* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Gentrificação - o que ser isso?....

Spike Lee - durante filmagens no Brasil


por Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

O morro do Vidigal é um clássico do Rio de Janeiro. A vista dá para Ipanema e a favela é pequena e relativamente segura. Há pousadas com diárias de até 200 reais por dia por pessoa. Nos últimos anos, festas bacanas passaram a atrair um público rico e descolado. Um hotel de luxo está sendo erguido.

Aos poucos, casas de um padrão mais alto estão sendo construídas. Artistas plásticos e gringos compraram imóveis ali. Os moradores recebem propostas atraentes e se mudam. Não são propostas milionárias. Apenas o suficiente para se transferirem para um lugar mais longe e um pouco — pouco — melhor. Os novos habitantes, aos poucos, impõem uma nova rotina e uma nova cara.

O que ocorre com o Vidigal é um processo de “gentrificação”, uma palavra horrenda, anglicismo não dicionarizado que deriva de “gentry” (o que é “de origem nobre”). Foi usada pela primeira vez para definir a mudança na paisagem urbana de San Francisco e de Toronto. E será cada vez mais ouvida. No Vidigal, um ciclo de debates em torno dessa “ocupação” durou quatro dias. Há uma preocupação com relação a moradores que são despejados por causa de riscos de desabamento e recebem um “aluguel social” de 400 reais pagos pela prefeitura.

A gentrificação não é necessariamente ruim. Mas pode descaracterizar um bairro se for deixada nas mãos da especulação imobiliária e do crescimento desordenado. É uma discussão rica e que tende a se tornar cada vez mais barulhenta no Brasil, especialmente com as obras da Copa do Mundo e a remoção de comunidades para sabe-se lá onde.

Em janeiro, a revista New Yorker chamou o Itaquerão de “monumento à gentrificação”. De acordo com o jornalista Ben McGrath, a opulência do estádio contrasta com “a arruinada zona leste, onde grafites e lixo predominam”. No mundial da África do Sul, assentamentos foram criados para acomodar quem foi retirado das áreas de construção dos estádios.
Qual o limite entre o embelezamento, digamos, de um bairro e uma faxina étnica ou social?

O cineasta Spike Lee deu uma excelente resposta recentemente. Numa palestra no Brooklyn, onde foi criado e onde ambientou seu melhor filme, “Faça Coisa Certa”, Lee bateu um artigo do New York Times que fazia a apologia da gentrificação. Para Lee, é a síndrome de Cristóvão Colombo. “Você não pode descobrir esse lugar”, diz. “Por que é preciso um influxo de brancos para que a infra-estrutura melhore?”
Eis alguns trechos de seu discurso:

Eu cresci aqui em Fort Greene. Eu cresci aqui em Nova York. A cidade mudou. E porque é preciso um influxo de nova-iorquinos brancos no sul do Bronx, em Harlem, em Bed Stuy, em Crown Heights para que a infraestrutura melhore? O lixo não era retirado todos os dias. A polícia não estava por perto. Quando você vê mães brancas empurrando seus bebês em carrinhos às 3 horas da manhã na 125th Street, isso tem que te dizer alguma coisa.

Aí vem a porra da síndrome de Cristóvão Colombo. Você não pode descobrir esse lugar. Nós já estávamos aqui. Você simplesmente não pode vir e se apropriar. Havia irmãos tocando tambores africanos em Mount Morris Park por 40 anos e agora não podem mais fazer isso porque os novos moradores dizem que os tambores são muito altos. Meu pai é um grande músico de jazz. Ele comprou uma casa em 1968, e a porra das pessoas que se mudaram para lá no ano passado chamaram a polícia por causa do meu pai. Ele nem sequer toca baixo elétrico! É acústico! Nós compramos a porra da casa em 1968 e agora você chama a polícia?

Você não pode fazer isso. Você não pode simplesmente entrar no bairro e começar a se apropriar e dizer, como se você fosse a porra do Colombo e matasse os índios americanos. Ou o que eles fazem no Brasil, o que fizeram com os povos indígenas. Você tem que vir com respeito. Há um código. Há pessoas.

Quero dizer, eles apenas se mudam para o bairro. Mas eles não podem simplesmente entrar assim. Eu sou a favor da democracia e de deixar todo mundo viver, mas você tem que ter um pouco de respeito. Você não pode simplesmente entrar, quando as pessoas têm uma cultura que tem sido criada por gerações, e você entra e agora a merda toda tem que mudar, porque você está aqui? Sai fora daqui. Você não pode fazer isso!

Então você está falando sobre a mudança do valor dos imóveis? Mas e as pessoas que estão pagando aluguel? Eles não podem pagar mais. Você não pode permitir isso. As pessoas querem viver em Fort Greene. As pessoas querem viver em Clinton Hill, no Lower East Side. Eles se mudam para Williamsburg. Eles não podem sequer bancar a porra de Williamsburg agora por causa dos mauricinhos.

Então, por que esperaram este grande afluxo de pessoas brancas para melhorarem as escolas? Por que há mais proteção policial em Bed Stuy e Harlem agora? Por que o lixo é recolhido com mais regularidade? Nós sempre estivemos aqui.

Então, para onde você vai? Para onde? Os porto-riquenhos dizem a mesma coisa. Um monte de gente disse ‘bom, vamos nos mudar para Bucks County. Ou voltar para Puerto Rico.’ As pessoas não podem mais se dar ao luxo de viver aqui.

Então, se Nova York não é mais acessível, a grande arte que temos aqui não vai mais estar aqui porque as pessoas não podem pagar para ficar.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Cebolulinha & Moniquinha



fabula adaptada de Padre Quevedo, comentarista do Professor Hariovaldo


Este fato ocorreu numa sala de brinquedos de alguma dessas excelentes escolas pré-primário do governo tucano. Cebolulinha “lingua plesa” e Moniquinha pegaram na estante de brinquedos um “posto de serviços da Petrobrax” brinquedo muito popular das antigas, com rampas, carrinhos, simulação de lava-jato, bombas de gasolina, etc. e ficaram assim, por horas se divertindo.

Enquanto isso, Fernandinho, Alvinho, Geraldinho e Aecinho pegaram o trenzinho elétrico de brinquedo da Alston/Estrela para brincar, mas logo se entediaram e viraram os olhos para o brinquedo de Cebolulinha e Moniquinha:

- Que brinquedo legal! Deixa a gente brincar?... Cebolulinha disse: - Só se vocês deixalem nós “blincá” com o tlenzinho.

Aí Alvinho falou: - Não, com o trenzinho não, vocês vão quebrar…… Fessô Renan!…. eles não qué deixá nós brincá com o postinho Petrobrax! ...


O professor Renan “cabelinho de boneca” disse: - Tá certo! Vou falar com a diretora Dona Rosa pra ver o que ela decide. Se deixa vocês brincarem com o postinho sem que eles possam botar a mão no trenzinho, ou se libera geral…. pra todo mundo brincar.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Como fica isso?... Cunha toma no Cunha e Pimenta nada!...





por Paulo Moreira Leite, em seu blog na IstoÉ




Onze anos depois de receber R$ 300 000 de Marcos Valério, o tucano Pimenta da Veiga, candidato ao governo de Minas Gerais, foi chamado pela Polícia Federal para explicar-se. Ex-ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso, Pimenta recebeu uma quantia seis vezes maior do que os R$ 50 000 que a mulher do deputado João Paulo Cunha foi buscar no Banco Rural.

A quantia recebida por João Paulo foi considerada uma prova de que ele havia sido corrompido pelo esquema, elemento essencial para demonstrar sua culpa num caso em que foi condenado, incialmente, a 9 anos e quatro meses de prisão. Mas o ex-deputado recorreu de uma das condenações, aquela tese absurda de que a própria mulher fora usada para lavar dinheiro – a denuncia da AP 470 foi bastante criativa, nós sabemos – e conseguiu diminuir sua pena.

Hoje, em regime semiaberto, João Paulo trabalha num escritório de advocacia de Brasília. A condenação de João Paulo só foi possível porque o STF desconsiderou as provas que apresentou em sua defesa.

Ele disse que havia recebido os R$ 50 000 como ajuda para a campanha eleitoral de 2004 na região de Osasco e municípios vizinhos, onde, antigo operário metalúrgico, construiu a liderança política. João Paulo apresentou notas fiscais que confirmavam gastos realizados com pesquisas eleitorais. Mostrou planilhas e números. Levou testemunhas que deram depoimentos para provar o que dissera.

Você pode achar que era tudo a encenação de um conto da carochinha. Mas daí eu pergunto: como explicar o que aconteceu com Pimenta da Veiga?   Ele não tinha notas fiscais nem depoimentos para justificar os R$ 300 000. Disse na época que havia prestado serviços de advocacia para a DNA e a SMP&B, agências de Valério. A Polícia Federal registrou que queria alguma prova de que havia feito algum trabalho de verdade, como um parecer escrito ou coisa assim. Não havia. Pediu que Pimenta da Veiga apontasse empresas ou pessoas envolvidas nos casos em que havia atuado em tribunais. Nada. Alegou-se que eram casos internos.

Em 2002, não custa recordar, as agencias de Valério tomavam parte na campanha de Aécio em Minas Gerais. Cristiano Paz, um dos maiores publicitários do Estado, chegava a despertar inveja entre os concorrentes pela facilidade de transitar entre o PSDB mineiro. Seu sócio Ramon Hollerbach tinha cadeira cativa no comitê de campanha do PSDB. Hoje, condenados a mais de 20 anos, os dois vivem confinados na Papuda, cumprindo os rigores do regime fechado.

Com base no que dizia ter acontecido e no que não poderia ser demonstrado, Pimenta da Veiga foi liberado inteiramente de qualquer acusação. Não foi sequer acusado pelo Ministério Público. Não foi denunciado. Sua investigaçao permaneceu no laudo 2828, aquele que foi mantido em segredo dos próprios ministros do Supremo até que eles julgassem a denuncia contra os 40 réus do PT.

Hoje, Pimenta da Veiga é candidato ao governo de Minas Gerais na sucessão de Antônio Anastasia. SE sua candidatura for confirmada, estará no palanque de Aécio Neves.

Enquanto isso, graças a uma remessa equivalente a apenas 16% daquela que Pimenta da Veiga recebeu, João Paulo Cunha dorme num estabelecimento penal. Não pode candidatar-se a deputado e foi levado a interromper uma carreira onde era realista cogitar uma candidatura ao governo de São Paulo.

O Globo de hoje noticia que em 2013 Pimenta da Veiga foi indiciado no mensalão mineiro. OIto anos de atraso. Ou dez anos, se você quiser contar com o momento em que a denúncia chegou ao gabinete de Carlos Ayres Britto, no STF.

Preste bem atenção: ele recebeu o dinheiro em 2003; a Polícia Federal descobriu o pagdamento em 2005; e apenas oito anos depois, quando João Paulo Cunha e os demais condenados da AP 470 batalhavam para conseguir os embargos infringentes e obter um fiapo de recurso, Pimenta foi indiciado.

Nascido em 1947, só precisa esperar três anos para atingir os 70 anos que garantem a prescrição de suas penas caso venha ser condenado. Tudo se torna ainda mais escandaloso quando se recorda que a multa cobrada de João Paulo a título de reparação – R$ 370 000 – é 25% superior aos honorários recebidos recebido por Pimenta da Veiga junto as empresas de Valério.

Pasadena - O festival de desinformação



por Luis Nassif, em seu blog




Politização do tema, dificuldade da mídia para tratar de temas técnicos, silêncio incompreensível da Petrobras e do governo, tudo isso contribuiu para transformar o caso Pasadena em um festival de desinformação.

Consolidou-se o número mágico, de prejuízo de US$ 1,2 bi. É um número absurdo. Se existe escândalo, ele se dá sendo os prejuízos de US$ 10 milhões, US$ 100 milhões ou US$ 1,2 bi. Não há necessidade de turbinar prejuízos para aumentar o escândalo.

***

De acordo com os números divulgados até agora:

Fato 1. A Astra não pagou apenas US$ 45 milhões pela Pasadena, antes de vender metade para a Petrobras. Teria pago US$ 45 mi, assumido US$ 200 bi de passivo fiscal e investido mais US$ 84 mi. No total, US$ 329 mi, ou US$ 3,29 o barril (a capacidade da refinaria é de 100 mil barris por dia).

São informações objetivas que precisam ser checadas, para confirmar sua veracidade.

Fato 2 – Pelos primeiros 50%, a Petrobras pagou US$ 190 milhões. Pagou outros US$ 170 milhões por metade dos estoques de petróleo. Estoque de petroleo é dinheiro à vista e não pode ser incluído no preço pago. O que se precisa investigar:

1. Se o valor dos estoques correspondia aos valores de mercado na época;

2. se efetivamente havia nos estoques essa quantidade de petróleo. Um dos documentos vazados era de uma consultora alertando para a possibilidade de não haver esse estoque nos tanques da refinaria. Ninguém foi atrás para confirmar.

Fato 3 – os preços das refinarias norte-americanas na época. Outras refinarias foram vendidas por preços muito superiores, devido ao boom das commodities que precedeu a grande crise.

A Astra é uma trader, que atua no mercado de curto prazo. O que se tem a investigar é o fato de ter se antecipado à Petrobras em alguns meses e adquirido a refinaria para revendê-la. E não se fixar no preço, que está abaixo dos preços de outras refinarias negociadas no período.

Fato 4 – o que a Petrobras investiu na empresa

O eventual prejuízo da Petrobras corresponde a tudo o que ela investiu na empresa menos o valor atual.

Há dois valores conhecidos: os US$ 190 mi pagos pelos 50% iniciais e os US$ 296 pelos demais 50%. No total US$ 496 milhões.

Para estimar o investimento completo, há três valores desconhecidos:

Na segunda compra, há um valor, de US$ 170 milhões, atribuídos a estoques e “dívidas existentes com a Astra”. Estoque não entra no custo pago; dívida existente, entra. É necessário levantar esses valores.

Pagou mais US$ 173 milhões de juros, multa, honorários e garantias bancárias. Não se tem ideia sobre a composição desses custos. O que são essas “garantias bancárias”?

O terceiro valor são os investimentos adicionais para adaptar a refinaria às leis ambientais do Texas.

Tudo somado, ter-se-á o que a Petrobras investiu.

Fato 5 – o valor atual da refinaria.

Corresponde ao custo atual de mercado –custo por barril vezes 100 mil (sua capacidade) menos passivos existentes (fiscais, ambientais etc).

Ainda não se tem clareza sobre o que aconteceu com os passivos fiscais, se ficaram com a Astra, se financiados ou se continuam na Pasadena.

De qualquer modo, se houve prejuízos está muito mais próximo dos dois dígitos do que essa maluquice e US$ 1,2 bi.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O lixo orgânico de Nova York



por Kim-Jenna Juriaans, no Tierramérica



O novo esquema de coleta e compostagem de lixo orgânico de Nova York foi concebido para ser obrigatório, e reduzir drasticamente o lixo e o que se gasta com ele.

Pergunte a um nova-iorquino por que sua cidade é famosa. A compostagem tem tão poucas possibilidades de aparecer entre as respostas quanto as casas baratas ou os invernos temperados. Mas, se depender do prefeito, Michael Bloomberg, isto logo mudará.

Bloomberg, que terminará seu mandato no final deste ano, anunciou em junho que o Departamento de Saneamento da cidade começou a coletar dejetos orgânicos em comunidades-piloto de toda Nova York, e planeja ampliar drasticamente a quantidade de lares participantes nos próximos dois anos. O objetivo final é que, até 2016, seja obrigatório que todas as casas recolham seu lixo orgânico para aproveitá-lo como compostagem, fertilizante obtido pela decomposição, ou como fonte de energia limpa.

A iniciativa faz parte do plano de Bloomberg de reduzir em 75% o lixo urbano que chega aos lixões até 2030 e diminuir as emissões de gases-estufa da cidade, para as quais o lixo contribui com cerca de 3%. No momento, Nova York se desfaz de boa parte de seu lixo sólido, mais de 14 milhões de toneladas anuais, em lixões situados em outros Estados, como a Pennsylvania, Carolina do Sul e Ohio, pagando US$ 86 por tonelada, fora o transporte.

Se os moradores dos quase três milhões de unidades habitacionais da cidade separarem a matéria orgânica do resto do lixo, a prefeitura espera reduzir em 1,2 milhão de toneladas o lixo dos aterros sanitários. Esta medida poderia permitir uma economia de até US$ 100 milhões ao ano, pouco menos de um terço do dinheiro gasto para coletar e eliminar o lixo domiciliar, segundo o Departamento de Saneamento.

A fase de teste inclui, até agora, dois arranha-céus de Manhattan, algumas poucas comunidades do Brooklyn e de Staten Island, e mais de cem restaurantes e escolas públicas de toda a cidade. Mas o Departamento de Saneamento se prepara para incluir 150 mil casas de família, 70 edifícios e 600 escolas em 2014. Pouco mais de um quarto do lixo nova-iorquino é composto por lixo residencial. As empresas produzem aproximadamente outro um quarto, e 70% deste procedem dos restaurantes, por isso incluir o setor é uma parte importante do plano de compostagem.

Os restaurantes com consciência ecológica, que já pagam uma coleta especial de lixo alimentar, provavelmente deem as boas-vindas a um plano de toda a cidade que os inclua. Para outros, com cozinhas pequenas, agregar um recipiente adicional para o lixo pode ser impossível, como mostra um informe sobre restaurantes divulgado em 20 de junho pelo jornal The New York Times.

Além de aliviar a carga ambiental e as despesas da cidade, há outros benefícios na coleta seletiva, segundo Ron Gonen, subcomissário de Saneamento da cidade. “Há dois destinos principais para os resíduos orgânicos”, disse Gonen ao Terramérica. “Podem ser transformados em compostagem, fertilizante orgânico que já é elaborado em uma unidade em Nova York, e é doado para parques e hortas locais, ou vendido para empresas de jardinagem.

Esses resíduos também podem ser transformados em energia renovável mediante decomposição anaeróbica (ausência de oxigênio)”, acrescentou. O resultado é um biogás rico em metano. Nova York já tem um digestor anaeróbico em uma de suas unidades de tratamento de esgoto, e se estuda uma licitação para a construção de uma grande central, que possa converter boa parte do resíduo doméstico em gás ou eletricidade limpa.

“Também há algumas tecnologias emergentes interessantes”, observou Gonen, citando, como exemplo, que “se pode transformar o lixo em um combustível limpo conhecido como éter dimetílico (substituto do óleo combustível), por isso não é impensável que no futuro próximo possamos movimentar nossos caminhões de lixo a partir dos próprios resíduos que coletamos”.

Mudança de atitude

Wexterleigh, um bairro de 3.500 habitantes no distrito nova-iorquino de Staten Island, é uma das comunidades-piloto da política de compostagem. Embora a participação esteja na casa dos 50%, as respostas dos moradores são variadas. Rosemary Caccese, que já elabora compostagem em seu próprio quintal mesmo antes do plano de Bloomberg, vê a medida com bons olhos. “Já faço o meu cada semana”, disse ao Terramérica, apontando seu novo contêiner marrom, que é recolhido a cada sete dias.

“Dá trabalho, não é fácil”, acrescentou, mas, como se importa com o meio ambiente, está disposta a pagar o preço. Porém, sua aplicação em toda a cidade pode ser complicada, principalmente para a população idosa, afirmou. Na calçada em frente, Donald Carullo acredita que o fato de ele e sua mulher serem idosos é precisamente o que lhes permite participar da iniciativa. Seu filho, pai de três crianças, perderia muito tempo, ponderou ao Terramérica.

Na avenida Burnside, Loise Conti, que se autodefine como “verde” e detalha com orgulho uma longa lista de medidas amigáveis com o meio ambiente que aplica em sua casa, é cética sobre o plano, por razões práticas e de projeto. “Minha amiga tem cinco filhos, e precisará mais do que isto”, disse apontando para o novo móvel de sua cozinha: um recipiente oval com capacidade para 4,4 litros, um dos modelos entregues pela prefeitura nas casas. Para uma casa pequena como a sua, o esforço quase não vale a pena. E, no quente verão nova-iorquino, “começa a cheirar mal”, lembrou.

A mudança de atitude é uma boa parte do desafio que a cidade terá que superar nos próximos meses. A ênfase na economia que terão os cofres públicos e os contribuintes é essencial para promover esta política, ressaltou Gonen. Entretanto, no momento a medida é voluntária, e no futuro será obrigatória e com multa para quem não cumpri-la.

Alexander Allen, que conversou com o Terramérica em um dos poucos lugares – algumas dezenas – onde se pode deixar lixo para compostagem na cidade, acredita que a iniciativa tem muito sentido ambiental. Contudo, não está certo de que funcione como obrigatória, pois as multas não bastam para mudar mentalidades. “Definitivamente, estará nas mãos da população”, resumiu.

Nova York segue os passos de outras cidades dos Estados Unidos, como São Francisco e Seattle, que implantaram iniciativas semelhantes. Mas também está inovando. “Não há nenhuma cidade na América do Norte, e talvez nem mesmo na Europa, onde o manejo do lixo seja tão complicado como em Nova York”, pontuou Gonen. “Temos um ambiente antigo de construções, e somos multiculturais”, acrescentou.

Isto também é uma oportunidade para que a Grande Maçã sirva de exemplo para outras cidades do planeta. “Não há outra grande cidade que possa ver os êxitos de Nova York e dizer nós não poderíamos fazer isso, temos um sistema mais complicado”, afirmou Gonen. Envolverde/Terramérica

* A autora é correspondente da IPS.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Segregação urbana aceita na ditadura segue sendo o padrão



por Luiz Carlos Azenha no Viomundo

A arquiteta Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU), está encerrando seus seis anos de mandato como Relatora Internacional do Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Durante este período, ela fez 12 missões internacionais avaliando as condições de moradia no mundo.

No Brasil, ela diz que pouco mudou desde que a ditadura militar promoveu a urbanização segregacionista, que reservou as melhores áreas urbanas aos ricos e jogou os pobres na periferia, distantes dos serviços públicos. Embora tenha havido avanços na Constituição de 1988, pouco saiu do papel. O direito à posse, previsto na Carta, é atropelado sempre que o Estado precisa de espaços para novas obras, como se viu no caso da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A reforma urbana foi abandonada.

O Minha Casa, Minha Vida, tocado com dinheiro da Caixa Econômica Federal, paga às construtoras o mesmo valor pelos imóveis, independentemente de onde sejam construídos. Para aumentar a lucratividade, as construtoras optam por construir em áreas distantes dos serviços, embora tenham de atender a certas condicionalidades.

Raquel diz que, hoje em dia, por causa da globalização, os capitais internacionais passaram a disputar a localização com os mais pobres. Ou seja, um investidor árabe interessado em construir no Recife disputa o terreno com o morador pobre que ocupa imóvel no centro da cidade! Sem que haja proteção aos mais pobres, segue a gentrificação.

Na entrevista abaixo, a arquiteta fala também do fracasso das ideias de Hernando de Soto, o economista que pregava dar títulos de propriedade aos pobres como panaceia para todos os males. Em tese, esses títulos permitiram aos novos proprietários ter acesso ao sistema financeiro e sair da pobreza. Nada disso aconteceu. Aliás, as ideias neoliberais do economista permitiram a paises desenvolvidos o desmonte de seus programas habitacionais. Nos Estados Unidos e na Espanha, quando o mercado imobiliário bombado artificialmente implodiu, em 2008, os bancos foram salvos pelo Estado e os pobres perderam suas casas!

Sobre a crise urbana no Brasil, Rolnik diz que sempre existiu para os mais pobres, mas ganhou relevância agora por ter tocado na classe média que não consegue mais se deslocar de automóvel.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Herança social da ditadura militar de 1964



por Vinicius Torres Freire, no IHU e na Folha de São Paulo (vixe, vixe...)


Entre 1964 e 1984, a renda média per capita no Brasil cresceu pouco mais do que 108% (isto é, passou um pouco de dobrar). Nos 20 anos anteriores, entre 1943 e 1963, a renda per capita havia aumentado 131%.

Quer dizer que os anos do "milagre econômico" foram uma lenda? Não, não é disso que se trata aqui. Essa comparação muito elementar serve apenas de alerta simples sobre o risco de bobajada, ou coisa pior, embutido em argumentos binários, numeralhas sem contexto e outras simplificações históricas e sociais.

Isto posto, as taxas de crescimento entre o fim da guerra e o colapso da ditadura foram impressionantes. Considere-se que nos 20 primeiros anos da democracia, 1985-2005, o crescimento da renda per capita média foi de apenas 22%. Nos últimos 20 anos, melhorzinhos, de 42%.

Entre outras selvagerias, o que 1964 teve de especialmente perverso foi o golpe mortal que deu nas nossas esperanças de civilização, por um bom tempo. Crescemos mal, pouco e porcamente agora porque somosignorantes, desiguais, violentos e autoritários. A partir de um certo ponto, crescimento demanda civilização.

A ditadura aprofundou nosso método de desenvolvimento econômico injusto. Abortou a democratização política precária (entre outros problemas, a grande massa analfabeta ficou sem voto até 1988). Enterrou a última oportunidade de reforma agrária quando isso ainda fazia sentido econômico e social (democratizaria a propriedade, daria comida a gente no campo, atenuaria nosso desastre urbano); hoje, em geral reforma agrária é um programa de assistência social ineficiente.

Na nossa tradição ignorante, agravada por selvagerias ditatoriais, matou a democratização da escola pública, que teria nos deixado menos desiguais em termos de poder, renda e acesso a oportunidades.

Trata-se hoje muito da "política da ditadura". Menos da repressão econômica, festejada em massa pela elite industrial e agrária até pelo menos fins dos anos 1970. Parte do "milagre" foi feita com o couro dos trabalhadores, com reduções de salário real e depois de crescimento da renda do trabalho bem abaixo dos ganhos de produtividade, com repressão e assassinato de sindicalistas, de greves, de líderes populares rurais. Essa gente anda esquecida.

O "milagre" foi a fundo na tradição brasileira de rapinar o Estado para cevar a empresa privada com subsídios variados, de juros baratinhos, dinheiro direto de impostos e até com a socialização da dívida externa (o Estado bancou de certo modo a dívida externa privada). O "milagre" foi feito também de inflação, de oligopólios que mamavam à vontade numa economia fechada à concorrência e de endividamento externo suicida, problema que foi uma praga até o início do governo FHC, em 1995.

A lerdeza das décadas recentes e muito dessa perversão cruel que é o Brasil têm a ver com a maneira do nosso crescimento acelerado de antanho, feito de modo a atropelar e esfolar o povo miúdo, a maioria. Foi uma industrialização selvagem, concentradora de renda e de uma negligência cruel com a civilização, avanços sociais, o que hoje nos impede de crescer mais rápido e nos legou títulos mundiais em termos de violência, desigualdade e ignorância.