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quinta-feira, 20 de junho de 2013

1964, é você?...



Henry Henkels no Facebook


GOLPISMO COMENDO SOLTO NA TV - agora que fui ver (19:17 hrs) que a Globosta não está apresentando nem a novela... na Record apresentador histérico (aquele nariz de bolota que sempre esqueço o nome) descendo o sarrafo no Bolsa Família e no governo federal... Fala em "impeachment do Collor" a cada 3 minutos... incita o seus telespectadores com as seguintes palavras: "Direto do Rio de Janeiro, um milhão nas ruas contra a corrupção. E tudo começou por que o prefeito Fernando Haddad quis e aumentou as tarifas de ônibus". Daí me pergunto, por que ainda se confundem liberdade de imprensa com esse tipo de jornalismo?... Se para tudo tem fiscalização e limites, desde bancos, partidos, justiça empresas diversas, por que uma concessão pública, que tem como função comunicar fatos, se presta a este serviço mentiroso e parcial e segue impunemente?... Pretendem instaurar o caos?...

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Robert Silva no Facebook

É previsível. Como não há lideranças visíveis no Passe Livre a extrema-direita, parece, já o tomou para si. E o objetivo é claro: fomentar o caos para gerar o golpe contra o governo da Dilma e assim, depois do caos assumir o Governo. Não acredito que vão usar as Forças Armadas. A Direita aprendeu em 2005 que não pode vacilar quando se tratata do PT (DILMA/LULA) pois naquela data ao invés de pedir o impeachment resolveram sangrar o Lula para ganhar nas eleições. Todos sabem o que aconteceu, Lula fez a sucessora e o prefeito da maior cidade do país. Agora, a direita não quer mais errar. 2014 ainda está distante, será que vão tentar derrubar mais um governo como fizeram com o Collor? Ou será que vão tentar no voto? Não sei... Mas eu sinceramente não acredito que as Forças Armadas seguiriam uma gente que grita "Foda-se o Brasil" e queima nossa bandeira.

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Antonio Celso Ferreira no Facebook

Impressões da Paulista e dos Paulistanos (Ato de 20 de junho)

O protesto é contra o Governo. Todos.
Municipal, estadual, federal.
A principal palavra de ordem é: "Vem pra rua, vem, contra o governo"
Dilma é o alvo da classe média mais orgânica e coxinha dos tucanos.
Geraldo é o alvo principal da classe média interclasses.
Muitos cartazes espontâneos contra a corrupção.
Os partidos foram muito hostilizados.
Maior crítica ao PT.
As palavras de ordem do PSTU pegaram mais.
A CUT trouxe meia dúzia, foi hostilizada.
Não vi a UNE.
A ANEL teve certa simpatia do público.
Comparecerem poucos da juventude do PT e do PCdoB.
Muitas bandeiras do Brasil.
Os Annonymus estão a serviço do PSDB.
Libertários também fizeram sucesso.
Alvo político principal: PEC 37 - une todos.
Grande surpresa: "Fora Feliciano" é bandeira que unifica a classe média coxinha e interclasses
(os partidos que não capitalizarem esse ódio vão perder capital político de uma vez por todas)

Conclusão:
Joaquim Barbosa poderá ser o líder mais imediato dessa onda... Todas as minhas intuições desde o ano passado se confirmam. Joaquim Barbosa é o homem do Império.

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por Miguel do Rosário, no Cafézinho



Agora o estrago está feito. Minhas paranóias iniciais, de que a coisa poderia degenerar numa espécie de rebelião descontrolada tipo Líbia, com infiltração de todo tipo de oportunistas, tornaram-se realidade. Ainda tentei sufocar minhas paranóias e acreditar um pouco no bom senso dos jovens. “Eles querem ser politizados. Tudo vai dar certo”, pensei. "É legal ver os jovens indo às ruas protestar por um Brasil melhor. É a primavera da juventude". Quebrei a cara!... Não apenas eu!... Até a presidente fez elogios às manifestações. Mas todas as ressalvas que fiz acabaram se tornando o ponto principal. A coisa toda virou um pesadelo golpista. Sem foco, o movimento degringolou numa revolta fascista, com jovens camisas negras espancando militantes de partidos de esquerda e gritando “ditadura já”, conforme relatos que li do que aconteceu em São Paulo.

A sede dos Correios no Rio foi depredada. A fachada do lindo prédio do Itamaraty foi depredado com coquetéis molotov e pedras.

Eu estive no protesto de Brasília hoje, mas saí antes do quebra-quebra. Notei o elemento difuso. Muitas placas diziam: “é tanta coisa para protestar que não cabe numa placa”. Havia cantorias anti-mídia, contra a Globo, muitas pessoas com placas com dizeres: O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo. E uma bandeira gigante com a logomarca da emissora cruzada com um X. Só que o principal alvo é a política e os políticos. Havia placas pedindo redução dos impostos, ao lado de outras pedindo mais investimentos em saúde e educação. Vi apenas um cara de uns cinquenta anos, estranhíssimo, segurando uma plaquinha Fora Dilma.

O lance se tornou, de fato, um protesto difuso. E isso é o mais estranho. Porque as pessoas chegaram ao espaço aberto em frente ao Congresso e notava-se uma ansiedade para ver alguma coisa acontecer. Meu celular acabou a bateria e minha mulher já devia estar preocupada, então voltei.

O professor Wanderley Guilherme, mais uma vez, detectou o cheiro de golpe. Não é hora sequer mais de criticar o governo por ter permitido ficar numa situação tão frágil. O Brasil não pode ficar na mão de baderneiros fascistas. Mas a Dilma deveria se pronunciar. Já deveria tê-lo feito!

Jovens bem intencionados tornaram-se massa de manobra. Eu estava lá, caminhando ao lado deles, em direção ao Congresso. A maioria dos manifestantes eram realmente pacíficos, com olhos brilhando com desejos de mudança. Mas fascistas também querem mudanças. Fascistas também são ingênuos. Não tínhamos idéia da corrupção moral da juventude até este momento. Eles falam em corrupção, sem noção todavia de que este não é um problema que se combate com palavras de ordem, mas através da implementação de programas de transparência pública e fortalecimento das instituições de controle. Não se vence corrupção com gritos de guerra, até porque todos os corruptos costumam engrossar os protestos. O verdadeiro corrupto é aquele que também discursa contra a corrupção.

O Brasil acordará amanhã com uma ressaca terrível. Rezo para que a nossa “juventude” não esteja totalmente desmiolada, e possa refletir melhor.

Entendo que há problemas terríveis que ainda faltam serem solucionados. Mas a caixa de pandora da insatisfação humana tem uma quantidade infinita de demônios. Eu assisti parentes morrerem tristemente em hospitais públicos ou serem mal atendidos. Eu também tenho muito o que protestar, mas jamais corroborarei a depredação de patrimônio público, porque evidentemente isso não contribui em nada para reduzir as agruras sociais do povo.

Por outro lado, temos de fazer a auto-crítica. Onde falhamos? Não politizamos nossa juventude. Deixamo-la abandonada a um consumismo desenfreado, sob influência de um sistema de comunicação positivamente golpista. Na manifestação em Brasília, cantava-se repetidamente o refrão nacionalista: sou brasileiro, com muito orgulho. Agora que novamente estou paranóico, até isso me soa como um hino integralista e fascista. Afinal, o que significa, nesse momento, ter “orgulho de ser brasileiro” e ao mesmo tempo desprezar tão profundamente os símbolos da democracia: Correios, Itamaraty, Congresso, prefeituras. Até o terreirão do samba, lugar de diversão popular, foi destruído?

O que significa ter orgulho de ser brasileiro e querer melar a Copa do Mundo? Ou seja, depois de toda gastança construindo os estádios, na hora em que poderíamos ter o retorno a estes investimentos, com geração de milhares de empregos, impostos e promoção de imagem do país no mundo, a gente destrói tudo? Que palhaçada! Se houve superfaturamento, que se investigue os culpados e prenda-os, mas a Copa continua!

Enfim, tá tudo muito estranho, muito perigoso. A esperança agora é que a presidente Dilma seja líder e encontre a melhor maneira de restabelecer a ordem pública.

A juventude que está nas ruas


por Emilio GF, comentando no blog do Nassif

Esses jovens de cerca de 20 anos, a maioria dos manifestantes, contavam oito anos quando, em 2003, Lula chegou ao poder. Os governos Lula e Dilma marcaram, portanto, toda sua vida politicamente consciente.
Parte das elites, capitaneadas pelos grandes órgãos de imprensa, passam então a uma luta sem trégua contra o governo. O que pode ser bom será transformado em ruim; o que é ruim será transformado em péssimo.
A compra de um avião presidencial, substituído seu surrado antecessor é um acinte. Criam-se escândalos a cada mês, quase todos esquecidos no mês vindouro por falta de provas. O “Mensalão” torna-se o maior anátema pelo qual um governo já foi marcado na história da humanidade.
A conquista da Copa do Mundo e das Olimpíadas, disputadas pelo prestígio e dinheiro que trazem a seus países, passa ser explorada pelo governo. Súbito, a oposição de direita passa a atacá-los como o pior dos mundos; lembra-se dos hospitais e escolas públicas que ela mesma desprezou por 500 anos.
Em reação, blogs e professores de esquerda contra atacam em igual medida. Denunciam os impérios de comunicação, representados por Globo e Abril/Veja e suas opiniões enviesadas. Fustigam o governo de FHC, pelo baixo crescimento e desemprego e inação frente à miséria. Lembram escândalos como as das “privatarias” e do “Mensalão Tucano”, que a direita preferiria esquecer.
A Internet amplifica e deforma tudo. Uma frase falsa atribuída a Dilma ou Alkmin passa a ter mais credibilidade que a que sai da boca de William Bonner.
E some-se a isso uma educação danificada, informativa e normativa, para entender os jovens manifestantes. Desconhecem as atribuições dos poderes da república. Sobem a rampa do Congresso contra a corrupção e olvidam o Poder Judiciário, que anulou 19 operações da Polícia Federal e distribuiu generosos habeas corpus a poderosos. Passaram a ter uma sensação indistinta de que tudo está errado e por isso renegam “tudo isso que está aí”.

Nesse imbróglio, não dão o perdão a ninguém – governo, oposição ou imprensa. Por isso, talvez, todos se salvem.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O mundo pergunta: Que esquizofrenia é essa?...



Por Juan Arias, do El País

Está gerando perplexidade, dentro e fora do país, a crise criada repentinamente no Brasil pelos protestos nas ruas, ocorridos primeiramente em cidades ricas, como São Paulo e Rio de Janeiro, e agora estendidas a todo o país e a brasileiros no exterior.

Neste momento, as perguntas para entender o que está acontecendo são mais numerosas que as respostas. Existe somente um certo consenso que o Brasil, até agora invejado internacionalmente, vive uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que ainda deve ser analisada e explicada.

Comecemos por algumas das perguntas.

Por que surge agora um movimento de protesto com os que já estão de volta em outros países do mundo quando, durante dez anos, o Brasil viveu como que anestesiado por seu êxito compartilhado e aplaudido mundialmente? O Brasil está pior hoje do que há dez anos? Não, está melhor. Pelo menos é mais rico, tem menos pobres e mais milionários. É mais democrático e menos desigual.

Então, como se explica que a presidenta Dilma Rousseff, com um consenso popular de 75% - um recorde que chegou a superar à popularidade de Lula - possa ser vaiada repetidamente na inauguração da Copa das Confederações, em Brasília, por quase 80 mil torcedores da classe média que puderam se dar ao luxo de pagar quase 400 dólares por uma entrada?

Por que saem às ruas para protestar contra o aumento dos preços dos transportes públicos jovens que normalmente não usam esses meios porque já tem carro, algo impensável dez anos atrás?

Por que protestam estudantes de famílias que, até pouco tempo, não haviam sonhado ver seus filhos pisando em uma universidade?

Por que aplaude aos manifestantes a classe média C, recém-saída da pobreza e que, pela primeira vez em sua vida, pode comprar uma geladeira, uma televisão e até uma moto ou um carro de segunda mão?

Por que o Brasil, sempre orgulhoso de seu futebol, parece estar agora contra o mundial, chegando a ofuscar a inauguração da Copa das Confederações com uma manifestação que produziu feridos, detenções e medo aos torcedores que compareceram ao estádio?

Por que protestos, alguns deles violentos, em um país invejado até pela Europa e Estados Unidos por seus desemprego quase nulo?

Por que se protesta nas favelas onde seus habitantes têm visto duplicada a sua renda e recuperada a sua paz, que havia sido roubada pelo narcotráfico?

Por que, de repente, se levantaram em pé de guerra os indígenas que possuem já 13% do território nacional e tem o Supremo Tribunal Federal sempre ao lado de suas reivindicações?

Será que os brasileiros são desagradecidos a quem os fez melhorar?

As respostas a todas essas perguntas que produzem uma espécie de perplexidade e assombro a tantos, começando pelos políticos, poderiam ser resumidas em poucas questões.

Em primeiro lugar se poderia dizer que, paradoxalmente, a culpa é de quem deu aos pobres um mínimo de dignidade: uma renda não miserável, a possibilidade de ter uma conta em um banco e acesso ao crédito para poder adquirir o que sempre foi um sonho para eles (eletrodomésticos, uma moto ou um carro).

Talvez o paradoxo se deva a isso: ao haver colocado os filhos dos pobres na escola, da qual gozaram seus pais e avós; ao haver permitido aos jovens, a todos - brancos, negros, indígenas, pobres ou não, ingressar em uma universidade; ao haver dado para todos um acesso gratuito à saúde; ao haver livrado aos brasileiros do antigo complexo de culpa de "vira-latas"; ao haver conseguido tudo aquilo que converteu o Brasil, em apenas 20 anos, em um país quase de primeiro mundo.

Os pobres chegados a uma nova classe média tem tomado consciência de terem dado um salto qualitativo na esfera do consumo e agora querem mais. Querem, por exemplo, alguns serviços públicos de primeiro mundo, que não o são; querem uma escola que, além de os acolher, prepare-os para o trabalho no futuro.

Querem hospital com dignidade, sem meses de espera, sem filas desumanas, onde sejam tratados como pessoas. Querem que, em 15 dias, não morram 25 recém-nascidos em um um hospital de Belém, no Pará.

E querem, sobretudo, o que lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em que a polícia não siga atuando como fazia na ditadura; querem partidos que não sejam, na expressão de Lula, um "negócio" para enriquecer; querem uma democracia onde exista uma oposição capaz de vigiar o poder.

Querem políticos com menor carga de corrupção; querem menos esbanjamento em obras que consideram inúteis quando ainda falta moradia para 8 milhões de famílias; querem uma justiça com menos impunidade; querem uma sociedade menos abismal em suas diferenças sociais. Querem os políticos corruptos na cadeia.

Querem o impossível? Não. Ao contrário dos movimentos de 68, que queriam mudar o mundo, os brasileiros insatisfeitos com o que já alcançaram, querem que os serviços públicos sejam como os do primeiro mundo. Querem um Brasil melhor. Nada mais.

Querem definitivamente aquilo que lhes foi ensinado para serem mais felizes (ou menos infelizes) do que foram no passado.

Escutei alguns dizerem "O que mais essa gente quer?" A pergunta me lembra aquela feita por algumas famílias em que os filhos se rebelam, mesmo depois de terem recebido tudo.

Às vezes, os pais se esquecem de que faltou algo que é essencial aos jovens: atenção, preocupação pelo que ele deseja e não pelo que às vezes se oferece a ele. Necessitam não apenas ser ajudados e protegidos, levados pela mão, querem aprender a ser eles os protagonistas.

E aos jovens brasileiros, que cresceram e tomaram consciência não apenas do que já tem, mas também do que podem alcançar, falta justamente que lhes deixem ser mais protagonistas de sua própria história, mais ainda quando demonstram ser tremendamente criativos.

Que o façam, isso sim, sem aumentar a violência - que já sobra neste país maravilhoso que sempre preferiu a paz à guerra. E que não se deixem cooptar por políticos que tentarão se aproveitar dos protestos para esvaziá-los de seu conteúdo.

Ontem, se lia em um cartaz: "País mudo é um país que não se muda". E também dirigido à polícia: "Não disparem contra os meus sonhos". Alguém pode negar a um jovem o direito de sonhar?

A Globosta cortou prego?...


pescado e adaptado do blog do Nassif

por Florestan Fernandes Junior

O corporativismo e o medo falaram mais alto. Poucas foram as emissoras e portais na internet que deram a notícia de que a TV Globo em São Paulo estava cercada por manifestantes. No JN a cara dos apresentadores era de tensão. E por incrível que pareça, desta vez o principal telejornal dos Marinho foi o mais imparcial de todos da TV comercial .

Pecou apenas no excesso de tempo dado ao nosso governador paulista explicar o inexplicável. E pasmem...Corretamente o JN não omitiu a informação de que os manifestantes protestavam na porta da emissora, entretanto não disseram que estavam gritando imprecações e desaforos. E também não falou que foram retirados dos microfones dos repórteres da rua o logotipo da Globo. 

Como diz aquele quadro do Fantástico: "Estamos de Olho", o povo nas ruas quer o fim também da manipulação política da noticia nas rádios e tevês.

Protestos em SP - um testemunho ocular



por Eduardo Guimarães, no Cidadania


Estive ontem (17.6) na manifestação de São Paulo contra o preço das passagens no transporte público, no Largo da Batata, zona Oeste da cidade. Cheguei às 16 horas e permaneci entre os manifestantes até por volta das 19 horas, quando empreendi uma epopeia pra voltar pra casa.

Descendo a rua Cardeal Arcoverde de carro, acompanhei a procissão de jovens que se estendia por quarteirões. Todos no mesmo rumo, todos com o mesmo ar contrito e de determinação nos rostos.

Encontrei um estacionamento estrategicamente localizado a pouco mais de um quarteirão do Largo. “Fecha às 20 horas”, disse-me o manobrista, caixa e, provavelmente, tudo o mais naquele terreno descoberto, com chão de terra e convertido em estacionamento.

Já na Brigadeiro Faria Lima, a algumas centenas de metros do Largo, já não caminhavam pelas calçadas, mas no meio da rua. Um ou outro carro passava, desviando dos pedestres, agora donos da via, como se os motoristas pedissem desculpas por estarem onde não deviam.

Ao longe, grandes bandeiras brancas e vermelhas se erguiam de uma massa humana que me impressionou por ser tão grande a uma hora do horário previsto para o início da manifestação. Nas bandeiras brancas, as letras UJS (ou algo assim) e, nas vermelhas, PSTU.

Agora faltavam menos de cem metros pra chegar à aglomeração. Uma juventude bonita e evidentemente universitária. As idades variando entre 15 e 30 anos, no máximo. Aqui e ali, algumas pessoas maduras. Senhoras com cabelos loiros, homens grisalhos, todos com aparência próspera.

Os comerciantes iam fechando as portas e os trabalhadores da região passavam apressados. Pareciam assustados. Alguns comentavam que não sabiam como fariam pra chegar em casa, mas ninguém prestava atenção neles – além deste que escreve.

Para um carro grande, prateado, tinindo de novo, do qual não me ocupei de ver a marca. Desce um homem corpulento, cabelos grisalhos, calça social, camisa social com o botão do colarinho aberto, de onde pendia uma gravata afrouxada.

De repente, o veículo é cercado por um grupo de três garotas e cinco rapazes. O homem circunda o veículo e, com o porta-malas já aberto, tira dele vários quadros com uns 40 centímetros de largura por quase um metro de comprimento.

Os quadros de madeira recobertos por material gráfico de boa qualidade citam “corrupção”.

O motorista engravatado diz alguma coisa ao grupo de jovens e arranca com o veículo.

Chego ao limite da aglomeração. Grades de cerca de 1, 5 metro separam o extremo da calçada do Largo da via dos carros. Aproveito um poste metálico próximo pra subir nelas segurando-me nele, de forma a ter uma visão melhor da aglomeração e registrar imagens.

Um grupo de jovens passa por mim dizendo que fora “sacanagem” o que fizeram com o repórter da Globo Caco Barcelos, que seria “boa gente”. Decido ir atrás pra escutar mais, tomando cuidado em não ser percebido.

Descubro que o repórter foi expulso da manifestação e que havia um grupo que pretendia impedir o trabalho de qualquer um que fosse da Globo, porque a emissora “queima o filme” do protesto.

Percebo que as bandeiras do PSTU sumiram. Pergunto a uma garota se viu pra onde foram e ela me explica que os que as portavam foram convencidos a não exibi-las.

Presto mais atenção e vejo, a uns 50 metros, uma única bandeira vermelha, só que pequena. Olhando melhor, percebo ser do PT. Decido ir lá ver quem a carrega.

Ao chegar já não era uma bandeira, mas duas. Modestas em tamanho, diante das outras. Uma, empunhada por uma jovem negra, baixinha, que olhava assustada ao redor. A outra, por um rapaz loiro, cabelos longos e óculos. Também parecia tenso.

Começamos a conversar com os dois e logo aparece o deputado federal pelo PT paulista Paulo Teixeira, com mais duas pessoas. Fico sabendo que outros parlamentares, de vários partidos, foram ao protesto de modo a “garantir o direito dos manifestantes”.

Naquele momento, com a chegada do deputado, as pessoas em volta começam a entoar um refrão contra bandeiras partidárias. Algo como “Sem par-ti-do, sem par-ti-do”.

Os dois jovens permanecem impassíveis com suas bandeiras. Ao contrário dos que portavam as do PSTU, não foram convencidos. Foram apupados. Mas permaneciam impassíveis na missão que se impuseram.

Os gritos aumentam, mas os dois jovens continuam firmes. Uma aglomeração se forma em volta de nós. Ouço palavrões. Peço à moça e ao seu companheiro que baixem seus estandartes. O rapaz me atende, mas a moça não.

Começam empurrões e xingamentos. Ouço alguém dizer “blogueiro petralha, filho da puta”.

Alguém arranca a bandeira da mão da moça e a empurra, ela cai, seu companheiro reage, há chutes, mais palavrões. Os contrários às bandeiras são maioria esmagadora – ou melhor, são todos.

No empurra-empurra, sou separado do deputado petista e de seu grupo. E dos dois valentes porta-estandartes.

Nesse momento, uma quantidade imensa de pessoas – pareceram-me centenas – começam a entoar um cântico: “Hei, PT, vai tomar no cu!!”

Tento filmar, acredito ter filmado, mas quando chegou em casa percebo que o empurra-empurra interrompeu o vídeo, no qual só se pode ouvir “Hei, PT, vai tom (…)”.

Tudo pode ser assistido no vídeo ao fim do texto.

Ouço alguém falando em “blogueiro do PT” e percebo que é hora de uma retirada estratégica. Embrenho-me na multidão até chegar à rua, que atravesso. Dali em diante, decido acompanhar tudo de longe.

Já anoitece e vejo fumaça e luminosidade colorida no meio da massa. Parecem ser fogos de artifício ou coisa que o valha, mas não consigo me certificar.

Ouço mais cânticos contra o PT. Arrisco chegar perto e uma mulher branca, alta, aparentando uns trinta e poucos anos discursa contra “mensaleiros” e diz que “O PT tem mesmo que se ferrar”.

Decido sair dali. Contorno a manifestação. Um grupo bem menor, de umas dez pessoas, entoa “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”.

Contorno mais um pouco a manifestação e vejo mais movimentação. E gritam “Sem violência, sem violência”. Percebo que está havendo um enfrentamento físico.

Chego próximo a um grupo bem maior em que, lá no meio, vejo cartazes em que só consigo ler “Alckmin” e “PM”, por conta do empurra-empurra. Parece haver divergência ali também.

Decido que é hora de ir. Enquanto retorno ao estacionamento, vejo os trabalhadores passando rentes à parede, passo rápido. Mulheres de saias e cabelos longos, de mãos dadas com crianças, olhar no chão.

Um homem magro, de uns quarenta anos, de boné, malha de lã bege e puída, calça suja de tinta e de tudo mais que se possa imaginar carrega uma mochila, apressado. Decido tentar falar com ele.

Digo que sou jornalista e se poderíamos conversar. Pergunto se veio participar da manifestação.

– Não, senhor, não tenho nada a ver com isso.

Insisto. O que ele acha de tudo aquilo? Fica nervoso. Diz que não sabe de nada, principalmente como vai chegar em casa, em Ferraz de Vasconcelos.

As passarelas sobre a avenida estão lotadas de trabalhadores andando apressados. Parecem robôs. Nem olham pros lados e ninguém olha pra eles. Alguns estão sentados, outros de pé nas paradas. Olhares perdidos no espaço.

Volto ao estacionamento, percebo que não conseguirei ir em frente na Faria Lima, dobro à direita, faço uma opção errada e caio, de novo, no Largo da Batata, agora intransitável.

Carros, ônibus, caminhões e até uma legião de motocicletas parados, presos entre manifestantes à frente, atrás, dos lados.

Ouço a sirene de uma ambulância. Os carros começam a subir nas calçadas, fazendo o possível pra dar passagem. A ambulância só consegue chegar até os manifestantes e estanca. Alguns saem do caminho, mas a maioria não dá a menor bola.

Um senhor de uns sessenta anos, com uma mulher mais ou menos da mesma idade no banco do passageiro, desce do carro e começa a xingar os manifestantes, falando da ambulância. Um jovem forte se aproxima, desafiador, mas é dissuadido por outros manifestantes.

Consigo chegar à Marginal do Rio Pinheiros, totalmente parada. Já são mais de oito horas da noite. Começo a tentar cortar por ruas transversais, disparo por avenidas vazias e acabo indo parar no Alto da Lapa.

Tento me localizar, que não conheço bem a região. Apelo ao GPS do celular, mas a bateria acaba.

Paro em um posto de gasolina. Três frentistas conversam com um homem mais ou menos com os mesmos cinquenta e tantos anos que eu, dono de uma Pajero negra, novinha, sendo abastecida até a tampa.

Paro o carro na bomba, mando abastecer e peço pra deixarem eu carregar um pouco o celular. Sou prontamente atendido. Digo que vai demorar um pouco. Dizem-me que “hoje não adianta ter pressa”.

Começamos a conversar. O assunto, claro, o caos na cidade. O motorista da Pajero tem sotaque nordestino. Está muito bravo com a Polícia. Xinga de tudo quanto é nome. Fala da foto da repórter da Folha com o olho arrebentado por uma bala de borracha.

Os frentistas só olham, sorridentes, mas não dão palpite. Como se estivessem em uma aula, tentando aprender alguma coisa – talvez o que “bacanas” como eu e meu novo amigo nordestino esperam ouvir deles quando forem perguntados sobre o assunto.

Pergunto como sair dali e minhas opções imediatas, segundo dizem os frentistas, é a Lapa ou voltar ao Largo da Batata.

O motorista da Pajero diz que vai me ajudar, que sabe como ir cortando até a Cerro Corá. Dali posso pegar a Rebouças, diz, pra voltar à região da Paulista, onde resido.

– Vem atrás de mim. Vou te escoltar até lá. Quando eu ligar o pisca-alerta vou entrar à esquerda e você, à direita. Vai subindo, sempre pra cima, mas fica à sua esquerda. Vai cair na Cerro Corá. De lá você pergunta.

Explico que, de lá, eu me viro.

Sigo-o até que faça a manobra combinada. Buzino, ele buzina de volta e vamos cada um cuidar da própria vida.

Surpreendo-me com a Heitor Penteado e a Rebouças. Parece que estou em um domingo às sete da manhã. Vazia. Não se vê viva alma nas ruas. Nem gente, nem carros, ônibus, motos, nada.

Já são quase 21 horas. Duas horas pra chegar até lá.

Ouço na CBN que já há manifestantes na Paulista. Decido voltar pela Rebouças até a Oscar Freire, fazer o retorno e tomá-la em direção ao Paraíso.

Tudo vazio. Assustadoramente vazio.



Continuo ouvindo a rádio que toca – ou que, segundo dizem, “troca” – notícia. Agora falam que manifestantes estão passando em frente da Globo, na Berrini. E que outros tantos estão indo ao Palácio dos Bandeirantes.

Minha mulher me liga no celular recém-carregado, preocupada. Acalmada, relata que o Jornal Nacional disse que a Globo foi xingada pela manifestação.

PT, Alckmin, Globo…

Penso comigo que foi nisso que deu a mídia deslegitimar cotidianamente a política e o poder e seus críticos estimularem a descrença nela. Sobrou pra todo mundo. Pensando bem, era até previsível.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lembo - um cara da direita de quem nós gostamos






Por Claudio Lembo, em seu blog no Terra Magazine



Só os ingênuos ou os mal intencionados não entendem o que está ocorrendo nas cidades brasileiras e, particularmente, em São Paulo, onde, nestes últimos anos, em política, tudo começou.

Está nas ruas uma nova geração. Ela não participou dos acontecimentos marcantes do passado. A redemocratização. As diretas já. O impeachment de Collor. Deseja participar. Fazer ouvir sua voz. A mera democracia representativa, aquela que permite eleições de dois em dois anos, já não convence. É mero espetáculo vivido por terceiros, os políticos.

Os jovens – e mesmo os adultos – querem ser ouvidos. Cansaram-se das exposições, sempre iguais, dos políticos tradicionais. Os partidos, encontrados às dúzias no mercado, já não representam a mais ninguém. São meras agremiações presididas por “donos de legendas” que pensam mais em si mesmos e menos na sociedade. As instituições que surgiram após 1988, ano da promulgação da Constituição, são meramente formais.

Neste vazio, repleto de interesses pessoais e egoísticos, ninguém se sente representado. Todos se consideram meros contribuintes sem a contraprestação de serviços públicos.

Os governantes – particularmente após a implantação da reeleição – só pensam no futuro mandato. Gastam verbas incomensuráveis em demonstrar grandes eventos. Estes, porém, não apresentam a magnitude exibida nas propagandas televisivas. Na realidade, são meras quimeras para enganar ingênuos. No começo deu certo.

Mas, o povo, que é sábio, aprendeu. Hoje todos estão fartos de ver propaganda oficial direta ou subliminar. Já percebe a verdade. Joga a mentira no lixo, sem direito a reciclagem.

O fenômeno não é meramente brasileiro. Por todas as partes se elevam vozes indignadas contra o cinismo dos políticos e dos plutocratas. Aliados, ou não, estes dominaram os espaços da cidadania. Não querem que esta se manifeste espontaneamente.

Os norte-americanos invadiram Wall Street, em Nova York. Os espanhóis a Praça do Sol em Madrid. Os gregos as ruas centrais de Atenas. Os egípcios na Praça Tahir no Cairo. E, nos dias atuais, os turcos são agredidos em Istambul, na Praça Taksin.
Em todos estes casos, que não esgotam a lista de presença popular, os jovens mantiveram-se acampados, de acordo com os seus costumes e hábitos.

Por aqui é diferente, a passeata faz parte de nossas tradições. Nos movimentos cívicos sempre se verificou o deslocamento dos manifestantes.

Ora, o governante que não tem noção deste dado – ou não quer ter – começa errando. Permita à comunidade se deslocar pelas ruas. Desvie o trânsito de veículos. Não dê pretexto para conflitos. É falsa a premissa de que a passeata impede a livre circulação de veículos e pessoas. É só reorientar os eixos do tráfego e tudo continuará normal. Só os autoritários não percebem esta verdade palmar.

É preciso compreender o momento social que se vive. A sociedade está farta das atuais formas de participação. Esgotaram-se os subterfúgios para manter o povo inebriado.

Desejaram substanciais mudanças nas estruturas sociais. Conseguiram. Só que as exigências – em razão da melhor educação – tornaram-se maiores. Estas não podem se obstadas por ações de contenção violentas. A revolta, em determinado momento, será geral. Todos se considerarão vítimas. Menos os de má índole e defensores da situação existente. Mudam-se as maneiras de participação ou os conflitos serão permanentes.

Os governantes precisam, nesta situação, tomar cuidado com suas palavras. A defesa do confronto ou da violência nos levará ao caos. A indignação é geral. Só nos palácios há falsa paz propagada pelos áulicos.

domingo, 16 de junho de 2013

Berlin e Dublin apoiam São Paulo

fotos Lucas Rohan

BERLIN
 DUBLIN