* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

sábado, 11 de maio de 2013

O caso Osama – a declaração de Benazir Bhutto

REPUBLICAÇÃO DE UM POST DE ABRIL DE 2011 - atualizado pelo fato de o video original  ter sido retirado do VocêTuba mas agora encontrei outra versão em outro endereço.


O vídeo abaixo é de uma entrevista concedida por Benazir Bhutto à rede de TV Al-Jazeera em 02 de novembro de 2007, menos de dois meses antes de ela própria ter sido assassinada, dia 27 de dezembro daquele ano.




No minuto 2:17 ela declara que Osama Bin Laden foi assassinado por Omar Sheikh, mas não dá nenhuma referencia adicional ao que teria acontecido. A BBC também veiculou essa entrevista depois da morte dela, em janeiro de 2008, mas editou a matéria e eliminou a parte em que ela declara que Bin Laden estaria morto.

Mas quem é esse Omar Sheikh? Uma descrição completa sobre esse personagem (em inglês) pode ser vista aqui, mas também vou colocar as principais partes neste post para facilitar a vida dos leitores deste blog botocudo.

O nome completo de Omar Sheikh é Ahmed Omar Said Sheikh, o que não melhora nada, não é mesmo?... Eita!... É um dos lideres do movimento ativista islâmico Harkat-ul-Mujahideen que opera no Paquistão (e as vezes no Afganistão e na Índia) desde a década de 1980. Em 1999 estava preso, capturado que fora pela ISI (serviço de espionagem paquistanês – similar à CIA) e foi libertado em troca de um rico industrial indiano do ramo calçadista que havia sido seqüestrado por extremistas do grupo de Sheikh. Algumas fontes dão conta que Omar Sheikh seria ele próprio um agente do serviço secreto ISI do Paquistão.
A Omar Sheikh também é atribuído o envio de US$ 100 mil a Mohammad Atta, um dos seqüestradores dos aviões que atingiram o WTC em Nova York em 9 de setembro de 2001. Isso teria ocorrido em agosto de 2001. Não há unanimidade na veracidade deste fato.

Em fevereiro de 2002 foi acusado e condenado pela morte do jornalista americano Daniel Pearl, do Wall Street Journal. Sua sentença, a pedido publico pessoal do ditador paquistanês Pervez Musharraf, foi a pena capital. Qual a razão disso?

Vamos destrinchar melhor isso tudo:

Existe mais duas versões da morte de Bin Laden anteriores. A primeira é de que teria ocorrido em dezembro de 2001. Isso foi veiculado em 26 de dezembro de 2001 por um jornal egípcio chamado Al Fafd, depois também publicado na imprensa do Paquistão (The Observer of Pakistan) e discutida inclusive na FoxNews nos EUA. O serviço secreto de Israel também divulgou nota de que Osama bin Laden foi morto durante operações militares no Afganistão em dezembro de 2001.

A segunda versão de morte anterior do líder da Al-Qaeda e menos verossímil, anunciado por um jornal francês de que Bin Laden teria morrido em agosto de 2006, de febre tifóide, o que claro, nunca se confirmou.

Vale lembrar que a ultima declaração verdadeira de Osama Bin Laden que se conhece é de 25 de novembro de 2001. Em 15 de dezembro daquele ano o serviço secreto americano declara ter interceptado a voz de Bin Laden no radio de ondas curtas, o que parece que também foi confirmado por serviços militares de outros países. Depois disso nenhuma declaração atribuída ao líder da Al-Qaeda é incontestável.

Entre dezembro de 2001 e fevereiro de 2002 varias autoridades americanas, entre elas o próprio presidente Bush e o vice Dick Cheney, deixaram entender que Bin Laden estaria morto e declaram diversas ocasiões que “não era mais uma ameaça”.

O jornalista Daniel Pearl estava investigando coisas cabeludas no Paquistão e Afganistão, entre as quais o envolvimento da ISI (serviço secreto paquistanês – só para lembrar) com o Al-Qaeda e ainda o grupo Harkat-ul-Mujahideen, quando foi seqüestrado e depois apareceu morto, decapitado. Isso ocorreu entre o mesmo dezembro de 2001 e fevereiro de 2002. Antes que seu corpo fosse encontrado, em 05 de fevereiro de 2002 Omar Sheikh se entregou ao ISI, mas este o manteve incomunicável por um mês antes de entrega-lo à autoridades policiais e governamentais. Até hoje não se sabe o que aconteceu naquele mês em que ficou nas mãos do serviço secreto paquistanês.

Depois Omar Sheikh foi julgado pelo assassinato do jornalista americano, mas nem mesmo a esposa deste, Marianne Pearl, se convenceu de que Sheikh fosse culpado pelo crime. Diversos porta vozes do governo americano declararam ao jornal britânico The Guardian na época, que era apenas um bode expiatório. Em março de 2007 foi divulgado que o verdadeiro assassino de Daniel Pearl era Khalid Sheikh Mohammad, a quem o governo americano atribui sendo o mentor operacional do atentado de 11 de setembro, agora preso em Guantánamo, em Cuba. Este teria confessado o assassinato, mas a família do jornalista declarou também não acreditar nessa versão, uma vez que teria sido obtida sob tortura.

A despeito de ter sido condenado à morte pelo assassinato de Daniel Pearl, até hoje (2011) Omar Sheikh não foi executado e continua sob custódia do governo paquistanês. Agora sobram algumas perguntas não respondidas:


  • Daniel Pearl poderia ter descoberto da morte de Osama bin Laden em dezembro de 2001? 
  • Se Omar Sheikh matou Osama bin Laden, isso explica que tenha sido acusado falsamente de ter decapitado o jornalista Pearl? 
  • O que a CIA e o governo americano sabem a respeito da morte de Daniel Pearl? 
  • Haveria um aliança sinistra entre a CIA, o ISI, a Al-Qaeda e o movimento islâmico Harkat-ul-Mujahideen?

Certamente a declaração de Benazir Bhutto não foi acompanhada de confirmações e pode ser incorreta, mas temos que lembrar que foi Primeira Ministro (ou Primeiro Ministra?) do Paquistão duas vezes e sem duvida era mais bem informada do que qualquer jornalista, principalmente jornalistas americanos ou trabalhando a soldo da imprensa yankee.

Então é a palavra dela contra as do governo americano, da CIA, do governo do ditador Pervez Musharraf e de toda a imprensa alinhada dos EUA. Em quem vocês acreditam preferencialmente?

Enquanto isso a ancora(?) do Jornal Hoje, da Globosta aqui na nossa Pindorama, pergunta ao enviado especial ao Paquistão: “Losekan: Qual é o "clima" ai em Islamabad com a morte do terrorista mais procurado do planeta?”.... (????) Vixe... estamos bem!?...



Mais um enigma: meterão os irmãos "du North" a mão na cumbuca na Siria?...


por José Inacio Werneck, no Direto da Redação

Eles não se emendam. Enquanto o governo Barack Obama faz o possível para por um fim definitivo aos envolvimentos militares no Afeganistão e no Iraque e tenta também uma solução que acabe com a ilegalidade das detenções ilimitadas em Guantánamo, os falcões da direita querem a todo custo enredar o país na Síria.

À frente deles, o neo-con Paul Wolfowitz, o teórico da invasão do Iraque, sob a alegação de que Saddam Hussein estava de posse de armas de destruição em massa, inclusive atômicas. Como coadjuvane principal, o senador John McCain, ex-prisioneiro no Vietnã que parece querer vingar-se de sua trágica experiência pessoal em guerras intermináveis contra qualquer país e qualquer regime que ele considere “anti-americano”.

Na verdade, é impossível dizer no conflito na Síria que lado se alinharia mais com os interesses dos Estados Unidos. Os falcões republicanos querem forçar a mão de Obama, lembrando-lhe a frase por ele dita há algum tempo de que o uso de armas químicas por parte do regime de Assad seria uma “linha vermelha” que os Estados Unidos não tolerariam.

Foi uma frase imprudente que evidentemente levou os rebeldes sírios a alegarem que Assad (foto) efetivamente estava usando armas químicas. Três questões porém ficaram no ar, permitindo a Obama uma ao menos temporária retirada estratégica. Que provas existem de que as armas químicas foram usadas? Se foram usadas, quem tem certeza de quem realmente as usou? Por último, e talvez mais importante: quem são os rebeldes sírios?

A terceira pergunta é de resposta impossível, pois a oposição síria não tem líderes incontestes nem ideologia definida, já para não dizer que no campo religioso ela tampouco mostra unidade. Como muitos outros países árabes anteriormente dominados por europeus, a Síria é uma grande mistura de etnias e facções espirituais muitas vezes inconciliáveis e prisioneiras de fronteiras arbitrariamente traçadas.

A família Assad representa a facção alauíta, um ramo dos shias, representada também no Líbano e na Turquia. Na Síria propriamente dita há etnias e seitas que vão desde os drusos aos cristãos, curdos, armênios, turcos, os antigos assírios, com uma civilização que remonta a 10.000 anos A.C., e sunis. Estes últimos, inimigos mortais dos shias e dos alauítas, são, não obstante, a maioria da população.

Diante de tal miscelânea, não é de surpreender que tanto Hafez al-Assad quanto seu filho Bashar tenham recorrido a uma mão de ferro para controlar o país. A família Assad cairá agora? É provável, mas não garantido.

Mas e depois dela, quem virá? As forças de oposição se dividem entre o “Exército Livre da Síria”, a Frente Al-Nusra e o Coalisão Nacional Síria, que de coalisão pouco ou nada tem. A experiência da “primavera árabe” em outros países no Oriente Médio não primou até agora nem por uma clareza de rumos nem por uma boa governança.

Ao fundo, paira o Irã, já para não falar da presença do Hezbollah no Líbiano e do permanente impasse entre a Palestina e Israel. O Paquistão e outros países também fervilham com insurreições muçulmanas.

Com um mínimo de bom senso, Barack Obama pensará não apenas uma, mas duas, três, mil vezes antes de meter a mão nesta cumbuca.

NOTA DOS ÍNDIOS AQUI

Nada de novo sob o sol!... a Síria será a nova Líbia  que depois restará uma mixordia caótica em termos de governança, como o autor do texto inclusive ventila, mas tudo é uma preparação para a verdadeira cereja do bolo que é o Irã, objetivo da sanha por sangue de Israel e já se resolvem todos os problemas: é o petróleo, imbecis!...

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O maravilhoso preconceito Catarineta - Século XIX








por Mariana Luiza de Oliveira (*)


O Império brasileiro, a partir da segunda metade do século XIX, foi marcado por correntes científicas, que naquele período ganhavam aceitação mundial, tais como os estudos raciais, o positivismo e o darwinismo social. Dentro desta conjuntura, o Brasil começava a sofrer certa pressão internacional por ainda manter sua base de produção no sistema escravista, que conseqüentemente, fazia com que a população brasileira em sua maioria fosse negra ou mestiça.

Essa composição majoritária da população brasileira era vista pelo Império através da visão preconceituosa e racista do século XIX e passava a ser motivo de inquietação para o governo, porque de acordo com o darwinismo social o Brasil estaria fadado ao fracasso, pois os habitantes do país, em geral, eram considerados inferiores.

A solução era fazer chegar ao Brasil um grupo de indivíduos brancos, europeus, civilizados, ordeiros, que contribuiriam para o sucesso desenvolvimentista do país. Em suma, foi o racismo do século XIX o motivador da imigração branca para as terras do Brasil.

O governo imperial abriu as portas da nação para a entrada de imigrantes que voluntariamente se dirigiam ao país. O termo grifado se faz necessário, pois, como se notou no primeiro capítulo (*), no Brasil não houve uma consistente política imigratória.

Na falta de um sistema administrativo imperial que voltasse suas tarefas para a imigração, o governo optou por construir uma imagem representativa que dava a entender que no país havia uma carência de mão-de-obra, o que acarretava na divulgação do Brasil no exterior como uma nação necessitada do braço trabalhador europeu. No entanto, a situação interna brasileira era outra, não havia falta de trabalhadores, na realidade existia uma grande parcela da população local – mestiça ou negra – disponível ao trabalho, mas devido aos estudos raciais da época, esta camada da população era descartada como mão-de-obra, por ser considerada inferior. Esta conjuntura releva todo o mecanismo elaborado pelo império para branquear a população.

Neste mesmo período, oportunamente, surgiram na Europa as Exposições Universais, ocasião em que o Império brasileiro ganhou certo espaço para se apresentar, não no sentido de demonstrar suas características de sociedade escravocrata e agrícola, mas com a intenção de ser considerado um país voltado ao progresso e à civilização.

No ano de 1867, a Colônia Blumenau foi premiada na Exposição Universal da França, devido ao “vigoroso desenvolvimento” que a Colônia Blumenau estava trilhando. Mas cabe salientar, que este desenvolvimento se tornou conhecido na Exposição devido a um folheto que Hermann Blumenau havia elaborado. Tal documento, escrito pelo próprio diretor da colônia, foi o legitimador de uma história positivada de Blumenau,
que ao analisar o individuo que o produziu fica evidente uma tendência de representação progressista da Colônia Blumenau, que, inclusive, entrava de acordo com os interesses do Império. Afinal, a participação de Hermann Blumenau foi um ato planejado pelo Império nesta Exposição, assim como, o ato de expor a Colônia Blumenau na Europa também foi um elemento esquematizado pelo Império com a finalidade de mostrar no exterior que o Brasil também era habitado por brancos, local onde o progresso também acontecia, isto é, a tentativa de afastar da imagem brasileira do exotismo e do selvagem.

No entanto, quando os imigrantes chegavam ao espaço colonial de Blumenau demonstravam certa frustração ao encarar a concreta situação da colônia e do país, o desapontamento dos recém-chegados se dava diante da realidade colonial que lentamente alcançava o tão esperado progresso e a civilidade.

Ao questionar a Colônia Blumenau como um lugar de progresso, harmonia e civilidade, é preciso revelar como isto ocorria no aspecto social, que igualmente não foi tão harmonioso como a história tradicional leva a crer. A existência de diferentes grupos sociais na colônia geralmente é negada para legitimar a história de Blumenau relacionando-a apenas aos povos germânicos. Para isto houve um silenciamento de muitos indivíduos, como é o caso da população luso-brasileira, ou ainda do escravo
Camillo e da escrava Rita, que representam um grupo maior, a população negra.

Hermann Blumenau tendia a enaltecer as famílias alemãs e, em função da ética protestante, atribuía-lhes características como esperteza e racionalidade ao lidar com as despesas domésticas. Em contrapartida, os outros grupos étnicos eram marginalizados, principalmente os italianos, que para o diretor da Colônia eram elementos um tanto quanto inconseqüentes, irresponsáveis e preguiçosos.

Os preconceitos morais com que Dr. Blumenau regia administrativamente a
Colônia Blumenau acabavam por favorecer alguns e, ao mesmo tempo, gerava a exclusão de outros. E devido ao poder que Hermann Blumenau tinha em suas mãos, ele se apropriava de sua posição de diretor para impor a ordem e a civilidade a toda a
Colônia conforme lhe parecia adequado. Em função disto, Hermann Blumenau gerou uma segregação espacial na colônia entre italianos e alemães, condicionando os primeiros a se estabeleceram na colônia em lugares bastante afastados da sede administrativa.

Neste processo de imposição da ordem na Colônia outros indivíduos foram prejudicados, como é o caso dos solteiros, que não eram bem vistos pelo diretor, que chegava a aconselhá-los a não migrarem para a Colônia Blumenau, pois este espaço era mais propício a famílias. A justificação para esta restrição com relação aos solteiros era devido ao árduo trabalho agrícola da colônia, isto é, na visão do Dr. Blumenau uma pessoa solteira tendia a ser improdutiva, já uma família, composta por um maior número de pessoas, tendia a ser mais bem sucedida.

Esta visão pré-concebida de Hermann Blumenau negava aos solteiros muitas oportunidades dentro da colônia, pois evita-se ao máximo vender terras a eles ou ajudá-los com alguns subsídios. Isto acaba demonstrando como a categoria trabalho gerava uma dignificação em torno do colono, que poderia render-lhes atributos morais ou, no caso dos solteiros, dificultar sua inserção no ambiente colonial. Essa questão do trabalho também levava indivíduos inativos ou improdutivos a serem considerados como vagabundos. A idéia de trabalho como elemento dignificador do ser humano era uma concepção compartilhada por muitos do século XIX, tanto que o ócio era considerado crime, de acordo com os artigos 36 e 37 do Decreto Nº 3784 do Regulamento para as Colônias do Estado.

Esta regulamentação foi tomada como indicativo de como o governo provincial e imperial buscavam impor à ordem na sociedade brasileira, sendo que este ato se dava pelo viés do positivismo, isto é, ao impor a ordem seria possível chegar ao progresso. E por Hermann Blumenau partilhar esta concepção, em 1864, apresentou um projeto com algumas posturas para a Câmara Municipal de Itajaí. Embora sua intenção não tenha vingado, sua proposta à Câmara já é uma intenção que merece análise. Tal projeto era uma tentativa de impor a ordem a uma Colônia que estava crescendo, que a cada dia estava sendo permeada por mais conflitos, criminosos, vagabundos, enfim, que a cada momento se configurava mais heterogênea. Desta forma, o fato de Hermann Blumenau ter concebido este projeto desconstrói a imagem representativa da Colônia Blumenau como um espaço harmonioso e tranqüilo, como a historiografia tradicional tenta assegurar.


(*) excerto de Trabalho de Conclusão de Curso de História do Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da Universidade Regional de Blumenau, pode ser acessado na integra aqui

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O misterioso caso da noite escura - A questão dos médicos cubanos (parte 2)




por Pedro Saraiva, no blog do Nassif


Sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil
Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.
- O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.
- Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.
- Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato). A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.
- Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade. 
Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros? 
Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China? O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros? 
- Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ. 
Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação. Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram. Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provas. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.
Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil. 
- Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra. Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil. 
- É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico. Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226). 
- Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).
- Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!
Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreia, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.
Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Médicos de Cuba na Pindorama... isso vai resolver?...


por David Nordon, no Diário do Centro do Mundo

O governo negocia com Cuba um acordo para trazer 6 mil médicos ao país, que atuariam em regiões carentes de assistência médica, mas por que não utilizar nossos próprios profissionais na missão? Entenda o caso.
Legenda
Como será feita a revalidação deles? Afinal, nosso exame medicinal é mais duro que a OAB
Desde janeiro de 2012, o governo está estudando uma proposta de “importar” médicos de outros países para trabalharem em locais do Brasil pelos quais os nossos médicos não se interessam. E, ontem, o ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores, afirmou que o país negocia com Cuba um acordo para trazer 6 mil médicos, que trabalhariam em regiões pobres onde a assistência média é deficiente.
A ideia seria razoavelmente interessante; o Brasil é um país grande, aliás, enorme. Em números absolutos, de acordo com parâmetros internacionais, há falta de profissionais médicos, em especial quando se observa a distribuição por estados – havendo uma concentração maior nos estados do sul e sudeste, e menor nos estados do norte e nordeste. É uma consequência de um país que ainda está em desenvolvimento. Trazer profissionais de fora poderia suprir esta demanda. Contudo, esta é a solução mais acertada?
A revista Ser Médico, do Cremesp, publicou recentemente uma extensa reportagem sobre a qualidade das faculdades de medicina na Bolívia. Lá, bastava você se inscrever para, por uma bagatela de 300 dólares ao mês (uma faculdade particular aqui no Brasil custa entre 7 e 10 vezes isso), aprender medicina, sem pré-requisitos básicos como processo seletivo ou saber falar espanhol, em cursos com professores de má qualificação, com falta de recursos e, o pior de tudo, sem contato com o paciente. Exatamente. Em alguns lugares, os estudantes sequer examinavam os pacientes, mas saíam formados com diplomas que lhes davam os mesmos direitos, lá, que nós, médicos, temos aqui.
Para trabalhar legalmente no Brasil, qualquer médico formado no exterior necessita passar pelo “Revalida”, exame para validação do seu registro no nosso país. Ele, contudo, é uma peneira ainda maior do que o exame da Cremesp ou da OAB – cifras acima de 90% de reprovação. Será o nosso teste muito exigente, ou a qualidade das escolas do exterior é muito inferior? A reportagem da Ser Médico já basta para sanar a dúvida.
A intenção do governo brasileiro é de importar médicos de Cuba – ao que tudo indica, seis mil médicos cubanos virão trabalhar no nosso país. Como, porém? Isto implica em um grande obstáculo: como será feita a revalidação? Como permitir que seis mil médicos ingressem, se apenas menos de 10% passariam na prova? Teriam de convocar 60, 120 mil?
Uma ideia – com o perdão da expressão, mas não achei nada melhor – totalmente esquizofrênica do governo é, após dois anos da prática da medicina no nosso país, automaticamente validar os seus diplomas. Simplesmente isso: seríamos quase como um “campo de treinamento”; médicos que até então não seriam qualificados, de acordo com os padrões do Revalida, viriam trabalhar, por um determinado período de tempo, após o qual magicamente se tornariam aptos. E o povo passando pelas mãos destes médicos mal formados, neste meio tempo? Compensa a falta de médicos, colocar a serviço aqueles que não têm os conhecimentos mínimos para exercer sua profissão?
Não se sabe muito a respeito da medicina de Cuba; dizem por aí que é uma das melhores do mundo. Mas eu, pessoalmente, não me lembro na história recente de nenhum líder brasileiro ou europeu (nem sequer argentino) indo se tratar nas terras de Fidel Castro. O venezuelano Hugo Chávez se aventurou por lá, e o final da história não foi feliz.
E o que originou tudo isso? Bom, um fato simples: os médicos brasileiros não vão trabalhar no interior, pois não há recursos e o salário não compensa. Em determinadas localidades, há um médico em um raio de dezenas de quilômetros. “Importar” profissionais para estas vagas é obrigá-los a trabalhar em condições às quais os nossos próprios médicos não querem se sujeitar. Não é algo esquisito de se pensar? Não se assemelha a “importar” latino-americanos para trabalhar como domésticos em casas de estadunidenses, algo bastante comum de se ver?
A solução para isso não é nem importar, nem aumentar o número de escolas médicas (que já é abusivo); é melhorar as condições de trabalho e pagamento no interior. Isto, sim, atrairia os médicos brasileiros para cuidar do seu povo em localidades carentes. Até porque, quem garante que o médico “importado” vai realmente ficar lá?

domingo, 5 de maio de 2013

Porque hoje é sab... domingo!... Focus / Sylvia

Clássico de clássicos - só audio




Pela ampliação da maioridade moral




Por Eliana Brum, na revista Época (quem diria?!... ah, eu sigo a autora no Twitter)


Eu acredito na indignação. É dela e do espanto que vêm a vontade de construir um mundo que faça mais sentido, um em que se possa viver sem matar ou morrer. Por isso, diante de um assassinato consumado em São Paulo por um adolescente a três dias de completar 18 anos, minha proposta é de nos indignarmos bastante. Não para aumentar o rigor da lei para adolescentes, mas para aumentar nosso rigor ao exigir que a lei seja cumprida pelos governantes que querem aumentar o rigor da lei. Se eu acreditasse por um segundo que aumentar os anos de internação ou reduzir a maioridade penal diminuiria a violência, estaria fazendo campanha neste momento. Mas a realidade mostra que a violência alcança essa proporção porque o Estado falha – e a sociedade se indigna pouco. Ou só se indigna aos espasmos, quando um crime acontece. Se vivemos com essa violência é porque convivemos com pouco espanto e ainda menos indignação com a violência sistemática e cotidiana cometida contra crianças e adolescentes, no descumprimento da Constituição em seus princípios mais básicos. Se tivessem voz, os adolescentes que queremos encarcerar com ainda mais rigor e por mais tempo exigiriam – de nós, como sociedade, e daqueles que nos governam pelo voto – maioridade moral. 
Se é de crime que se trata, vamos falar de crime. E para isso vale a pena citar um documento da Fundação Abrinq bastante completo, que reúne os estudos mais recentes sobre o tema. Mais de 8.600 crianças e adolescentes foram assassinados no Brasil em 2010, segundo o Mapa da Violência. Vou repetir: mais de 8.600. Esse número coloca o Brasil na quarta posição entre os 99 países com as maiores taxas de homicídio de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em 2012, mais de 120 mil crianças e adolescentes foram vítimas de maus tratos e agressões segundo o relatório dos atendimentos no Disque 100. Deste total de casos, 68% sofreram negligência, 49,20% violência psicológica, 46,70% violência física, 29,20% violência sexual e 8,60% exploração do trabalho infantil. Menos de 3% dos suspeitos de terem cometido violência contra crianças e adolescentes tinham entre 12 e 18 anos incompletos, conforme levantamento feito entre janeiro e agosto de 2011. Quem comete violência contra crianças e adolescentes são os adultos.  
Será que o assassinato de mais de 8.600 crianças e adolescentes e os maus tratos de mais de 120 mil não valem a nossa indignação? 
Diante desse massacre persistente e cotidiano, talvez se pudesse esperar um alto índice de violência por parte de crianças e adolescentes. E a sensação da maioria da população, talvez os mesmos que clamam por redução da maioridade penal, é que há muitos adolescentes assassinos entre nós. É como se aquele que matou Victor Hugo Deppman na noite de 9 de abril fosse legião. Não é. Do total de adolescentes em conflito com a lei em 2011 no Brasil, 8,4% cometeram homicídios. A maioria dos delitos é roubo, seguido por tráfico. Quase metade do total de adolescentes infratores realizaram o primeiro ato infracional entre os 15 e os 17 anos, conforme uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E, adivinhe: a maioria abandonou a escola (ou foi abandonado por ela) aos 14 anos, entre a quinta e a sexta séries. E quase 90% não completou o ensino fundamental.  
Será que não há algo para pensar aí, uma relação explícita? Não são a escola – como lugar concreto e simbólico – e a educação – como garantia de acesso ao conhecimento, a um desejo que vá além do consumo e também a formas não violentas de se relacionar com o outro – os principais espaços de dignidade, desenvolvimento e inclusão na infância e na adolescência?  
É demagogia fazer relação entre educação e violência, como querem alguns? Mas será que é aí que está a demagogia? É sério mesmo que a maioria da população de São Paulo acredita que tenha mais efeito reduzir a maioridade penal em vez de pressionar o Estado – em todos os níveis – a cumprir com sua obrigação constitucional de garantir educação de qualidade?
Não encontro argumentos que me convençam de que a redução da maioridade penal vá reduzir a violência. E encontro muitos argumentos que me convencem de que a violência está relacionada ao que acontece com a escola no Brasil. A começar pelo recado que se dá a crianças e adolescentes quando os professores são pagos com um salário indigno.   Aqueles que escolhem (e eles são cada vez menos) uma das profissões mais importantes e estratégicas para o país se tornam, de imediato, desvalorizados ensinando (ou não ensinando) outros desvalorizados. Será que essa violência – brutal de várias maneiras – não tem nenhuma relação com a outra que tanto nos indigna?  
Teríamos mais esperança de mudança real se, diante de um crime bárbaro, praticado por um adolescente a três dias de completar 18 anos, o povo fosse às ruas exigir que crianças e jovens sejam educados – em vez de bradar que sejam enjaulados mais cedo ou com mais rigor nas prisões que tão bem conhecemos. Vale a pena pensar, e com bastante atenção: a quem isso serve?   
É uma mentira dizer que os adolescentes não são responsabilizados pelos atos que cometem. O tão atacado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a responsabilização, sim. Inclusive com privação de liberdade, algo tremendo nessa faixa etária. Mas, de novo, o Estado não cumpre a lei. Numa pesquisa realizada pelo CNJ, apenas em 5% de quase 15 mil processos de adolescentes infratores havia informações sobre o Plano Individual de Atendimento (PIA), que permitiria que a medida socioeducativa funcionasse como possibilidade de mudança e desenvolvimento.   
Alguém pensa em se indignar contra isso?  
Se você se alinha àqueles que querem que os adolescentes sejam encarcerados, torturados e sexualmente violados para pagar pelos seus crimes, pode se alegrar. É o que acontece na prática numa parcela significativa das instituições que deveriam dar exemplo de cumprimento da lei e oferecer as condições para que esses adolescentes mudassem o curso da sua história, como mostrou uma reportagem do Fantástico feita por Marcelo Canellas, Wálter Nunes e Luiz Quilião. Segundo a pesquisa do CNJ já citada, em 34 instituições brasileiras, pelo menos um adolescente foi abusado sexualmente nos últimos 12 meses, em 19 há registros de mortes de jovens sob a tutela do Estado, e 28% dos entrevistados disseram ter sofrido agressões físicas dos funcionários. Sem contar que, em 11 estados, as instituições operam acima da sua capacidade.
Será que a perpetuação da violência juvenil decorre da falta de rigor da lei ou do fato de que parte das instituições de adolescentes funciona na prática como um campo de concentração? Antes de tentar mudar a lei, não seria mais racional cumpri-la?
É o que o bom senso parece apontar. Mas é previsível que, num ano pré-eleitoral e com 93% dos paulistanos a favor da redução da maioridade penal, segundo pesquisa do Datafolha, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) prefira enviar ao Congresso um projeto para alterar o ECA, passando o período máximo de internação dos atuais 3 anos para 8 anos em casos de crimes hediondos. Uma medida tida como enérgica e rápida, num momento em que o Estado de São Paulo sofre com o que o próprio vice-governador, Afif Domingos (PSD), definiu como “epidemia de insegurança” – situação que não tem colaborado para aumentar a popularidade do atual governo.  
Vale a pena registrar ainda que o número de crimes contra a pessoa cometidos por adolescentes diminuiu – e não aumentou, como alguns querem fazer parecer. Segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, entre 2002 e 2011 os casos de homicídio apresentaram uma redução de 14,9% para 8,4%; os de latrocínio (roubo seguido de morte), de 5,5% para 1,9%; e os de estupro, de 3,3% para 1%. Vale a pena também dar a dimensão real do problema: da população total dos adolescentes brasileiros, apenas 0,09% cumprem medidas socioeducativas como infratores. Vou repetir: 0,09%. E a maioria deles cometeram crimes contra o patrimônio. 
É claro que, se alguém acredita que os crimes cometidos pelos adolescentes não têm nenhuma relação com as condições concretas em que vivem esses adolescentes, assim como nenhuma relação com as condições concretas em que cumprem as medidas socioeducativas, faz sentido acreditar que se trata apenas de “vocação para o mal”. Entre os muitos problemas desse raciocínio que parece afetar o senso comum está o fato de que a maioria dos adolescentes infratores é formada por pretos, pardos e pobres. (São também os que mais morrem e sofrem todo o tipo de violência no Brasil.) Essa espécie de “marca da maldade” teria então cor e estrato social? Nesse caso, em vez de melhorar a educação e as condições concretas de vida, a única medida preventiva possível para quem defende tal crença seria enjaular ao nascer – ou nem deixar nascer. Alguém se lembra de ter visto esse tipo de tese em algum momento histórico? Percebe para onde isso leva? 
Há que ter muito cuidado com o que se deseja – e com o que se defende. Assim como muito cuidado em não permitir que manipulem nossa indignação e nossa aspiração por um mundo em que se possa viver sem matar ou morrer.  
Se eu estivesse no lugar dos pais de Victor Hugo Deppman, talvez, neste momento de dor impossível, eu defendesse o aumento do número de anos de internação, assim como a redução da maioridade penal. Não há como alcançar a dor de perder um filho – e de perdê-lo com tal brutalidade. Diante de um crime bárbaro, qualquer crime bárbaro e não apenas o que motivou o atual debate, os parentes da vítima podem até desejar vingança. É uma prerrogativa do indivíduo, daqueles que sofrem o martírio e estão sob impacto dele. Mas o Estado não tem essa prerrogativa.
O indivíduo pode desejar vingança em seu íntimo, o Estado não pode ser vingativo em seus atos. Do Estado se espera que leve adiante o processo civilizatório, as conquistas de direitos humanos tão duramente conquistadas. E, como sociedade, nossa maturidade se mostra pelo conteúdo que damos à nossa indignação. É nas horas críticas que mostramos se estamos ou não à altura da nossa época – e de nossas melhores aspirações.

De minha parte, sempre me surpreendi não com a violência cometida por adolescentes – mas que não seja maior do que é, dado o nível de violência em que vive uma parcela da juventude brasileira, a parcela que morre bem mais do que mata. E só testemunhei a sociedade brasileira olhar de verdade – olhar para ver essa realidade – uma única vez: quando o Brasil assistiu, em horário nobre do domingo, ao documentário Falcão - Meninos do tráfico. É um bom momento para revê-lo.
Sabe por que a violência praticada por adolescentes não é maior do que é? Por causa de seus pais – e especialmente de suas mães. A maioria delas trabalha dura e honestamente, muitas como empregadas domésticas, cuidando da casa e dos filhos das outras. Contra tudo e contra todos, numa luta solitária e sem apoio, elas se viram do avesso para garantir um futuro para seus filhos. O extraordinário é que, apesar de sua enorme solidão, sem amparo e com falta de tudo, a maioria consegue. Àquelas que fracassam cabe a dor que não tem nome, a mesma dor impossível que vive a mãe de Victor Hugo Deppman: enterrar um filho.

Em 2006, espantada com uma geração de brasileiros, a maioria negros e pobres, cuja expectativa de vida era 20 anos, andei pelo país atrás dessas mulheres. Elas respiravam, mas não sei se estavam vivas. Lembro especialmente uma, a lavadeira Enilda, de Fortaleza. Quando o primeiro filho foi assassinado pela polícia, ela estava com as prestações do caixão atrasada. O pai do menino tinha ganhado um dinheiro fazendo pão e, em meio à enormidade da sua dor, eles correram para regularizar o pagamento. Quando conversei com ela, Enilda pagava as prestações do caixão do segundo filho. O garoto ainda estava vivo, mas em absoluta impotência, essa mãe tinha certeza de que o filho morreria em breve. Diante da minha perplexidade, Enilda me explicou que se precavia porque testemunhava muitas mães nas redondezas pedindo esmola para enterrar os filhos – e ela não queria essa humilhação. Enilda dizia: “Meu filho vai morrer honestamente”.

Nunca alcancei essa dor, que era não apenas de enterrar um filho, mas também de comprar caixão para filho vivo, o único ato de potência de uma mulher que perdera tudo. Enilda vivia numa situação de precariedade quase absoluta, tentando trancar nas peças apertadas da casa os filhos que restavam, num calor infernal, para que não fossem às ruas e se viciassem em crack. É claro que perdia todas as suas batalhas. A certeza de ser honesta era, para ela, toda a sanidade possível. (leia aqui).
O que podemos dizer a mulheres como Enilda? Que agora podem ficar tranquilas porque o país voltou a discutir a redução da maioridade penal e o aumento do período de internação? Que é por falta de cadeia logo cedo que seus filhos vendiam e consumiam drogas, roubavam e foram assassinados? Que, ao saber que podem ir presos aos 16 em vez dos 18 anos, seus filhos ainda vivos aceitarão as péssimas condições de vida e levarão uma existência em que não trafiquem, roubem nem sejam mortos? Que é disso que se trata? Quando o primeiro filho de Enilda foi executado, ele tinha 20 anos – e já tinha passado por instituições para adolescentes e pela prisão.

Antes de tornar-se algoz, a maioria das crianças e adolescentes que infringiram a lei foi vítima. E ninguém responde por isso.

Não há educação sem responsabilização. É por compreender isso que o ECA prevê medidas socioeducativas. Mas, quando a solução apresentada é aumentar o rigor da lei – e/ou reduzir a maioridade penal –, pretende-se dar a impressão à sociedade que os adolescentes não são responsabilizados ao cometer um crime. Essa, me parece, é a falsa questão, que só empurra o problema para a frente. A questão, de fato, é que nem o Estado, nem a sociedade, se responsabilizam o suficiente pela nova geração de brasileiros.

Educa-se também pelo exemplo. Neste caso, governantes e parlamentares poderiam demonstrar que têm maioridade moral cumprindo e fazendo cumprir a lei cujo rigor (alguns) querem aumentar.