* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Financiamento privado de campanha politica - a mãe de toda corrupção


por Luis Nassif, em seu blog

[...] ... falar de tema central no combate à corrupção no país: o financiamento privado de campanha.
Nos próximos dias começará o julgamento do “mensalão” – o sistema de financiamento de campanha do PT e partidos aliados, denunciado por Roberto Jefferson. Não há provas de que tenha sido um pagamento mensal por compra de apoio. É mais o apoio financeiro às campanhas políticas de aliados.
Mesmo assim, não deve ser minimizado, desde que se entenda que é algo que ocorre com todos os partidos e todas instâncias de poder.
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O país avançou enormemente na luta contra a corrupção. Dispõe de um conjunto de organismos funcionando, como o TCU(Tribunal de Contas da União), a AGU (Advocacia Geral da União), o Ministério Público, a Polícia Federal. E, agora, a Lei de Transparência, obrigando todos os entes públicos a disponibilizarem suas informações na Internet.
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Mas o ponto central de corrupção – o financiamento privado de campanha – continua intocado. Por que ele tem essa importância?
O primeiro círculo de controle da corrupção é do próprio partido. São políticos vigiando correligionários.
Com o financiamento público [SIC - deve ser "Privado"] de campanha e o Caixa 2, a contabilidade vai para o vinagre. É impossível controlar o que vai para o partido ou para o bolso dos que controlam as finanças partidárias.
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O mesmo ocorre na administração pública. A sucessão de convênios firmados por Ministérios com ONGs aliadas é efeito direto desse modelo.
Mas não apenas isso. Tome-se o responsável pela aprovação de plantas na Prefeitura de São Paulo. Durante anos e anos prevaricou. Para tanto, desobedecia as posturas municipais. Por que não foi denunciado por subordinados? Justamente por não saber se era iniciativa pessoal sua ou a mando do seu chefe, ou do chefe do chefe. Tudo isso devido ao financiamento privado de campanha.
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Essa prática nefasta acabou legitimando (embora não legalizando) vários tipos de golpe em todas as instâncias administrativas, em todos os quadros partidários.
Liquidou não apenas com a ética partidária mas com a própria democracia interna dos partidos. Na composição dos candidatos ao legislativo, tem preferência quem tem acesso a financiadores de campanha. E a conta será cobrada depois.
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Os desdobramentos se dão não apenas no âmbito da política, mas do próprio crime organizado.
A falta de regras faz com que pululem irregularidades em todos os cantos – desde meros problemas administrativos até escândalos graúdos.
Em parceria com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, por exemplo, a revista Veja montou uma verdadeira máquina de arapongagem em Brasilia, que servia não apenas para vender mais revista, criar mais intimidação, como para outros objetivos ainda não completamente esclarecidos.
Em muitos casos, levantavam-se escândalos com o único propósito de afastar quadrilhas adversárias de Cachoeira.
As revelações de ontem – do portal G1, da Globo – de que a namorada de Cachoeira chantageou um juiz (dizendo que tinha encomendado um dossiê para Veja) é demonstração cabal de como a corrupção entrou em todos os poros da vida nacional.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

sábado, 28 de julho de 2012

Abaixo às "bolsas-tudo"



por Marco Aurelio Mello, no DoLaDoDeLá

A judoca Sarah Menezes, beneficiada pelo programa Bolsa-Atleta, do Ministério do Esporte, entrou para a história do judô nacional, neste sábado (28.07), ao conquistar a primeira medalha de ouro feminina do Brasil na modalidade. A brasileira venceu a atual campeã olímpica, a romena Alina Dumitru, campeã nos Jogos de Pequim, em 2008.

A busca pelo pódio na categoria ligeiro, até 48kg, começou contra a vietnamita Ngoc Tu Van, por 2 yuko a 0. Nas oitavas de final, Sarah derrotou a francesa Laetitia Payet, por 1 yuko a 0. As duas medalhas de bronze em jogo na categoria ficaram com a belga Charline Van Snick e a húngara Eva Csernoviczki.

Com a conquista, Sarah Menezes se tornou a segunda mulher brasileira a ganhar uma medalha de ouro individual nos Jogos Olímpicos (a primeira foi Maurren Maggi, no salto em distância dos Jogos de Pequim). Até o momento, o Brasil lidera o quadro geral de medalhas no judô, com dois pódios: um ouro e um bronze pelo judoca Felipe Kitadai.

O judô passa à frente como a modalidade nacional que mais conquistou pódios, com 16 medalhas. A vela vem em segundo, com 15 conquistas.

Porque hoje é sábado: Jean-Luc Ponty





Duas execuções de clássicos, em versão de estúdio - da 2ª metade da década de 1970



quarta-feira, 25 de julho de 2012

Serra está estrilando





por Miguel do Rosário, nO Cafezinho

O PSDB cometeu um grave erro ao entrar com uma representação contra os dois autores mais populares da blogosfera política: Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim.
Se o partido já vinha caminhando a passos largos para a direita, único espaço vago que lhe coube ocupar no espectro ideológico nacional, sua agressão a dois blogueiros revela descompromisso com a democracia e a liberdade de expressão.
Se somarmos essas duas características, conservadorismo e autoritarismo, à defesa pública que o partido fez do golpe branco no Paraguai, podemos dizer que o PSDB voltou a 1964.
Por que a Caixa não pode anunciar no blog do Nassif?
Ora, é muita cara de pau. A quase totalidade da grande mídia nacional é notoriamente ligada à oposição e ao PSDB. Não satisfeitos com isso, os tucanos querem sufocar os únicos espaços onde eles não dão as cartas?
Daí o chapeleiro maluco da Veja argumenta que seu blog tem anúncio de estatal mas também tem outros, e que ele não cuida “pessoalmente” disso. Quanta hipocrisia, desinformação e mau caratismo. O Nassif não tem publicidade privada justamente porque as grandes agências são dominadas por ideologia neoliberal.
Mais uma razão para as estatais anunciarem em seu blog; é uma forma do governo ajudar a promover a democracia, que precisa de pluralidade para ter sentido.
O Nassif não iria fechar, voluntariamente, o blog dele à publicidade privada. Só quem faria isso seriam blogs oficiais de partidos políticos.
Aliás, ao atacar Nassif e PHA, o PSDB intimida eventuais agências de publicidade que venham sondando anunciar em seus blogs. A agência temerá que o PSDB irá revidar, suspendendo ou cancelando contratos de publicidade institucional com seus clientes.
Desta forma, os blogs não terão nem anúncio privado, nem público. Em se tratando de blogs com uma grande quantidade de acessos, é importante que tenham algum tipo de patrocínio para viabilizá-los, porque o custo de provedor é alto para blogs muito visitados.
Ou seja, a estratégia do PSDB é asfixiar os dois blogs políticos preferidos da esquerda nacional.
É uma agressão imperdoável à liberdade de expressão no país. Depois o Merval vem com sua conversinha de que o PT é que tem “tendências autoritárias”. Ora, o PT jamais cogitou perseguir blogs que o criticavam. Noblat, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes são “blogueiros” que sempre se caracterizaram por uma crítica pesada, muitas vezes de baixo calão ao governo federal e no entanto o PT jamais entrou com representação para sufocar esses blogs.
A ação, portanto, cheira a desespero, a medo, a covardia. Revela um partido que está desistindo da briga política, e optando pelo tapetão. Quer ganhar na barra dos tribunais, em vez de conquistar eleitores pela argumentação.

Se você só se informa na Globo, não sabe que esse ano vai ter Olimpíadas



Por Pedro Venceslau na revista Fórum

Durante os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, os milhões de brasileiros que assistem à Rede Globo se viram diante de um dilema. O que é mais importante para o desenvolvimento do esporte no país: um jogo amistoso de futebol de salão ou a final da natação com César Cielo? Artistas tentando acertar um joão-bobo chutando uma bola de calcanhar ou um jogo entre Brasil e Cuba no vôlei? Desde que a Globo é a Globo, é ela quem dita as regras sobre o que é relevante e vale a pena ser visto. Foi a emissora do Jardim Botânico, por exemplo, que tentou introjetar no brasileiro a ideia de que o futebol de praia e as corridas de Stock Car disputadas pelo filho de Galvão Bueno são eventos imperdíveis e de suma importância no cenário internacional. Recentemente, o locutor mais famoso do país conseguiu a façanha de conferir valor épico a um jogo amistoso entre reservas do Brasil e o Gabão em um campo de várzea. Até mesmo uma corrida de kart entre pilotos e ex-pilotos pode se transformar em “vitrine” do automobilismo brasileiro. Se os patrocinadores pagarem bem, que mal tem?
Nos Jogos Pan-Americanos do Brasil, em 2007, a Globo, que detinha os direitos de transmissão, martelou na cabeça do público que o torneio era quase tão importante quanto uma Olimpíada. Cada jogo, cada corrida, cada salto era transmitido em tom ufanista. E as medalhas, uma a uma, foram celebradas como se o Brasil fosse uma potência do esporte. Tratava-se de um evidente exagero, claro. Mas era a emissora, com suas reportagens especiais e locuções apaixonadas, que estava dizendo. Depois que a Record comprou os direitos de transmissão do Pan do México, o evento perdeu subitamente a importância e, em 2011, o torneio foi simplesmente ignorado pela emissora. A questão que intriga jornalistas, esportistas e especialistas é como a Globo vai se comportar nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, cujos direitos de transmissão também pertencem à Record. Nesse caso, não há como esconder ou minimizar a importância do maior evento esportivo do planeta.
Na emissora do bispo Edir Macedo, prevalece a ideia de que as Olimpíadas de Londres marcarão o fim de um paradigma e que o público do evento vai migrar de canal para ficar. O canal não mede esforços para concretizar o velho sonho de chegar à liderança no Ibope. “A Record vai exibir, diariamente, de 10 a 12 horas das diversas modalidades dos Jogos Olímpicos. Vamos contar com 320 profissionais em Londres. Nenhum detalhe ficará fora da transmissão”, disse à Fórum o empolgado diretor de jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro. A Record também vai montar um quartel-general de 750 metros quadrados, que produzirá 12 horas diárias de programação.
Depois de uma negociação tortuosa, a emissora fechou um acordo que confere à Globosat, braço de TV por assinatura da Globo, o direito de exibição dos Jogos Olímpicos de Londres na TV nos canais SporTV. Valor? R$ 22 milhões. Um dado curioso é que, em 2008, a Globosat pagou apenas US$ 3 milhões para a própria Globo. Em 2012, os executivos do Jardim Botânico apostam em um cenário inédito na TV brasileira para minimizarem o estrago: uma TV aberta disputando audiência diretamente com outra emissora a cabo. As TVs abertas só poderão exibir, por contrato, 3 minutos de jogos e competições. Além do SporTV, a Globo planeja abrir até mais seis canais. Em uma operação milionária, a ideia é atrair um público de 10 milhões de pessoas para a TV paga.
No mercado de mídia, os rumores apontam para uma negociação entre Globosat e operadoras para viabilizar uma megapromoção de pacotes de TV fechada válida por alguns meses, que envolveriam o período dos jogos. “Eles fizeram uma operação parecida quando lançaram o jornal Extra. Para esvaziar o concorrente, o jornal O Dia, que estava liderando entre os leitores de classe C e chegou a vender mais que a Folha, o grupo Globo fez uma operação casada: vendiam o Extra com muitos brindes e colocaram na praça anúncios casados com O Globo. Levaram um baita prejuízo só para ferir o concorrente”, lembra-se André Balocco, editor-assistente do jornal esportivo Marca Brasil. “No caso do Pan de Guadalajara, eu tinha a palavra da Globo de que eles fariam a cobertura do evento, mas isso não aconteceu. O caso da medalha do [César] Cielo mostrou que eles são capazes de esconder tudo. Deram só uma nota coberta e sem imagem. E era a redenção dele”, conta Crsitina Padigilione, editora de TV e colunista do jornal Estado de S.Paulo. Observadora atenta da disputa Record x Globo, ela faz uma previsão pessimista para os Jogos do ano que vem. “Não me espanta que o Pan seja só um aperitivo do que a Globo fará em Londres em 2012”.
A discussão sobre o comportamento da maior emissora do país durante o maior evento esportivo do planeta mobilizou as redes sociais, chegou à internet e acabou forçando os constrangidos executivos e apresentadores globais a se manifestar. “Nossa cobertura, de acordo com o que está estabelecido no COI [Comitê Olímpico Internacional], será o que chamamos de fair use. Quer dizer, tem uma partida de vôlei e você tem três minutos para exibir em seus telejornais. Não vamos esconder. Temos um acordo de longo prazo com as federações e confederações olímpicas”, afirmou o diretor-geral da Globo, Octávio Florisbal, em entrevista ao site UOL Esportes. Questionado sobre os motivos que levaram a Globo a perder a primazia histórica sobre os Jogos, ele respondeu em cifras. “Nós tínhamos uma visão de que os Jogos de 2012 deviam valer ao Brasil até US$ 30 milhões. Se passasse disso, daria prejuízo. A concorrente ofereceu o dobro”.
Entre os “artistas” da programação esportiva da casa, o dilema da transmissão também pegou na veia. “Eu sou muito cobrado: por que você não fala da Fórmula Indy? Simples. Porque eu não tenho o direito de falar na Indy, meu amigo! Existe uma ideia errada de que a Globo deve falar de tudo porque o cara quer ver na Globo…”, disparou o apresentador Tiago Leifert, porta-voz informal da emissora, em entrevista à edição de dezembro da revista G.Q. “A Globo deve usar em Londres a mesma estratégia do Pan: informar os resultados por meio de computação gráfica e entrevistas in loco. O que pegou no Pan foi que o telespectador estava acostumado a acompanhar a transmissão pela Globo”, pondera a diretora de redação da revista e do portal Imprensa, Thaís Naldoni.
Amadorismo
É consenso entre os profissionais da crônica esportiva e televisiva – e até dentro do governo – que a Record está a quilômetros de distância da Globo em termos de qualidade de transmissão e cobertura de grandes eventos esportivos. “A cobertura da Record [do Pan] foi amadora, com direito até a links perdidos. O público estranha muito isso, porque está acostumado ao padrão global”, diz André Balocco, do Marca Brasil. Para a colunista de TV do Estadão, um dos gargalos da transmissão da Record no Pan de Guadalajara foi o despreparo do comandante-geral da operação. “Aconteceram muitas falhas no processo que poderiam ter sido evitadas com mais coordenação. Faltou comando…”, diz Cristina Padiglione. “Foram erros crassos, que englobaram desde o posicionamento das chamadas ‘câmeras exclusivas’, postas em locais sem nenhuma estratégia, sem iluminação, passando pelos narradores e repórteres que carregaram no ufanismo. Chegaram a dizer que um evento era ao vivo, quando não era. Os repórteres se comportavam como fãs”, lembra Thaís Naldoni, da revista Imprensa.
Outra marca da Record foi a transformação da rixa com a Globo em modalidade olímpica. A emissora usou tempo de seus telejornais para criticar, por meio de longas reportagens, a concorrente. Apesar de ter mostrado quase 40% de horas a mais no Pan do México do que a Globo no evento do Brasil, a Record ainda não consegue separar o público dos entreveros comerciais. O bispo Honorilton Gonçalves, todo-poderoso homem do canal, disse diversas vezes que a Globo “escondeu o Brasil”.
A disputa entre os dois canais preocupa o governo. “Quando a Globo deixa de dar o registro para alguma modalidade, isso causa prejuízo ao esporte. O Jornal Nacional cobriu muito pouco o Pan de Guadalajara”, afirma um interlocutor próximo ao ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Oficialmente, a pasta prefere manter distância do enredo comercial. Mas, nos bastidores, o ministério atuou como mediador em vários momentos. “Essa negociação sobre o tempo que cada canal sem os direitos poderá transmitir dos jogos é muito complicada. Nunca fica bom para todo mundo. Até 2016, será imprescindível que as emissoras entrem em acordo”, completa o assessor. Em tempo: o ministro Aldo Rebelo sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai enfrentar com o Comitê Olímpico Internacional tensões parecidas com as que marcam a relação com a CBF…
Record fatura alto com patrocínios
A Record já vendeu nove cotas de patrocínio para os Jogos de Londres. Segundo a emissora, o faturamento total será de R$ 277 milhões. Os patrocinadores serão Caixa, Cerveja Petrópolis, McDonald’s, Nestlé, Petrobrás, Procter, Coca-Cola, TIM e Visa.
“Minhas expectativas são as melhores possíveis. Tenho certeza que teremos um boom no investimento publicitário, da mesma forma que nos anos anteriores em que tivemos eventos desse porte. E, dentro cenário, sendo a Record a detentora exclusiva dos direitos de transmissão das Olimpíadas de Londres, aposto todas as fichas e acredito que a emissora terá um dos melhores desempenhos de faturamento e de audiência de toda a sua história”, Walter Zagari vice-presidente comercial da Record.
Ibope e o mistério da audiência
No ano em que a Globo estará fora dos Jogos Olímpicos, a entrada da Nielsen, uma das maiores empresas de pesquisa do mundo, no mercado de aferição da audiência de TV em 2012, acabará com o monopólio do Ibope.
Senhor absoluto da audiência em tempo real da TV brasileira desde 1988, o Ibope ganhará um concorrente de peso em 2012. A Nielsen, uma das maiores empresas de pesquisa do mundo, entrará no mercado com o dobro de domicílios que compõem a amostra do Ibope. Na reunião em que o projeto foi apresentado aos canais de TV, apenas a Globo não compareceu. Para o cientista político Carlos Novaes, que criou e comandou entre 2003 e 2005 o único empreendimento que ousou enfrentar o Ibope até hoje, o Datanexus, a ausência era mais que esperada. À Fórum, ele contou os bastidores de seu projeto e as dificuldades que encontrou no caminho. “O Datanexus tinha a melhor tecnologia da época, com um sinal preciso e emitido por celular. A nossa mostra era muito mais apurada, pois não aceitávamos barreiras. Colocamos aparelhos em favelas, coisa que o Ibope não fazia”, conta. Financiado pelo SBT, o instituto logo apresentou números que colocavam em dúvida não só a alta audiência da Globo, mas de toda a TV brasileira.
No dia em que convidou todos os dirigentes das emissoras para uma reunião em que apresentaria os novos números do mercado, Novaes se lembra que também naquela ocasião, só a Globo não apareceu. Durante sua apresentação, o cientista político revelou um dado perturbador: a audiência total da televisão brasileira é 10% menor do que pensava o mercado. “Na saída, o Johny Saad, da Band, me disse: ‘Então você está dizendo que meu negócio é 10% menor? Que vantagem eu levo?’. Resultado: as emissoras acabaram ignorando o novo instituto. Sozinho, o SBT acabou seguindo mesmo caminho.” Desconfio que será difícil (A Nielsen dar certo no Brasil). Há uma comunidade de interesses entre os diretores de marketing, das agências e as TV, que estão confortáveis com os números do Ibope”, diz Novaes.

A bola toda que atribuem aos blogs





por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

Confesso que, de uns tempos para cá, minha tolerância com a hipocrisia é próxima de zero.
Acho perda de tempo participar de polêmicas cuja função essencial é mascarar a realidade, além de alimentar o desejo de alguns por circo.

Circo move tráfego na rede.

A ação do PSDB relativa aos blogueiros Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif não busca debater o essencial, ou seja, o uso do dinheiro público em publicidade ou propaganda. Se buscasse, haveria de tratar do conjunto: quais são os gastos de governos federal, estaduais e municipais com propaganda? Quanto recebem a Globo, a Veja, a Folha e o Estadão proporcionalmente ao bolo? Os governos não poderiam reduzir estes custos investindo mais na internet, por exemplo, dada a crescente capacidade de disseminação de informações através das redes sociais? É viável fazer como o agora senador Roberto Requião, que quando governador do Paraná cortou todas as verbas publicitárias, a não ser as de campanhas de utilidade pública? Cabem políticas públicas para promover a pluralidade e a diversidade de opiniões?

Há outras questões, tão interessantes quanto. Deve um partido tentar definir a pauta de um blog eminentemente pessoal? Por que o anúncio de empresas públicas supostamente compra um blogueiro mas não compra um dono de jornal? Crítica é ataque às instituições? Ao criticar o Congresso, o governo federal ou o Judiciário os colunistas dos grandes jornais estariam ‘atacando as instituições’? Mas, se o financiamento dos jornais para os quais escrevem — ou das emissoras de rádio e TV nas quais trabalham — é feito parcialmente com dinheiro público, eles podem ‘atacar as instituições’ livremente e os blogueiros não? E a liberdade de expressão e o direito ao contraditório?

Trato destes temas com tranquilidade. O Viomundo, pelo menos por enquanto, é mantido com anúncios Google. O Leandro Guedes, que nos representa comercialmente, desenvolve ferramentas para que nosso financiamento seja proporcionado pelos próprios leitores. Desde que começou a fazer isso, há dois meses, não está autorizado nem a enviar os media kits (com dados de audiência, etc) a empresas públicas ou governos federal, estaduais ou municipais. Esperamos que a grande mídia siga nosso exemplo.

[Pausa para gargalhar]

Não sei o que moveu o PSDB. Provavelmente, pela escolha dos alvos, José Serra. Tenho comigo que algum mago, daqueles que cobram fortunas para fazer campanha, tenha concluído que existe uma relação entre a altíssima taxa de rejeição de Serra e a blogosfera/mídias sociais.

Não sei se o diagnóstico está certo ou errado, mas a cura é duvidosa. Parte do pressuposto de que blogueiros sejam capazes de mover legiões de internautas. A crença nisso é uma farsa, muitas vezes alimentada por quem está chegando agora ou está “investido” na blogosfera. Quem lida com os internautas no dia a dia e respeita a diversidade de opiniões descobre que este é um meio horizontal. Não é estruturado hierarquicamente. Não obedece a comandos. O valor das opiniões não está na autoridade, nem no currículo, nem no status do autor: deriva da qualidade, da lógica, da originalidade da argumentação. Deriva da capacidade de apontar algo que outros não notaram. De desvendar conexões encobertas. De colocar fatos em perspectiva histórica. De ajudar a concatenar e, portanto, fixar ideias que circulavam desconexas no “inconsciente coletivo digital”. Simplificando, quando a piada é boa ganha o mundo.

Aquela foto de Serra sobre o skate, na capa da Folha, pode ter sido feita num momento autêntico de descontração, mas cristalizou a imagem de um candidato tentando parecer o que não é: jovem. Se dezenas de milhares de pessoas perceberam isso ao mesmo tempo e puderam conversar sobre isso nas redes sociais — o que não poderiam ter feito no passado, quando dependiam de passar pelo crivo de um repórter, de um editor e do dono de um grande jornal e de escrever carta para a coluna do leitor  – é culpa dos blogueiros?

Acreditar que dois blogueiros — ou duas dúzias —  sejam capazes de mover a rede é subestimar a inteligência dos internautas. Ou alguém acredita que tem um comunista escondido embaixo de cada Curtir? Com ferramentas razoavelmente simples como o twitter e o Facebook, hoje cada leitor pode exercer como nunca seu direito de escolha, de interagir e de se fazer ouvir. É natural que quem vive no mundo das hierarquias rígidas estranhe, se sinta intimidado ou frustrado. O que está em curso nas redes sociais é o equivalente a uma segunda revolução do controle remoto.

Portanto, não estamos diante de uma tentativa do PSDB de defender as instituições ou de zelar pelo dinheiro público. Pode ser uma resposta exagerada ou míope diante de um fenômeno que o partido não consegue entender ou pretendia replicar e não consegue. Quem sabe exista um desejo subjacente de controle, de um ‘choque de ordem’ que preceda a privatização da crítica e do conhecimento intelectual, colocando ambos dentro de parâmetros aceitáveis pelo mercado (sobre isso, escreveu Slavoj Zizek). Ou é tentativa de intimidação, pura e simples.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Midia babona defende as operadoras de telefonia








extrato de artigo de Altamiro Borges, em seu blog





Eliane Cantanhêde, a da “massa cheirosa” do PSDB, escreveu: “Depois de combater os juros altos, usar o Dia do Trabalho para atacar a ‘lógica perversa’ dos bancos, suspender (via ANS) 268 planos de saúde e 37 operadoras, agora é a vez de Dilma guerrear com as companhias de telefones celulares... Como a ‘faxina’ já deu o que tinha de dar, a economia não é nenhuma vitrine e PIB até virou bobagem, o marqueteiro João Santana deve ter tido uma boa sacada. Dilma agora é ‘a vingadora dos consumidores'”.

Mesmo criticando as teles, até para não se indispor com milhões de usuários, a mídia privada vende a ideia de que o governo é o único culpado pelo caos na telefonia. Ela fez campanha aberta pela privatização do setor. Alguns impérios midiáticos, em especial a Rede Globo, até nutriram o sonho de abocanhar pedaços da telefonia – mas foram atropelados pela “jamanta” das teles. Agora, diante da degradação dos serviços e da revolta dos usuários, eles culpam o governo e tentam limpar a barra dos seus ricos anunciantes.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Mensalão - o leitinho da oposição está azedando


Pescado no Brasil 247

A menos de quinze dias para o início do “julgamento do século”, uma decisão tomada pelo Tribunal de Contas da União pode ser determinante para o futuro dos réus da Ação Penal 470. O TCU considerou regulares os contratos de publicidade de R$ 153 milhões do Banco do Brasil com as agências de publicidade DNA e SMPB, que pertenciam ao empresário Marcos Valério de Souza. Isso reforça o que foi dito, dias atrás, pelo criminalista Marcelo Leonardo, que fará a defesa oral de Valério no Supremo Tribunal Federal. “Não houve recursos públicos, apenas empréstimos privados”. O PT admite que tomou empréstimos bancários, junto ao Rural e ao BMG, para honrar dívidas de campanha próprias e de alguns partidos da base aliada.

A decisão do TCU foi tomada a partir de relatório preparado pela ministra Ana Arraes, cujo voto foi acompanhado pelos demais ministros. O primeiro a ser beneficiado é o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, que foi denunciado por ter validado os principais contratos de publicidade de Valério na administração pública federal. De acordo com o TCU, os contratos seguiram o padrão de normalidade do Banco do Brasil e não diferem dos que foram fechados com outras agências de publicidade. Curiosamente, as agências de publicidade de Valério entraram para o governo federal no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Foram apadrinhadas pelo ex-ministro Pimenta da Veiga, das Comunicações, que é amigo pessoal de Valério. Continuaram no governo Lula, até o escândalo do mensalão, ocorrido em 2005.

Embora já ajude a livrar a cara da Pizzolato, a decisão do TCU pode ter também repercussões maiores sobre outros réus. A começar, pelo próprio Valério. O empresário sustenta que, entre o fim da campanha presidencial de 2002 e o início do governo Lula, foi apresentado ao ex-tesoureiro Delúbio Soares, do PT, pelo ex-deputado Virgílio Guimarães. Ajudou a resolver o problema das dívidas de campanha com o partido por meio dos empréstimos bancários. E, no caso do Rural, ele argumenta que tentou fazer lobby para que o banco assumisse a massa falida do Banco Mercantil de Pernambuco – o que não ocorreu. Por isso, Valério chegou a dizer que foi um lobista fracassado.

Essa decisão do TCU também corrobora a tese de caixa dois eleitoral – e não de compra regular de parlamentares. Isso porque os empréstimos foram tomados logo no início do governo Lula. Os contratos de publicidade eram renovados periodicamente.

Reação na oposição

Na oposição, a decisão do TCU foi recebida com indignação. Segundo o blogueiro Reinaldo Azevedo (ai, ai, ai...), o petismo trabalha para “transformar o Brasil num curral”. Eis um trecho de artigo publicado por ele nesta manhã:

Marcos Valério pegava a dinheirama das estatais e depois fazia “empréstimos” para o PT. Uma das estatais era justamente o Banco do Brasil. Agora Ana Arraes, com endosso de outros ministros, diz que tudo foi regular, entenderam? Quer-se, assim, reforçar a tese de que o dinheiro do mensalão não era público... BLÁ, BLÁ, BLÁ...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Nelson Mandela - esse sim é "o cara"

Nossa homenagem botocuda (meio atrasada) por seus 94 anos

terça-feira, 17 de julho de 2012

GM aborta fábrica de transmissões em Joinville



pescado no UOL Carros

– Crise europeia faz empresa paralisar obras em Santa Catarina– A unidade de motores, no mesmo polo industrial, continua em construção
A GM suspendeu a construção de sua fábrica de transmissões em Joinville, Santa Catarina devido a crise na Europa.
O mercado europeu é um dos principais importadores das peças brasileiras, por isso a crise no continente motivou a suspensão do projeto, segundo comunicado da GM do Brasil. A construção da fábrica, anunciada no início deste ano, tem investimento previsto de RS$ 710 milhões.
Com a fábrica de Joinville, a GM pretendia ampliar a capacidade de produção de peças, que atualmente são fabricadas em São José dos Campos.
As obras da unidade de motores, com investimento de R$ 350 milhões e que faz parte do polo industrial projetado em Joinville, não sofreu alterações e continua sendo construída para inaugurar no final deste ano, segundo previsão da empresa.

Deep Purple Jon Lord - Hammond organ wonderful solos


Jon Lord (1941 - 2012 - falecido ontem) - seleção de solos nos fantásticos orgãos Hammond B-3/C-3 - uma homenagem deste blog

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Operação Globosta de intimidação – detonar o côco-roxo [parte 2 - tiro na água]




por Rogério Tomaz Jr., no Conexão Brasilia Maranhão
Boa parte do Brasil parou na noite deste domingo, 15 de julho, para ver a supostamente bombástica entrevista de Rosane Brandão Malta (ex-Rosane Collor) ao Fantástico, a “revista eletrônica” da Rede Globo.
Todos esperavam revelações “fortes” – prometidas nas chamadas do programa – da ex-primeira dama da República. Para usar uma metáfora gasta, a Globo prometeu a lua, mas entregou a seus telespectadores uma paisagem lunar: só crateras vazias e nenhuma substância consistente.
Os rituais de magia negra, a relação com PC Farias, as memórias sobre o processo de impeachment… tudo que Rosane falou e o Fantástico exibiu hoje já era de conhecimento até do reino mineral – expressão de Nelson Rodrigues, não de Mino Carta, como pensam alguns.
Nada, absolutamente nada se salva da entrevista, em termos de novidade. Em termos jornalísticos, a “reportagem” foi um fracasso total. É de se perguntar, aliás, qual o critério jornalístico que levou a Globo a produzir tal entrevista. Não há qualquer fato novo – poderia ser o livro de Rosane, mas não se sabe nada dele, tanto que foi citado apenas superficialmente* – que justifique toda a mobilização da maior emissora do Brasil para tal empreitada com tanto destaque.
Coube à simpática Renata Ceribelli fazer a “matéria” com Rosane Collor
O que justifica a reportagem, na verdade, não é nada mais do que a necessidade de atacar o agora inimigo Fernando Collor de Mello.
A eleição de Collor foi uma fraude. Não pelos votos em si, mas pelo candidato, que não passava de um produto midiático preparado e apoiado com todo o poder dos grandes meios de comunicação para ser o anti-Lula de 1989.
Agora, passados vinte anos, Collor deixou de ser aliado e passou a ser inimigo, por compor a base de apoio do governo petista. Para a Globo e para a Veja, a primeira que ungiu Collor como um verdadeiro Messias em 89, é o que basta para ele ser colocado na alça de mira.
Lamentável é ver que profissionais – vou poupá-los de citação nominal – tão respeitados na TV brasileira se prestem a cumprir um papel vexatório como o dessa “matéria”. Aliás, para fingir que o assunto se tratava mesmo de jornalismo, os apresentadores do Fantástico fizeram questão de informar que tentaram ouvir Collor durante toda a semana, mas o senador, que de besta não tem nada, se recusou a falar.
Ótimo seria se Collor publicasse um livro contando como atuavam os donos, diretores e lobbistas da Rede Globo durante o seu governo.
Para ver a entrevista completa, clique aqui


Eis aqui o motivo dessa barafunda toda e o que causa arrepios na Globosta




domingo, 15 de julho de 2012

Mais uma enganação - O Cardeal


por José Ribamar Bessa Freire, em seu Táqui Prá Tí

O tratamento que a mídia deu à morte do cardeal dom Eugenio Sales, ocorrida na última segunda-feira, com direito à pomba branca no velório, me fez lembrar o filme alemão "Uma cidade sem passado", de 1990, dirigido por Michael Verhoven. Os dois casos são exemplos típicos de como o poder manipula as versões sobre a história, promove o esquecimento de fatos vergonhosos, inventa despudoradamente novas lembranças e usa a memória, assim construída, como um instrumento de controle e coerção.

O filme
Comecemos pelo filme, que se baseia em fatos históricos. Na década de 1980, o Ministério da Educação da Alemanha realiza um concurso de redação escolar, de âmbito nacional, cujo tema é "Minha cidade natal na época do III Reich". Milhares de estudantes se inscrevem, entre eles a jovem Sônia Rosenberger, que busca reconstituir a história de sua cidade, Pfilzing - como é denominada no filme - considerada até então baluarte da resistência antinazista.Mas a estudante encontra oposição.

As instituições locais de memória - o arquivo municipal, a biblioteca, a igreja e até mesmo o jornal Pfilzinger Morgen - fecham-lhe suas portas, apresentando desculpas esfarrapadas. Ninguém quer que uma "judia e comunista" futuque o passado. Sônia, porém, não desiste. Corre atrás. Busca os documentos orais. Entrevista pessoas próximas, familiares, vizinhos, que sobreviveram ao nazismo. As lembranças, contudo, são fragmentadas, descosturadas, não passam de fiapos sem sentido.A jovem pesquisadora procura, então, as autoridades locais, que se recusam a falar e ainda consideram sua insistência como uma ameaça à manutenção da memória oficial, que é a garantia da ordem vigente. Por não ter acesso aos documentos, Sônia perde os prazos do concurso.

Desconfiada, porém, de que debaixo daquele angu tinha caroço - perdão, de que sob aquele chucrute havia salsicha - resolve continuar pesquisando por conta própria, mesmo depois de formada, casada e com filhos, numa batalha desigual que durou alguns anos.

Hostilizada pelo poder civil e religioso, Sônia recorre ao Judiciário e entra com uma ação na qual reivindica o direito à informação. Ganha o processo e, finalmente, consegue ingressar nos arquivos. Foi aí, no meio da papelada, que ela descobriu, horrorizada, as razões da cortina de silêncio: sua cidade, longe de ter sido um bastião da resistência ao nazismo, havia sediado um campo de concentração. Lá, os nazistas prenderam, torturaram e mataram muita gente, com a cumplicidade ou a omissão de moradores, que tentaram, depois, apagar essa mancha vergonhosa da memória, forjando um passado que nunca existiu.

Os documentos registraram inclusive a prisão de um judeu, denunciado na época por dois padres, que no momento da pesquisa continuavam ainda vivos, vivíssimos, tentando impedir o acesso de Sônia aos registros. No entanto, o mais doloroso, era que aqueles que, ontem, haviam sido carrascos, cúmplices da opressão, posavam, hoje, como heróis da resistência e parceiros da liberdade. Quanto escárnio! Os safados haviam invertido os papéis. Por isso, ocultavam os documentos.

Deus tá vendo
E é aqui que entra a forma como a mídia cobriu a morte do cardeal dom Eugênio Sales, que comandou a Arquidiocese do Rio, com mão forte, ao longo de 30 anos (1971-2001), incluindo os anos de chumbo da ditadura militar. O que aconteceu nesse período? O Brasil já elegeu três presidentes que foram reprimidos pela ditadura, mas até hoje, não temos acesso aos principais documentos da repressão.

Se a Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio último pela presidente Dilma Rousseff, pudesse criar, no campo da memória, algo similar à operação "Deus tá vendo", organizada pela Policia Civil do Rio Grande do Sul, talvez encontrássemos a resposta. Na tal operação, a Polícia prendeu na última quinta-feira quatro pastores evangélicos envolvidos em golpes na venda de automóveis. Seria o caso de perguntar: o que foi que Deus viu na época da ditadura militar?

Tem coisas que até Ele duvida. Tive a oportunidade de acompanhar a trajetória do cardeal Eugênio Sales, na qualidade de repórter da ASAPRESS, uma agência nacional de notícias arrendada pela CNBB em 1967. Também, cobri reuniões e assembleias da Conferência dos Bispos para os jornais do Rio - O Sol, O Paiz e Correio da Manhã, quando dom Eugênio era Arcebispo Primaz de Salvador. É a partir desse lugar que posso dar um modesto testemunho.
 
Os bispos que lutavam contra as arbitrariedades eram Helder Câmara, Waldir Calheiros, Cândido Padin, Paulo Evaristo Arns e alguns outros mais que foram vigiados e perseguidos. Mas não dom Eugênio, que jogava no time contrário. Um dos auxiliares de dom Helder, o padre Henrique, foi torturado até a morte em 1969, num crime que continua atravessado na garganta de todos nós e que esperamos seja esclarecido pela Comissão da Verdade. Padres e leigos foram presos e torturados, sem que escutássemos um pio de protesto de dom Eugênio, contrário à teologia da libertação e ao envolvimento da Igreja com os pobres.

O cardeal Eugenio Sales era um homem do poder, que amava a pompa e o rapapé, muito atuante no campo político. Foi ele um dos inspiradores das "candocas" - como Stanislaw Ponte Preta chamava as senhoras da CAMDE, a Campanha da Mulher pela Democracia. As "candocas" desenvolveram trabalhos sociais nas favelas exclusivamente com o objetivo de mobilizar setores pobres para seus objetivos golpistas. Foram elas, as "candocas", que organizaram manifestações de rua contra o governo democraticamente eleito de João Goulart, incluindo a famigerada "Marcha da família com Deus pela liberdade", que apoiou o golpe militar, com financiamento de multinacionais, o que foi muito bem documentado pelo cientista político René Dreifuss, em seu livro "1964: A Conquista do Estado" (Vozes, 1981). Ele teve acesso ao Caixa 2 do IPES/IBAD.

Nós, toda a torcida do Flamengo e Deus que estava vendo tudo, sabíamos que dom Eugênio era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura. Se não sofro de amnésia - e não sofro de amnésia ou de qualquer doença neurodegenerativa - posso garantir que na época ele nem disfarçava, ao contrário manifestava publicamente orgulho do livre trânsito que tinha entre os militares e os poderosos.

- "Quem tem dúvidas...basta pesquisar os textos assinados por ele no JB e n'O Globo" - escreve a jornalista Hildegard Angel, que foi colunista dos dois jornais e avaliou assim a opção preferencial do cardeal:
- A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugenio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%...


Portões do Sumaré
Por isso, a jornalista estranhou - e nós também - a forma como o cardeal Eugenio Sales foi retratado no velório pelas autoridades. Ele foi apresentado como um combatente contra a ditadura, que abriu os portões da residência episcopal para abrigar os perseguidos políticos. O prefeito Eduardo Paes, em campanha eleitoral, declarou que o cardeal "defendeu a liberdade e os direitos individuais". O governador Sérgio Cabral e até o presidente do Senado, José Sarney, insistiram no mesmo tema, apresentando dom Eugênio como o campeão "do respeito às pessoas e aos direitos humanos".

Não foram só os políticos. O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta escreveu que dom Eugênio chegou a abrigar no Rio "uma quantidade enorme de asilados políticos", calculada, por baixo, numa estimativa do Globo, em "mais de quatro mil pessoas perseguidas por regimes militares da América do Sul". Outro jornalista, José Casado, elevou o número para cinco mil. Ou seja, o cardeal era um agente duplo.

Publicamente, apoiava a ditadura e, por baixo dos panos, na clandestinidade, ajudava quem lutava contra. Só faltou arranjarem um codinome para ele, denominado pelo papa Bento XVI como "o intrépido pastor".

Seria possível acreditar nisso, se o jornal tivesse entrevistado um por cento das vítimas. Bastaria 50 perseguidos nos contarem como o cardeal com eles se solidarizou. No entanto, o jornal não dá o nome de uma só - umazinha - dessas cinco mil pessoas. Enquanto isto não acontecer, preferimos ficar com o corajoso depoimento de Hildegard Angel, cujo irmão Stuart, foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, procurou o cardeal e bateu com a cara na porta do palácio episcopal.

Segundo Hilde, dom Eugênio "fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos "subversivos" que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe Zuzu Angel (e isso está documentado)". Ela acha surpreendente que os jornais queiram nos fazer acreditar "que ocorreu justo o contrário!", como no filme "Uma cidade sem passado".

Mas não é tão surpreendente assim. O texto de Hildegard menciona a grande habilidade, em vida, de dom Eugenio, em "manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos". As azeitadas relações com os donos dos jornais e com alguns jornalistas em postos-chave continuaram depois da morte, como é possível constatar com a cobertura do velório. A defesa de dom Eugênio, na realidade, funciona aqui como uma autodefesa da mídia e do poder.

Os jornais elogiaram, como uma virtude e uma delicadeza, o gesto do cardeal Eugenio Sales que cada vez que ia a Roma levava mamão-papaia para o papa João Paulo II, com o mesmo zelo e unção com que o senador Alfredo Nascimento levava tucumã já descascado para o café da manhã do então governador Amazonino Mendes. São os rituais do poder com seus rapapés.

- Dentro de uma sociedade, assim como os discursos, as memórias são controladas e negociadas entre diferentes grupos e diferentes sistemas de poder. Ainda que não possam ser confundidas com a "verdade", as memórias têm valor social de "verdade" e podem ser difundidas e reproduzidas como se fossem "a verdade" - escreve Teun A. van Dijk, doutor pela Universidade de Amsterdã.

A "verdade" construída pela mídia foi capaz de fotografar até "a presença do Espírito Santo" no funeral. Um voluntário da Cruz Vermelha, Gilberto de Almeida, 59 anos, corretor de imóveis, no caminho ao velório de dom Eugênio, passou pelo abatedouro, no Engenho de Dentro, comprou uma pomba por R$ 25 e a soltou dentro da catedral. A ave voou e posou sobre o caixão: "Foi um sinal de Deus, é a presença do Espírito Santo" - berraram os jornais. Parece que vale tudo para controlar a memória, até mesmo estabelecer preço tão baixo para uma das pessoas da Santíssima Trindade. É muita falta de respeito com a fé das pessoas.
 
- "A mídia deve ser pensada não como um lugar neutro de observação, mas como um agente produtor de imagens, representações e memória" nos diz o citado pesquisador holandês, que estudou o tratamento racista dispensado às minorias étnicas pela imprensa europeia. Para ele, os modos de produção e os meios de produção de uma imagem social sobre o passado são usados no campo da disputa política.

Nessa disputa, a mídia nos forçou a fazer os comentários que você acaba de ler, o que pode parecer indelicadeza num momento como esse de morte, de perda e de dor para os amigos do cardeal. Mas se a gente não falar agora, quando então? Stuart Angel e os que combateram a ditadura merecem que a gente corra o risco de parecer indelicado. É preciso dizer, em respeito à memória deles, que Dom Eugênio tinha suas virtudes, mas uma delas não foi, certamente, a solidariedade aos perseguidos políticos para quem os portões do Sumaré, até prova em contrário, permaneceram fechados. Que ele descanse em paz!


P.S. - O jornalista amazonense Fábio Alencar foi quem me repassou o texto de Hildegard Angel, que circulou nas redes sociais. O doutor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, historiador e professor da Universidade Federal do Amazonas, foi quem me indicou, há anos, o filme "Uma cidade sem passado". Quem me permitiu discutir o conceito de memória foram minhas colegas doutoras Jô Gondar e Vera Dodebei, organizadoras do livro "O que é Memória Social" (Rio de Janeiro: Contra Capa/ Programa de Pós- Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005). Nenhum deles tem qualquer responsabilidade sobre os juízos por mim aqui emitidos.

sábado, 14 de julho de 2012

Dia de tristes lembranças - 14 de Julho


por Ramsés II, no blog sempre ótimo do Professor Hariovaldo



Mesdames et Messieurs de ce beau site,

Em 14 de julho de 1789,  há exatos 223 anos, uma horda horrenda e mal cheirosa de famélicos, uma malta do populacho ignorante dirigida por subversivos comunistas, atacou de forma brutal e injustificada a bela fortaleza-prisão da Bastilha, onde costumava ser punida a gentalha má, perversa e preguiçosa que vivia de favores e de pequenos furtos, apenas porque passavam fome não tendo pão para comer, uma vez que não seguiram o conselho da bondosa rainha para se alimentarem com brioches.

Até essa triste data o mundo era um édem, um verdadeiro paraíso onde as pessoas viviam em perfeita harmonia, as pessoas da nobreza, instruídas, de família, de bens, de berço d’oiro e sangue bleu, com a administração de seus feudos e posses, com o usufruto das coisas boas e finas, com suas aprazíveis viagens, e umas guerrinhas vez em quando para animar a festa e diminuir o número de miseráveis, enquanto a plebe ignara levava sua vidinha boa e obediente com trabalho, trabalho e trabalho em sua curta e feliz existência, o que mais poderia querer essa gentalha?

Mas não!

Esses inocentes úteis, que não tinham onde cair mortos, ouviram o canto da sereia feito por subversivos bolcheviques e se levantaram acintosamente contra o probo Rei Sol e a inocente e amávelNoblesse, em um movimento espúrio séculos depois ainda conhecido como a terrível Revolução Francesa, o pecado original.
Três anos depois passaram o rei e sua  bondosa rainha na guilhotina, isso apenas porque eles estavam fungindo de encontro a tropas imperiais da Prússia, para invadir a França, exterminar a pobreza e retomar o poder!

Daí esse caos que o mundo se encontra, o fim do feudalismo,  do sacro poder da realeza, da piedosa inquisição, da santa igreja, representou um duro golpe para as instituições dos homens bons e mulheres boas, permitindo que a gentalha assumisse o poder mediante a introdução do voto popular – um escárnio – em eleições cujo resultado já se sabe: a maioria sai vencedora, essa aberração é certamente um castigo divino para tanta barbárie e desobediência aos santos valores cristãos e da hierarquia eclesiástica, demoramos séculos para aprender a manipulação das massas e o controle da mente, de modo a conter a multidão de seres inferiores.

Anos atrás a televisão italiana mostrou todo seu luto e inconformidade com esse golpe contra a caridosa nobreza:



Vamos todos fazer um minuto de silêncio nesse 14 de julho em protesto contra a gentalha fétida, pela volta da aristocracia e em luto fechado de tristeza por não estarmos no poder, como é nosso direito, no lugar dos Dilmollullistas.

Que Dom José restabeleça a aristocracia primeiro em Terra de Vera Cruz, também conhecida por Estados Unidos do Brazil, depois no mundo!

Operação Globosta de intimidação – detonar o côco-roxo




Amanhã a noite na sua revista eletrônica dominical, o Fanático, a Globosta vai levar ao ar uma entrevista desfavorável ao seu antigo protégé, Fernando Collor de Mello, que agora se transmutou no verdadeiro enfant-terrible em bater na velha mídia babona com Sledgehammer. A chamada no site do citado programa televisivo traz a seguinte chamada:

Um depoimento exclusivo e revelador é o destaque do Fantástico deste domingo (15).

Vinte anos depois do impeachment de Collor, a ex-primeira-dama Rosane Collor conta em detalhes o que viu e viveu ao lado do ex-presidente e ex-marido.
 

E diz o que é verdade e o que é mentira sobre o que acontecia na Casa da Dinda, na época residência oficial do então casal mais poderoso do país.
 

Ela fala ainda sobre os rituais que Collor não gostaria que fossem contados.
 


Qual é a intenção oculta da Globosta?... os comentaristas do blog do Nassif já fizeram suas análises:

  • Por coincidência, bem no meio da CPI do Cachoeira, onde Collor é um dos que estão atirando contra a imprensa. Durante 20 anos, ela guardou o segredo. Agora, resolveu contar. Jotave
  • Exatamente: como Miriam Cordeiro na campanha do ex-marido dela, contra Lula, em 89.Qualquer semelhança não é mera coincidência... Êta mundinho redondo que gira! Jura
  • A Globo não dá ponto sem nó. Se ela está abrindo espaço para a Rosane, que sempre desprezou, é porque o depoimento dela favorece suas pretensões, que certamente não são das mais puras. Qual é o foco do Collor na CPI? O Gurgel e a Veja. Portanto, a Globo quer desmoralizar o Collor para proteger esses dois e por tabela se proteger. Malú
  • Ainda não sei o teor da entrevista... Mas sei que estamos no meio de uma CPMI que está muito próxima de desmascarar e desmoralizar a mídia venal. Também sei que o Prevaricador Geral da República Roberto Gurgel está bem próximo de ser apeado do lugar que por hora ocupa e que o julgamento da farsa do "mensalão" está próximo. A Rede Globo, ao que parece, trata desde já de bater em Collor para preservar Gurgel e condenar José Dirceu...Mas o Collor é bom de briga. Diogo Costa
  • Diogo, eu sei o conteúdo... baixaria pura! Ataques pessoais que ocorreram há mais de 20 anos... coisa do Kamel... e da quadrilha dele... É bom lembrar que a familia de Collor é sócia da GLOBO na retransmissão... Foi a GLOBO quem criou Collor... e a GLOBO quer terminar o que começou... destruí-lo!A GLOBO quer intimidar Collor... vamos ver se ele tem mesmo aquilo roxo! Quintela
  • Definitivamente, não é um grupo midiático. É um grupo de PODER, instalado no Brasil, com feudo gigantesco, e que utiliza esse poder apenas em prol de seus ineteresses, enriquecendo, enquanto dá um circo pobre ao povo, e o manipula com informações escolhidas a dedo. Chamar a Rede Globo de "empresa jornalística", é farsesco, não tem o menor sentido... Eduardo Ramos.
  • Como eu já comentei algumas vezes, a última delas na quarta-feira agora, “... só quero ver como é que os Marinho irão se virar, pela primeira vez sem o controle de uma CPI em suas mãos, quando Civita sentar naquela cadeira prá sair dali devidamente massacrado pelo Collor - a conversa já é diferente com qualquer ex-presidente, imagine com o único que foi prá casa mais cedo, não sobrará nada.” [...] Quanto à Barbie Collor, andava pousando de evangélica e moveu mais de uma ação judicial contra o ex-marido. A primeira, salvo engano já ganhou, agora ganhará a segunda, caso tenha sido matreira ao negociar esta patranha com a Grobo. Alfredo Machado
  • Interessante, quando li o post vi retornando aquele clima de linchamento quando do impeachement de Collor, fiquei sem entender o motivo, agora sei, é a tal CPI do Cachoeira, a Globo fará de tudo para desqualificar a investigação e sepultar a CPI, até mesmo pq estará concorrendo com o show que ela mesma(Globo) criou, o "mensalão". De cara não entendi que o motivo era esse e, como eu, o Brasil também não entenderá o motivo. O braço midiático do crime organizado não dorme no ponto, até a imagem para divulugar a reportagem (foto que ilustra este post) foi escolhido a dedo, notem que Rosane Collor tem uma mancha no lado esquerdo do rosto, é maquiagem mas a nível da semiótica isso será entendido como sendo uma agressão desferida por Collor. A expressão corporal da entrevistadora passa a idéia de assustada com as "revelações"'. Eta mundinho! IV avatar

Vamos ver amanhã como esse circo foi montado... Curiosidade!...


quinta-feira, 12 de julho de 2012

E assim vamos indo....


pescado no msn/Estadão


Após ser cassado pelo plenário do Senado na última quarta-feira, 11, Demóstenes Torres reassumiu na quinta-feira suas funções de procurador de Justiça no Ministério Público de Goiás. Com a volta ao cargo, ele poderá agora solicitar três licenças-prêmio, num total de R$ 200 mil, mais o salário de R$ 24,2 mil.

São procedimentos de praxe, segundo promotores e procuradores ouvidos pelo Estado. No caso específico de Demóstenes, quem decidirá se ele receberá ou não as licenças-prêmio será o seu irmão Benedito Torres, que ocupa o cargo de procurador-geral de Justiça do Ministério Público Estadual de Goiás.

Demóstenes precisou de cerca de 10 minutos, o tempo em que permaneceu na sala 306 do 3.º andar do edifício-sede, para confirmar o retorno ao trabalho no Ministério Público.

Ele poderá solicitar a ajuda financeira especial por meio da Parcela Autônoma de Equivalência (PAE), um pagamento legal em porções somadas ao salário, que podem variar de R$ 5 mil a R$ 10 mil ao mês.

A PAE foi aprovada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNPM) com o objetivo de restabelecer o equilíbrio entre os salários dos poderes Legislativo e Judiciário.

Na rápida passagem pelo órgão, o senador cassado driblou a imprensa que o aguardava na porta do prédio da instituição e não deu entrevistas.

Demóstenes estava licenciado desde 1999, quando deixou o MP para ocupar o cargo de secretário de Segurança Pública e Justiça de Goiás. Em 2002 ele foi eleito pela primeira vez para uma vaga de senador pelo PFL (ex-DEM). Em 2010, foi reeleito. Sua cassação foi publicada ontem pelo Diário Oficial da União (DOU). Com a cassação, Demóstenes teve seus direitos políticos suspensos por oito anos - a contar do fim do mandato parlamentar, que se encerraria em 2019 -, ficando inelegível até 2027.

Procedimento. A Corregedoria do MP goiano instaurou procedimento disciplinar para apurar "eventual falta funcional" de Demóstenes. O processo foi instaurado pelo corregedor-geral do órgão, Aylton Flávio Vechi, que já saiu de recesso.
No Ministério Público, com 300 funcionários, entre promotores e procuradores, há três linhas de avaliação sobre o futuro do senador cassado no órgão. Na primeira, ele será destituído. Na segunda será mantido. Na terceira ganhará uma advertência mas seguirá como procurador de Justiça. Demóstenes já anunciou que irá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar recuperar o mandato de senador, alengando que as provas foram obtidas ilegalmente.

A reportagem solicitou ontem à assessoria de imprensa do MP informações oficiais sobre os benefícios a que Demóstenes terá direito, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição.

O cardápio do estadista



Percival Puggina, no Tribuna da Internet
Vamos ver se consigo. É muito difícil que uma dissertação sobre política não seja lida sem que os leitores se instalem, provisoriamente ao menos, nas respectivas trincheiras. O que hoje trago para este espaço, no entanto, é uma reflexão sobre modos de ver a política que independem de devoções governistas ou oposicionistas e de alinhamentos ideológicos por tal ou qual banda. Estou fazendo uma aposta em que conseguirei ser entendido na perspectiva que proponho.
Vamos lá. Todo governante, sentado na cadeira das decisões, se defronta com esta questão: onde gastar os escassos recursos de que dispõe? Abrem-se, de hábito, dois caminhos. Num deles, os recursos podem ser gastos na conservação do estoque de bens públicos disponível, no aumento da oferta de serviços com ampliação dos empregos do setor, nas despesas de custeio e na distribuição de favores. No outro, priorizam-se os investimentos como forma de ampliar, através deles, as perspectivas do futuro.
O tema é relevante e se expressa na opção entre a possibilidade de governar mais para o presente e menos para o futuro ou de governar mais para o futuro e menos para o presente. Numa analogia bem singela, seria escolher entre comer feijão com arroz hoje ou preparar uma feijoada para amanhã.
A experiência política mostra que o feijão com arroz é eleitoralmente mais bem sucedido que a feijoada, embora a feijoada fique na memória e entre para a história. Há muitos anos, muitos anos mesmo, a feijoada foi parar num canto remoto do cardápio nacional – e no Rio Grande do Sul não é diferente – graças a uma taxa de investimento incapaz de providenciar os mais modestos ingredientes de uma feijoada que mereça essa designação. As propagandas oficiais podem sobrevalorizar o que é investido, mas não passam disso mesmo: propaganda oficial. Aponto para a falência da educação no país e não preciso dizer mais nada para provar o que digo.
É na bandeja do dilema aqui exposto que o prato da oposição é servido. Se o governante optar pela feijoada, a oposição reclamará da falta do feijão com arroz; se ele escolher o feijão com arroz, a oposição cobrará a feijoada. E não há como escapar desse conflito, a menos que – numa situação absolutamente ilusória e imprudente – se proceda como se existissem recursos para fazer bem as duas coisas. É a usina do endividamento, da insegurança e do descrédito.
Não é por outra razão que a política deve ser confiada aos estadistas. Quem vota em qualquer um por razões menores deve, mesmo, ser governado por pigmeus. Para cuidar apenas do custeio, um gerente serve; para decidir sobre investimentos, precisa-se de um planejador; para escolher entre o bem e o mal basta ter uma consciência bem formada. Mas para priorizar despesas, escolher o mal menor (porque o bem nem sempre está disponível ou acessível), fazer na hora certa a opção correta entre custeio e despesa, se requer um estadista.
E nós só os teremos quando os partidos compreenderem que eleição é um episódio do processo democrático. A eleição passa mas a política permanece. E a política só corresponderá às expectativas sociais quando os partidos se preocuparem com formar (e os eleitores com eleger) estadistas. Eles existem e estão por aí, cuidando de outras coisas, porque a política não lhes dá espaço. Enquanto isso, ora falta feijão, ora falta arroz e a feijoada virou um sonho.