos, as FFAA ucranianas parecem estar olhando para o lado – pois nem mesmo a segurança do presidente foram capazes de garantir.

O que vai acontecer vai depender das mensagens que estarão neste momento sendo trocadas entre Moscou, Washington, Bruxelas, Berlim, Paris e, em menor grau, outras capitais europeias, como Londres e Varsóvia. Qual será o novo arranjo entre os partidos políticos ucranianos? É uma boa pergunta. Tymoschenko vai mesmo recuperar seu antigo espaço na oposição que liderava, hoje ocupado por Vitali Klitschko, do Partido Democrático Aliança pela Reforma? O Svoboda vai aumentar seu poder de fogo? O que fará Yanukovitch? Os movimentos de trabalhadores, sobretudo no leste, ainda se mantinham a seu favor, embora no momento, com seu enfraquecimento, isso não tenha significado muito no tabuleiro enxadrístico ucraniano. E o que farão os grupos neofascistas que mantêm Kiev sob seu controle?

O que estes farão ainda não se sabe. Mas já se sabe o que estão fazendo. Neste domingo pela manhã (23), enquanto eu redigia esta nota, corria a notícia – em tom discreto, ao lado da retumbância triunfal dada ao discurso de Yulia Tymoschenko na praça da Independência – de que a Embaixada de Israel na Ucrânia emitira um comunicado pedindo que todos os judeus se abstivessem de sair às ruas de Kiev ou até mesmo deixassem a capital, se pudessem, diante dos ataques contra eles que vêm se sucedendo e intensificando nas ruas, com espancamentos, perseguições e outras coisas desse tipo.

Como em velhos mas nada bons tempos, brinca-se com fogo por aqui.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Porque hoje é sábado - lindíssima canção de 1972

Meio piegas, mas me lembra tempos bons na Barra do Sul da minha juventude.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fundamentos comportamentais para a direita coxinha



por Miguel do Rosário, em seu O Cafezinho


Tem que ter muita paciência para entender a mentalidade coxinha. Imagino que os próprios não entendem a si mesmos. Ontem foi dia de protestos anti-copa, mas dessa vez ficaram bem esvaziados. No Rio, umas cinquenta pessoas, apesar de Marcelo Freixo ter dito a seus fiéis para “continuarem nas ruas”.

O destaque vai para Porto Alegre, que reuniu cerca de 300 ou 400 pessoas.

Os manifestantes, como de praxe, escolheram a hora mais turbulenta do trânsito, o início da noite. Depredaram a agência de um banco público, o Banrisul, tentaram queimar um boneco de Pelé (porque não conseguiram, não sei), reviraram contêineres de lixo, pixaram as sedes do PT e PMDB.

Por fim, puseram fogo a uma foto do Pelé.

Tudo muito pacífico, claro, muito democrático.

Razão do protesto: contra a possibilidade de aumento da passagem de ônibus e, sobretudo, contra a Copa do Mundo.

O Fernando também escreveu sobre o tema no Tijolaço, cujo post reproduzo abaixo:

*

Os “libertários” que não queimam a bandeira americana, mas ateiam fogo à imagem do Pelé

Por Fernando Brito, do Tijolaço

Pelé, fora de campo, nunca foi santo de minha devoção. Já disse muita besteira e muita coisa correta, como tanta gente já fez.

Mas, 40 anos depois de deixar os gramados, é impressionante como ainda é uma figura reconhecida e querida pelo mundo afora. Na prática, virou há meio século um símbolo do Brasil.

Não foi à imagem do cidadão Edson Arantes do Nascimento que este panaca da foto ateou fogo ontem, numa manifestação que reuniu 300 pessoas (“O País em Protesto”, como diz a Folha) em Porto Alegre. Foi ao Pelé que todo mundo gosta, o Pelé do futebol.

Nos protestos, há décadas, volta e meia alguém, mais radical, punha fogo numa bandeira americana. A gente evitava, ninguém queria ofender o povo americano, mas aquilo era um grito contra o império, contra a dominação.

Mas os nossos coxinhas são diferentes.

Protestam contra a Copa, mas não protestam contra a sangria dos juros que o mercado nos impõe e que leva, todo ano, oito ou nove vezes o gasto com a Copa, no cálculo mais modesto.

Carregam cartazes “Dilma=Maduro”, um presidente eleito que se está tentando derrubar.

E ateiam fogo a uma imagem do Pelé. Depois, vão dizer que são “libertários” e “pacíficos”. Quando são intolerantes e belicosos. Eles acordaram a direita fascista brasileira. Que não queima bonecos, mata pessoas.

Não adianta que um ou outro dos que fazem parte disso digam que não concordam. É isso o que se pôs em marcha, querendo ou não. Quem quiser se confundir, que se confunda.

Talvez só descubra tarde demais.

PS. Reparem que a foto, tirada por Carlos Macedo, da Zero Hora, não foi parar nos jornais em geral. A mídia sabe que é uma imagem que repugnaria os brasileiros, não vai ela “queimar” assim os seus prestimosos filhotes.

Duas cartas - 1964 não acabou



por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador

Com a proximidade do triste aniversário de 50 anos do golpe de 64 (sim, golpe, viu Itaú!), a direita que baba mostra-se sem medo. O clima de confrontação na Venezuela (outro 1973? Repetindo o “caos” que levou à queda de Allende?), a proximidade de uma eleição no Brasil em que o PT segue favorito para um quarto mandato, a ascensão de milhares de brasileiros de origem pobre à universidade e ao mercado (incluindo, horror dos horrores, andar de avião ao lado da massa cheirosa de sempre).

Tudo isso vai tirando a direita dos eixos.

É preciso reagir, eles dizem. O Estadão foi chamar um milico pra clamar pela ditadura. De novo? A história não se repete, diz o surrado chavão marxista. Acredito em Marx. Mas nem tanto…

A direção petista – por tibieza, por opção, por pragmatismo – acha que, diante do avanço da direita na batalha das ideias, o melhor é assobiar e olhar pro lado. Enquanto isso, a direita (não falo da direita “liberal”, e nem dos tucanos que, em sua imensa maioria, parecem manter a fidelidade à Democracia) se esparrama: todos os programas de fim de noite (“talk shows”) são dominados por personagens do submundo conservador; da mesma forma, os noticiários, as revistas, os jornais… Azenha publicou no VioMundo ótimo texto de Marcelo Semer sobre o avanço reacionário.

Agora, o pai de um infeliz colunista de “Veja” decidiu implorar por um golpe militar, abertamente.Trata-se de Enio Mainardi. Triste figura. Vivandeira tardia dos quartéis. Será que a mãe de Luiza Trajano poderia vir ensinar algo a este outro Mainardi?

Na mesma semana, felizmente (ou infelizmente, porque trata-se de história triste, trágica), um outro pai mostrou a cara para falar de 64: Dermi Azevedo. Ele e a mulher foram torturados durante a ditadura. E os criminosos não pouparam o filho de Dermi – que na época tinha pouco mais de 2 anos. O garoto padeceu toda a vida de sérios problemas emocionais (ocasionados pelo trauma), e já não está entre nós. Na verdade, está! Porque Dermi não nos deixa esquecer.

Comparem as duas cartas: Enio Mainardi e Dermi Azevedo. O filho de Dermi não está vivo. Mas na verdade quem vaga feito cadáver é o outro pai (acompanhado por seu filho da vida). Leiam…


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Carta ao meu filho – Dermi Azevedo (na CartaMaior)

Caro Carlos Alexandre Azevedo (Cacá) Meu querido filho, Bom dia !

Faz hoje exatamente um ano que você partiu para outra vida. Como aconteceu com muitas outras crianças, você foi uma das vítimas da cruel e sanguinária ditadura civil-militar de 19648. Com apenas um e ano oito meses, você foi submetido a torturas pela “equipe” do delegado Josecyr Cuoco, subordinado ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais violentos esbirros da história contemporânea.

Já no sofá da pequena casa em que morávamos no bairro de Campo Belo, na zona sul paulistana, os investigadores da repressão quebraram os seus dentinhos; mais tarde, você foi submetido a novos vexames na sede do DEOPS. Em seguida, na madrugada de 14 de janeiro de 1974, você foi levado a São Bernardo do Campo, onde moravam seus avós Carlos e Joana. Eles foram acordados com o barulho dos agentes que jogaram você no piso da sala…

Toda a sua vida foi marcada por esses acontecimentos. Quando você, anos mais tarde, tomou conhecimento do que viveu, você leu muito e estudou a história da repressão fascista. Em entrevista à repórter Solange Azevedo, da ISTO É, você sussurrou: “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura… Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil…”.

É isto mesmo, meu filho. Ainda há muita gente que não acredita que milhares de brasileiros e de brasileiras, de estrangeiros e de estrangeiras que viviam no Brasil, dedicados aos mais oprimidos e excluídos, tenham sido perseguidos e esmagados pela ditadura…”

Ainda há cidadãos, fardados ou não, no Brasil e na América Latina, que praticam e legitimam a tortura…

Definitivamente marcado pela dor…por sua dor e pelo sofrimento (inenarrável ) de sua mãe e de seus irmãos, você decidiu partir…

Cabe a mim, seu pai, a tarefa quase apenas de compartilhar a narração do seu calvário, de denunciar – como jornalista – os crimes da ditadura e de lutar para que dores e agonias, como as que você viveu, nunca mais aconteçam…

Do seu pai, Dermi Azevedo


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 (Apelo às Forças Armadas) – Enio Mainardi (no facebook)

Não tem “esquerda” no Brasil. O que há é uma Nação sendo manipulada pelo PT, que investe tudo para ganhar cada vez mais poder, arregimentando os miseráveis através das bolsas, aparelhando o Estado com apaniguados protegidos do partido, negociando e traficando as riquezas nacionais com grupos nacionais e países estrangeiros, uni…camente voltados para seus próprios interesses. Estamos mergulhados num regime que perde por hora, por dia as suas características democráticas. Vivemos um limite, a Pátria está em perigo. E neste exato momento, nesta noite de sábado sangrento, a Venezuela, que teve sua democracia destruida pelo bolivarismo, está em guerra civil. O exército venezuelano, apoiado por forças cubanas e eventualmente bolivianas – está abrindo fogo contra a rebelião do povo venezuelano, que configura uma nítida guerra civil. Maduro, Lula, Dilma, Fidel conspiram para tornar este continente uma ex-Democracia, comandada por líderes comunistas. Cada ação do governo brasileiro aponta para a liquidação progressiva da liberdade – inclusive a constitucional. Está-se nitidamente preparando um golpe que perpetue a canalha do PT-PMDB no contrôle político do país. Talvez nem hajam eleições, basta ver o massacre que arrasa a Venezuela. Nestas circunstâncias dramáticas de derrubada e desmoralização do poder civil, sobra o caminho de antecipar a ação deletéria dos que obedecem aos preceitos gramcistas – através da atuação decisiva de nossas Forças Armadas. Contra-revolução, já.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Venezuela: a guerra da informação




por Manuel E. Gándara Carballido - cidadão venezuelano - pescado na Carta Maior


Nós, venezuelanos, assistimos a um novo ciclo de fatos violentos e, mais uma vez, se faz necessário um talento crítico que permita avaliar a situação sem cair em leituras interessadamente distorcidas.

Na Venezuela, temos experiência de quanto o manejo (e a manipulação) da informação faz parte do desenvolvimento dos conflitos e das confrontações sociais.


Neste novo episódio, assistimos a bloqueios e auto-bloqueios informativos por parte de alguns meios de comunicação. 

(Veja vários exemplos de informações e imagens  falsas a respeito do que ocorre, aqui, inclusive a que ilustra este post)

Diante disso, muitas pessoas recorrem às redes sociais para saber o que está acontecendo. Nelas, encontram muitas fotos, vídeos e denúncias apresentadas como se fossem registros do que está acontecendo nestes dias no país quando, na verdade, pertencem a outros países e a outros momentos históricos. Assim, é preciso suspeitar da informação que nos chega sobre os acontecimentos. É necessário avaliá-la e contrastá-la antes de tomá-la como verdadeira.

Segundo declarações oficiais, divulgadas pela Procuradora Geral da República, Luisa Ortega Díaz, os acontecimentos deixaram até o dia 14 de fevereiro um saldo de 3 pessoas mortas, 66 feridas e 69 presas. Os três homicídios ocorreram na cidade de Caracas, onde perderam a vida os cidadãos Juan Montoya, membro do coletivo José Leonardo Pirela, da comunidade 23 de janeiro (que apoiava o governo de Maduro), Bassil Dacosta, estudante da Universidade Alejandro Humboldt (que participava dos protestos), e Roberto José Redman Orozco, todos vítimas de disparos de armas de fogo.

Em relação aos feridos, também segundo a Procuradoria Geral, entidade responsável pela investigação, 9 foram em Caracas, 41 em Aragua, 11 de Merida, 4 em Lara e 1 em Táchira. Dos 66 feridos, 17 são funcionários policiais e militares. Além disso, a sede do Ministério Público, Parque Carabobo e algumas instalações do Metrô de Caracas sofreram danos em suas instalações, produto da ação violenta ocorrida.

Em um processo de aprofundamento democrático é fundamental o exercício do direito de protesto, da manifestação pacífica, convertendo a rua em um espaço de construção política, de demandas; mas dificilmente se pode aceitar que o exercício desse direito seja instrumentalizado em função de outras agendas que pouco tem a ver com uma democracia participativa. Assim, boa parte do desconcerto que se vê nestes dias tem a ver com as mensagens cruzadas sobre as supostas motivações dos protestos. Entre as demandas que aparecem nos protestos da oposição se encontram a exigência de maior segurança (a principal necessidade sentidas por todos os setores da população venezuelana), a necessidade de atender ao problema do desabastecimento, e a exigência de respeito às universidades. Mas, ao mesmo tempo, circulam mensagens que pedem “a saída” do governo de Nicolas Maduro como razão das convocatórias das marchas e protestos.

Neste contexto, o governo anunciou a expulsão de três funcionários da Embaixada dos Estados Unidos, assinalando que os mesmos vinham participando da criação de organizações de jovens destinadas a promover ações violentas. O chanceler Elías Jaua manifestou que tais ações estavam sendo promovidas com o pretexto da entrega de vistos nas universidades do país. Os Estados Unidos responderam, chamando de falsas as acusações de ingerência formuladas pelo governo venezuelano.

Por outro lado, creio que não podemos deixar de lado a disputa pela liderança no interior da própria oposição venezuelana. Leopoldo López e María Corina Machado aparecem como as principais figuras que animam este novo ciclo de protestos, e pedem a radicalização das ações, frente a outros líderes opositores (entre os quais se encontra o próprio Henrique Capriles Radonski, ex-candidato presidencial e até agora apresentando como principal líder opositor frente ao chavismo), que são apresentados ultimamente como “fracos” diante da realidade do país.

Seja como for, o que não se pode permitir numa sociedade que pretende aprofundar seu caráter democrático e inclusivo é o estabelecimento da impunidade frente a fatos como os ocorridos nos últimos dias. É preciso abrir processos de investigação que permitam punir os responsáveis por esses fatos, determinar o uso excessivo e injustificado da força (incluindo aí a força letal) por parte de funcionários dos órgãos de segurança do Estado. Além disso, é preciso investigar os atos delituosos cometidos no marco dos protestos e punir seus autores intelectuais e materiais. Esse é um dos desafios que nós, venezuelanos, temos pela frente: superar a leitura ingênua dos meios de comunicação e do que circula nas redes sociais é outro.

O discurso do bem



excerto de Eliane Brum, no El País

O discurso do bem cabe em poucas frases. O Estado é omisso. A polícia é desmoralizada. A Justiça é falha. 

Diante desses fatos, e todos os fatos são sempre inquestionáveis no discurso do bem, acorrentar jovens negros em postes com trava de bicicleta, cortar a sua orelha e arrancar suas roupas é um direito de legítima defesa dos cidadãos de bem. Se quiserem torturar o menino negro, como fizeram, eles podem, assegura o bem. Se quiserem matá-lo, eles podem, também. E alguns o fazem. 

Meninos negros não são meninos. Não é preciso investigação, não é preciso julgamento, não é preciso lei. Os cidadãos de bem sabem, porque são a lei. Também são a justiça. O menino é um marginalzinho, é também um vagabundo, diz o bem. E bandido bom é bandido morto, garante o bem. Se você não pensa assim, o bem tem um pedido a lhe fazer: faça um favor ao Brasil, adote um bandido. Simples, direto, objetivo. 

O discurso do bem orgulha-se de ser simples, orgulha-se de só ter certezas. A dúvida atrapalha o bem. E o bem não deve ser perturbado. E como duvidar que acorrentar um menino negro a um poste pelo pescoço, cortar a sua orelha e arrancar suas roupas é o bem?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Esse é o jornalismo que se pratica - PIG



por Florestan Fernandes Jr  no GGN

Apenas um desabafo de um jornalista de televisão

"Vai ser rápido, três takes", foi o que disse Santiago ao sair da redação. A expressão banal usada com frequência por repórteres e cinegrafistas quando têm a tarefa de gravar um assunto que não demanda muito tempo, agora merece uma longa e demorada reflexão.

Morreu um companheiro de trabalho, jornalista de frente, da cobertura pesada das ruas, vielas e palácios suntuosos do país. Morreu um repórter do cotidiano, que colocava sua vida em risco quase que diariamente na nobre tarefa de informar. Com suas imagens ajudou a aumentar a audiência de telejornais. Certamente nunca teve o reconhecimento financeiro de seu importante trabalho. Como todos os colegas de profissão, tinha um salário miserável pelo risco que corria.

Mas isso não é mais importante. Ele já está morto. Morreu registrando as cenas de barbárie de um país que, pela primeira vez, se olha no espelho e vê refletido um rosto marcado pelas cicatrizes de centenas de anos de abandono e descaso. De um país de poucos, de uma justiça para poucos, de terras nas mãos de poucos, da educação para poucos, de riqueza para poucos. Um país de uma elite arrogante, perversa e preconceituosa, que por séculos controla a política em todos os níveis; estadual, municipal e federal.

Nós jornalistas, sim, estamos de luto. A família de Santiago Andrade está de luto. A sociedade brasileira mais uma vez está de luto. Não nossos patrões que fazem do jornalismo um espetáculo dos horrores. Que colocam na frente das câmaras âncoras despreparados e irresponsáveis que vomitam seus preconceitos e ódios. Jornalismo de baixo nível que usa e abusa do sensacionalismo para garantir audiência. De "âncoras" desafiando o bom senso todos os dias com um pensamento esquizofrênico e preconceituoso. Um jornalismo travestido de notícia que manipula dados, denúncias e, em vez de levar conhecimento, cultura e educação, faz da noticia um controle de mentes.

São os Black bloc da comunicação. Ajudaram e continuam ajudando a destruir os valores mais importantes da cidadania e de justiça social. Tudo cinicamente justificado pela liberdade de expressão. Tudo para manter o status quo de uma elite atrasada e mesquinha que realmente não quer abrir mão de seus privilégios.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Monstro Gyabra ronda o Japão - chamem o National Kid



por Ralph Nader, na Carta Maior

Mês passado, os partidos de coalizão japoneses tramitaram no Parlamento uma Lei de Segredos de Estado. É melhor que tomemos conhecimento disso.

Sob suas disposições, somente o governo decide o que é considerado segredo de estado e qualquer civil que divulgue algum segredo pode ser preso por até 10 anos. Jornalistas pegos tornando o assunto público podem ser presos por até 5 anos.

Autoridades do Governo têm se mostrado prejudicadas com a constante revelação da sua negligência, tanto antes quanto depois do desastre nuclear de Fukushima em 2011, operado pela Companhia Elétrica de Tóquio (TEPCO).

Semana após semana, surgiram matérias na imprensa apontando para a seriedade da contaminação do fluxo hídrico, a inacessibilidade do material radioativo presente nos reatores e a necessidade de conter o vazamento radioativo que contamina, cada vez mais, a terra, as plantações e o oceano.

Agentes estimam que pode levar até 40 anos para limpar e desativar os reatores.

Há outros fatores que alimentam a certeza de um recuo democrático no país. O militarismo está motivando seu projeto de “democracia ameaçada”, originada pelo atrito com a China pelo Mar do Sul. Militares dos EUA estão pressionando para o aumento do orçamento militar Japonês.

A China é a mais recente justificação de segurança nacional para a “articulação para o Leste Asiático”, provocada, em parte, pelo complexo industrial-militar norte-americano.

Sigilo rigoroso no governo e o apressar de projetos nas casas legislativas são maus presságios para a liberdade da imprensa japonesa e para o direito de discordância da população. Liberdade de informação e fortes debates – tendo o último sido cortado pelo Parlamento em Dezembro de 2013 - são os aspectos chaves da democracia.

O New York Times continua, surpreendentemente, a cobrir as condições deterioradas na área evacuada de Fukushima, porém com uma boa razão. Os EUA licenciaram diversos reatores com o mesmo design e com muitos dos padrões de segurança e inspeção inadequados. Alguns reatores estão próximos de áreas propícias para terremotos e de povoados que não poderão ser evacuados com segurança em caso de danos na parte elétrica do local. Os dois reatores envelhecidos da estação Indian Point situados a 30km de Nova Iorque são um exemplo.

Quanto menos soubermos sobre as condições passadas e presentes de Fukushima, menos vamos aprender sobre reatores atômicos dos EUA.

Felizmente, muitos cientistas japoneses famosos, incluindo os ganhadores do Nobel, Toshihide Maskawa e Hideki Shirakawa, conduziram a oposição contra a nova legislação de sigilo com 3.000 assinaturas de acadêmicos em uma carta de protesto.

Esses cientistas e acadêmicos declararam que a nova legislação é uma ameaça “aos princípios pacifistas e direitos humanos fundamentais estabelecidos na constituição e deveriam ser rejeitados imediatamente.”

Seguindo essa declaração, a Associação de Cientistas Japoneses, companhias de mídia do país, Associações de cidadãos, Organizações de Advogados e algumas legislaturas regionais se opuseram à nova legislação. Pesquisas mostram que o público também se opõem a esse ataque a democracia. Os atuais partidos hegemônicos permanecem inflexíveis. Eles citam como razões para justificar a nova legislação “segurança nacional e combate ao terrorismo.” Soa familiar?

A história está sempre presente nos pensamentos do povo japonês. Eles sabem o que aconteceu quando o país se inclinou para a militarização da sociedade e, consequentemente, liderou uma tirania intimidadora que motivou a invasão da China, Coréia e Sudeste Asiático antes e depois de Pearl Harbor. Em 1945, o Japão estava em ruínas, terminando com Hiroshima e Nagasaki.

O povo americano deve se manter alerta para as provocações políticas e militares que seu governo faz para a China, que está preocupada com um possível cerco aéreo e/ou marítimo americano e de aliados. As políticas comerciais dos EUA que têm facilitado às companhias americanas a enviar indústrias e empregos do país para a China, deveriam receber total atenção de Washington.

A administração Obama tem de atentar para as inclinações autoritárias no Japão que suas políticas tem encorajado ou ignorado – muitas vezes por trás das cortinas do próprio sigilo crônico norte-americano.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Copa aqui na Terra papagali





por Marcos Nunes, comentando no Diário do Centro do Mundo




O problema da Copa não é a Copa em si, mas a caixa preta que é toda e qualquer ação de Estado. Se fosse construídos hospitais e escolas, daria no mesmo: as contas não fechariam. Não há transparência nos gastos públicos. E quebrar o país para exigir transparência não me parece uma boa saída. Restam as eleições, mas, nelas, o que vemos é mais do mesmo, com aqueles representantes "do povo" que representam setores econômicos, de banqueiros a fazendeiros, passam por mídia e clubes de futebol e outros mais, então, não teremos Reforma Tributária de fato, não teremos reforma do Judiciário, não teremos Reforma Administrativa, não teremos nada além da continuidade de uma política que mantém as mesmas estruturas e não atinge meta senão aquelas de interesses exclusivos.

Há, claro, quem veja que está tudo bem, tudo legal, e que temos até, ai, ai, ai, um "projeto para o país". Não, não temos: vamos aos tropeções, aos soluços, às concessões, e tome banqueiro alegre, tome privatização de poços de petróleo, tome aumento de taxa de juros, tome ortodoxia...

... e, é claro, quando se tenta e não consegue, resta reclamar do Judiciário, até com razão, mas não basta. Cadê a capilaridade do governo com os movimentos sociais que poderiam oferecer suporte às mudanças estruturais? Não há. O governo prefere que a população veja Dilma como a "Mãe Dilma", Lula como "Papai Lula"...

Deixando claro que não sou contra a copa aqui, sou até muito a favor, mas vejo que, infelizmente, o que poderia ser excelente para o país, só será razoável. E não adianta colocar a culpa só nos "brequebroques". Se tivesse feito conforme projetado, com todas as obras de mobilidade urbana e sem vitimar moradores de áreas carentes, os governos só colheriam louros, principalmente se confrontassem os empresários das empresas de ônibus e até estatizassem os serviços para impedir abusos e locautes.

Mas não!... de concessão em concessão, vamos tropeçando, às vezes indo em frente, às vezes caindo no chão.




E tá duro de levantar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A elite estressada



Por Reinaldo Lobo, no DomTotal Noticias


Um fenômeno curioso está acontecendo no Brasil. Desde junho do ano passado, uma parte considerável dos manifestantes que saem às ruas para protestar contra a Copa, o governo, os médicos cubanos, o preço do metrô e das passagens de ônibus ou para apoiar os protestos anti-corrupção não são estudantes de esquerda nem mesmo arruaceiros. São pessoas que pertencem à elite econômica, social e cultural do país.

Vários são declaradamente de direita e saem às ruas para dar vazão a uma revolta de privilegiados, pois sentem-se ameaçados pelas políticas sociais e distributivistas da era Lula e Dilma. São os que se incomodam com a presença nos aeroportos de "gente com cara de rodoviária", como sintetizou uma senhora numa fila em Cumbica.

Esses cidadãos, muitas vezes consideravelmente preconceituosos, entoam slogans anti-comunistas, como se estivéssemos ainda no tempo da Guerra Fria. Manifestam ojeriza e muita raiva em relação ao ex-presidente Lula e aos "petralhas", termo cunhado por um de seus ideólogos na imprensa.

Os petistas expressariam tudo o que abominam - a promiscuidade social com a "classe C ou D", sua ascensão aos espaços do consumo em massa e o o perigo de que suas representações na política ou nos movimentos socais tornem-se ainda mais hegemônicas nas escalas do poder. A eles, atribuem os males do Brasil.

Lula é a cara "de rodoviária", mas tornou-se poderoso e com liderança carismática sobre um eleitorado fiel, talvez o mais fiel desde Getúlio Vargas. O ódio e o desprezo que seu nome desperta nos setores de elite é diretamente proporcional ao seu sucesso eleitoral e de público.

Há um movimento eleitoral, neste momento, que consiste em uma união conservadora do tipo "todos contra Lula e Dilma". Após as últimas derrotas dos candidatos da oposição, a persistência de uma certa expansão petista e o conseqüente enfraquecimento da oposição levaram às cordas partidos oposicionistas como o DEM e o PSDB. Hoje tentam desesperadamente ocupar o espaço que lhes foi roubado pelo que chamam de "populismo" e, com desprezo, de "lulo-petismo".

Um dos equívocos é o de apontar só em direção ao PT, quando o atual governo é formado por um precário e amplo arco de alianças que vai da centro direita até uma parte da esquerda. Como temos insistido aqui, toma-se a parte pelo todo sem apresentar um projeto político e econômico alternativo, que não seja uma fórmula já experimentada no passado. Os partidos oposicionistas também procuram novas lideranças para forjar um substituto para Lula e Dilma, como seria o caso do neófito Eduardo Campos e de Marina Silva.

O movimento social e político que emergiu das chamadas "jornadas de junho de 2013" e agora insiste em se apresentar nas agitações contra a realização da Copa do Mundo e outras reivindicações, foi ainda muito pouco entendido pelos observadores e os próprios políticos.

O que começou como protesto das camadas mais pobres contra o aumento de tarifas dos ônibus e trens, ganhou espaço político junto à classe média, assustada, por sua vez, com a proverbial proletarização. Esse é o seu fantasma clássico em todos os períodos de mobilidade social ou de crise, o que a empurra para posições conservadoras.

Os mais pobres queriam manter e ampliar as suas conquistas e os setores mais privilegiados queriam manter e ampliar sua posição de vantagem no cenário social e político. Não faltam justificadores ideológicos na sua elite intelectual para isso.

O que ficou evidente desde então foi a falência da representação política e, como muitos já disseram, a impossibilidade de negociar soluções pelos canais institucionais tradicionais, como o Congresso ou o Judiciário.

A violência sistemática nas recentes manifestações contra a realização da Copa e, ainda, os preços das passagens no Rio, não são apenas sintomas do "caos urbano", como alguns tentam explicar. Podem ser também, mas nunca apenas.

A expansão da agressividade da participação social e política está ligada, em parte, a algo que apontamos em artigo anterior, intitulado "Alarme de Incêndio": a dificuldade das sociedades de consumo atuais, em plena crise global, de dar voz e representação efetivas não ao consumidor, mas à cidadania. .A outra face disso é a brutalização e a violência política.

A morte do fotógrafo no Rio foi um ato político, ainda que tresloucado, de quem quer ver o circo queimar. Foi ato anti-democrático de certos grupos mistos, suspeitos de infiltração dos provocadores, dos milicianos cariocas e da própria polícia.

O pano de fundo são as eleições deste ano, não a Copa ou os gastos com infra-estrutura.

Há uma paradoxal união entre as forças conservadoras e de extrema esquerda nessa cenário. A rapaziada do PSOL, do PSTU e dos Black Blocs faz parte da esquerda infantil, vítima daquela doença diagnosticada há tempos por aquele famoso autor russo, Lênin, inspirado - saibam - por uma leitura de Freud.

A "doença infantil do esquerdismo" faz o jogo da direita, que também sai às ruas para dar vazão à revolta dos privilegiados, esse particular e curioso fenômeno do Brasil atual.

A violência, que se espalha perigosamente e toma uma forma cada vez mais política no país, tem várias caras. Algumas estão mascaradas e pertencem aos Black Blocs. Outras, são as pessoas que renegam a violência, mas são complacentes com sua existência na medida em que caracterizam os protestos e o quebra-quebra como um efeito inevitável das políticas públicas.

Playboys e Black Blocks unidos pensam que jamais serão vencidos. Veremos em outubro, nas urnas.

Sheherazade - só mais uma picareta 2ª linha


por Joaquim de Carvalho, no Diário do Centro do Mundo


Numa entrevista à coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a apresentadora Rachel Sheherazade contou que era funcionária pública concursada do Tribunal de Justiça da Paraíba, mas que não comparecia ao trabalho por se encontrar em São Paulo. A licença estaria próxima de vencer, e ela teria que se desligar da função pública definitivamente.

A declaração repercutiu na internet, e Rachel foi acusada de ser funcionária fantasma. Em sua defesa, publicou no Twitter nota da diretora de comunicação do Tribunal, postada depois no Facebook: Rachel não comparecia ao tribunal, é verdade, mas também não recebia salário. Estava de licença não remunerada.

“Não brinquem com fogo”, ameaçou Rachel Sheherazade, depois de “instruir” jornalistas que “ignoram ou fingem ignorar as leis para tentar difamar quem ‘tá’ quieto.” Ninguém procurou checar as informações e o caso morreu por aí.

A nota da diretora do tribunal, Marcela Xavier Sitônio Lucena, não está mais no Facebook, e Rachel não voltou ao assunto. É fato que a jornalista não recebe salário do tribunal, como atestou a diretora de comunicação — mas desde 27 de fevereiro de 2012, quando estava no SBT em São Paulo havia quase um ano.

Entre 1º de abril de 2011 e 27 de fevereiro de 2012, ela recebeu salário todos os meses, como se estivesse trabalhando, inclusive a gratificação pela função de confiança que ocupava na gerência de comunicação. Seu último salário líquido foi de aproximadamente R$ 5.700,00.

Segundo o tribunal, dentro da lei. Na época, o país que Rachel disse à revista Forbes não ser civilizado garantia benefícios extraordinários a funcionários da Justiça. A cada cinco anos de trabalho, três meses extras de férias – o que é chamado de licença prêmio.

Sob a matrícula 4705149, Rachel Sheherazade Barbosa assumiu o cargo de técnica judiciária no dia 11 de março de 1994, antes de se formar em jornalismo (em 1997). Depois de formada, foi comissionada na gerência de comunicação, onde ocupou o cargo de assistente administrativa.

Seu antigo chefe, Genésio de Souza, garante que ela cumpria horário, embora pudesse ser vista, todos os dias, por volta das 13 horas, apresentando o jornal da TV Tambaú, afiliada do SBT, onde já era conhecida por seus comentários, digamos, de tom conservador e moralista.

Em 2011, depois que um vídeo em que ela criticava o Carnaval bombou na internet, Rachel foi convidada para se transferir para o SBT em São Paulo, e assumir a bancada do mais importante jornal da rede.

Na despedida da TV Tambaú, agradeceu aos chefes na TV, aos colegas e à família, sem esquecer de mencionar sogros e sogras e os cunhados e cunhadas. “Agradeço principalmente a Deus, por ter me abençoado ricamente, e eu não sou digna de tantas dádivas”, disse, sem conter as lágrimas.

Rachel é uma crítica contundente do papel do estado na sociedade, entre outras coisas por dificultar o porte de armas ao cidadão e também por não garantir sua segurança. É um país de “valores esquizofrênicos”, escreveu ela num artigo publicado nesta terça-feira.

Se as coisas derem errado no SBT, o que hoje parece improvável, Rachel pode voltar ao emprego público. Ao contrário do que disse, a licença sem vencimentos exprira só em 2015. Até lá, Rachel está segura — uma garantia do estado.

O Brasil acabou!... The End!... Finito!... Game over!.. Caput!...



por Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

(Um negro foi acorrentado pelo pescoço a um poste em praça pública - No Rio de Janeiro - Em 2014)

Já temos justiceiros que prendem adolescentes (negros, pois não?...) a postes com travas de bicicletas e detentos decapitados por detentos.

Agora, de acordo com a Folha, gays estão sendo agredidos nas ruas em “novas ondas” de ataques homofóbicos na região da rua Frei Caneca, em São Paulo. A solução proposta na matéria: “evitar lugares abertos; não dar ‘pinta’ — alguns trejeitos podem atrair a atenção de criminosos; evitar andar de mãos dadas e beijar em locais públicos”.

OK. Aparentemente, isso significa que, depois do beijo na novela das 9, já estava na hora de os homossexuais voltarem para o armário. O complicado é o conselho para “não dar pinta”. Como proceder? Que tipo de roupa eles devem ou não usar? Podem ouvir Lady Gaga? Qual o carro adequado? E as gírias?

Numa terra sem lei, chamar a polícia, nem pensar. Contratar um advogado para quê? Hoje, foi divulgada uma foto do suspeito de ter acendido o rojão que matou o cinegrafista da Band Santiago Andrade. Seu mandado de prisão já foi expedido.

Ele pode ser denunciado por um vizinho e entregue a uma delegacia. Ou, aplicando-se a Lógica Sheherazade, será “compreensível” se for apanhado por um grupo de vingadores imbecis e linchado, já que o estado não serve para coisa alguma e estamos na selva.

Numa entrevista para a revista ‘Forbes’, Rachel Sheherazade disse que o Brasil “não é um país civilizado. Ninguém acredita nisso mais. Em termos de civilidade, nós atingimos o grau mais baixo”. E segue daí.

Não que não haja problemas gravíssimos de segurança pública. Mas essa histeria interessa a quem? Gritar fogo e sair correndo para se salvar ajuda a quem? O pessoal que Sheherazade representa — ou as pessoas em quem ela vai votar: o que eles propõem? Um haraquiri ou um justiçamento coletivo? Temos alguma ideia?

Há alguns anos, os Simpsons tiveram um episódio passado no Brasil. A certa altura, macacos cruzavam as ruas de Ipanema. Foi motivo de repúdio quase generalizado (especialmente por quem não entendeu que era uma piada).

Fosse hoje, os autores da série teriam de incluir homens encapuzados com cutelos, crianças fugindo de prédios em chamas e hienas se alimentando de cadáveres atirados a esmo nas praias, enquanto Neymar faz um gol impedido com as mãos.

E ninguém diria nada. Acabou. Caput. Fecha tudo e pede a conta. Vamos cobrir a cabeça de cinzas e entregar os reféns. Só tente, por favor, não sair dando pinta por aí.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

E a Veja?... continua um esgoto




texto primoroso de Rodrigo Vianna, em seu O Escrevinhador



Nas redes sociais, tarde da noite de sexta-feira, jornalistas afinados com o tucanato e militantes da esquerda extremada se esparramavam em elogios à capa da “Veja”. Eu, que procuro manter distância sanitária da revista, aproximei-me da capa. E só consegui enxergar um gesto: de oportunismo barato.

A “Veja” expõe a imagem – chocante, lamentável, triste – do rapaz preso pelo pescoço num poste na zona sul carioca, e aproveita a cena não para refletir sobre a tradição oligárquica brasileira, não para pensar sobre nossa história de 300 anos de escravidão, ou sobre nossa elite que reclama de pobres nos aviões e clama sempre pela resposta fácil do liberalismo de araque e da violência de capatazes. Não. “Veja” usa a foto terrível em mais uma tentativa para desgastar a imagem do Brasil; e também – que surpresa – para culpar o “governo”. Que governo? Ah, não é preciso ser muito esperto pra descobrir…

Emoldurando a foto triste, “Veja” berra em letras garrafais: “Civilização” e “Barbárie”. E depois acrescenta a legenda malandra, velhaca: “A volta dos justiceiros, criminosos impunes, colapso no transporte, caos aéreo. Onde está o Brasil equilibrado, rico em petróleo, educado e viável que só o governo enxerga”.

Certamente, o Brasil “equilibrado” não está nessa revista. “Veja” pratica o jornalismo da barbárie, um jornalismo que escreve “estado” assim – com “E” minúsculo – numa espécie de bravata liberal fora de época. “Veja” envenena o país todos os dias, com blogueiros obtusos, asquerosos, que falam para um Brasil pretensamente senhorial, como se ainda estivéssemos antes da Revolução de 30.

Curioso, também, ver a “Veja” falar em “barbárie” e em “criminosos impunes”. Logo essa revista, tão próxima do bicheiro Cachoeira, pautada pelo bicheiro, amiga do bicheiro. A tabelinha com Cachoeira é – sim – um exemplo perfeito desse Brasil de criminosos impunes.

A “Veja”, que tenta pegar carona na imagem do rapaz preso pelo pescoço, pratica um jornalismo justiceiro – que invade quartos de hotel, “julga” e “condena” sem provas, inventa fatos, publica grampos sem áudio, alardeia contas no exterior e dólares em caixa de whisky. Tudo falso, falsificado. Um jornalismo que acredita em boimate e Gilmar Mendes.

A revista não tem moral para falar contra a “barbárie”, nem contra os “justiceiros”. E não tem, precisamente, por praticar um jornalismo que é a própria encarnação da barbárie, da falta de escrúpulos, um jornalismo justiceiro.

O Brasil do lulismo tem muitos problemas. Isso é evidente. Mas não venha a “Veja” querer apresentar a receita de “Civilização” ao Brasil. A receita da “Veja” é a mesma que os EUA oferecem à Ucrânia.

Está claro, por essa capa oportunista e velhaca, qual é a pauta dos setores que não aceitam o Brasil um pouquinho mais avançado dos últimos anos: é jogar tudo no “caos”, na “barbárie”, na insegurança. O Brasil é a jóia da coroa na América Latina em 2014. Tão importante quanto a Ucrânia no leste europeu, tão estratégico quanto a Síria no Oriente Médio.

Não sejamos ingênuos. A velha imprensa brasileira – que se reúne com embaixadores dos EUA às escondidas (isso desde 64, mas também em 2010 – como nos revelou o Wikileaks) – é parte decisiva no jogo pesado que veremos em 2014.

A oposição brasileira não tem programa. A economia não afunda como gostariam os urubulinos. Portanto, é preciso produzir a pauta do caos. Esse é o caldo de cultura em que podem prosperar candidaturas “justiceiras” que a “Veja”, os mervais e outros quetais estão prontos a lançar.

Para retomar o Estado brasileiro, eles pouco se lixam se o preço a pagar for a ebulição social. Aécio e Eduardo não darão conta dessa pauta da “ordem contra a barbárie”. A pauta do caos e do Brasil “inviável” (que está na capa da “Veja”) é boa para aventuras autoritárias – semelhantes ao janismo de 1960.

Quem pode encarnar esse figurino? Quem? O terreno vai sendo preparado…

Não creio que o povo brasileiro – equilibrado, sim! E que trabalha duro para construir um país “viável”, sim – não creio que a maioria de nosso povo embarque na aventura da “ordem contra a barbárie” – proposta pela revista. Mas a direita asquerosa e velhaca vai tentar.

O roteiro está claro. É preciso estar atento. E não cair na esparrela de acreditar que a “Veja” – de repente – converteu-se à “Civilização”.

A “Veja” é a barbárie. No jornalismo, na política, na vida do brasileiro comum.

A “Veja” – se pudesse – prenderia o pescoço do povo brasileiro no poste. Mas não vai conseguir. Vai perder – de novo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A ex-ministra da Casa Civil é uma ruralista enrrustida



por Patricia Fachin, no IHU

Desde meados do ano passado, especula-se a criação da Comissão Técnica Nacional de Agrotóxicos – CTNAGRO, que poderá ser o novo órgão responsável pela aprovação de agrotóxicos no Brasil. De acordo com o professor da Universidade de Brasília – UnB, Fernando Carneiro, a Comissão “é inspirada no modelo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, (...) portanto, órgãos como o Ministério da Saúde e Ministério do Meio Ambiente não exerceriam o seu papel atual de análise técnica dos processos que envolvem a liberação dos agrotóxicos. Essa responsabilidade seria repassada para a comissão, e o processo de registro dos agrotóxicos seria terceirizado para instituições a serem conveniadas com essa comissão”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone,Carneiro diz que está temeroso com a proposta de a CTNAGRO ser inspirada na CTNBio, porque desde a sua criação ela “aprovou 100% dos pedidos de liberação de transgênicos”. Estima-se ainda que a comissão estará subordinada à Casa Civil e, se isso acontecer, o órgão “concentrará poder e o lobby ficará ainda mais facilitado”, adverte o pesquisador.

Para Carneiro, a criação da CTNAGRO está relacionada com a divulgação de relatórios da ANVISA, os quais demonstram que 36% das frutas, verduras e legumes produzidos no Brasil estão contaminados e são impróprios para o consumo. “Gostaria de destacar que esse esvaziamento parcial da ANVISA está muito relacionado a esses dados, os quais passam a ser discutidos no país. Esse é um dos poucos resultados de monitoramento público dos impactos dos agrotóxicos, e esse trabalho está ameaçado por essa nova reconfiguração do registro de agrotóxico do Brasil e de qual será o papel dos órgãos a partir da reconfiguração. O relatório da ANVISA é apenas uma parte do que deveria estar sendo monitorado, contabilizado. Mas o que se vê é o movimento contrário, de tirar o papel do Estado destas questões”, ressalta.

Fernando Carneiro é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, especialista em Vigilância em Saúde Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre em Ciências da Saúde - área de Concentração de Saúde Ambiental pelo Instituto Nacional de Salud Pública de México e doutor em Ciência Animal - área de concentração de Medicina Veterinária Preventiva e Epidemiologia pela UFMG. Possui experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em vigilância em saúde ambiental e saúde no campo, atuando principalmente junto aos movimentos sociais na luta por melhores condições de saúde e ambiente. Foi consultor do Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Saúde e servidor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Coordenou a área de Epidemiologia Ambiental da Secretaria de Saúde de Minas Gerais e atuou como Coordenador Geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde.

Atualmente leciona no Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília – UnB, onde atua como pesquisador no Núcleo de Estudos de Saúde Pública e é membro do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Ciências da Saúde. Participa também do Grupo de Trabalho de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva - ABRASCO e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Atualmente é Chefe do Departamento de Saúde Coletiva da UnB e membro doObservatório da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta – PNSIPCF (www.saudecampofloresta.unb.br), que monitora todas as ações políticas em relação à saúde do campo, floresta e água.

Confira a entrevista




IHU On-Line - Em que consiste a proposta de criar a Comissão Técnica Nacional de Agrotóxicos - CTNAGRO? Qual seria a finalidade dessa Comissão e em que contexto surge essa proposta?

Fernando Carneiro – De forma não oficial, baseado em reportagens que são publicadas em alguns jornais e informações que temos recebido de algumas pessoas que têm acompanhado as reuniões para a criação da CTNAGRO, parece que desde junho um grupo ministerial tem se reunido na Casa Civil para discutir a proposta da criação dessa comissão. Ela é inspirada no modelo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio e seria criada para controlar o processo de liberação dos agrotóxicos; portanto, órgãos como o Ministério da Saúde e oMinistério do Meio Ambiente não exerceriam o seu papel atual de análise técnica dos processos que envolvem a liberação dos agrotóxicos. Essa responsabilidade seria repassada para a comissão, e o processo de registro dos agrotóxicos seria terceirizado para instituições a serem conveniadas com essa comissão. Não sabemos quais serão essas instituições, se serão universidades ou outros tipos de empresas, porque a discussão está sendo feita a quatro portas. Ou seja, não há nenhum debate, e pode acontecer o que aconteceu com a liberação do benzoato, quer dizer, em questão de um mês uma medida provisória virou lei e liberou um agrotóxico com essa substância, o qual não será avaliado nem pelo Ministério da Saúde, nem pelo Ministério do Meio Ambiente. Em linhas gerais, a proposta é essa.

IHU On-Line - Qual será a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA diante da criação da CTNAGRO? Trata-se de uma proposta para “esvaziar” o órgão? O que mudaria em relação ao processo de liberação de agrotóxicos?

Fernando Carneiro – É claro que o papel de órgãos como a ANVISA será diminuído, porque a responsabilidade técnica de liberar um produto toxicológico já não será mais do órgão. Outras instâncias terão responsabilidade sobre esse processo. Então isso vai implicar um esvaziamento, sim, do papel da ANVISA e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA.

IHU On-Line - Como vê a proposta de subordinar a CTNAGRO à Casa Civil?


Fernando Carneiro – A Casa Civil, nos últimos anos, tem sido muito sensível às demandas do agronegócio. Na visão dos ruralistas, os processos de registros são muito lentos e demorados no Brasil. Os ruralistas reclamam da demora do processo, mas, na minha avaliação, ele deveria ser ainda mais restritivo, porque o registro do agrotóxico noBrasil é eterno; em outros países, não. As taxas que as empresas pagam para registrar os produtos no Brasil são irrisórias: dois, três mil reais, enquanto nos EUA as taxas são de 200, 300 mil dólares. É impressionante como o Brasil ainda tem muito a avançar no sentido de cobrar mais responsabilidade das empresas, porque elas querem uma liberalização total do processo de liberação de agrotóxicos. Nesse sentido, a Casa Civil tem sido utilizada — porque é um Ministério que tem um poder de articulação sobre os outros — para pressionar os outros Ministérios a acelerar processos de liberalização dos agrotóxicos. Se essa comissão estiver subordinada à Casa Civil, concentrará poder e o lobby ficará ainda mais facilitado.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a postura da CTNBio na liberação dos transgênicos no país? Quais os riscos de a Comissão Técnica Nacional de Agrotóxicos - CTNAGRO ser criada nos moldes da CTNBio?

Fernando Carneiro – Ficamos temerosos de que a CTNBio seja o modelo de inspiração da criação da CTNAGRO, porque a CTNBio, desde a sua criação, aprovou 100% dos pedidos de liberação de transgênicos; não houve nenhuma recusa, nenhum indeferimento de processo, ou seja, é um órgão que tem recebido muitas críticas porque não discute conflitos de interesse. Muitos pesquisadores da CTNBio são financiados pelas multinacionais que têm interesse direto, por exemplo, na aprovação de tipos de transgênicos. Recentemente foi solicitada uma audiência pública àCTNBio para discutir a liberação do 2.4-D, que tem componentes do agente laranja, a qual foi negada. Portanto, trata-se de um órgão que está na contramão da história em termos de diálogo com a sociedade, em termos de sensibilidade com questões de saúde e do meio ambiente. O órgão se utiliza de um discurso científico, como se fossem cientistas, e não políticos.

Estamos preocupados com a possibilidade de o Congresso Nacional aprovar alguma medida liberando geral os agrotóxicos, porque processos como esse estão sendo gestados na Casa Civil, com o apoio da bancada ruralista.

IHU On-Line - Quanto o Brasil gasta com tratamentos em saúde por conta da contaminação com esses produtos?

Fernando Carneiro – Houve uma tentativa inicial de calcular esse custo a partir de uma tese de doutorado daFundação Oswaldo Cruz – Fiocruz. O pesquisador Wagner Ribeiro avaliou as informações do Sistema Único de Saúde - SUS do estado do Paraná, onde os dados eram mais fidedignos, e demonstrou que a cada dólar gasto em agrotóxico, se gasta 1,28 dólares no tratamento de camponeses que são intoxicados. Então, se o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta, e gasta bilhões em relação aos agrotóxicos, existe um gasto no SUS que está escondido, pois muitas vezes os médicos têm medo de diagnosticar uma intoxicação ou não estão preparados para identificá-la. Portanto, muitas informações não chegam às estatísticas oficiais, mas mesmo assim, com toda essa dificuldade real na ponta do sistema, os dados oficiais estão demonstrando um crescimento anual de intoxicação por agrotóxicos no país.

Os últimos dados do SUS, de 2013, apesar de ainda não estarem fechados, demonstram aproximadamente 12 mil intoxicações. De acordo com a Organização Mundial de Saúde - OMS, cada caso de intoxicação sinaliza que outros 50 não foram notificados. Se fizermos essa continha, chegaremos a 10 mil casos, e se multiplicamos por 50, teremos provavelmente em torno de 500 mil casos anuais de intoxicação de agrotóxicos no Brasil. Estou falando apenas de casos de intoxicação aguda. Ainda estamos longe de conseguir estimativas para casos de intoxicação crônica, que pode gerar câncer, alterar funções metabólicas. Mas o que se vê é que o câncer na população do campo já é maior do que na população urbana.

IHU On-Line - Como os tratamentos por contaminação de agrotóxicos são feitos no Brasil?

Fernando Carneiro – Existem dois grandes problemas em relação ao tratamento. Primeiro, há dificuldades de fixar um profissional da saúde em determinados territórios. Então, quando você consegue fixar um médico na zona rural, muitas vezes esse médico também atende os pacientes do munícipio, de algumas empresas e às vezes ele também é dono de terras na região. Nesses casos há


"Estamos preocupados com a possibilidade de o Congresso Nacional aprovar alguma medida liberando geral os agrotóxicos, porque processos como esse estão sendo gestados na Casa Civil"


conflitos de interesse local. Então o médico não quer notificar um caso de contaminação porque não quer perder o outro emprego ou tem medo de ameaçar grandes interesses. Essa é uma situação muito comum.

O segundo problema é que nas faculdades de Medicina a área da saúde do trabalhador e a área de toxicologia não são muito valorizadas pelos estudantes, que têm uma formação mais voltada para o mercado por especialidades. Então, muitas vezes os médicos não estão preparados para identificar uma intoxicação.

IHU On-Line - De acordo com a ANVISA, 36% das amostras de frutas, verduras, legumes e cereais estão impróprias para consumo. Como o senhor avalia os cuidados com a saúde em relação aos alimentos consumidos no país? Quais são as dificuldades?

Fernando Carneiro – Eu queria destacar duas coisas: a primeira é que está aumentando a porcentagem global de alimentos contaminados, portanto, estamos comendo mais veneno na comida; a segunda é que alguns agrotóxicos estão sob avaliação da ANVISA. Entre eles há agrotóxicos que são proibidos e que não têm registro. Mas os agrotóxicos encontrados em maior quantidade nos alimentos eram aqueles que estavam com recomendação de proibição, o que mostra que não são agrotóxicos triviais que estão sendo encontrados. Trata-se de agrotóxicos que estão sendo questionados em sua permanência ou não no Brasil.

Gostaria de destacar que esse esvaziamento parcial da ANVISA está muito relacionado a esses dados, os quais passam a ser discutidos no país. Esse é um dos poucos resultados de monitoramento público dos impactos dos agrotóxicos, e esse trabalho está ameaçado por essa nova reconfiguração do registro de agrotóxico do Brasil e de qual será o papel dos órgãos a partir da reconfiguração. O relatório da ANVISA é apenas uma parte do que deveria estar sendo monitorado, contabilizado. Mas o que se vê é o movimento contrário, de tirar o papel do Estado destas questões.

A única exceção em relação aos agrotóxicos foi a aprovação de uma portaria da Secretaria de Vigilância da Saúde, que está apoiando os estados a realizarem a vigilância de saúde em populações que convivem com agrotóxicos. A portaria liberou 23 milhões, então cada estado receberá em torno de 700 mil ou um milhão para estruturar a vigilância e a saúde de populações que são contaminadas pelos agrotóxicos. Esse é o único movimento do plano federal, mas ainda está engatinhando.

IHU On-Line - Como avalia a autorização emergencial da Presidência da República para a utilização do benzoato de emamectina nas lavouras de soja? Quais as implicações desse produto?

Fernando Carneiro – É comprovado cientificamente que o benzoato é neurotóxico, ou seja, ele causa um dano no sistema nervoso de cobaias. Se isso já é comprovado, fico imaginando o que pode acontecer se esse produto for polarizado de Norte a Sul do país.

Há denúncias de comunidades indígenas sendo pulverizadas, trabalhadores sendo pulverizados, regiões de mananciais e nascentes sendo pulverizadas. Fico imaginando que agora, com a liberação do benzoato, o brasileiro que vive nas áreas rurais vai beber água e receber chuvas contaminadas por um produto que é comprovadamente neurotóxico. Isso me preocupa muito, e a perspectiva é que se aprovem outros produtos. A sociedade brasileira tem de dar um grito de basta a esse tipo de irresponsabilidade do Estado.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Fernando Carneiro – Nós estamos muito assustados com a velocidade com que o agronegócio tem conseguido alcançar seus objetivos em relação à liberalização das regras tanto no sentido da saúde quanto do meio ambiente. É importante que a sociedade pressione os parlamentares para que essa tendência realmente seja alterada. As mobilizações que ocorreram no ano passado foram muito importantes e ajudaram a mudar a pauta política doCongresso Nacional. Precisamos que a questão dos agrotóxicos fique na boca do povo para que o modelo que gera contaminação e morte não seja o modelo hegemônico da agricultura no Brasil.

A grande oportunidade em relação a essa mudança foi o lançamento da Política Nacional de Agroecologia, que ainda recebe oito bilhões de financiamento referente aos 154 bilhões do agronegócio. Ela é uma grande possibilidade de reversão desse quadro a partir de uma proposta concreta de começar outro modelo de produção, em que a vida e a biodiversidade sejam colocadas em primeiro lugar. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva - ABRASCO tem trabalhado muito nessa direção e organizou o dossiê pelo impacto dos agrotóxicos na saúde, que é uma tentativa de cumprirmos nosso papel científico de mostrar que o que está acontecendo é muito grave.