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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Marilena Chauí - Classe média e a ascensão do conservadorismo proto-fascista




Fala imperdível proferida pela sempre ótima Marilena Chauí, sobre a classe média e a tendência de ascensão do conservadorismo proto-fascista, em evento na USP na ultima terça-feira, dia 28/08. O vídeo dura 23 minutos, mas vale cada segundo. Não deixem de ver. Se não dispuser de tempo agora, volte aqui no final de semana para assisti-lo. O final da palestra é muito legal:


Nessa rodada analítica sobre esse tema, promovido pela USP, a fala anterior à da Marilena Chauí, também interessante, mais curta (14 minutos), foi a de André Singer, que tece algumas considerações interessantes sobre a cultura e o papel da igreja, nesse processo de ascensão do conservadorismo. Essa fala na verdade foi anterior a de Marilena Chauí no dia do debate. Também vale a pena gastar esses 14 minutos e assisti-lo:

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Mais um crime de lesa-pátria se cozinhando: a privatização da Embrapa

NOTA PRELIMINAR: 

Um caso seríssimo está a se gestar: entregar a Embrapa para a Monsanto e/ou assemelhadas. Agora a magia foi preparada no caldeirão da bruxa guerrilheira vermelhusca, bulgara e dentuça!... Ai, ai ai...

Com a palavra o combativo senador Roberto Requião:




Texto aproximado do discurso, pescado no Viomundo, destaques grifados deste blog botocudo


O Partido dos Trabalhadores, o glorioso e inefável PT, reintroduz, em grande estilo, aos usos e discursos políticos, um dos piores defeitos do caráter pátrio: o emprego do eufemismo, essa figura de linguagem ou recurso estilístico que serve tanto para encobrir o preconceito, racial ou de classe, como para dissimular, para trapacear e ocultar com nuvens róseas a verdade dos fatos.

Eufemismo que transforma os negros em “morenos”, porque “negro”, para os nossos burgueses bem postados e bacharéis de anel de rubi, é uma idéia pouco agradável, já “moreno” suaviza a rejeição. Eufemismo que transforma os trabalhadores, os pobres, os explorados em geral em “menos favorecidos pela sorte”; as escravas domésticas em “secretárias”; os ladrões do dinheiro público em “supostos” assaltantes do erário; os bicheiros e contraventores em “empresários de jogos”;

os especuladores em “investidores”; a lavagem de dinheiro em “engenharia financeira”; os empregados miseravelmente assalariados dos supermercados em “colaboradores”. E patrões em “colegas de trabalho”, como os nossos jornalistas tratam os Marinho, os Civita, os Mesquita, os Frias, segundo a observação demolidora de Mino Carta.

Pois bem, eis que o já citado glorioso e inefável Partido dos Trabalhadores oferece a sua prestimosa ajuda para a coleção de eufemismos que disfarça, distorce, empana a crueza da realidade nacional. Segundo o novíssimo dicionário petista da negação da história, dos fatos da vida e dos compromissos programáticos, conceder não é privatizar. Concessão é uma coisa, privatização outra, dizem. De que a semântica não é capaz!

Por seis vezes, não por uma, duas ou três, mas por seis vezes, apoiei e trabalhei pelo candidato do PT à presidência da República. No Paraná, nos meus dois últimos mandatos, governei em aliança com o PT. Nesta Casa, sou da base do Governo Dilma.

Isso, no entanto, não me impede, não me inibe ou me descredencia a deplorar não apenas as desculpas piedosas ou a falta de originalidade nas explicações e as tentativas de trapacear a verdade, não apenas isso, mas sobretudo o fato em si; isto é, as privatizações. E elas são o que são: privatizações, sem rebuço, sem disfarce, cruamente, verdadeiramente privatizações.

E eu sou contra.

Há uma anedota, que o decoro parlamentar impede-me de contar, sobre a mecânica das concessões e das parcerias público-privadas. Quem participa com o que.

Caso eu tivesse alguma dúvida, ela se dissolveria lendo as entusiasmadas, e até poéticas, ao seu estilo, declarações do senhor Eike Batista, saudando as concessões anunciadas pelo presidente Dilma. O senhor Batista, bilionária criação de outras concessões petistas, parecia surfando nas nuvens, de tão deleitado.

O discurso é o mesmo de sempre. A velha história da falta de recursos para tocar as obras de infra-estrutura; a diminuição do tamanho do Estado; a eficiência da iniciativa privada; o combate ao desperdício e à corrupção e lorotas da espécie.

Houve um momento, lá no passado, que imaginei que o PT aprendera as lições das concessões-privatizações empreendidas pelos tucanos. Por exemplos, a concessão das ferrovias a ALL et alia, hoje um caso de polícia segundo o TCU e o Ministério Público; a concessão de rodovias, com a imposição de tarifas de pedágio abusivas, transformando as concessionárias em sócios indesejados dos agricultores, dos industriais e dos caminhoneiros; a concessão, em várias partes do país, dos serviços de energia elétrica e de saneamento, com a acentuada piora desses serviços ao mesmo da elevação vertiginosa das tarifas.

Lá no Paraná, parte da empresa pública de saneamento, a Sanepar, foi privatizada. Embora minoritário, o sócio privado assumiu a gestão da empresa que, com todas as letras, sem qualquer pejo ou escrúpulo, decretou que a prioridade da Sanepar passava a ser o lucro dos acionistas. E tome aumenta de tarifas. Quando assumi o governo, em 2003, congelei as tarifas de saneamento e as mantive congeladas por oito anos, sem prejuízo para a saúde financeira da empresa, o que dá uma idéia do quanto eles inflaram o preço da água e do esgoto para remunerar o sócio privado.

No capítulo das concessões e privatizações brasileiras temos ainda dois ingredientes típicos dos negócios público-privados: o financiamento das privatizações e os contratos de concessão.

Como se sabe, o Estado privatiza porque não tem dinheiro para tocar obras de infra-estrutura ou comandar os setores de energia, saneamento e comunicações. Mas como os candidatos às concessões e privatizações também não tem dinheiro para arrematar as ditas nos leilões, não há problema: o Estado empresta o dinheiro para que a iniciativa privada compre aquilo que Estado não tem dinheiro para tocar.

Não é piada, não estou aqui usando a navalha de Occam para reduzir ou simplificar as coisas. É assim mesmo que funciona, porque como ensinava o bom frade já lá no distante século 14, a explicação mais simples geralmente é a correta.

O BNDES e os fundos de pensão da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa também não me deixam na mão e assinam minhas afirmações com os tantos bilhões de reais “investidos” nas concessões e privatizações.
Modelozinho interessante, não acham, senhoras e senhores senadores?

Outro ingrediente distintivo, característico desse modelo são os contratos de concessão. Os concessionários de ferrovias e rodovias, para citar, assumem compromissos de extensão e duplicação das estradas, construção de viadutos, túneis, elevados, passarelas. Mas fazem o mínimo possível. Só arrecadam e não há quem os puna pelo contrato não cumprido. A intangibilidade das concessionárias é uma cláusula não escrita dos contratos, mas nem por isso deixa de ser obedecida com fervor pelas agências reguladoras.

O caos na telefonia celular só recebeu a atenção da Anatel porque os abusos foram muito além daquele “índice de abuso” que a agência julga tolerável.

Senhoras e senhores senadores. Na virada da década de 80, e desta para os anos 90, vimos o ascenso, que parecia inelutável, do neoliberalismo. Tal qual na porta do inferno de Dante,também gravara-se gravara nos caminhos dos povos: “Abandone toda a esperança aquele que aqui entrar”.

Assim, vimos, com tristeza e dor, as velhas correntes social-democratas e socialistas moderadas na Europa, na Ásia, nas Américas cederem, capitularem diante da arremetida dos novos bárbaros. Mas não no Brasil. Aqui, o PT parecia resistir à galopada dos godos e visigodos.

Por isso tudo, houve um momento que imaginei que o PT seria firme, intransigente, no repúdio às concessões e privatizações, especialmente as concessões e privatizações à moda tucana.Enganei-me!...

Quando reptados pela oposição, especialmente pela aguerrida bancada do PSDB, o PT reparte-se em dois.
Há aqueles que batem no peito e ufanam-se: Evoluímos! Avançamos! E comemoram o retrocesso com o fervor dos apóstatas.

Há aqueles que se refugiam na semântica e, de forma até mesmo divertida, cômica esforçam-se para provar que o lobo é uma inocente e cândida ovelha.

Assim, sem oposição, já que toda a mídia atua no coro nas privatizações, e a elas não se opõem sequer partidos ditos de esquerda ou progressistas como o PCdoB, o PSB e o PDT, sem oposição, o Governo reedita um dos cânones da desgastada e desmoralizada cartilha neoliberal.

Mas a “evolução”, o “avanço” do PT e de nosso Governo Federal não para por aí. Animem-se privatistas, anime-se mercado, regozijem-se transnacionais, que vem mais.

Uma idéia que não é de hoje, progride, sem muito alarde nesta casa: a privatização da Embrapa. De novo o eufemismo. Dizem que não é privatização, que é abertura de capital. De novo a alegação de sempre: a Embrapa não tem recursos, vamos captar os recursos no mercado, abrindo o capital da empresa.

Não é preciso mais que dois neurônios para saber que “mercado” é esse que vai se apropriar de boa parte da empresa. Esse “mercado” chama-se Monsanto, Syngenta, Bayer, Cargill, Dow Agro, Ciba-Geigy, Sandoz, as gigantes transnacionais do setor que monopolizam a pesquisa e a produção de sementes, defensivos agrícolas, biogenética e atividades do gênero.

Pergunta a agrônoma e especialista em biodiversidade Ângela Cordeiro: “ “Considerando a importância da inovação e pesquisa na agricultura para um Brasil sustentável, sem fome e sem miséria, o que esperar de uma empresa de pesquisa cuja agenda venha a ser orientada pelos desejos da Monsanto, Syngenta, Bayer?

Segundo ela, se, hoje, já é difícil incluir na pauta de pesquisa da Embrapa temas como a agricultura familiar e agroecologia, imagina o que vai ser com tais sócios. Para ela, a abertura do capital da Embrapa e o inevitável redirecionamento de suas pesquisas caminham na contramão do programa do Governo Dilma, que diz priorizar a segurança alimentar e o combate à fome no país.

Com toda certeza, aduz-se, a Monsanto e quetais não estão propriamente interessadas no dístico “país rico é país sem pobreza”, sem fome, sem deserdados da terra e sem terras.

A agrônoma Ângela Cordeiro alerta para outro risco da abertura de capital da Embrapa, enfim, de sua privatização: a apropriação privada de recursos genéticos depositados no fabuloso, riquíssimo Centro Nacional de Pesquisas Genéticas e Biotecnologia, o CENARGEM.

O acervo do CENARGEM e os bancos dos demais centros de pesquisas da vão se tornar propriedade dos acionistas privados? Tudo o que acumulamos em dezenas de anos de pesquisas, com investimentos públicos, com o suado dinheiro de cada brasileiro, tudo isso vai ser entregue de mão beijada para a Monsanto et caterva?

Ou alguém é ingênuo ao ponto de achar que as sete irmãs que dominam a produção de sementes e dos chamados, eufemisticamente, “defensivos agrícolas” vão associar-se à Embrapa sem a intenção de botar a mão grande em uma dos mais fantásticos acervos de pesquisas agropecuárias e florestais do planeta Terra?

O jornalista Leonardo Sakamoto, reproduziu esses dias em seu blog, o “Blog do Sakamoto”, o alerta de um outro jornalista, Xavier Bartaburu, sobre o desaparecimento do mapa do mundo, a extinção mesmo, de cerca de 800 alimentos, dezenas deles no Brasil.

Não são apenas animais e florestas que correm riscos. Os alimentos também. Alimentos tradicionais, que fazem parte da história, da vida, da cultura de povos e que garantem a subsistência de centenas de milhões de pessoas correm o risco da extinção.

Mesmo que aos trancos e barrancos, e graças à teimosia de alguns pesquisadores, a Embrapa tem ajudado a preservar os alimentos tradicionais. Essa resistência, é líquido e certo, cessará com a privatização da empresa. Afinal que interesse a Monsanto, a Syngenta, a Bayer teriam no umbu, nas frutas do cerrado, no baru, no berbigão, nas quebradeiras do babaçu do Maranhão, nos índios produtores do guaraná nativo, no caranguejo aratu dos manguezais do Sergipe, só para citar alimentos brasileiros na lista de risco, listados pelo jornalista?

Certamente o mesmo interesse que o mercado tem pelo destino da ararinha-azul. Afinal, o que o mercado quer é a transformação do planeta em uma imensa plantation, com soja, milho, algodão, de preferência tudo transgênico.

Privatizar a Embrapa –ou como tentam amenizar os pregoeiros, “abrir o capital da empresa”– sob a alegação de falta de recursos para pesquisas é mais um desses manjados argumentos de que abusam os liberais todas às vezes que cobiçam um naco de uma empresa pública.

De todo modo, faço fé na resistência da diretoria da Empraba e de seus pesquisadores e funcionários. É uma trincheira em que vale a pena combater.

Senhoras e senhores senadores, assim caminha o Brasil; ou melhor, assim retrocede o Brasil.
O economista Paul Krugman, analisando a proposta de cortes de gastos e de responsabilidade fiscal oferecida aos Estados Unidos por Paul Ryan, candidato a vice-presidente na chapa de Mitt Romney, conclui: “Parece piada, mas desgraçadamente, não é piada”.

Plagio o Nobel da Economia ao ver esse hilariante debate entre petista e tucanos sobre concessões e privatizações: “Parece piada, mas desgraçadamente, não é piada”.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Nanotecnologia da madeira


pescado no site Inovação Tecnológica 

Celulose nanocristalina
Imagine um material leve, transparente, oito vezes mais forte que o aço inoxidável e com um mercado estimado em US$600 bilhões em 2020.
Não, não estamos falando do grafeno, nem de ligas metálicas especiais e muito menos de compósitos da indústria aeroespacial.
A nova estrela do mundo dos materiais e da nanotecnologia tem, por assim dizer, uma origem simples: ela vem inteiramente da madeira.
É a celulose nanocristalina - ou, como preferem alguns, nanocristais de celulose, ou ainda nanocelulose.
O material é extraído por um processamento da polpa de madeira, resultando em cristais minúsculos - em grande quantidade, esses cristais de nanocelulose parecem-se com neve.
Fábricas de nanocelulose
A nanocelulose está provocando furor na indústria, não apenas por suas propriedades tentadoras, mas também porque é muito barata.
A empresa japonesa Pioneer anunciou que irá utilizar os nanocristais de celulose em sua próxima geração de telas flexíveis. A IBM também está usando a nanocelulose para fabricar componentes de computadores.
O governo do Canadá possui um programa consistente de pesquisas na área, com uma planta-piloto capaz de produzir uma tonelada de nanocelulose por dia, responsável por disseminar as técnicas para as indústrias do país.
No último mês de Julho, foi inaugurada a primeira fábrica de celulose nanocristalina dos EUA. Embora menor que a canadense, a iniciativa também é de um órgão governamental, o U.S. Forest Products Laboratory.
Nanocelulose: nanotecnologia da madeira promete superar plásticos
Exemplos de aplicações dos cristais de nanocelulose. [Imagem: Moon et al./CSR/Wiley VCH]
Propriedades da celulose nanocristalina
Mas por que tanto entusiasmo com um material que pouco mais é do que uma madeira super-triturada?
Porque a nanocelulose é transparente e tem oito vezes a resistência à tração do aço inoxidável, graças ao entrelaçamento dos cristais, que têm o formato de agulhas.
Os cristais de nanocelulose conduzem eletricidade, embora, devidamente processados em larga escala, possam resultar em bons isolantes térmicos.
E, claro, sendo fruto unicamente do processamento da madeira, o material é muito barato.
"É uma versão natural e renovável dos nanotubos de carbono, a uma fração do preço," afirma Jeff Youngblood, da Universidade de Purdue, que chefia um dos grupos de pesquisa mais ativos na área.
Ele é um dos coordenadores científicos da fábrica norte-americana, que deverá produzir cristais e fibrilas de nanocelulose.
Fabricação de nanocelulose
A fabricação da celulose nanocristalina começa com uma "purificação" da madeira, removendo compostos como lignina e hemicelulose.
O resultado é moído para formar uma polpa, que é hidrolisada em ácido para remover impurezas, antes de ser separada e concentrada na forma de cristais.
Os cristais de nanocelulose formam uma pasta espessa, que pode ser aplicada a superfícies, na forma de um laminado, ou transformado em filamentos, formando as chamadas nanofibrilas.
As nanofibrilas são duras, densas e rígidas, e podem ser prensadas em diferentes formas e tamanhos. Quando liofilizado, o material é leve, absorvente e bom isolante térmico e acústico.
Nanocelulose: nanotecnologia da madeira promete superar plásticos
A nanocelulose vem inteiramente da madeira, mas não depende necessariamente do corte de árvores. [Imagem: Jeff Youngblood/Purdue]
Como transformar lixo em ouro
"A beleza deste material é que ele é tão abundante que não temos nem que fabricá-lo," diz Youngblood. "Nós não precisamos sequer utilizar árvores inteiras; a nanocelulose tem apenas 2 nanômetros de comprimento. Se quiséssemos, poderíamos usar ramos e galhos, ou até mesmo serragem. Estamos transformando lixo em ouro."
As estimativas indicam que a nanocelulose, produzida industrialmente, poderá custar alguns dólares o quilograma.
Os nanotubos de carbono, por sua vez, com os quais os nanocristais de celulose são comparados, são cotados em miligramas - no atacado, pode-se comprá-los por US$250 o grama.
A expectativa é que a nanocelulose torne obsoletos grande parte dos plásticos, já que suas propriedades físicas permitem que ela substitua até mesmo os metais na construção de peças de automóveis.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Neoliberalismo é isso - mais um atestado de burrice



por Pericles de Oliveira, no Brasil de Fato

A citricultura de São Paulo passa por um momento grave. As frutas já estão sendo colhidas, mas por incrível que pareça não há mercado, nem preço. Ou seja, se os produtores (em sua maioria grandes fazendeiros) quiserem entregar para a indústria, ela recebe, mas sem compromisso de preço.

As indústrias esnobam cinicamente e dizem que deixarão de comprar ao redor de 30 milhões de caixas (de 40 quilos) da safra atual, devido ao aumento da produção no campo e a diminuição do mercado de consumo de sucos de laranja. E já há cerca de 10 milhões de caixas colhidas, porém recusadas pelas indústrias – por tanto começam a apodrecer nos galpões e laranjais, segundo denuncia o presidente do sindicato rural de Ibitinga e Tabatinga (SP), Frauzo Ruiz Sanches.

Os produtores calculam que o custo de produção de uma caixa de 40 quilos de laranjas é de aproximadamente de R$ 10 a R$ 12. Mas a indústria oferece apenas R$ 7. Ou seja R$ 0,17 centavos o quilo. Os pobres consumidores se forem aos supermercados de São Paulo, e tentarem comprar um saco de laranjas com 15 quilos, para sair mais em conta, pagarão mesmo assim: R$ 19,90. Ou seja, R$ 1,32 o quilo, 676% a mais para fazer 150 quilômetros, entre a região produtora e a capital paulista. E ainda reclamam que o povo brasileiro não sabe tomar suco de frutas e dá preferência aos refrigerantes.

O governo federal, como sempre, está socorrendo os fazendeiros e assinou portaria adiando o pagamento do crédito rural até 15 de fevereiro de 2013. Mas isso só adia o vencimento da dívida. Nem a diminui, nem ajuda a aumentar os preços ao produtor e nem aumenta o consumo entre a população.

Essa crise da citricultura deveria nos levar a refletir sobre a realidade do setor.
Porque isso está acontecendo?

Os grandes jornalões da burguesia escondem de que a crise se deve a um processo histórico dos últimos 15 anos, em que houve a concentração dos produtores de laranja. Foram à falência mais de 25 mil pequenos e médios agricultores, que tinham seus laranjais, porém diversificados com outros produtos da agricultura. E assim não ficavam tão dependentes de um só produto e de uma única empresa. Agora, restaram poucos fazendeiros, com áreas superiores a 500 hectares e totalmente dependentes do monocultivo da laranja.

Ao se tornar um monocultivo e destruir a biodiversidade natural, os laranjais ficam mais afetos a doenças e insetos, que leva à aplicação cada vez maior de agrotoxicos. O uso de inseticidas aumentou de tal forma, que até o governo dos Estados Unidos proibiu a importação de suco de laranja do Brasil no ano passado até que os produtores se comprometessem a não usar mais um inseticida que ja está banido por lá, mas que por aqui, as empresas transnacionais como a Basf, Bayer, Syngenta e Monsanto seguem utilizando e ganhando dinheiro com a sua venda.

A outra razão é a concentração das indústrias que levou a um verdadeiro oligopólio da produção do suco com apenas três grupos econômicos, entre eles a Citrus, da Votorantim, e a Cutrale. E esses grupos além de controlarem a agroindústria passaram a comprar terras e terem seus próprios laranjais, a partir dos quais controlam o preço de oferta das laranjas.

Até o CADE (conselho econômico do governo que regula as atividades oligopólicas) foi acionado para fiscalizar, mas nada fez.

E a terceira razão é que todo o setor se organizou apenas para exportação. Nós exportamos mais de 80% de toda produção de laranja. Existe até um suco-duto que leva o suco concentrado até o porto. Desconsideramos a necessidade de abastecer o mercado interno e estimular o consumo de sucos de frutas no lugar de refrigerantes, fazendo com que o consumo de sucos de frutas per capita do povo brasileiro seja um dos mais baixos do mundo, apesar de sermos a sexta economia mundial, como diria a presidenta.

Acontece que a poderosa Coca-Cola é a que controla o mercado do suco de frutas lá fora e o mercado de refrigerantes aqui dentro. Então para os pobres brasileiros: refrigerantes, e para sua classe média do hemisfério Norte: suco de frutas! E assim ela ganha dinheiro com os dois mercados.

Mas como estamos enfrentando uma crise capitalista no mercado consumidor do Norte, sobrou por aqui a crise na produção nos laranjais.

Pelo menos agora a Cutrale não teve coragem de botar a culpa nos sem-terra, como fez em 2010, após uma ocupação que o MST fez de uma de suas dezenas de fazendas, em Iaras (SP), que é de propriedade da União, mas grilada pela empresa. Em clima eleitoral e aliada com o então governador Serra, a empresa satanizou a luta dos sem-terra culpando-os pela destruição dos laranjais.

Quem vai pagar a conta? Todo povo brasileiro. O governo vai usar recursos do Tesouro nacional para garantir subsídios aos fazendeiros — cada vez em menor número — e para as três grandes indústrias que controlam o mercado. Os fazendeiros da laranja, também pagarão com seus prejuízos. Já os três grupos econômicos e a Coca-Cola continuarão controlando o mercado e mantendo os seus lucros.

Qual seria a verdadeira saída ?

O governo financiar por meio do BNDES a instalação de dezenas de indústrias de sucos nas cooperativas ao longo do território. Voltar a fomentar a produção de laranjas, nao só em São Paulo, mas em todo Brasil, para que os laranjais e o suco fossem produzidos próximos ao mercado consumidor popular. É um absurdo comprar laranjas paulistas em Marabá (PA), Porto Velho (RO) e até no Sergipe, outrora grande produtor de laranja. E fomentar a instalação de laranjais baseados na agroecologia, em sistema de agroflorestas combinado com outros cultivos perenes e temporários, e assim produzir um suco sem agrotóxicos. Estimular o consumo de sucos de frutas entre a população e em especial incluindo na merenda escolar. E combater o consumo de refrigerantes, que só causam mal à saúde, em especial das crianças e adolescentes. Deveria ser proibida a propaganda nos meios de comunicação de qualquer tipo de refrigerante.

Quando todo o povo brasileiro tiver o direito de consumir sucos de frutas, não teremos mais crises na produção. Quando a indústria não for mais monopólio de meia dúzia de grupos econômicos, a economia brasileira poderá ter um crescimento permanente e distribuído ao longo do seu território.

Quando os laranjais nao forem mais monocultivo, mas forem distribuídos ao longo de nosso território em pequenas e médias propriedades, estaremos livres dos agrotóxicos e dos humores do mercado internacional.

sábado, 25 de agosto de 2012

Porque ainda é sábado: Roger Hodgson (Supertramp)

Fool's Overture, com orquestra, gravada originalmente em 1977, que apareceu no álbum de mesmo nome.

E a velha midia continua esmurrando os fatos


por Saul Leblon, na Carta Maior

1) Mídia: 'o chavismo fez da Venezuela o pior lugar da América Latina para se viver'; Fatos: a Venezuela é o país menos desigual da América Latina (Habitat-ONU); 

2) Mídia: 'a xeonofobia e o populismo de Cristina Kirchner isolaram o país e afundaram sua economia'; Fatos: o investimento estrangeiro direto na Argentina cresceu no primeiro semestre acumulando um saldo de US$ 2,2 bi, 40% acima do registrado no mesmo período de 2011 (Banco Central argentino);

3) Mídia: 'o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) desviou dinheiro público em benefício próprio e para a compra votos' do mensalão; Fatos: as operações imputadas a João Paulo foram legais; a subcontratação de terceiros pela agência SMP&B, de Marcos Valério, que prestava serviços licitados à Câmara, é praxe no mercado; dos R$ 10,9 milhões pagos à SMP&B, R$ 7 milhões foram transferidos aos grandes grupos de comunicação para veiculação de publicidade: TV Globo (a maior fatia, R$ 2,7 milhões), SBT, Record, Abril, Folha e Estadão. (ministro Ricardo Lewandowski). Ou seja, os mesmos grupos de comunicação que sabiam da lisura do processo, lucraram com ele, martelavam a condenação do deputado.

4) Mídia: 'a carga' é intolerável e não se reflete nos serviços oferecidos'; Fatos: a arrecadação fiscal do Estado brasileiro é de US$ 3.797 per capita; a média dos países de G -7 é de US$ 11.811. Para ter recursos que permitissem oferecer serviços públicos de padrão europeu a receita (em sintonia com o PIB) teria que triplicar, o que só seria possível gravando os mais ricos, ao contrário do que apregoa o conservadorismo (dados FMI/FGV). 

5) Mídia: 'O problema da saúde pública é de gestão'; Fatos: o gasto público per capta com saúde no Brasil é de US$ 320/ano; a média mundial é de US$ US$ 549/ ano; a dos países ricos é dez vezes maior que a brasileira (OMS-2012). Em tempo: em 2006, a conservadorismo logrou extinguir a cobrança da CPMF. Foram subtraídos R$ 40 bi em recursos à saúde pública, mesmo depois de o governo propor emenda vinculando indissociavelmente a receita CPMF ao orçamento da saúde pública. 

Porque hoje é sábado: pentelhinhos da Coreia do Norte

Esse é para assistir pois não é só áudio como ultimamente...