* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Grécia - Uma epopéia a espera de um novo Ulisses




por Luis Nassif, em seu blog
Em fins de 1998 o Brasil estava quebrado, sem dólares para honrar os compromissos. Fosse um cliente normal de banco, ambos – cliente e banco – sentariam para negociar. A dívida seria adaptada à capacidade de pagamento do país.
Mas, na imensa esbórnia que marcou os jogos especulativos dos anos 90 em diante, havia um emprestador de última instância, o FMI (Fundo Monetário Internacional).
Em geral há dois riscos que os credores correm, quando emprestam quando especulam contra países. O primeiro é o risco cambial. Há uma corrida para retirar os dólares que provoca uma desvalorização da moeda nacional. Na hora de converter seus dólares, o investidor terá uma perda proporcional à desvalorização da moeda nacional no período.
O segundo risco é o da impossibilidade de pagamento do país. O FMI entrava para amenizar esses dois riscos. Monta-se um acordo com o país quebrado, consegue-se uma série de medidas – em geral, de cunho recessivo -, uma série de concessões (entre as concessões propostas pelo Brasil incluía-se até a venda das grandes estatais - algumas efetivamente entregues). Empresta-se o dinheiro que servirá exclusivamente para permitir aos credores (grandes bancos internacionais) e especuladores (grandes fundos internacionais) saírem sem grandes perdas.
Em países sem moeda conversível – como é o caso do Brasil - um dos grandes riscos do especulador é uma maxidesvalorização da moeda do país atacado. Na hora de converter os reais em dólares, para tirá-los do país, o especulador sofreria uma perda proporcional à desvalorização da moeda no período.
A oferta de dólares, criando-se uma rede de "seguro-empréstimo" do FMI, [facilitava a vida] para o especulador. Essa rede de segurança foi a principal responsável pela imprudência dos especuladores nas grandes crises cambiais do período, ao amenizar seu risco.
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O que está ocorrendo com a Grécia, hoje, é pior. Como a moeda nacional é o euro, afastou dos especuladores o risco da desvalorização cambial. Persiste o risco do calote, dada a óbvia impossibilidade da Grécia em honrar as dívidas assumidas.
Fala-se em “óbvia incapacidade” porque as projeções montadas pelo FMI e pelo Banco Central Europeu pressupõe um corte insuficiente da dívida – 53% - e um crescimento futuro relativamente robusto, para reduzir a relação dívida/PIB.
Só que os cortes exigidos nos gastos públicos matam qualquer possibilidade de crescimento, exaurem a economia nacional. Além disso, sua intensidade acaba provocando desgastes políticos irresistíveis. Na Alemanha dos anos 30, essas mesmas formas de imposição resultaram no nascimento do nazismo. Todos os sacrifícios da Grécia visam torná-la apta a receber uma ajuda de 130 bilhões de euros, que servirá apenas para que ela mantenha em dia seus compromissos.
Os dois principais partidos políticos do país ostentam índices recordes de rejeição. Há manifestações populares cada vez mais expressivas. A Grécia é apenas um pequeno país da Europa, apesar de ter grande história.
Esse vendaval já se estende pelo pequeno Portugal, pelas consideráveis economias da Espanha e da Itália. Não haverá como segurar a unidade europeia em cima de políticas cada vez menos legítimas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Carnaval e a Globosta




Paulo Henrique Amorim, no seu Conversa Afiada

A Globo fez duas parcerias estratégicas: Com o Mr Teixeira did you accept the bribe, e monopolizou o Brasileirinho e a Copa... E com os bicheiros das escolas de samba do Rio.

Duas companhias enobrecedoras, virtuosas.
 Ainda que funestas.

A Globo e Mr. Teixeira transformaram o futebol brasileiro numa pelada da segunda divisão de qualquer futebol europeu. (Na Espanha, esse Brasileirinho pegava uma Terceira Divisão.) E a seleção do Galvão?... 
Na outra a Globo pasteurizou, uniformizou e deformou irremediavelmente o carnaval das escolas de samba. A escola de samba se tornou um espetáculo que tem a forma e as celebridades que a Globo impôs.

A certa altura dos anos 80, por um ano, a TV Manchete tomou o desfile da Globo. Para nunca mais. A Globo se assustou e esculpiu em pedra a aliança com os bicheiros. Em troca do monopólio, as escolas tiveram que fazer um espetáculo para a Globo. É um Cirque du Soleil de Las Vegas. Roda em qualquer arena.

Janio de Freitas, na Folha deste domingo, na página A7, trata da expressão “carnaval carioca”, que, segundo ele, “não tem mais sentido”. “O desfile das escolas de samba não é Carnaval, simplesmente.” Como o povo não é bobo, o Carnaval foi para a rua.

E dois milhões de cariocas foram para a Avenida Rio Branco brincar o Carnaval  do ” segura, meu bem, a chupeta”, com o Bola Preta. A Preta Gil levou um milhão. O Simpatia quase Amor ocupou Ipanema e o Arpoador.

Em Recife e em Olinda, onde a Globo não manda, e onde o Carnaval não cabe num camarote , aí o Carnaval rola solto.

A Globo sufocou o teatro brasileiro, e transformou Miguel Falabela no Jorge Andrade contemporâneo.

Sufocou o cinema.
 Quantos séculos se passarão até que o cinema brasileiro global faça um “Um conto chinês”?

Mas, com o Carnaval vai ser mais difícil. É que o povão não é bobo.

Em tempo: vamos ver se com o novo desenho do Sambódromo e com os bicheiros em cana as escolas tenham que mudar. Com menos dinheiro e mais espaço para a escola – e a plateia possa invadir a pista -  a  coreografia da Globo talvez vá para o saco.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma coisa boa nos EEUU


pescado na Folha de São Paulo (link abaixo, só para assinantes)


Uma lei americana que pune o suborno de políticos e premia em mais de US$ 100 mil os delatores está mudando a rotina de empresas brasileiras, preocupadas com multas milionárias.
A Lei Dodd-Frank (detalhamento e consequências discutidas aqui) começou a valer em agosto de 2011 para premiar delatores em 10% a 30% das multas acima de US$ 1 milhão, aplicadas nos EUA. Para isso, é preciso fornecer informação exclusiva que comprove a propina a políticos, inclusive brasileiros.
O fundo para premiar delatores é de US$ 450 milhões. A lei vale para filiais de multinacionais ou empresas com ações na Bolsa dos EUA e até mesmo para irregularidades das terceirizadas. Antes dessa lei, os EUA já puniam a corrupção estrangeira no FCPA (Foreign Corrupt Practices Act), mas sem a delação premiada.
"Agora a coisa começou a esquentar e é natural que a Dodd-Frank passe a ser mais uma preocupação. A empresa se convence de que o prejuízo é maior se deixar correr solto", diz o advogado André Fonseca, que atende empresas sobre a lei americana.
Companhias como CPFL e Braskem, com ações na Bolsa, e multinacionais como Qualicorp e Kimberly -Clark já criaram normas internas para se prevenir e adotar uma agenda corporativa ética. A ideia é se antecipar aos problemas, monitorando funcionários e gastos.Há canais internos para denunciar colegas -e assim ter o controle de potenciais danos à empresa.
"Não é colocar o funcionário na parede, é colocar a ética como uma parte operacional. A denúncia não será feita aos EUA se aqui há um canal isento", afirma Lucia Helena Magalhães, gerente de relacionamento da CPFL.Funcionários, fornecedores e terceirizados também são obrigados contratualmente a seguir a legislação americana.
"A complexidade das leis anticorrupção não alivia a responsabilidade. Deve-se consultar o departamento jurídico antes de autorizar, oferecer, prometer ou pagar algo de valor se houver dúvida", determina o código de conduta da Kimberly-Clark.
A responsável por segurança empresarial na Braskem, Olga Pontes, compara a lei americana ao uso de cinto no carro, adotado ou por segurança ou para evitar multas de trânsito. "A lei é uma forma de instrumentalizar a cultura anticorrupção."
Um dos reflexos da lei é o aumento de auditorias no Brasil.
Hoje, metade da receita das investigações da PricewaterhouseCoopers no país já vem por conta da lei dos EUA. Eram três investigadores em 2009. Agora, são 30. Na Ernst & Young Terco houve aumento de 100% nas investigações encomendadas por estrangeiros para saber o risco de fechar negócios no Brasil.
Desde o ano passado, 40 empresas discutem a lei no Instituto Brasileiro de Direito Empresarial. Segundo o advogado Bruno Maeda, coordenador no instituto, a prevenção pode reduzir a responsabilidade da empresa em caso de condenação.

MULTAS MILIONÁRIAS
A maior multa da história foi aplicada à Siemens - mais de US$ 400 milhões. No Brasil, a empresa montou um sistema de investigação com 45 pessoas que levou ao afastamento do seu executivo-chefe no ano passado.
Em 2011, os EUA receberam 13 denúncias - nenhuma de brasileiros até o momento. Sem delação premiada, a Embraer está sob investigação por corrupção nos Estados Unidos.
No Brasil, no caminho contrário, a suíça Alstom foi alvo de suspeitas em contratos com o Metrô de São Paulo. 

NOTA - 
Isso pegaria aqui?... nossos políticos aprovariam um lei assim?... Bem, isso é uma questão, mas o jornalão golpista dos Frias, quer fazer parecer que essa lei foi feita só para empresas brasileiras... Oh vendilhões...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Não haverá amanhã - There's No Tomorrow

Documentário animado de 34 minutos, saído do forno, de 2012, só em inglês, ainda sem tradução ou legenda - pra quem domina o idioma de Hemingway é o que há... tudo que se coloca ali é a nossa sina... sem cuspe...


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Diretamente do túnel do tempo, a moratória de 1987


por Ivson Alves, em seu blog Coleguinhas, uni-vos!
Já que estamos num ano em que, parece, tudo completa uma data redonda, dada a profusão de matérias sobre 30 anos de tal, 40 anos daquela outra (vai ver, os Maia [de Chichèn Itza] estavam certos sobre o fim de ciclos em 2012), aí vai minha antipauta: no dia 20 de fevereiro de 1987, o nosso indigitado prócer José Sarney declarou a moratória de nossa dívida externa.
Naquele momento, pelo que me recordo, tínhamos US$ 5 bilhões em reservas internacionais (não dava para a Petrobras pagar nem um mês de importação de petróleo). Hoje, temos US$ 355 bilhões. Ou seja, alguém acertou em alguma coisa – como se sabe mais ou menos quem foi esse alguém e no que ele fez de certo, essa efeméride ou passará em branco ou o sucesso, de alguma forma, será transformado em fracasso. Daqui a uma duas semanas a gente vê como será.

A Libia agora está assim



por Fernando Brito, no Tijolaço do Brizola Neto

O excelente site Opera Mundi publica matéria sobre o relatório da Anistia Internacional relatando os abusos das milícias que assumiram o poder na Líbia, com a derrubada de Muammar Ghadaffi. Reproduzo um trecho:
De acordo com um relatório divulgado pela Organização, as milícias atuam com impunidade e criam insegurança para a reconstrução das instituições do país.
“Há um ano, os líbios arriscaram a vida para exigir justiça. Hoje, suas esperanças se vêem prejudicadas por milícias armadas ilegais que pisoteiam os direitos humanos com impunidade”, aponta o relatório.
Denúncias da AI apontam que os grupos armados estariam detendo ilegalmente pessoas que apoiavam o governo de Kadafi. Além disso, as milícias estariam torturando os detidos, o que em alguns casos estariam levando-os, inclusive, à morte.
Para compor o relatório, a AI esteve e 11 instalações de detenção no centro e no oeste da Líbia durante janeiro e o início deste mês. As prisões são utilizadas pelas milícias e a ONG afirma que pode comprovar através de relatos que diversos detentos foram torturados e maltratados no local.”
Fui ler o relatório – que está aqui, em inglês - e as histórias são, realmente, terríveis. Esta foto do post, tirada de lá, fala da perseguição aos negros – são muitos, na Líbia, emigrados do Sudão e do Niger – e da expulsão de 30 mil moradores da aldeia de Tawargha, próxima a Misratah, em campos de refugiados, pois suas casas estão sendo depredadas e incendiadas e, alguns deles, agredidos e mortos.
Mas, desta vez, e com toda a liberdade para a imprensa ocidental percorrer o país, parece que as redes mundiais de comunicação e os governos ocidentais  não se comovem com o sofrimento. Otan boa é só para instalar governos “amigos” nas terras petroleiras.

NOTA BOTOCUDA
Eu ja sabia que ia acabar assim. Agora vamos para a Siria, depois o Irã...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A sanha do Capitalismo Verde (2) a fraude usando o mote das mudanças climáticas



Texto postado por mim, Henry, aqui,  em agosto de 2009 (na época que esse blog botocudo ainda não existia).



Enquanto para a maior parte da humanidade a mudança climática significa desastre, algumas brilhantes mentes empresariais a percebem como uma boa oportunidade de negócios. Na forma por eles considerada, a mudança climática diz respeito às emissões de carbono e o carbono pode ser comercializado como uma mercadoria no mercado global. Tal mercado - é o que eles dizem - pode valer bilhões ou inclusive trilhões de dólares e eles esperam que redunde em grandes lucros para si. Não importa se tal mercado não tem qualquer valor em absoluto para deter a mudança climática; apenas conta seu valor como um investimento lucrativo.

O problema é que essas pessoas têm poder e muita influência tanto em nível nacional quanto internacional, onde a legislação e os acordos são feitos sob medida para adaptar-se a seus desejos. Esse foi o caso na Convenção sobre Mudança Climática e seu correspondente Protocolo de Kioto, que cedeu às pressões ao aceitar o mercado de carbono como uma das “soluções” para a mudança climática. Assim o chamado “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo” foi aprovado como um meio para “compensar” as emissões de CO2.

Adicionalmente, o apoio governamental às abordagens do “mercado livre” permitiu que os mesmos atores estabelecessem um mercado de carbono voluntário em que as pessoas são ludibriadas ao acreditarem que pagando umas taxas podem ficar livres de culpa por suas emissões de CO2- por exemplo, nas viagens de avião. Assim surgiu o mercado de “carbono- neutro”.

Tanto o mercado de carbono “oficial” quanto o “não oficial” têm incluído as plantações de árvores como um dos possíveis mecanismos para “compensar” as emissões.

O WRM tem produzido abundantes informações sobre os impactos das plantações de árvores em geral, tem desenvolvido análises sobre as razões pelas quais as plantações não deveriam ser consideradas como sumidouros de carbono, tem detalhado as razões para opor-se ao mercado de carbono e tem explicado por que “a neutralidade do carbono” é uma fraude. Todas estas informações estão disponíveis no site.

Agora queremos focalizar uma única questão, que é em si mesma suficiente para as plantações de árvores serem excluídas como sumidouros de carbono: o risco de incêndio.

Imagine a seguinte situação. Uma empresa poluidora no Norte paga a um vendedor de “carbono-neutro” que promete “compensar” suas emissões plantando árvores. Assumamos que as árvores são plantadas de fato e que absorvem todo o volume de carbono emitido pela empresa poluidora. Seis anos mais tarde, a plantação toda incendeia- se. O resultado será que a plantação queimada terá liberado todo o volume de carbono que supostamente devia compensar. Isso significa que a plantação só terá servido para permitir a empresa poluidora evitar investir naquilo que é mais necessário sob uma perspectiva climática: cortar as emissões.

O anterior é o cenário de uma situação real, porque os tipos de plantações mais comuns- eucaliptos e pinheiros- são naturalmente propensos ao incêndio. Os dois tipos de árvores são altamente inflamáveis nas florestas naturais – os incêndios na realidade colaboram para superar a concorrência de outras espécies- e são ainda mais inflamáveis em plantações de rápido crescimento em grande escala porque geram um ambiente muito seco sob suas copas, ideal para o fogo se espalhar.

Adicionalmente, as condições sociais que criam também fazem com que sejam alvos de incêndios provocados em diferentes locais em que os moradores foram afetados. Ainda que não seja um fato provado, dizem que alguns incêndios em lugares tão distantes como Chile e Suazilândia, têm sido iniciados por moradores locais deslocados ou afetados pelas plantações. Há aproximadamente 10 anos, na Venezuela, os empregados das plantações da empresa celulósica Smurfit tinham ordens de registrar todas as pessoas das comunidades locais que passavam próximas às plantações e confiscar fósforos e acendedores por medo de incêndios provocados. E a possibilidade era real porque a maioria dos moradores queria de fato pôr fogo nas plantações e o expressava abertamente.

Tanto por razões sociais quanto ambientais, as plantações constantemente ardem ao redor do mundo. Alguns dos casos que tiveram mais cobertura mediática incluem as plantações- e florestas- na Austrália, Espanha, Portugal, Chile, África do Sul, Suazilândia. Mas basta com fazer uma busca simples na internet para encontrar mais incêndios relacionados com plantações em países com vastas áreas de monoculturas de árvores.

A conclusão óbvia quanto às plantações como sumidouros de carbono é que é muito imprudente- por não dizer diretamente estúpido- usar as plantações para armazenar carbono. As plantações como sumidouros têm um único aspecto positivo: retratam a fraude do mercado de carbono em seu pior aspecto.





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ATUALIZAÇÃO fevereiro 2012

Além do mais, o mercado mundial (ou pelo menos o europeu) de créditos de carbono já se transformou numa putaria total (palavra chula), como atesta este artigo (só em inglês - vou traduzir oportunamente


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ATUALIZAÇÃO 2  - Tradução botocuda para o artigo acima

Surpresa!… As estripulias de um “mercado-livre-que-não-é-tão-livre” agora vão de um escândalo ao seguinte. Num mercado real quando alguém vende alguma coisa real o comprador compra o que desejava desde o inicio e a conversa não pode virar em chorumelas, pelo menos não vai longe. Se alguém lhe vende uma carroça de carvão e depois aparece com ela vazia, você vai perceber na hora.
Mas se alguém lhe vende dois milhões de Certificados de Emissões (de carbono) Reduzidas (CERs) que não valem absolutamente nada, como podem convence-lo a comprar esse lixo?... Ah, são “certificadas”!... São realmente certificadas, e como você engoliu que valem alguma coisa: Bem vindo ao mundo dos títulos fantasmas, em que a confiança não apenas mantém ou pode quebrar um mercado, mas é sua única assinatura.
O jornal londrino The Times  em um artigo intitulado  “Chaos in the carbon market” (link é acessível só para assinantes) aborda o bordel que se tornou esse mercado na Europa. 
O governo húngaro (oh, sujeitos folgados) se saíram com uma de que CERs são garantidos pela ONU (o são pela União Européia) e dessa forma podiam usar esses títulos para abater obrigações de empresas húngaras endividadas e depois revender esses mesmos títulos para que outros pudessem abater suas obrigações de emissão de carbono também. É como revender uma refeição depois que a mesma já foi comida. Interpelado sobre isso o governo húngaro se justificou dizendo que os CERs usados para abater dividas foram revendidos “só” para investidores não-europeus. Está certo!... então agora faz sentido: não-europeus são trouxas que rasgam dinheiro.
Na verdade, como só coisas de livres-mercados soem ser, CERs usados voltam ao mercado de títulos da Europa costumeiramente, como já se noticiou:
As agencias de títulos e valores BlueNext (francesa) e Nord Pool (dos países nordicos) suspenderam as negociações com Certificados de Emissões Reduzidas (CERs) tão logo se soube que em determinadas circunstâncias foram negociadas de forma ilegal.  
O Valor desses títulos caíram de €12 para €1 por tonelada de carbono seqüestrado da noite para o dia. A comissão Européia anunciou imediatamente suspender o resgate e os subsídios sobre as RCEs e UREs (Unités de Réduction des Emissions = Emission Reduction Units  ERUs – titulo da mesma familia).
As coisas ficaram pretas para os frangotes do mercado de carbono. Num primeiro momento os governos emitiram muitas licenças levando ao excesso de oferta e depois ao desastre. O dois mais acreditados auditores que operavam no sistema europeu - DNV Det Norske Veritas (noruegues) e SGS (frances) -  foram flagrados com a mão na cumbuca e um após o outro suspensos por irregularidades.
O policia européia (Europol) descobriu que alguns agentes estavam cobrando taxas em nome de seus governos e depois embolsando o que arrecadavam. 
Mercado nem livre nem consertável:  Algumas almas crédulas ainda imaginam que podem consertar essa situação com mais regulamentação, auditorias e assim fechar a maioria das brechas, mas esse é justamente o problema: num mercado fake baseado em bens não mensuráveis ou verificáveis facilmente, dirigido à empresários do terceiro mundo, o mercado em si é uma “brecha”. O único meio de fechar as brechas é acabar com o mercado.