Um texto escrito pelo antropólogo judeu Marcelo Gruman se tornou viral
na internet. Nele, Gruman fala de suas relações com o judaísmo e de como
a sacralização do genocídio judaico estaria abrindo espaço para que
Israel aniquile o povo palestino. No texto, ele clama aos judeus para
que não aceitem mais a matança em seu nome. Leia abaixo:
Não em meu nome
Marcelo Gruman no Brasil 247
Na minha adolescência, tive a oportunidade de visitar Israel por duas
vezes, ambas na primeira metade da década de 1990. Era estudante de uma
escola judaica da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. As viagens foram
organizadas por instituições sionistas, e tinham por intuito apresentar
à juventude diaspórica a realidade daquele Estado formado após o
holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial, e para o qual todo e
qualquer judeu tem o direito de “retornar” caso assim o deseje. Voltar à
terra ancestral. Para as organizações sionistas, ainda que não disposto
a deixar a diáspora, todo e qualquer judeu ao redor do mundo deve
conhecer a “terra prometida”, prestar-lhe solidariedade material ou
simbólica, assim como todo muçulmano deve fazer, pelo menos uma vez na
vida, a peregrinação a Meca. Para muitos jovens judeus, a visita a
Israel é um rito de passagem, assim como para outros o destino é a
Disneylândia.
A equivalência de Israel e Disneylândia tem um motivo. A grande maioria
dos jovens não religiosos e sem interesse por questões políticas
realizam a viagem apenas para se divertir. O roteiro é basicamente o
mesmo: visita ao Muro das Lamentações, com direito a fotos em posição
hipócrita de reza (já viram ateu rezando?), ao Museu da Diáspora, ao
Museu do Holocausto, às Colinas do Golan, ao Deserto do Neguev e a
experiência de tomar um chá com os beduínos, ir ao Mar Morto e boiar na
água sem fazer esforço por conta da altíssima concentração de sal, a
“vivência” de alguns dias num dos kibutzim ainda existentes em Israel e
uma semana num acampamento militar, onde se tem a oportunidade de atirar
com uma arma de verdade. Além, é claro, da interação com jovens de
outros países hospedados no mesmo local. Para variar, brasileiros e
argentinos, esquecendo sua identidade étnica comum, atualizavam a
rivalidade futebolística e travavam uma guerra particular pelas meninas.
Neste quesito, os argentinos davam de goleada, e os brasileiros ficavam
a ver navios.
Minha memória afetiva das duas viagens não é das mais significativas.
Aparte ter conhecido parentes por parte de mãe, a “terra prometida” me
frustrou quando o assunto é a construção de minha identidade judaica.
Achei os israelenses meio grosseiros (dizem que o “sabra”, o israelense
“da gema”, é duro por natureza), a comida é medíocre (o melhor falafel
que comi até hoje foi em Paris...), é tudo muito árido, a sociedade é
militarizada, o serviço militar é compulsório, não existe “excesso de
contingente”. A memória construída apenas sobre o sofrimento começava a
me incomodar.
Nossos guias, jovens talvez dez anos mais velhos do que nós, andavam
armados, o motorista do ônibus andava armado. Um dos nossos passeios foi
em Hebron, cidade da Cisjordânia, em que a estrada era rodeada por
telas para contenção das pedras atiradas pelos palestinos. Em momento
algum os guias se referiram àquele território como “ocupado”, e hoje me
envergonho de ter feito parte, ainda que por poucas horas, deste “finca
pé” em território ilegalmente ocupado. Para piorar, na segunda viagem
quebrei a perna jogando basquete e tive de engessá-la, o que, por outro
lado, me liberou da experiência desagradável de ter de apertar o gatilho
de uma arma, exatamente naquela semana íamos acampar com o exército
israelense.
Sei lá, não me senti tocado por esta realidade, minha fantasia era
outra. Não encontrei minhas raízes no solo desértico do Negev, tampouco
na neve das colinas do Golan. Apesar disso, trouxe na bagagem uma
bandeira de Israel, que coloquei no meu quarto. Muitas vezes meu pai,
judeu ateu, não sionista, me perguntou o porquê daquela bandeira estar
ali, e eu não sabia responder. Hoje eu sei por que ela NÃO DEVERIA estar
ali, porque minha identidade judaica passa pela Europa, pelos vilarejos
judaicos descritos nos contos de Scholem Aleichem, pelo humor judaico
característico daquela parte do mundo, pela comida judaica daquela parte
do mundo, pela música klezmer que os judeus criaram naquela parte do
mundo, pelas estórias que meus avós judeus da Polônia contavam ao redor
da mesa da sala nos incontáveis lanches nas tardes de domingo.
Sou um judeu da diáspora, com muito orgulho. Na verdade, questiono mesmo
este conceito de “diáspora”. Como bem coloca o antropólogo
norte-americano James Clifford, as culturas diaspóricas não necessitam
de uma representação exclusiva e permanente de um “lar original”.
Privilegia-se a multilocalidade dos laços sociais. Diz ele:
As conexões transnacionais que ligam as diásporas não precisam estar
articuladas primariamente através de um lar ancestral real ou simbólico
(...). Descentradas, as conexões laterais [transnacionais] podem ser tão
importantes quanto aquelas formadas ao redor de uma teleologia da
origem/retorno. E a história compartilhada de um deslocamento contínuo,
do sofrimento, adaptação e resistência pode ser tão importante quanto a
projeção de uma origem específica.
Há muita confusão quando se trata de definir o que é judaísmo, ou
melhor, o que é a identidade judaica. A partir da criação do Estado de
Israel, a identidade judaica em qualquer parte do mundo passou a
associar-se, geográfica e simbolicamente, àquele território. A
diversidade cultural interna ao judaísmo foi reduzida a um espaço físico
que é possível percorrer em algumas horas. A submissão a um lugar
físico é a subestimação da capacidade humana de produzir cultura; o
mesmo ocorre, analogamente, aos que defendem a relação inexorável de
negros fora do continente africano com este continente, como se a
cultura passasse literalmente pelo sangue. O que, diga-se de passagem,
só serve aos racialistas e, por tabela, racistas de plantão. Prefiro a
lateralidade de que nos fala Clifford.
Ser judeu não é o mesmo que ser israelense, e nem todo israelense é
judeu, a despeito da cidadania de segunda classe exercida por
árabes-israelenses ou por judeus de pele negra discriminados por seus
pares originários da Europa Central, de pele e olhos claros. Daí que o
exercício da identidade judaica não implica, necessariamente, o
exercício de defesa de toda e qualquer posição do Estado de Israel, seja
em que campo for.
Muito desta falsa equivalência é culpa dos próprios judeus da
“diáspora”, que se alinham imediatamente aos ditames das políticas
interna e externa israelense, acríticos, crentes de que tudo que parta
do Knesset (o parlamento israelense) é “bom para os judeus”, amém.
Muitos judeus diaspóricos se interessam mais pelo que acontece no
Oriente Médio do que no seu cotidiano. Veja-se, por exemplo, o número
ínfimo de cartas de leitores judeus em jornais de grande circulação,
como O Globo, quando o assunto tratado é a corrupção ou violência
endêmica em nosso país, em comparação às indefectíveis cartas de
leitores judeus em defesa das ações militaristas israelenses nos
territórios ocupados. Seria o complexo de gueto falando mais alto?
Não preciso de Israel para ser judeu e não acredito que a existência no
presente e no futuro de nós, judeus, dependa da existência de um Estado
judeu, argumento utilizado por muitos que defendem a defesa militar
israelense por quaisquer meios, que justificam o fim. Não aceito a
justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial é o
exemplo claro de que apenas um lar nacional única e exclusivamente
judaico seja capaz de proteger a etnia da extinção.
A dor vivida pelos judeus, na visão etnocêntrica, reproduzida nas
gerações futuras através de narrativas e monumentos, é incomensurável e
acima de qualquer dor que outro grupo étnico possa ter sofrido, e
justifica qualquer ação que sirva para protegê-los de uma nova tragédia.
Certa vez, ouvi de um sobrevivente de campo de concentração que não há
comparação entre o genocídio judaico e os genocídios praticados
atualmente nos países africanos, por exemplo, em Ruanda, onde tutsis e
hutus se digladiaram sob as vistas grossas das ex-potências coloniais.
Como este senhor ousa qualificar o sofrimento alheio? Será pelo número
mágico? Seis milhões? O genial Woody Allen coloca bem a questão, num
diálogo de Desconstruindo Harry (tradução livre):
- Você se importa com o Holocausto ou acha que ele não existiu?
- Não, só eu sei que perdemos seis milhões, mas o mais apavorante é saber que recordes são feitos para serem quebrados.
O holocausto judaico não é inexplicável, e não é explicável pela maldade
latente dos alemães. Sem dúvida, o componente antissemita estava
presente, mas, conforme demonstrado por diversos pensadores
contemporâneos, dentre os quais insuspeitos judeus (seriam judeus
antissemitas Hannah Arendt, Raul Hilberg e Zygmunt Bauman?), uma série
de características do massacre está relacionada à Modernidade, à
burocratização do Estado e à “industrialização da morte”, sofrida também
por dirigentes políticos, doentes mentais, ciganos, eslavos,
“subversivos” de um modo geral. Práticas sociais genocidas, conforme
descritas pelo sociólogo argentino Daniel Feierstein (outro judeu
antissemita?), estão presentes tanto na Segunda Guerra Mundial quanto
durante o Processo de Reorganização Nacional imposto pela ditadura
argentina a partir de 1976. Genocídio é genocídio, e ponto final.
A sacralização do genocídio judaico permite ações que vemos atualmente
na televisão, o esmagamento da população palestina em Gaza, transformada
em campo de concentração, isolada do resto do mundo. Destruição da
infraestrutura, de milhares de casas, a morte de centenas de civis,
famílias destroçadas, crianças torturadas em interrogatórios ilegais
conforme descrito por advogados israelenses. Não, não são a exceção, não
são o efeito colateral de uma guerra suja. São vítimas, sim, de
práticas sociais genocidas, que visam, no final do processo, ao
aniquilamento físico do grupo.
Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O exército israelense não
me representa, o governo ultranacionalista não me representa. Os
assentados ilegalmente são meus inimigos.
Eu, judeu brasileiro, digo: ACABEM COM A OCUPAÇÃO!!!
* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Tempos modernos - o restaurante
pescado no sitio Awebic
Dizem que o sucesso de um restaurante se deve muito a forma como tratam seus clientes e, ainda mais importante, a forma como esses enxergam a oferta de serviços.
Hoje reproduzimos uma história sobre como um estabelecimento tradicional descobriu um fato não só sobre seus clientes, mas sobre a sociedade moderna.
Um restaurante famoso em Nova Iorque decidiu contratar uma empresa de consultoria para entender o porque seus clientes continuavam a mostrar insatisfação com o atendimento, e o que a empresa descobriu é bastante interessante.
Abaixo está uma transcrição divulgada pelo restaurante após a descoberta.
Genocídio em Gaza - as mãos ensanguentadas do jornalismo ocidental
Durante sua devastadora campanha aérea contra a Sérvia, a OTAN e os EUA bombardearam estações de TV e de rádio que existiam no país. A justificativa dada para atacar alvos civis foi absolutamente singela: as empresas de comunicação ajudavam a sustentar o regime infame de Radovan Karadžić que estava movendo uma guerra de conquista territorial mediante limpeza étnica.
Gaza tem sido diariamente bombardeada por Israel. Mais de mil de civis foram mortos, centenas de crianças inocentes tiveram suas vidas ceifadas em virtude de terem cometido apenas um crime: nascer em Gaza de pais palestinos. A Reuters e outras fábricas de consenso que ajudam a formatar a opinião global sobre o conflito geralmente justificam o "ponto de vista" israelense.
Quando não minimizam as baixas entre civis palestinos dizendo que os mortos e mutilados são "danos colaterais", os jornalistas culpam o Hamas por ter atacado Israel autorizando o país a contra-atacar. Os dois lados são tratados como se fossem iguais, muito embora Israel tenha centenas de aviões e tanques de guerra e Gaza não tenha nem mesmo armamentos para repelir os sofisticados e devastadores ataques mecanizados israelenses.
Apenas para exemplificar o modo de operar da mídia brasileira em favor de Israel citarei o caso do Jornal da Gazeta. Hoje o telejornal informou que bombas de israelenses caíram numa usina de energia elétrica de Gaza deixando os palestinos sem eletricidade. Disse também que o Hamas disparou mísseis contra alvos em Israel. O foco da matéria em relação aos palestinos foi a intenção do Hamas (chamado de grupo terrorista) de atingir alvos israelenses, mas a intenção de Israel de deixar quase toda população de Gaza sem eletricidade é disfarçada pelo discurso jornalístico. Ao dizer que "bombas israelenses caíram" na usina de energia o Jornal da Gazeta sugeriu ao respeitável público que isto pode ter ocorrido por acidente (o que evidentemente é um absurdo, pois Israel está usando armamentos precisos e sofisticados made in USA).
O jornalismo sérvio foi considerado culpado por ter ajudado Radovan Karadžić . Quem culpará o jornalismo ocidental por ajudar Israel a produzir um genocídio infantil em Gaza? Esta pergunta nem mesmo é feita. Nada do que os jornalistas ocidentais façam pode ser considerado crime. Eles ajudaram os EUA a invadir o Iraque repercutindo as mentiras contadas pelos habitantes da Casa Branca e do Pentágono sobre as "armas de destruição em massa" de Saddan Hussein. E não foram responsabilizados por terem tocado os tambores de guerra para justificar a injusta agressão militar norte-americana.
Fomos enganados, disseram alguns jornalistas depois que ficou provado que o Iraque havia desmantelado completamente seus programas de "armas de destruição em massa" 4 ou 5 anos antes da invasão comandada por George W. Bush Jr. e sua quadrilha de assessores igualmente mentirosos. Centenas de milhares de iraquianos foram mortos e mutilados desde 2003. A tortura se tornou uma realidade fotográfica compartilhada na internet pelos próprios torturadores. Os jornalistas norte-americanos fizeram um acanhado mea culpa e foram receber seus cheques gordos no final do mês como se não tivessem cometido qualquer crime.
Neste exato momento os jornalistas europeus, norte-americanos e alguns de seus colegas brasileiros estão ajudando Israel a transformar Gaza em um monte de entulhos e corpos despedaçados. Eles estão lavando as mãos, sim. Mas fazem isto em bacias cheias de sangue infantil. E nem sentem vergonha quando, nos telejornais diários, culpam os palestinos por serem vítimas de crimes de guerra. Os jornalistas sérvios fizeram o mesmo e pagaram caro. Antes deles, os jornalistas nazistas fizeram algo parecido e também foram impiedosamente bombardeados. O nazijornalismo ocidental, contudo, parece determinado a seguir em frente, fomentando guerras não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU como se isto fosse algo bom, belo e justo.
Hoje a Reuters anunciou no seu Twitter uma reportagem especial sobre a origem das armas utilizadas pelos rebeldes russos na Ucrânia. Nada dirá sobre a origem das armas que Israel utiliza para despedaçar crianças em Gaza? Esta omissão me parece deliberada, pois os F-16 e as bombas e mísseis que eles despejam sobre civis palestinos são made in USA. Os tanques de guerra israelenses que disparam constantemente contra as casas dos palestinos em Gaza também não são fabricados na Rússia.
*****
Quando não estão ajudando Israel a destruir Gaza, os nazijornalistas europeus, norte-americanos e brasileiros acusam a Rússia de ter derrubado um avião de passageiro na Ucrânia. Eles fazem isto para desviar a atenção do respeitável público do único fato relevante: eles mesmos estão com as mãos ensanguentadas porque ajudam os israelenses a cometer crimes de guerra.
NOTA DOS ÍNDIOS AQUI
A Globo não divulga mais o numero de crianças palestinas mortas, simplesmente fala que uma escola da ONU foi bombardeada e deixa a noticia solta, como coisa de sómenor importância, que talvez tivesse sido engano, ou "danos colaterais", como os outros PIGs... Triste!...
segunda-feira, 28 de julho de 2014
O genocídio em Gaza
Por Thalif Deen, da IPS/Envolverde
O esmagador poder de fogo israelense despejado sobre o movimento armado palestino Hamas no conflito atual em Gaza recorda a guerra da independência da Argélia (1954-1962), quando a França, a potência colonizadora, utilizou sua superioridade militar para atacar a insurgência. Enquanto a força área francesa lançava napalm sobre a população civil no campo, os argelinos recorriam a bombas artesanais escondidas nas bolsas das mulheres que eram deixadas em cafés, restaurantes e lugares públicos frequentados pelos franceses.
Em uma das cenas memoráveis do clássico filme de 1967, A Batalha de Argel, o líder da Frente de Libertação Nacional, Ben M’Hidi, é interrogado por um grupo de jornalistas franceses extremamente parciais. “Não considera que é um pouco covarde usar bolsas e cestas de mulheres para levar os artefatos explosivos que matam tanta gente inocente?”, perguntavam ao líder argelino algemado. “E não lhe parece ainda mais covarde jogar bombas de napalm sobre gente indefesa, que causam mil vezes mais vítimas inocentes?”, respondeu M’Hidi, acrescentando: “Naturalmente, se tivéssemos seus aviões de combate seria muito mais fácil para nós. Nos deem seus bombardeiros e fiquem com nossas bolsas e cestas”.
No atual conflito em Gaza, uma inversão de papéis encontraria o movimento islâmico Hamas armado com aviões de combate, mísseis ar-ar e tanques, enquanto Israel responderia apenas com foguetes de fabricação caseira. Mas, na realidade, o Hamas está totalmente superado em sua luta contra um dos poderes militares mais formidáveis e sofisticados do mundo, cujos equipamentos de última geração chegam gratuitamente dos Estados Unidos, mediante o chamado financiamento militar estrangeiro (FMF).
Segundo os últimos dados, o conflito que começou no dia 8 custou a vida de mais de 620 palestinos, em sua maioria civis, entre eles pelo menos 230 mulheres e crianças, e deixou mais de 3.700 feridos. Do lado israelense houve 27 soldados e dois civis mortos.
“É impossível imaginar a desproporção absoluta de poderes neste conflito, salvo para quem esteve na rua diante das tropas israelenses em Gaza, ou tenha dormido no chão sob um ataque aéreo, como fiz várias vezes, enquanto entregava ajuda em 1989, 2000 e 2009”, afirmou James E. Jennings, presidente da Consciência Internacional e diretor da organização Acadêmicos dos Estados Unidos pela Paz.
“Vi jovens que simplesmente fugiam baleados pelas costas por soldados israelenses equipados com subfuzis Uzi e uniformes blindados, e em 2009 e 2012 fui testemunha em Rafha da superioridade tecnológica de Israel na coordenação de sofisticados computadores, aviões não tripulados e caças F-15”, acrescentou Jennings. Os reiterados bombardeios apontam para os jovens que utilizam túneis para levar alimentos e remédios à população presa pelo embargo em Gaza, mas também atacam civis indefesos que fogem das hostilidades, destacou.
“Em meu trabalho visitei mulheres e crianças feridas nos hospitais de Rafah e na cidade de Gaza e ajudei a transportar cadáveres para seu enterro”, acrescentou Jennings. “É como atirar em peixes em um barril”, prosseguiu, em uma analogia para esta situação de capacidades militares tão assimétricas.
Os dados estatísticos evidenciam a ineficácia dos foguetes Qassam de fabricação caseira que o Hamas dispara, já que após mais de dois mil lançamentos apenas dois civis morreram do lado israelense. “É muito menos do que os oito norte-americanos mortos acidentalmente em 2013 vítimas de fogos de artifício nas comemorações do 4 de julho”, dia da independência dos Estados Unidos, destacou Jennings.
As armas norte-americanas no valor de milhares de milhões de dólares em poder de Israel foram adquiridas com subvenções não reintegráveis do FMF, segundo especialistas em defesa. Israel receberá um total de US$ 30 bilhões em ajuda militar de Washington nos dez anos transcorridos entre 2009 e 2018. O Serviço de Investigação do Congresso norte-americano indica que Israel é o maior receptor da FMF dos Estados Unidos, já que em 2015 receberá 55% do desembolso total dos subsídios de Washington no mundo. Essa quantia representa entre 23% e 25% do orçamento militar anual israelense.
Nicole Auger, analista militar que cobre Oriente Médio e África para a Forecast International, consultoria em assuntos de defesa, apontou à IPS que Israel importa quase todo seu arsenal dos Estados Unidos. Segundo ela, a prioridade de Israel é manter a superioridade aérea diante dos vizinhos da região, acima do poderio terrestre. Israel fez um pedido adicional de caças F-15I que se somarão aos 25 F-15ls (Ra’ams) de longo alcance que a Força Aérea Israelense já possui, junto com 102 F-16I (Soufas) de combate polivalente, acrescentou a especialista.
O arsenal militar de Israel também inclui dezenas de helicópteros de ataque, como o Sikorsky CH-53, recentemente equipado com o sistema de proteção IAI Elta Systems EL/M-2160, que detecta mísseis com radar e ativa medidas para desviá-los. Também atualizou sua frota de helicópteros de ataque Cobra AH-1E/F/G/S da Bell e Apache AH-64A da Boeing. Para sua defesa conta com a última versão do sistema antimísseis Patriot, PAC 3, e também possui bombas guiadas por laser Paveway, bombas de penetração BLU-109 e munições antibunquer GBU-28.
Jennings explicou à IPS os fatos que os meios de comunicação não costumam recordar ao cobrir a guerra entre Israel e Gaza. O direito à legítima defesa, defendido por Israel e seus aliados em Washington, nunca é mencionado com relação ao ocorrido em 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e de seu território para serem trancados na maior prisão do mundo que é Gaza.
Em segundo lugar, o mundo mantém silêncio enquanto Israel, com a cumplicidade dos Estados Unidos e do Egito, sufoca os 1,7 milhão de habitantes de Gaza com um cordão sanitário brutalmente efetivo, o embargo quase total de bens e serviços, que em grande parte limita a existência de alimentos e medicamentos. “Estes são crimes de guerra, violações contínuas do direito internacional humanitário perpetuado durante os últimos sete anos, enquanto o mundo desvia o olhar”, enfatizou Jennings.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Aécio e sua “bolsa família”: Parasitismo estatal para si, liberalismo para os outros
por Luis Carlos da Silva, no Viomundo
Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.
Mas, entremos no clima por ele proposto.
Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.
Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.
Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes . Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.
No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.
Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.
O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando, em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954, “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.
Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.
Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.
Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Esse é o judiciário Tupinambá
por Luis Nassif, em seu blog
O Ministro Luiz Fux protagonizou o mais vergonhoso episódio da história recente da Justiça brasileira. Com seu "mato no peito" desnudou o jogo de interesses e de lisonja que cerca as nomeações para tribunais superiores.
Na nomeação, o que pesou foi a a trapaça, os acordos com aliados influentes, de políticos federais e estaduais a grandes escritórios de advocacia.
Sua nomeação - fundamentalmente política - alijou do cargo outro candidato que poderia ter sido Ministro por mérito. Adiou a indicação de Teori Zvaski e Luiz Roberto Barroso, impediu a nomeação de Lucia Valle ou Cesar Asfora, de outros candidatos que construíram sua reputação manifestando respeito permanente pelo poder judiciário e batalhando apenas pelo reconhecimento de seus pares.
Fux passou a encarnar o fura-fila, a malandragem explícita dos carreiristas. Passou a perna não apenas nem Lula e Dirceu - ao prometer "matar no peito" - mas a outros candidatos ao cargo que se mantiveram dignos e distantes da politicagem rasteira.
Agora, a indicação de sua filha Mariana Fux para uma das vagas do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro será o coroamento definitivo da pior politicagem, a exposição completa da pequenez dos conchavos de quem não respeita nem o país e muito menos o Poder Judiciário. E exposição da própria incapacidade do Judiciário, através de seus porta-vozes, de reagir contra a desmoralização do poder.
Uma moça de 32 anos, sem experiência jurídica, sem nenhuma obra relevante, candidata-se a um cargo vitalício em um Tribunal superior unicamente devido à capacidade de articulação política de seu pai. A OAB-Rio de Janeiro a coloca no topo da lista dos candidatos ao quinto constitucional.
Qual a contrapartida dessa manobra? A quem a OAB Rio serve, quando comete esse desatino?
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