* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Minerodutos - a nova pressão predatória sobre os recursos hídricos


por Luiz Paulo Guimarães de Siqueira, no Viomundo

Minas Gerais enfrenta talvez a pior crise hídrica de sua história. Em pleno janeiro, período normalmente chuvoso e com abundância de água, o estado registra que cerca de 140 municípios já adotaram medidas de restrição e limitação no fornecimento de água.

Sem dúvida, esta situação não surge fortuitamente, mas sim, reflexo de uma longa trajetória de ausência de planejamento público por parte do Estado e, também, fruto de gestões marcadas por deixar Minas, literalmente, em choque.

A grave situação de falta d’água está mais intensa na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Se, por um lado, se constitui como a região de maior adensamento populacional, por outro, a RMBH juntamente com o Colar Metropolitano se configuram como a região de maior intensidade das atividades minerárias no estado.

De acordo com o 2º Relatório de Gestão e Situação dos Recursos Hídricos de Minas Gerais, publicado pelo IGAM em janeiro de 2015, a mineração foi o quinto setor que mais obteve outorgas para uso de água em 2013. Mas, somente analisar o número de usos outorgados podem nos levar a uma interpretação equivocada sobre quem são os atores que mais consomem água em MG. Pois não podemos deixar de levar em conta que há uma significativa diferença entre o volume de água outorgado para atender o consumo humano, por exemplo, do que o volume utilizado para atender a exploração mineral.

Neste contexto, chama a atenção a petulância das grandes corporações da mineração de optarem pela utilização de minerodutos para exportar nossos minérios. Para quem não conhece, minerodutos são grandes tubulações que transportam minério diluído em volumosas quantidades de água, formando uma polpa de minério, semelhante à borra de café, sabe?

Como o minério precisa ser diluído e bombeado por água, os minerodutos precisam manter a pressão para conduzir o minério. E é por isso, que para além do alto consumo de água para a formação da polpa do minério, os minerodutos inerentemente causam diversos impactos ambientais. Pois para manter a pressão do bombeamento, os dutos têm de desviar dos morros, percorrendo dessa maneira os vales, que são as regiões onde estão concentrados os cursos d’água, brejos, nascentes, as melhores áreas de plantio e moradia.

Em Minas, há hoje diversos minerodutos de pequeno porte, como o caso do projeto da MMX em São Joaquim de Bicas, que provocou grandes transtornos na região, destruindo nascentes e prejudicando produtores rurais e o abastecimento de água. Mas há, também, minerodutos de grande porte, que levam os minérios da mina até o litoral, onde são exportados através dos portos. No caso dos grandes minerodutos, o estado conta atualmente com 8 projetos, 4 já em operação e mais 4 que pleiteiam as licenças ambientais. Sobre estes, vamos tentar entender como funcionam e o quanto de água estão tirando dos mineiros.

A Vale/Samarco possuem 3 minerodutos ligando a Mina Alegria, em Mariana, até o porto de Ubú, no Espirito Santo. Depois de anos destruindo os mananciais de Mariana e Ouro Preto, essas mineradoras não tiveram alternativa a não ser captar água instalando uma adutora para utilizar 82% do potencial hídrico do Rio Conceição no distrito de Brumal, em Santa Bárbara.

Moradores da região alegam que na época de estiagem o rio termina, literalmente, no ponto de captação para o duto. São utilizados para a funcionamento dos 3 minerodutos cerca de 4.400m³/hora. Não se pode esquecer que em 2010, um dos minerodutos da Samarco/Vale rompeu no município de Espera Feliz, causando um grande desastre ambiental jorrando lamas de minérios, inviabilizando o abastecimento público da cidade e ocasionando a mortandade de toda biodiversidade afetada.



A multinacional Anglo American se orgulha em dizer que é dona do maior mineroduto do mundo. Com cerca de 525 km, o projeto Minas-Rio parte de Conceição do Mato Dentro até o Porto de Açu em São João da Barra (RJ). A mineradora capta 2.500m³/hora da região e desde sua chegada tem causado grandes transtornos e prejuízos às comunidades no entorno. Tem o orgulho de dizer que o processo de licenciamento ambiental do projeto possui 364 condicionantes e que, diga-se de passagem, sem quase nenhum cumprimento.

Ao iniciar a operação do mineroduto em 2014, foram visíveis as consequências no ambiente, com drásticos assoreamentos dos córregos, mortandade de peixes, de gado e a inviabilização do uso social da água na região.

A Ferrous Resources, empresa de capital estritamente estrangeiro, pleiteia a instalação de um mineroduto partindo de Congonhas até um porto em Presidente Kennedy (ES). Inicialmente, seu projeto era de partir de Brumadinho, através da exploração da Serra da Moeda, também conhecida como Monumento Natural Mãe D’água, mas graças à forte resistência das comunidades quilombolas e do Abraço da Serra da Moeda a mineradora foi obrigada a ajustar seu projeto.

A Ferrous, que em seu projeto alega a intenção de possuir dois dutos, vai captar 3.400m³/hora do Rio Paraopeba, manancial fundamental para o abastecimento da RMBH. Em seu processo de negociação com as famílias atingidas a mineradora possui um legado de sistemáticas violações de direitos humanos, sendo alvo, por exemplo, de representações do Ministério Público Federal.

Além disso, o mineroduto ameaça a segurança hídrica de milhares de comunidades rurais e cidades inteiras como é o caso de Viçosa e Conselheiro Lafaiete. As prefeituras de Paula Cândido e Viçosa, assim como as Câmaras Municipais, estão empenhadas para impedir o retrocesso que representa a passagem do mineroduto na região, ajuizando inclusive ações judiciais contra a mineradora.

A Manabi, que pretende instalar uma mega-mina em Morro do Pilar, também pleiteia a instalação de um mineroduto para transportar o minério de ferro. Marcado por grandes tensões, o processo de licenciamento ambiental do empreendimento tem sido feito na marra, causando muita polêmica. Entre os vários motivos destacam-se a iminência de destruição de fragmentos de mata atlântica primária, a negligência da existência de comunidades tradicionais e destruição de trechos do patrimônio histórico e cultural da Estrada Real. A Manabi pretende captar cerca de 2.850m³/hora, degradando ainda mais a bacia do Rio Santo Antônio já tão afetada por grandes empreendimentos.

Em 2014, a Prefeitura de Açucena revogou as autorizações concedidas à mineradora após a compreensão que somente destruições o empreendimento deixaria à cidade.

O povo do semiárido mineiro parecia a salvo destes tipos de empreendimentos, pois a região apresenta sérias dificuldades de acesso à água e se já não bastasse a árdua luta dos geraizeiros e comunidades tradicionais contra as eucalipteiras que, sem nenhum pudor, tratam de grilar grandes terras no Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas. Mas as mineradoras não ligam muito para a dificuldade de abastecimento do povo não.

A Sul Americana Metais (SAM), do grupo Votorantim, pretende explorar 25 milhões de toneladas de minério de ferro por ano no município de Grão Mogol. E por incrível que pareça, a ousadia da mineradora não tem limites, pretende escoar o minério através de um mineroduto. Serão captados da região 6.200m³/hora para viabilizar o empreendimento.

Lamentavelmente, o IBAMA é condescendente com esse crime e tem conduzido de forma arbitrária o licenciamento, chegando a marcar audiências para fevereiro de 2015, em um gesto de que planeja licenciar o mineroduto às pressas. O Ministério Púbico Estadual e laudos de pesquisadores da UFMG e UNIMONTES denunciam o não reconhecimento de comunidades tradicionais no processo e a inviabilidade de se instalar um empreendimento desta natureza em um local onde, simplesmente, não há água. Se somarmos os volumes de água utilizados por estes projetos chegaremos ao escandaloso valor de 19,350m³/hora.

De acordo com o diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, o consumo médio per capita de água, em Minas Gerais, é de 159 litros por dia. Ou seja, o valor consumido por estes projetos minerários equivale ao abastecimento de cerca de 2.900.000 mineiros ou, o suficiente para atender a demanda de quase 50% da RMBH.

Quando se pergunta às mineradoras do porque de se optar pelo transporte via minerodutos, a resposta, obviamente, é meramente e exclusivamente econômica. Segundo dados das próprias empresas, o custo operacional para se transportar minério de ferro via ferrovia é, em média, de 18,00 US$/ton, já por minerodutos, a média é de 2,00 US$/ton. Ou seja, a implantação de minerodutos nada mais é que uma estratégia de maximizar o lucro dos acionistas destas grandes corporações. Quem ficar sem água no caminho que se vire…

Os minerodutos possuem algo em comum. Além de todos os projetos possuírem inquéritos instaurados no Ministério Público, ambos estão sendo licenciados pelo IBAMA, mas contaram e ainda tem contado até o momento com o apoio do Governo do Estado. Uma das características do choque de gestão foi utilizar todo o aparato da máquina pública para beneficiar, à revelia da legislação ambiental, os empreendimentos minerários privados.

Os Governos do PSDB (Aécio Neves 2003 – 2010 e Antônio Anastasia 2011 – 2014) assinaram decretos que declaram de utilidade pública as implantações dos minerodutos para fins de desapropriação e, ainda, colocam a serviço das mineradoras a empresa estatal CODEMIG para realizar o serviço sujo. Os decretos, assim como a emissão das outorgas para uso de água emitido pelo IGAM, foram assinados antes mesmo da concretização dos processos de licenciamento ambiental, ou seja, sem saber se há a viabilidade ambiental e técnica dos empreendimentos, o Estado tratou de reconhecê-los como fatos consumados.

Ao longo de dois anos, a Comissão Extraordinária das Águas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou um importante e valioso trabalho sobre a questão hídrica no estado. Em seu relatório e a partir das audiências públicas realizadas, ficou nítida a compreensão e o posicionamento categórico da Comissão em relação aos minerodutos, pois estes representam graves retrocessos na politica estadual de recursos hídricos e devem ser contundentemente impedidos. Com a demarcação das áreas denominadas “faixa de servidão para mineroduto”, milhares de pessoas estão com sua soberania ameaçada e seus projetos de vida em risco. Em todas as regiões do estado onde estas mineradoras projetam a implantação destes empreendimentos têm encontrado forte contestação e resistência popular. O que é natural, visto que as comunidades não são envolvidas nos processos de escolha e não possuem o menor controle sob suas riquezas minerais.

O atual modelo de mineração adotado pelo Estado Brasileiro não tem nada a oferecer ao Brasil, a não ser um rastro de miséria e destruição social e ambiental ao povo brasileiro. Governador Fernando Pimentel, o senhor foi eleito sob o lema “ouvir para governar”, e muitos dos que estão sofrendo com as mazelas da mineração em Minas creditaram e acreditaram neste lema ajudando a eleger este novo Governo.

O povo mineiro já fez a sua opção, não quer assistir às suas águas, casas, nascentes, plantações, culturas, memórias, suor, comunidades e minérios entrando pelo cano; queremos sim, o quanto antes, nos livrarmos destes projetos que nada tem a nos oferecer e empenharmos conjuntamente para garantir a segurança hídrica do estado e isto, significa, definitivamente, enterrarmos de vez esta infeliz ideia de mineroduto.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Petróleo - perspectivas futuras



por Luciano Losekann e Edmar de Almeida, no  blog Infopetro

Em 12 de novembro do ano passado, com o apoio do IBP, foi realizado no Rio de Janeiro o seminário “The Changing Global Energy Landscape: Impacts for Brazil”. Fruto da parceria entre o Grupo de Economia da Energia e a Columbia University, o seminário contou com a participação de dois especialistas americanos importantes: Robert McNally e Jason Bordoff. Os dois são fundadores do Center on Global Energy Policy, sendo que o primeiro foi assessor de energia do presidente George Bush e o segundo, atual diretor do Centro, foi assessor do presidente Barack Obama.

O seminário ocorreu em um momento bastante oportuno. O panorama global dos mercados de petróleo e gás natural se alterou fortemente nos últimos meses. Após um período anormal de calmaria nos preços entre 2011 e 2014, os preços do petróleo caíram fortemente e o futuro aponta para maior volatilidade dos preços. A revolução do shale gas agora terá impactos além das fronteiras dos Estados Unidos, tanto diretamente, via as exportações americanas de GNL, quanto indiretamente, mediante a difusão junto a outros países da tecnologia de produção de óleo e gás não convencionais. O novo panorama tem fortes implicações para o Brasil, que necessita realizar pesados investimentos para desempenhar papel mais relevante na indústria de petróleo.


Mudança no Panorama dos Preços do Petróleo

A palestra de Robert McNally, “Estabilidade e Volatilidade do Mercado internacional de petróleo – Passado, Presente e Futuro”, buscou identificar os determinantes da volatilidade dos preços do petróleo e prever a tendência futura para o mercado. No histórico da indústria de petróleo, podem ser observados períodos de elevada volatilidade e de estabilidade. A volatilidade está associada às forças de mercado, num contexto de baixas elasticidades de oferta e demanda.

Como os custos mais representativos são fixos, a oferta responde pouco a variações de preço. Pelo lado da demanda, o consumidor não encontra substituto de escala global para gasolina e também responde pouco a variações de preço no curto prazo. Assim, sem a atuação de coordenação para a estabilização, pequenas oscilações de oferta e demanda têm grande impactos nos preços.

A história moderna da indústria de petróleo se inicia na Pensilvânia em 1859. No início, quando os mercados ainda não estavam desenvolvidos e as tecnologias não tinham se estabelecido, a volatilidade era elevada. Rockfeller percebeu que movimentos tão amplos de preços (Bust and Boom) não eram favoráveis ao desenvolvimento do mercado. A Standard Oil por intermédio de práticas de monopsônio e monopólio passou a controlar a oferta para estabilizar o preço.

Com a contestação das grandes empresas e o surgimento da defesa da concorrência nos EUA, a Standard Oil foi cindida e perdeu o poder de controlar os preços. Assim, os preços voltaram ser instáveis nos anos 1920s. Os países dominantes perceberam necessidade de controlar oferta. Ocorreu, então, a primeira versão da OPEP, a partir do final do final da década de 1920. A Texas Railroad Commission desempenhou o papel de controlar a oferta, mantendo capacidade ociosa de produção. O controle de capacidade ociosa foi a forma encontrada de estabilizar os preços, já que essa capacidade pode ser colocada rapidamente em produção. Nessa longa fase de estabilidade de preços, ocorreram várias interrupções de oferta no Oriente Médio, como em 1967, mas, mediante o controle da capacidade ociosa, foram contornadas sem grandes impactos sobre os preços.

Essa capacidade de controle se esgotou na década de 1970. Em 1972, a Texas Railroad Commission decidiu colocar a capacidade em plena produção para atender a demanda que era crescente nos EUA. Assim, perdeu a capacidade de controlar os preços e os países produtores se aproveitaram. Após os choques, a OPEP passou a desempenhar o papel de reter capacidade de produção. Com a Arábia Saudita tendo maior relevância no controle da capacidade ociosa (Swing role).

Nos anos 1980s, a capacidade ociosa em mãos da Arábia Saudita era muito elevada. Isso gerou custos e, a partir de certo momento, os sauditas decidiram diminuir sua capacidade ociosa. Com o aumento de produção, os preços colapsaram.

A regra geral é que 5% de capacidade ociosa são suficientes para estabilizar os preços. Isso ocorreu nos anos 1990. Nos anos 2000, o crescimento da demanda mundial de derivados foi reduzindo a capacidade ociosa. O ano de 2009 foi uma exceção, em função da crise econômica, mas, rapidamente, a capacidade ociosa voltou a ficar inferior a 5%. Assim, volatilidade dos preços tende a aumentar. Apesar dos preços elevados, a oferta mundial de petróleo não responde como ocorreu na década de 1970, quando ocasionou o contrachoque na década seguinte.

As expectativas de oferta da IEA foram repetidamente frustradas em 2003, 2004 e 2005. Posteriormente, o boom do Shale nos EUA apareceu como uma surpresa, o crescimento da produção dos EUA superou as expectativas. No entanto, o óleo Norte Americano ainda representa uma parcela pequena da oferta global e não é suficiente para compensar a frustração de oferta de outros players. Ao contrário do que se pode pensar, o crescimento da produção dos EUA não é suficiente para explicar a queda recente dos preços.

Uma questão debatida no seminário foi “por que os preços do petróleo ficaram elevados e estáveis nos últimos três anos e agora caem?”. Esse movimento foi determinado pela percepção quanto ao comportamento da Arábia Saudita e da OPEP. Apesar da sobre-oferta decorrente do comportamento frustrante da economia, os preços elevados se sustentaram com a expectativa que a OPEP, em particular a Arábia Saudita, iria cortar a produção. No entanto, os sauditas anunciaram que não estão dispostos a desempenhar esse papel; o que não era esperado. A partir desse momento, os preços caíram de forma mais expressiva.

A expectativa é que para manter os preços estáveis é necessário que a OPEP corte 2 MMbbl/dia no início de 2015. O prognóstico da BP, por exemplo, é que em algum momento a OPEP terá que cortar, mas o palestrante não acredita nessa possibilidade. A percepção da Arábia Saudita é que esse corte deve ser proveniente da oferta americana de Shale Oil.

Pelo lado americano, a oferta de shale oil e shale gas é mais flexível, podendo responder a variações de preço em prazo mais curto. Em campos de shale, é necessário investir continuamente em fracking para manter a produção. Com o preço mais baixo, a atratividade de investimentos em novos poços cai e a produção tende a responder de forma mais rápida. Assim, o Shale oil poderia colocar teto e piso para o preço do petróleo.

No entanto, a Arábia Saudita é otimista quanto ao volume de produção americana que deverá ser retirado do mercado. O preço atual, de US$85/barril, é suficiente para parar investimentos apenas nos campos menos eficientes. Seria necessário cortar 1,5 MMbb/dia no próximo ano. No entanto, estudos indicam que os EUA só reduziriam a produção em 0,5 MMbb/dia se o preço do petróleo chegasse a US$50/barril. Hoje a mensagem dos produtores dos Estados Unidos é a continuação da perfuração e da produção.

Ou seja, os preços no curto e médio prazo devem permanecer baixos. Em prazo mais longo, a conclusão de Robert McNally é indefinida no que diz respeito a se o preço será mais baixo ou mais alto, porém no que concerne à volatilidade não há dúvida: será elevada. Ou seja, o preço dependerá do comportamento da oferta e da demanda e deve experimentar elevações e reduções em função de alterações nos fundamentos de mercado.

Pelo lado da demanda, o baixo desempenho da economia global foi um determinante da situação atual. Para o futuro, as previsões dominantes tendem a subestimar o consumo. As hipóteses consideradas não devem se confirmar. Os combustíveis alternativos no transporte não têm as mesmas qualidades dos derivados de petróleo, limitando sua ampliação na matriz. O crescimento do PIB será intensivo em energia. O processo de ganhos de eficiência experimentado no passado pelos países da OCDE não deve se repetir na mesma intensidade em países emergentes. Assim, o crescimento futuro do PIB vai exigir mais óleo do que é considerado por analistas.

A questão ambiental não deve ser uma restrição tão relevante. Não se vê ações relevantes que possam propiciar atingir cenários de menores emissões de CO2, como o cenário 450 da IEA. O que se vê são países reduzindo o esforço de mitigação como resposta à crise econômica. Na visão de Robert McNally, os sinais que podem induzir a redução do uso de combustíveis fósseis só tendem a surgir quando motivados pela questão fiscal. Para sustentar os gastos crescentes com seguridade social com o envelhecimento da população, a taxação sobre combustíveis fósseis poderá ter esse resultado.


Mudança no Panorama Mundial do Gás Natural

A palestra de Jason Bordoff, intitulada “Evolving Global Natural Gas Market”, abordou o mercado mundial de Gás Natural Liquefeito. O principal foco foi a avaliação do impacto das exportações de GNL dos EUA nos preços globais do gás natural.

Historicamente, o gás natural foi tratado como um produto pouco atrativo pelas operadoras, que focavam petróleo. Essa situação vem mudando nos últimos anos com a ampliação do gás natural no consumo. Assim, a participação do gás natural no portfólio das operadoras passou a crescer. Esse processo caracterizou a chamada era do gás.

O primeiro drive da Era do Gás foi o rápido crescimento da oferta. O crescimento da oferta entre 2000 e 2013 foi bastante superior a do petróleo. Sendo que a maior parte do crescimento foi proveniente de países da OCDE, como EUA e Austrália.

Com o aumento da oferta dos EUA o preço despencou no país. Como nos demais mercados globais, Europa e Ásia, o preço do gás natural aumentou, os EUA passaram a experimentar uma vantagem competitiva nas indústrias que utilizam o combustível. Esse foi um determinante para a recuperação econômica dos EUA após a crise financeira.

Mesmo com a redução do preço do gás natural e do petróleo, mais recente, a produção ainda cresce. A redução do preço do petróleo tem grande impacto sobre a atratividade, já que os líquidos são um fator de viabilidade dos projetos. O número de poços perfurados se reduziu, mas isso foi compensado pela maior produtividade dos poços.

O aumento da oferta de gás natural recente impactou na ampliação do comércio internacional através de GNL, já que os gasodutos não experimentam expansão. Esse movimento deve se intensificar nos próximos anos, com a liderança da Austrália e dos EUA.

Outra característica da Era do Gás é a chamada competição gás-gás. A dinâmica de precificação deixa de ser atrelada ao preço do petróleo para ganhar determinantes próprios, definidos pelas condições de oferta e demanda com maior relevância dos mercados spot. Isso já é realidade na Europa, mas ainda não se concretizou na Ásia.

A perspectiva é que a Ásia continuará liderando o crescimento da demanda. Nos EUA, o gás natural ampliou sua participação na matriz de geração elétrica. A recuperação recente do preço spot do gás natural causou uma inflexão, mas as restrições ao uso de carvão pelo EPA podem favorecer o gás novamente.

O shale gas que revolucionou o mercado de gás natural nos EUA é observado em outros países. No entanto, é uma interrogação se essa dinâmica irá funcionar em outras partes do mundo. Isso envolve aspectos geológicos, institucionais e de infraestrutura. Os campos não apresentam as mesmas características de produtividade e conteúdo dos EUA. A institucionalidade americana ofereceu a flexibilidade necessária para que a produção crescesse rapidamente. E, talvez o aspecto mais importante, a disponibilidade de infraestrutura nos EUA (gasodutos e logística) permite que o gás natural de shale, com maior custo unitário que o convencional, experimente lucratividade mesmo com preços mais baixo. A IEA é otimista sobre oferta fora dos EUA. Esse otimismo funcionou para os EUA, mas é incerto se funcionara em outros lugares do mundo. As preocupações ambientais são chaves. Mesmo os EUA têm várias localidades que baniram o shale.

A Europa e a Ásia continuarão muito dependentes de importações. A evolução futura da demanda irá depender de políticas ambientais, principalmente através da substituição do carvão. O consumo de gás cresce tanto em caso de cenários mais ou menos otimistas para o meio ambiente.

A entrada dos EUA irá diminuir o preço do GNL no mundo. Mas, esse processo vai demorar. O primeiro projeto de exportação de GNL entra no ano que vem. Mas a entrada da maior parte ocorre em 2018 e 2019. Com a possibilidade de contar com outras fontes de suprimento, a Europa pode diminuir gastos com o gás importado da Rússia, mas a redução não deve ser relevante.

Até aqui, o custo de projetos GNL se elevou muito. Os projetos da Austrália, que experimentam custos muitos superiores aos orçados, puxaram os custos para cima. Com a entrada dos EUA e redução dos preços, alguns desses projetos vão enfrentar dificuldades.


Impactos Potenciais para o Brasil

A mudança do panorama internacional do petróleo e do Gás terá impactos muito relevantes para a indústria Brasileira de petróleo e de gás. A redução dos preços do petróleo, no curto prazo, e a maior volatilidade dos preços no médio e longo-prazos representam um grande desafio para os investimentos em petróleo no Brasil. O país precisa investir cerca de US$ 50 bilhões ao ano e o custo do petróleo nacional não é baixo. Esse desafio recai em grande parte sobre a Petrobras, que é a única operadora do pré-sal. Assim, é fundamental uma atenção redobrada sobre o fluxo de caixa da Petrobras para evitar uma deterioração rápida da capacidade de investimento da empresa.

O novo panorama mundial do petróleo e do gás requer uma nova discussão sobre a atratividade dos investimentos em E&P no Brasil. Vários países da América Latina, como México e a Argentina, vêm adotando medidas para atrair investimentos estrangeiros para a E&P. Esta postura mais pragmática dos países vizinhos implica maior competição pelos investimentos privados em E&P. Neste sentido, é oportuna uma discussão sobre as questões regulatórias que podem afetar a competitividade do E&P no Brasil como a política de conteúdo local, a política de preços dos derivados no país, a tributação sobre os investimentos e as rodadas de licitação.

Com relação ao gás natural, a situação brasileira é de elevada incerteza. Pelo lado da oferta, as expectativas de oferta de gás natural no pré-sal são menos favoráveis ao que se antecipava. Em 2019, o contrato de importação da Bolívia se encerra. A renovação do contrato depende das reservas bolivianas, cujas expectativas também não são favoráveis. Pelo lado da demanda, é evidente a necessidade de ampliar a geração termelétrica e a questão é a competição com o carvão. O menor preço de importação de GNL poderia dar mais competitividade para as térmicas a gás no leilão. No entanto, conforme a análise de Jason Bordoff, o preço do GNL não deve cair tanto para possibilitar a competitividade de térmicas na base de geração. Os preços atuais de US$ 17 a 19/MMBTU podem baixar para US$ 14/MMBTU, mas não para US$ 10/MMBTU.

Neste contexto, é fundamental uma discussão profunda da estratégia de oferta de gás natural para o setor termelétrico e para os outros segmentos da demanda. A incerteza quanto à oferta futura pode comprometer investimentos na indústria e na geração termelétrica, com impactos negativos para o desenvolvimento futuro do mercado de gás no país.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Tempos bicudos - e o entreguismo lesa-pátria grassa


video de entrevista de João Antônio de Moraes - ex-coordenador nacional e atual diretor de Relações Internacionais da Federação Única dos Trabalhadores (FUP) e diretor do Sindipetro-SP

Texto complementar ai em baixo do sempre ótimo  Mauro Santayana, em seu blog

Já há alguns meses, e mais especialmente na época da campanha eleitoral, grassam na internet mensagens com o título genérico de “O Fim do Brasil”, defendendo a estapafúrdia tese de que a nação vai quebrar nos próximos meses, que o desemprego vai aumentar, que o país voltou, do ponto de vista macroeconômico, a 1994 etc. etc. – em discursos irracionais, superficiais, boçais e inexatos.

Na análise econômica, mais do que a onda de terrorismo antinacional em curso, amplamente disseminada pela boataria rasteira de botequim, o que interessa são os números e os fatos. Segundo dados do Banco Mundial, o PIB do Brasil passou, em 11 anos, de US$ 504 bilhões em 2002, para US$ 2,2 trilhões em 2013. Nosso Produto Interno Bruto cresceu, portanto, em dólares, mais de 400% em dez anos, performance ultrapassada por pouquíssimas nações do mundo.

Para se ter ideia, o México, tão “cantado e decantado” pelos adeptos do terrorismo antinacional, não chegou a duplicar de PIB no período, passando de US$ 741 bilhões em 2002 para US$ 1,2 trilhão em 2013; os Estados Unidos o fizeram em menos de 80%, de pouco mais de US$ 10 trilhões para quase US$ 18 trilhões.

Em pouco mais de uma década, passamos de 0,5% do tamanho da economia norte-americana para quase 15%. Devíamos US$ 40 bilhões ao FMI, e hoje temos mais de US$ 370 bilhões em reservas internacionais. Nossa dívida líquida pública, que era de 60% há 12 anos, está em 33%. A externa fechou em 21% do PIB, em 2013, quando ela era de 41,8% em 2002. E não adianta falar que a dívida interna aumentou para pagar que devíamos lá fora, porque, como vimos, a dívida líquida caiu, com relação ao PIB, quase 50% nos últimos anos.

Em valores nominais, as vendas nos supermercados cresceram quase 9% no ano passado, segundo a Abras, associação do setor, e as do varejo, em 4,7%. O comércio está vendendo pouco? O eletrônico entretanto (vendas pela internet) – as pessoas preferem cada vez mais pesquisar o que irão comprar e receber suas mercadorias sem sair de casa – cresceu 22% no ano passado, para quase US$ 18 bilhões, ou mais de R$ 50 bilhões, e o país entrou na lista dos dez maiores mercados do mundo em vendas pela internet.

Segundo o Perfil de Endividamento das Famílias Brasileiras divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o ano de 2014 fechou com uma redução do percentual de famílias endividadas na comparação com o ano anterior, de 62,5%, para 61,9%, e a porcentagem de famílias com dívidas ou contas em atraso, caiu de 21,2%, em 2013, para 19,4%, em 2014 (menor patamar desde 2010). A proporção de famílias sem condições de pagar dívidas em atraso também diminuiu, de 6,9% para 6,3%.

É esse país – que aumentou o tamanho de sua economia em quatro vezes, cortou suas dívidas pela metade, deixou de ser devedor para ser credor do Fundo Monetário Internacional e quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos, que duplicou a safra agrícola e triplicou a produção de automóveis em 11 anos, que reduziu a menos de 6% o desemprego e que, segundo consultorias estrangeiras, aumentou seu número de milionários de 130 mil em 2007 para 230 mil no ano passado, principalmente nas novas fronteiras agrícolas do Norte e do Centro-Oeste – que malucos estão dizendo que irá “quebrar” em 2015.

E se o excesso de números é monótono, basta o leitor observar a movimentação nas praças de alimentação dos shoppings, nos bares, cinemas, postos de gasolina, restaurantes e supermercados; ou as praias, de norte a sul, lotadas nas férias. E este é o retrato de um país que vai quebrar nos próximos meses?

O Brasil não vai acabar em 2015!...  mas se nada for feito para desmitificar a campanha antinacional em curso, poderemos, sim, assistir ao “fim do Brasil” como o conhecemos. 

A queda das ações da Petrobras e de empresas como a Vale, devido à baixa do preço do petróleo e das commodities, e também de grandes empresas ligadas, direta e indiretamente, ao setor de gás e de petróleo, devido às investigações sobre corrupção na maior empresa brasileira, poderá diminuir ainda mais o valor de empresas estratégicas nacionais, levando, não à quebra dessas empresas, mas à sua compra, a preço de “bacia das almas”, por investidores e grandes grupos estrangeiros – incluídos alguns de controle estatal – que, há muito, estão esperando para aumentar sua presença no país e na área de influência de nossas grandes empresas, que se estende pela América do Sul e a América Latina.

Fosse outro o momento, e o Brasil poderia – como está fazendo a Rússia – reforçar sua presença em setores-chave da economia, como são a energia e a mineração, para comprar, com dinheiro do tesouro, a preço muito barato, ações da Petrobras e da própria Vale. Com isso, além de fazer um grande negócio, o governo brasileiro poderia, também, contribuir com a recuperação da Bolsa de Valores. Essa alternativa, no entanto, não pode sequer ser aventada, em um início de mandato em que o governo se encontra pressionado, praticamente acuado, pelas forças neoliberais que movem – aproveitando os problemas da Petrobras – cerrada campanha contra tudo que seja estatal ou de viés nacionalista.

Com isso, o país corre o risco de passar, com a entrada desenfreada de grandes grupos estrangeiros na Bolsa por meio da compra de ações de empresas brasileiras com direito a voto, e a eventual quebra ou absorção de grandes empreiteiras nacionais por concorrentes do exterior, pelo maior processo de desnacionalização de sua economia, depois da criminosa entrega de setores estratégicos a grupos de fora – alguns de capital estatal ou descaradamente financiados por seus respectivos países (como foi o caso da Espanha) nos anos 1990.

Projetos que envolvem bilhões de dólares, e mantêm os negócios de centenas de empresas e empregam milhares de brasileiros já estão sendo, também, entregues para estrangeiros, cujas grandes empresas, no quesito corrupção, como se pode ver no escândalo dos trens, em São Paulo, em nada ficam a dever às brasileiras.
Para evitar que isso aconteça, é necessário que a sociedade brasileira, por meio dos setores mais interessados – associações empresariais, pequenas empresas, sindicatos de trabalhadores, técnicos e cientistas que estão tocando grandes projetos estratégicos que poderiam cair em mãos estrangeiras –, se organize e se posicione. Grandes e pequenos investidores precisam ser estimulados a investir na Bolsa, antes que só os estrangeiros o façam.
O combate à corrupção – com a punição dos responsáveis – deve ser entendido como um meio de sanar nossas grandes empresas, e não de inviabilizá-las como instrumentos estratégicos para o desenvolvimento nacional e meio de projeção do Brasil no exterior.

É preciso que a população – especialmente os empreendedores e trabalhadores – percebam que, quanto mais se falar que o país vai mal, mais chance existe de que esse discurso antinacional e hipócrita, contamine o ambiente econômico, prejudicando os negócios e ameaçando os empregos, inclusive dos que de dizem contrários ao governo.
É legítimo que quem estiver insatisfeito combata a aliança que está no poder, mas não o destino do Brasil, e o futuro dos brasileiros.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

PIG - jornalismo suíno (peço desculpas ao Sus scrofa domesticus)


por Fábio de Oliveira Ribeiro, no blog do Nassif

A CF/88 garante a todos os cidadãos a presunção de inocência. Em razão disto, uma pessoa delatada não pode ser automaticamente considerada culpada pela imprensa. A reputação e a imagem dela devem ser preservadas pelos jornalistas, caso contrário o dano moral pode e deve ser indenizado a mando do Poder Judiciário a pedido do ofendido. O mesmo se aplica ao partido político e à empresa delatada, que, aliás, tem personalidade jurídica distinta da dos seus membros.

Delatores não são heróis da ética e da moralidade administrativa. São pessoas investigadas por que, em razão dos indícios de provas que existem no Inquérito Policial, a autoridade policial considerou plausível sua participação no crime ou crimes investigados. A delação premiada não é uma excludente de anti-juricidade da conduta criminosa O delator seguirá respondendo pelo crime que cometeu, mas em razão de ter colaborado com a Justiça poderá ser agraciado com a redução da pena que lhe será imposta.

A delação não é suficiente para condenar quem quer que seja. No sistema processual penal brasileiro, cujos principais princípios constam do art. 5० da CF/88, cabe ao MP provar no processo, de maneira inequívoca, três coisas: a autoria do crime, a culpa do acusado e a materialidade do crime. Se não ficar provada a materialidade do crime, a atribuição de autoria e culpa feitas pelo delator não pode acarretar a condenação do réu. Não há crime sem Lei que previamente o defina, não é crime ter sido delatado e a CF/88 garante a absolvição por presunção de inocência.

Nazistas e soviéticos não seguiam os critérios processuais penais garantidos pela CF/88. Para os primeiros bastava pertencer a uma raça para ser automaticamente condenado, primeiro à segregação social e depois ao extermínio durante a Solução Final. Para os segundos, os suspeitos que fossem acusados de traição ao Estado soviético, ao partido único ou à fé comunista deveriam provar sua inocência e se não o fizessem seriam automaticamente condenados ao Gulag ou à morte.

A imprensa brasileira deveria seguir os princípios civilizatórios prescritos na CF/88, mas por razões partidárias está se deixando influenciar por princípios nazistas e soviéticos. Os delatores não são tratados como suspeitos de terem cometidos crimes financeiros e sim como heróis que ajudarão a derrubar um governo considerado ilegítimo (NOTA DESTE BLOGO - considerado ilegítimo pelos derrotados nas urnas, bem entendido).

Dilma Rousseff foi eleita pela maioria dos brasileiros e empossada pelo TSE na forma da CF/88. Nada disto parece comover os “barões da mídia”. A ilegitimidade do mandato da presidenta não é apenas presumida pela imprensa, é considerada um fato inquestionável que deve acarretar consequencias. Os arquitetos do golpe de estado ou da paralisia governamental deixaram de praticar jornalismo para se colocar acima do TSE e fora dos limites da CF/88. Tudo fazem para revogar ou destruir a soberania popular que investiu Dilma Roussef de poder legítimo.

A adesão da imprensa aos princípios jurídicos nazistas e soviéticos é, portanto, evidente. E explica porque os delatados não são mais tratados como suspeitos e sim como criminosos contumazes. A existência deles é indigna das garantias constitucionais atribuídas aos cidadãos de bem, competindo à imprensa distinguir uns de outros. Neste momento, apesar do que consta da CF/88, os editores de jornais, revistas e telejornais se comportam como se tivessem um missão especial: dizer em última e única instância quem são os criminosos e quem deverá ser inocentado.

A degradação do jornalismo brasileiro é generalizada. Quem leu jornal ou revista ou viu telejornal nesta semana percebeu que os jornalistas querem convencer o respeitável público de que os petistas não devem ter direito à presunção de inocência. Neste momento, qualquer denuncia feita contra o PT por suspeitos investigados pela Polícia Federal e pelo MPF deve ser e é, sem dúvida alguma, verdadeira. Ninguém precisa provar que o partido de Dilma Rousseff recebeu 200 milhões de reais de propina. Nenhum leitor ou telespectador necessita saber se o dinheiro foi realmente recebido, onde o mesmo está ou como, onde e quando foi movimentado. A delação faz presumir o crime e o acusado é culpado até que prove que não recebeu o dinheiro.

FHC e Gilmar Mendes criaram as brechas jurídicas que permitiram à corrupção se instalar e se espalhar dentro da Petrobrás. Este fato importante é tratado como um detalhe irrelevante. Ao contrário dos petistas acusados por suspeitos, ambos são presumivelmente inocentes e não devem ser jornalisticamente condenados. Dilma Rousseff possibilitou a facilitou a investigação dos crimes na petrolífera, mas está sendo pessoalmente responsabilizada pelos atos atribuídos a terceiros por delatores suspeitos de terem, eles mesmos, cometido os crimes que motivam a ação do MPF. Foi neste contexto que FHC, o founding father da corrupção na Petrobrás, brandiu um Parecer em favor do Impedimento de Dilma Rousseff rapidamente endossado pela imprensa.

A Lei de Talião prescrevia olho por olho, dente por dente. A talionica imprensa brasileira aplica uma moderna versão da mesma furem todos os olhos para podermos quebrar os dentes dos petistas. Se esta canalha derrubar Dilma Roussef e chegar ao poder o simples fato de ser petista ou suspeito de petismo será garantia certa de prisão. Livres dos freios da CF/88 e imbuídos dos princípios jurídicos nazistas e soviéticos que tem aplicado, os editores de jornais, revistas e telejornais que instrumentalizam o golpe de estado poderão enfim defender o que desejam: a prisão imediata de todos os petistas e suspeitos de petismo em Gulags para extermínio lento ou imediato. O que os judeus tem a dizer deste novo holocausto?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Máfia de Branco do North gosta de um afago





por Caroline Chen, Michelle Fay Cortez e Alexander Wayne, no Bloomberg Business (tradução deste blogo botocudo)



Médicos e hospitais norte americanos foram agraciados pela indústria farmacêutica e de equipamentos hospitalares com aproximadamente US$ 3,5 bilhões num curto período de cinco meses, em 2013, de acordo com a primeira divulgação abrangente das relações incestuosas das empresas com os profissionais médicos que prescrevem e usam seus produtos.

Aqueles valores, divulgados em outubro de 2014 pelo governo dos Estados Unidos, estão listados em duas categorias: fundos distribuídos para financiar pesquisas e os pagamentos aos médicos para consultoria e outros serviços. Cobrem de tudo, desde royalties pagos aos hospitais para ajudar a desenvolver produtos a taxas previstas para os médicos formadores de opinião para palestrar em jantares para colegas.

A Genentech ligada à Roche Holding AG pagou US$ 135 milhões em programas não ligados à pesquisas, a maior contribuição única de um empresa naquela listagem. Desse total, 90% foi de royalties para a rede hospitalar Southern California , de acordo com a própria empresa. A Bristol-Myers Squibb Co. liderou o ranking de pagamentos para “pesquisa”, com US$ 329 milhões. A empresa sustenta que corresponde em grande parte ao valor dos medicamentos experimentais usados em estudos.

Advogados de defesa dos consumidores disseram que a divulgação dos dados vão prevenir e diminuir a chance de que as drogas ou equipamentos sejam utilizados em maior ou menor escala de acordo com quanto um médico ou instituição recebe em propina para prestigia-los. O pagamento tem "uma influência corruptora insidiosa sobre a prática da medicina, a pesquisa e o desenvolvimento de diretrizes e prática clínica", disse Michael Carome da ONG Public Citizen, um grupo de defesa do consumidor sem fins lucrativos com sede em Washington. "A razão de as empresas pagar propinas a médicos e dar-lhes presentes e honorários de consultoria para falar bem de seus produtos é, apenas e tão somente, para influenciar a prescrição dos mesmo especificamente mais tarde".


550.000 Médicos na lista

As divulgações por parte do governo norte-americano refere-se a 4,4 milhões de pagamentos a cerca de 550 mil médicos e 1.360 hospitais engajados em pesquisas, cobre de agosto a dezembro de 2013. As empresas foram obrigadas a fornecer as informações como parte da lei de 2010 conhecida como Patient Protection and Affordable Care Act, ou “Obamacare”.

Médicos podem prescrever qualquer tratamento que julgarem conveniente a um paciente, mas fabricantes de produtos farmacêuticos e equipamentos médicos só pode comercializar produtos depois de ter seus usos aprovados pela FDA - Food and Drug Administration. Foram identificados casos que as empresas têm usado suas pressões financeiras sobre a comunidade médica para contornar essa limitação e avançar o sinal com produtos não aprovados.

Alguns médicos individualmente foram listados por receber centenas de milhares de dólares, de acordo com os dados divulgados. A fabricante de dispositivos Medtronic Inc., por exemplo, pagou quase US $ 3 milhões para um determinado médico (não identificado), que estava entre os seis que receberam individualmente mais de US$500.000 ao longo do período de cinco meses.

Quatro dos médicos mais bem pagos pelo grupo Medtronic não foram identificados nos dados. A administração Obama preservou os nomes de cerca de 40 por cento dos profissionais médicos que recebem pagamentos paralelos devido a dificuldades na verificação da identidade do destinatário. A Medtronic, que é a maior fabricante mundial de equipamentos de monitoramento cardíaco, dispendeu um total de US$30.1 milhão ao longo dos cinco meses reportados.


Influência sobre os médicos

Johnson & Johnson, que produz medicamentos e também equipamentos médicos, contribuiu 6,8 milhões dólares para despesas não relacionadas a pesquisa, em segundo lugar entre todas as empresas, através de suas subsidiárias Janssen Pharmaceuticals e DePuy Synthes.

Os pagamentos são só o “reflexo” do “preponderante papel” J & J como a maior e mais completa empresa de cuidados de saúde do mundo, disse Amy Jo Meyer, porta-voz da empresa baseada em New Brunswick e New Jersey. Os pagamentos estariam relacionados com o desenvolvimento de novos dispositivos cirúrgicos, medicamentos e testes para melhorar os cuidados de saúde e de vida dos pacientes, disse ela.


Custos de medicamentos

Junto com a 329 milhões dólares em pagamentos para pesquisas, a Bristol-Myers teria pago um montante de US$ 11,9 milhões a médicos e hospitais, isso para consultoria, viagens e outras atividades. A farmacêutica sediada em Nova York, tida como líder no desenvolvimento de uma nova geração de medicamentos contra o cancer que utilizam o próprio sistema imunológico do corpo para atacar tumores, alega que "uma parte significativa" dos seus pagamentos de pesquisa incluiu o valor de drogas experimentais para que seja possível realizar ensaios clínicos.

"Nós não podemos comentar sobre como outras empresas atribuem valor a este tipo de patrocinio, mas esta foi linha a principal da pesquisa e/ou transferências de valores reportado pela Bristol-Myers (ao órgão governamental que fez o levantamento)" afirma Laura Hortas, uma porta-voz da empresa, via e-mail .

A Pfizer Inc., o maior fabricante de medicamentos dos Estados Unidos, presenteou médicos e hospitais com US$ 30 milhões, incluindo um pagamento de US $ 1 milhão para o plano de saúde da Universidade de Duke. Doou outros US$ 90,6 para pagamentos de pesquisas, de acordo com o banco de dados governamental .


Relações de Trabalho

A Medtronic sustenta que começou divulgar os valores de pagamentos a médicos, em 2010, voluntariamente, assim como outros fabricantes de medicamentos e dispositivos. (certamente por força da lei do Obama NT)

“Trabalhando diretamente com os médicos a empresa tem insights importantes, estimula os avanços tecnológicos e melhora a educação médica”, disse Cindy Resman, uma porta-voz da empresa com sede em Minneapolis.

"Entendemos, também, a importância da confiança pública em colaboração e estamos comprometidos com a transparência em um esforço para aumentar a confiança do paciente e proteger nossa capacidade de trabalhar com os médicos", disse Resman em uma entrevista.

Porta-vozes da Pfizer e da Duke não responderam imediatamente aos questionamentos quanto aos pagamentos paralelos. A grande maioria dos pagamentos não relacionados à pesquisas de Genentech foi para o City of Hope, um importante centro de pesquisa sobre o câncer, sediado em Duarte, Califórnia, onde se realizava o desenvolvimento de alguns dos principais produtos da unidade San Francisco, Califórnia, uma filias da Roche, com sede mundial na cidade de Basel, na Suíça.


Os benefícios potenciais

Um funcionário dos Centros de Serviços Medicare e Medicaid, que divulgou os dados, disse que os motivos e consequências dos pagamentos que estão em pauta são complexas.

Na realidade a base de informações não consegue "separar quais as relações financeiras que são benéficas e que poderia causar conflitos de interesse", diz Shantanu Agrawal, diretor do programa de integridade na CMS, em um comunicado. Embora a divulgação pode ajudar a coibir pagamentos inapropriados ", eles também poderiam ajudar a identificar relações benéficas que podem levar ao desenvolvimento de novas tecnologias."

Análises feitas anteriormente revelam que "off-label" são utilizadas em até um quinto das receitas, e as empresas têm, por vezes, passado do limite no que eles podem assegurar aos médicos que prescrevem desses receituários irregulares . Na última década, a indústria farmacêuticas gastou bilhões de dólares em acordos judiciais depois de uma série de ações judiciais por parte do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, muitos dos quais relacionados com fabricantes levados a empurrar usos não aprovados de seus produtos.


Confiabilidade nos dados

Embora esta seja a primeira vez que os dados de pagamentos têm sido exigido para todos os fabricantes de medicamentos e equipamentos médicos, a informação divulgada ontem tem algumas deficiências. Vejamos:

Abrange só cinco meses e não tem comparação histórica. Mesmo dentro desse curto período, os dados também são incompletos. As empresas farmacêuticas e de equipamentos podem reportar pagamentos com atraso e misturar valores que foram destinados para o desenvolvimento de produtos experimentais que ainda não está à venda, o que levou 190.000 campos sem preenchimento.

Michael Carome, o diretor de pesquisa de saúde do Public Citizen sustenta que dados departamentais (do governo) “ são completamente inúteis. O objetivo é identificar os pagamentos específicos para pessoas físicas e hospitais envolvidos com pesquisas. Dados anônimos são dados sem sentido. " Ainda assim, "apesar de algumas das deficiências no momento e apesar de alguns dos dados terem sido sonegados, ainda assim é um passo importante e na direção certa", disse ele.





sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Porque desisti das discussões polêmicas no Facebook

Sísifo, de Tiziano, óleo sobre tela 237 cm × 216 cm - 1548

por Thiago Venco & Daniel Baiardi (que desenvolvem o Labirinto do Desacordo), publicado no blog Scribe



Zuckerberg nos condenou ao mesmo castigo de Sísifo

É inútil empurrar a "pedra" do debate morro acima: a discussão vai rolar timeline abaixo no dia seguinte


Se você é daqueles que acha que "discutir no Facebook é uma perda de tempo"... VOCÊ ESTÁ CERTO. Leia este texto até o fim: acreditamos ter encontrado a prova científica - e portanto filosófica - que explica perfeitamente porque apenas 44 a cada UM MILHÃO de discussões no "face" chegam a algum lugar (na verdade, os números podem ser ainda piores).

Não, não foram os autores do Labirinto do Desacordo que chegaram a esta notável e precisa conclusão: foi um vencedor do prêmio Nobel em Economia e do prêmio Turing por contribuições notáveis a computação - ainda que ele tenha falecido 3 anos antes da fundação desta titânica rede social.


* * * * * * * *

Como no Mito de Sísifo, estamos condenados a ver desperdiçados nossos brutais esforços em debater temas importantes com nossos amigos.

Sísifo recebeu esta punição: foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

Por esse motivo, a expressão "trabalho de Sísifo", em contextos modernos, é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso - algo como um infinito ciclo de esforçosque, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.


* * * * * * * *
Trágico: discórdia e conflito são oficialmente sinônimos. Na teoria do conflito não é bem assim; já na realidade da maior rede social do planeta, no império do "curtir", do "gostar", todo desacordo online será castigado: o nome do jogo ali é ASSINAR EMBAIXO. Há quem fique naturalmente IRADO ao menor sinal de discordância; o FB apenas agrava esse problema (aos milhões).

Ainda que o ser humano (demasiado humano) tenha sua parcela de culpa no cartório - devido à sua dificuldade crônica em argumentar - adianto que o principal responsável pela falência do debate no Facebook é sua própria estrutura, os elementos principais que o constituem:

- O botão "curtir"
- A interminável e caleidoscópica "linha do tempo"
- A sequência linear de "campos de comentários"

Creio que acionistas, sócios de Zuckerberg, já calcularam o prejuízo de um hipotético botão "descurtir" (um botão "discordar com ressalvas" seria utópico); para os chatos que não fazem login com o objetivo de consumir suas marcas prediletas, é suficiente concessão ao modelo de negócios (propaganda!) que exista um campo de texto que lhes sirva de arena neutra para suas divergências. Fale o quanto quiser: ninguém vai limitar seu "mimimi"; "o choro é livre"; se você quer ser o "mala sem alça" que vai ao FB pra "falar sério", o problema é seu.

Mas se o campo é livre, então porque a coisa teima em não funcionar para a discordância, para o debate construtivo - mesmo quando estamos nos dedicando de coração à empreitada? Porque a falência do debate "facebookiano" parece demais com uma maldição de um deus grego furioso com a impertinência dos reles mortais?

Você já deve ter experimentado o "efeito cascata" de uma divergência que virou discussão; de uma discussão que virou uma briga generalizada e desceu 300 postspágina abaixo; o respeito foi abaixo, qualquer chance de acordo veio abaixo... SÓ O TEMPO GASTO FOI PRA CIMA.

Acrescente à fórmula acima a caótica aleatoriedade de centenas de amigos seus trazendo à linha do tempo, segundo a segundo, os mais variados assuntos - alguns felizes, outros tristes, muita "zuera", muita coisa séria... sempre nos "tentando" a interromper nosso trabalho, não é mesmo?

INTERRUPÇÃO ALEATÓRIA: guarde essa ideia - ela é a principal chave do enigma do inevitável e inútil dispêndio de tempo e energia. Mas talvez não como você esteja imaginando agora... o problema não é o fato do "coffee break" (pausa pro café) ter virado a "checadinha nas notificações". Lembre-se: ainda estamos focados nos fenômenos que acabam com as chances de um bom debate no "Face".


* * * * * * *

Chega de mistério: revelemos o pensador e o pensamento que mataram essa charada. Trata-se de Herbert Simon, em seu fantástico artigo "Arquitetura da Complexidade".

Para nosso objetivo aqui, basta traduzirmos um trecho deste texto; uma parábola incrivelmente esclarecedora.


* * * * * * *

Era uma vez... ...dois relojoeiros: um deles se chamava Tempus e o outro, Hora.

Ambos montavam finíssimos relógios. Tempus e Hora eram altamente apreciados e suas lojas no Facebook* recebiam frequentes "curtidas", mensagens e comentários.

* (O texto é de 1962; portanto, na época, Simon disse que "os telefones de suas oficinas que tocavam constantemente"... mas enfim, o efeito para nosso problema é exatamente o mesmo!)


No entanto, Hora prosperava, mas Tempus se tornava cada vez mais pobre, até que sua loja faliu completamente. Qual a razão desta disparidade?

Os relógios que estes senhores montavam consistiam de 1.000 partes cada um. Tempus concebeu seu relógio de forma que, se ele estivesse apenas parcialmente montado, e fosse subitamente interrompido em sua montagem linear - peça após peça - parando o trabalho para responder a uma notificação aleatória em seu Facebook (...), sua construção imediatamente desmoronava e ele era forçado a remontar os elementos do relógio, um por um. O problema é que quanto mais os clientes apreciavam os relógios de Tempus, mais eles lhe mandavam mensagens, curtiam sua página, tornando mais e mais difícil que ele encontrasse condições ideais para finalizar uma construção, começando da peça 1 e chegando até a peça 1.000.

Os relógios que Hora faziam eram igualmente complexos se comparados aos de Tempus. Mas Hora concebeu sua engenharia de uma tal forma que ele era capaz de montar sub-conjuntos de 10 peças cada um. A cada 10 destes "sub-sistemas" completos, ele era capaz de montá-los novamente em um conjunto maior (um sistema de 100 peças, portanto); assim, a cada 10 conjuntos de 100 peças finalizados, ele completava seu relógio de 1.000 partes.

Assim, quando Hora tinha que parar para atender seus chamados no Facebook (...), ele perdia apenas o trabalho relativo ao "sub-sistema" de 10 peças que ele estava montando naquele instante, de modo que, apesar das interrupções aleatórias, ele era capaz de construir seus relógios em apenas uma fração das "hora-homem" gastas por Tempus.

* * * * * *




A partir daí, Herbert Simon faz o que chama de "razoavelmente simples análise quantitativa" das dificuldades de Tempus e Hora. Para facilitar, explico seu raciocínio sem a matemática:


1) Aplique uma taxa idêntica de interrupções "facebookianas", para ambos relojoeiros. Ou seja, a interferência que eles sofrem no trabalho é a mesma. Notem que, uma vez que o "ruído" é igual, este fenômeno isolado não explica porquê Tempus foi a falência.

2) Suponha que esta taxa de interferência "facebookiana", por menor que seja, possa ocorrer durante as montagens dos relógios. Deste modo, a chance deles nunca serem interrompidos fica limitada. Portanto, é lógico que a chance de Tempus terminar um relógio, partindo da peça 1 até a 1.000 sem nenhuma interrupção que o leve à estaca zero, é igualmente limitada.

3) Simon atribui uma taxa bem pequena de interrupção "facebookiana" para fazer suas contas: 1% de chance que eles sejam interrompidos.

A partir desta hipótese, ele conclui (surpreendentemente) que:


- Tempus leva 4.000 vezes mais tempo, na média, para terminar um relógio que Hora.
- A cada relógio concluído de Tempus, Hora terá obtido uma taxa de sucesso 111 vezes maior.
- Tempus vai perder na média 20 vezes mais trabalho para cada montagem interrompida (retroceder 100 partes, contra 5 de Hora)
- Tempus VAI CONCLUIR MÍSEROS 44 RELÓGIOS A CADA 1 MILHÃO DE TENTATIVAS (!!!)
- Hora, por sua vez, VAI CONCLUIR 9 RELÓGIOS A CADA 10 TENTATIVAS
- Tempus precisa fazer 20.000 vezes mais tentativas que Hora para acabar um relógio.



* * * * * *

As implicações desta chocante demonstração influenciaram muito mais a Teoria da Evolução do que os engenheiros do Facebook.

Isso porque interessa demais aos biólogos entender como é possível que os seres vivos tenham atingido tamanha complexidade, uma vez que o número de "tentativas" (gerações) não é tão grande assim. "Céticos" que desconheciam o trabalho de Simon fizeram uma contabilidade simplória de "quantidade de gerações x complexidade dos organismos" e geraram a patética falácia:

"Se Darwin estivesse certo, seria como se ao longo de milhões de anos, uma ventania qualquer finalmente fosse capaz de juntar as peças de um Boeing em um avião capaz de voar".



* * * * * *


Espero que você tenha percebido que o problema do Facebook, em relação ao debate, não é o fato dele ser uma das maiores fontes de distração do trabalho na contemporaneidade:

O problema estrutural do Facebook, que destrói a qualidade dos debates em seu ambiente, é o fato de que na comparação com a parábola dos relojoeiros sua arquitetura de sistema seja equivalente ao método "sequencial-linear" de Tempus: o Facebook, tanto em termos da "timeline" quanto dentro de um post específico, é incapaz de montar "sub-conjuntos" do debate que permitam que a a discussão seja retomada com pequeno prejuízo a cada interrupção.

E por "interrupção" devemos pensar não na distração "ordinária", mas sim, nos inimigos clássicos de debate (vide nosso texto "Um Bestiário do Desacordo em Massa"):

- Informações Falsas;
- Interpretações equivocadas;
- Negação Incondicional;
- Preconceitos Cristalizados;
- Rótulos Simplórios;
- Argumentos Inconsistentes (serviam para defender igualmente candidatos antagônicos, A e B);
- Agressões Irracionais;
- Multiplicação de Falácias;
- Promessas Impossíveis;
- Estatísticas Questionáveis;
- Meias Verdades;
- Blefes Convincentes;



Para concluir:

A simples idéia de que os posts existam para serem "gostados" já é por si só, um atentado estrutural ao objetivo de debater, pois nenhum debate inteligente é possível se todos estão ali para "concordar sem ressalvas".

A linha do tempo é uma avalanche sem fim, que enterra nossos esforços de concentração em um tema específico, forçando-nos a atentar para uma nova modalidade de "jornalismo", que chegou a uma tal velocidade de "notícias" que deveria se chamar "segundismo". Não há estímulo para o foco, ao contrário.

A linearidade sequencial dos comentários, que cruza as vezes dezenas de diálogos entre centenas de pessoas em um único post é tão estúpida quanto a metodologia do relojoeiro Tempus: simplesmente as interrupções te levam à estaca zero. Basta um ataque pessoal, uma informação falsa, um desentendimento, para que o foco no assunto se perca e começemos a discutir a própria discussão!


* * * * * *
Zuckerberg não está interessado em debates de qualidade; ele está focado em ganhar dinheiro, muito dinheiro, fazendo propaganda a partir do rastreamento (legal, mas imoral) de nosso comportamento.

Não é a toa que sua solução para controlar a proliferação de conteúdos de ódio, racismo, intolerância e violência, se resuma a um "algoritmo" que contabiliza cegamente a quantidade de queixas recebidas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Árvores & Agricultura


Nota preliminar: Este blog já tratou deste tema em junho de 2011, o que pode ser visto aqui e aqui 


por Ana Lucia Ferreira, Embrapa 


O agricultor que preserva florestas naturais e mantém espécies arbóreas próximas obtém vantagens importantes para a sua lavoura, tais como disponibilidade de água, presença de insetos que polinizam a plantação e de pássaros que controlam pragas e doenças. Foi o que constatou um estudo da Embrapa realizado durante seis anos junto a agricultores assentados da localidade de São José da Boa Morte, no Município de Cachoeiras de Macacu, interior do Rio de Janeiro. As vantagens já foram percebidas com o aumento dos ganhos dos produtores que reduzem a quantidade de insumos aplicados, aumentam a produtividade e ainda podem ter uma nova renda com a venda de produtos das árvores frutíferas introduzidas na lavoura.

O objetivo da pesquisa era transformar práticas produtivas intensivas, conciliando a produção de alimentos com a conservação da biodiversidade e dos fragmentos florestais. O trabalho continuado junto a alguns produtores não só adequou práticas agroecológicas à realidade de suas lavouras, como também comprovou a importância de plantar árvores e de preservar as florestas nativas próximas às plantações. "Ao contrário do que muita gente pensa, o agricultor quer árvores na propriedade, mas ele não quer e nem pode ter extensas áreas plantadas", explica Mariella Uzêda, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia (RJ).

A forma convencional de fazer agricultura durante anos, sem tomar os devidos cuidados, aliada à falta de árvores, transformou as áreas agrícolas em barreiras. Quando próximas aos fragmentos florestais, essas áreas trouxeram algumas consequências para os ambientes naturais. Um deles foi o fenômeno conhecido como efeito de borda, que provoca redução da quantidade de espécies na parte do fragmento florestal que fica mais próxima à área de plantio e se propaga para o seu interior quanto mais intensivo é o sistema produtivo.

Para os cultivos, as consequências também foram observadas. Os pesquisadores constataram, por exemplo, a diminuição e até o desaparecimento de algumas espécies de vespas nas lavouras distantes de fragmentos de floresta ou cercadas por cultivos com uso intensivo de agrotóxico. As vespas em geral habitam áreas naturais e frequentam os cultivos, possuindo um papel importante na polinização de diversas espécies vegetais e são de extrema importância para o controle de insetos-pragas.

A pesquisadora relata que foi preciso levantar os impactos daquele manejo sobre o meio ambiente, mostrá-los para a comunidade e explicar sobre os benefícios que aquela floresta poderia lhes trazer. Os pesquisadores mostraram que a relação com a floresta deveria ser uma espécie de uma troca de benefícios. "Não adianta você descartar a possibilidade de o agricultor produzir ou só obter resultados a longo prazo porque isso não funciona. Procuramos ouvir o que ele gostaria de fazer para reduzir esses impactos", complementa.

Pesquisa participativa

A pesquisa foi baseada em três pilares: o conhecimento da biodiversidade nativa, relacionando-a com o potencial econômico; o estudo das técnicas já existentes para a inserção de árvores na paisagem, relacionando-as aos interesses dos agricultores; e a adaptação das técnicas à realidade do agricultor que não pode deixar de produzir e obter renda.

Segundo a pesquisadora, para manter a biodiversidade e proteger os recursos naturais em fragmentos florestais, é importante que as áreas de cultivos localizadas no seu entorno também sejam manejadas de maneira adequada. Mariella explica que, assim como as vespas, outras espécies da fauna como as abelhas, borboletas e pássaros não estão somente nas matas, mas também circulam pelas lavouras e são agentes de polinização e de controle de pragas e doenças. "A ideia é que a agricultura consiga abrigar a biodiversidade silvestre, assim como os sistemas naturais possam ajudar os sistemas agrícolas", acrescenta.

A ciência tem conhecimento de que quanto mais inóspitas são as lavouras, menos chance de vida e maior perda de biodiversidade. Mas somente o argumento ambiental não é suficiente para convencer o agricultor. E, por isso, o trabalho dos pesquisadores passou também por um período de aproximação com a comunidade. "Foi essa vivência com eles que nos alertou para focarmos no potencial econômico das espécies florestais", conta a pesquisadora.

Nos três últimos anos de projeto, tendo como base os levantamentos florísticos realizados sobre espécies nativas nos fragmentos e a ajuda e conhecimento dos agricultores, os pesquisadores fizeram um estudo etnobotânico das espécies. "Nós procuramos saber como a planta é chamada por eles, se é utilizada para fins madeireiros, uso medicinal ou alimentação, se gosta de sol ou de ambiente encharcado. Então, fomos buscar com o agricultor o que ele conhecia", relata Uzêda. O resultado é uma lista de 80 espécies arbóreas com potencial para serem utilizadas nos diferentes ambientes encontrados na região.

Mais água disponível

Pelo menos vinte agricultores contribuíram para o estudo. Eles adotaram sistemas como cerca viva com gliricídia e espécies nativas, consórcio e sistemas agroflorestais (SAF). Como resultado, conseguiram benefícios como aumento de polinizadores e maior produtividade nas lavouras, assim como melhoria na renda familiar. Além disso, pelo menos dois agricultores afirmam que não têm mais problema com a água das nascentes em suas propriedades.

É o caso de Francisco Araújo. O produtor conta que a nascente sempre secava no inverno, mas, após a implantação do SAF, notou um aumento significativo na água, além de sua constância durante o ano. Araújo diz ainda que percebe uma melhora no ambiente. "Aumentou o número de passarinhos, que comem os carrapatos. O capim fica mais verde nas árvores e no verão, quando o sol queima mesmo, os bezerros ficam melhor na sombra", conta animado.

As melhorias relatadas pelo agricultor passam também pelo aspecto econômico. Com a introdução de árvores frutíferas no SAF, a família, que antes vivia apenas da pequena produção leiteira e da lavoura de hortaliças de caixote (mandioca, milho, quiabo, jiló, berinjela, pimentão e batata), passou a ter um aporte em sua renda. Hoje, o produtor vende frutas na feira local e já pensa em comercializá-las na Central de Abastecimento fluminense (Ceasa-RJ).

A possibilidade de comercializar os frutos das espécies nativas é um fator que tem chamado a atenção dos agricultores. Ary de Matos, por exemplo, salienta que, além de atrair gambás que afastam os urubus das lavouras, o abiu (Pouteria caimito) alcança o preço de R$12,00 a caixa. Com oito pés plantados da fruta no entorno da casa, ele colhe 100 caixas nas duas safras ao ano. Já o agricultor João Batista com apenas dois pés de cajá (Spondias dulcis) colhe semanalmente, no período de safra que vai de janeiro a março, uma quantidade que lhe rende R$500,00 por semana.

Para a pesquisadora da Embrapa, as estratégias escolhidas para introduzir árvores nas propriedades foram bem recebidas porque trabalharam com espécies indicadas a partir do conhecimento tradicional dos produtores. Os agricultores possuem um valioso conhecimento empírico, o que lhes permite dominar demandas climáticas e de solo dessas espécies nativas, aspectos às vezes desconhecidos pela pesquisa científica. "Infelizmente, a fissura existente entre as políticas e a legislação voltadas para as áreas ambientais e agrícolas leva a uma marginalização desse tipo de conhecimento", diz Mariella Uzêda.

A especialista salienta que a adoção de uma agricultura agroecológica e a construção de uma produção orgânica sustentável só é possível com o auxílio da biodiversidade local. "Muitos agricultores familiares que estão inseridos em áreas pobres em vegetação nativa só poderão ter essa opção se transformarem a paisagem onde vivem. Sem dúvida, esse é um esforço hercúleo para a agricultura familiar e necessita de apoio", afirma a pesquisadora.

Os impactos econômicos já são sentidos pelos agricultores, seja com a venda dos novos produtos oriundos dos sistemas agroflorestais ou pela redução dos insumos aplicados em suas lavouras. Os pesquisadores vão iniciar agora uma terceira etapa do projeto que consiste na quantificação desse ganho econômico e na inserção dos produtos em mercados diferenciados.

Cachoeiras de Macacu

Cachoeiras de Macacu foi escolhida para o estudo por ser responsável pelo abastecimento de água de cerca de dois milhões e meio de habitantes na região metropolitana fluminense que habitam os municípios de Itaboraí, São Gonçalo, Niterói e parte dos municípios da região dos lagos. Cercada por uma área de proteção ambiental (unidade de conservação de uso sustentável) e por unidades de conservação de uso restrito como o Parque Estadual dos Três Picos, a cidade sofre com o uso intensivo de insumos, o qual é apontado como um problema para a qualidade ambiental, e principalmente para as nascentes.

Esse estudo tem como parceiros a Embrapa Solos (RJ), que vem realizando o mapeamento das transformações da cobertura vegetal da Bacia Guapi-Macacu e do assentamento, bem como o levantamento de solos; a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que tem trabalhado com o levantamento de pequenos mamíferos e aves na região; e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que vem auxiliando nas avaliações relativas à física do solos e na análise comportamental de vespas. O trabalho também conta com a participação da prefeitura de Cachoeiras de Macacu, por meio das secretarias municipais de Agricultura e Meio Ambiente.