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terça-feira, 23 de agosto de 2011

O PIG é muito perspicaz... só para abalar a base de apoio de Dilma. O resto não vê!

Cancer-Bob and the yoyo - Johnny Voss & Alan McCormick - CLIQUE QUE AMPLIA


pescado no blog Se a rádio não toca


No último mês, o Jornal da Tarde, que circula apenas na Grande São Paulo, publicou uma série de reportagens investigativas sobre a corrupção na Sabesp. Nelas aponta que as empresas que atuaram na Sanasa, na cidade de Campinas, também atuaram no governo do estado.

As matérias mostram a formação de um verdadeiro cartel para fraudar licitações. Em setembro de 2010, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE-SP) prendeu José Carlos Cepera, que controlava um grupo de seis empresas: Lotus Serviços Técnicos; Pluriserv Serviços Técnicos; Infratec Segurança e Vigilância; São Paulo Serviços; Pro-saneamento Ambiental e O.O. Lima Empresa Limpadora, todas limitadas e registradas em nome de laranjas. Além disto, há uma ramificação, apontada pela Polícia Federal que chega à região do Vale do Paraíba.

A máfia presidida por Cepera mantém de 1995 até hoje contratos com todos os poderes do Estado de São Paulo – Legislativo, Judiciário, Executivo e o próprio Ministério Público –, como aponta a matéria do site Terra intitulada “MP apura ligações de suspeitos de fraude a governador”. Isso por si só mostra o poderio dessas empresas e as relações de proximidade entre este grupo e o poder público paulista.

Segundo nota do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE-SP), a fraude é de, pelo menos, R$ 615 milhões e “a organização criminosa realizava as fraudes através da corrupção dos agentes públicos responsáveis pela licitação ou através do ajuste com empresas concorrentes, sem conhecimento do órgão público, sempre através da entrega de vantagens financeiras em dinheiro”.

Além de Cepera, foram presos naquela ocasião Arnaldo Mayer, dono da Saenge, Gregório Wanderlei Cerveira, dono da Hidrax, e Dalton dos Santos Avancini, da Camargo Correia.

A Polícia Federal, no rastro da operação Castelo de Areia, fez uma grande investigação sobre esses grupos criminosos e repassou-a ao MPE que, por “questões estratégicas”, preferiu continuar apenas as averiguações entre as relações dessas empresas com a cidade de Campinas, [onde há políticos] que curiosamente apoiaram o governo Lula e a eleição de Dilma. E lá prendeu a esposa do ex-prefeito, cassado no último sábado, e vários secretários que fariam parte da denominada “República de Corumbá”. Pelo que se sabe as “organizações Cepera” e a Saenge têm contrato de aproximadamente R$ 100 milhões com a Prefeitura de Campinas.

Em maio, matéria do Estadão revelou que um grampo dessas investigações cita que o dono dá Saenge, filiado ao PSDB, teria relações fortes com três tucanos:

Monitoramento do Ministério Público (MP) também flagrou diálogos do empresário Luiz Arnaldo Mayer com um homem não identificado. Na conversa, se diz que Aparecido, José Henrique Reis Lobo, ex-presidente municipal do PSDB de São Paulo, e o deputado federal tucano Ricardo Trípoli (SP) estão ‘intercedendo’ nos negócios de outro empresário, José Carlos Cepera, apontado como líder do grupo que teria desviado R$ 615 milhões dos cofres de Campinas.

Os grampos mostram os movimentos de Arnaldo Mayer, preocupado com os negócios relativos à Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). Mayer é sócio-diretor da Saenge Engenharia, que tem contratos com a Sabesp.

O teor dos diálogos indica que o empresário teria o compadrio de um deputado para transitar por gabinetes da Assembleia e do Palácio dos Bandeirantes. “O conteúdo dos diálogos deixa muito evidente que as questões referentes às suas (de Mayer) contratações públicas estão intimamente ligadas a contatos e relacionamentos políticos”, destaca o relatório do MP.

Na mesma nota de setembro de 2010, o MPE menciona contratos dessas empresas com o governo paulista, especialmente a Sabesp. Os contratos com as empresas que atuaram em Campinas com a Sabesp atingem R$ 1,75 bilhão, sem contar os contratos bilionários da Camargo Corrêa com a linha 4 do Metrô e o corredor noroeste em Campinas, como mostra a tabela abaixo:

Estranhamente a Saenge teve novos aditamentos de contratos em 2011 e a Pluriserv, um dos braços das empresas de José Carlos Cepera, 12 aditamentos que somam R$ 2,5 milhões. Estes fatos mostram que sequer há investigação dos contratos suspeitos e nem tampouco se interrompeu a execução deles.

O dono da Saenge, Arnaldo Mayer, vale relembrar, é filiado ao PSDB. Somente após denúncias publicadas no Jornal da Tarde e representação de deputados do PT, o Ministério Público resolveu abrir investigação sobre a Sabesp.

Mas se o MPE já se sabia isso desde 2010, por que não investigou o governo dos tucanos? Como o Ministério Público mantém contratos com empresas acusadas por ele próprio de fraudar licitações? Como essas empresas conseguiram estar presentes em todos as esferas da administração pública? Por que só foi investigado o caso de Campinas, cujo prefeito é um aliado do presidente Lula? Mistérios que precisam ser desvendados por jornalistas investigativos.

Vários diretores da Sabesp aparecem contratando as empresas investigadas pelo Ministério Público ou se unindo a elas em consórcios. Um dos envolvidos é o engenheiro Umberto Semeghini, que deixou a empresa Gerentec para trabalhar na Sabesp. Na época, ele conseguiu a proeza de elevar os contratos da Gerentec com a estatal paulista em 187%. Pularam de R$ 40 milhões para R$ 115 milhões. Uma dica sobre as relações de Umberto Semeghini aparece na matéria do Jornal da Tarde:

Amigo pessoal do ex-governador Alberto Goldman (PSDB), com quem atuou no Ministério dos Transportes no governo Fernando Henrique Cardoso, Semeghini não é filiado a nenhum partido político, mas mantém laços políticos com outros tucanos. Em 2004, por exemplo.

O modus operandi de Umberto Semeghini foi seguido por Nilton Seuaciuc, da Vitalux Eficiência Energética. Os seus negócios com a estatal paulista cresceram 250%. Nilton foi assessor de Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp. Massato, por sinal, foi quem mais assinou contratos com as empresas investigadas em Campinas.

Já Marcelo Salles, diretor da Sabesp e ex-diretor da ETEP, viu sua ex-empresa ganhar contratos que chegaram a R$ 192 milhões no governo de José Serra (PSDB). Um crescimento de mais de 490% em relação ao que tinha na gestão anterior.

Por sua vez Marisa de Oliveira Guimarães, assessora da Sabesp, é casada com Alceu Bittencourt, que é diretor de outra consultoria, que tem contratos com a Sabesp de R$ 103 milhões.

Uma curiosidade: em 2009, somente apresentaram propostas a VITALUX, COBRAPE e BBL, e ganharam as licitações de dois pregões que atingiram o valor de R$ 32,4 milhões.

Fica, portanto, evidenciada a ação de um cartel dentro da Sabesp para viciar licitações. Mas o silêncio de Geraldo Alckmin (PSDB) sinaliza que ele não está sendo coerente com o que afirmou em 2006, no debate com Lula: “ Não rouba e não deixa roubar”.

A grande imprensa só investiga a operação Castelo de Areia quando quer atingir seus adversários políticos e cobra de Dilma ações contra a corrupção, com claros fins de cindir a sua base de apoio, mas se cala e não cobra providências das autoridades paulistas para coibir que continuem a atuar empresas acusadas pelo próprio ministério público de fraudar licitações.

O estupro que Amorim herdou de Johnbin


por Luiz Cláudio Cunha, no Observatório da Imprensa


Na noite de 19 de maio passado, um soldado de 19 anos fazia a faxina no banheiro do alojamento de um quartel do Exército na cidade gaúcha de Santa Maria, terra natal do então ministro da Defesa, Nelson Jobim. De repente, sem nenhuma razão, foi atacado por outros quatro soldados, que o jogaram na cama e o violentaram várias vezes, em rodízio. Machucado, o jovem foi transferido em sigilo para um hospital militar, onde ficou internado durante oito dias. Só no quinto dia é que a família foi informada da internação, assim mesmo com uma falsa explicação: “Ele sofreu um mal súbito numa atividade interna do quartel”, fantasiou um militar aos pais do recruta.

A investigação interna do Exército corre sob sigilo militar, após a denúncia de um sargento sobre a violência sexual. Ninguém foi preso, já que não houve flagrante, e o inquérito já foi prorrogado, ampliando para três meses o mistério sobre o caso. O general Sérgio Westphalen Etchegoyen, responsável pela investigação, diz que a vítima foi isolada e mantida sob guarda pelo temor de que tentasse o suicídio. A mãe do jovem foi ameaçada de prisão, dentro do hospital, sob suposta “insubordinação contra autoridade militares”. Ainda na cama do hospital, o violentado ouviu o aviso de um soldado que fazia a guarda no seu quarto: “Tu vai se ferrar”.

O inquérito militar, segundo a família, deve concluir que tudo não passou de uma “luta corporal de brincadeira entre os rapazes”, complementando a divertida versão preliminar do Exército de “sexo consensual” do jovem, embora manietado por outros quatro soldados.

“Novas diligências”

Esta história escabrosa foi revelada com exclusividade, no final de maio, pelo Sul21, um site de Porto Alegre que escalou um repórter persistente, Igor Natusch, para acompanhar com destemor o caso. Estranhamente, ninguém mais da imprensa se interessou por este fato de inusitada violência cometida dentro de um quartel do Exército, em pleno regime democrático. O então ministro Nelson Jobim, procurado com insistência, não deu um pio, reforçando sua confissão de que vê os jornalistas como “idiotas sem modéstia”.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, ficou chocada ao ser informada pelo repórter, no final de maio: “Isso é um crime comum, que deve ser tratado pela Justiça comum. O Código Penal Brasileiro já não concebe mais a ideia de ‘atentado violento ao pudor’. Todo crime sexual é conformado como estupro. A existência da figura do ‘atentado violento ao pudor’ no Código Militar demonstra um imenso equívoco no ordenamento jurídico brasileiro. Vou conversar com o Comando do Exército”.

Se Maria do Rosário conversou, ninguém sabe, ninguém viu.

Em Brasília, o crime foi empurrado para debaixo do edredom.

Em Porto Alegre, a Assembléia Legislativa gaúcha foi mais corajosa. “O Exército precisa responder à sociedade sobre o que aconteceu”, disse o deputado estadual Miki Breier (PSB), presidente da Comissão de Direitos Humanos. “Não é um caso de mau comportamento. É um fato gravíssimo, que pode manchar a imagem de uma instituição muito importante. Não pode ficar restrito ao foro interno do Exército”. O deputado Jeferson Fernandes (PT), enviado a Santa Maria pela comissão, conseguiu vencer o bloqueio em torno do jovem e conversar com ele. Voltou de lá ainda mais preocupado, ao ouvir sua resposta para a alegada tentação ao suicídio: “É o que eu mais penso, todos os dias”, confessou o recruta ao parlamentar, segundo relato do Sul21.

Apesar da solitária insistência do repórter Igor Natusch, a investigação militar patina, apostando na falta de reação popular e na indulgente memória coletiva. No final de julho, o Ministério Público Militar devolveu o inquérito sobre o estupro de Santa Maria à Justiça Militar, a pretexto de novas diligências, desta vez num celular apreendido que traria cenas de vídeo da violação. Não se sabe, até agora, quais os novos prazos para apresentar a conclusão das investigações.

Crime covarde

A baixa repercussão e a restrição de informações sobre o crime praticado no sul, dentro de um quartel, é um grave sintoma deste Brasil covarde: um país que não tem coragem de confrontar os crimes militares do presente não terá, jamais, força moral para resgatar os crimes militares do passado, como as torturas e violências (muitas sexuais) praticadas na longa ditadura de 21 anos instalada em 1964. O caso sigiloso, inconcluso e vergonhoso de Santa Maria é uma herança maldita que Nelson Jobim legou, sem dó nem consciência, ao seu sucessor Celso Amorim.

É um constrangimento – mais um – para a presidente Dilma Rousseff justamente quando o Ministério da Justiça abre em Brasília, a partir de segunda-feira (22), a ‘Semana da Anistia’, embalada por um lema inspirador: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

O bravo site do sul e seu corajoso repórter estão fazendo a sua parte para que não se esqueça o covarde crime do quartel de Santa Maria.

Já os governantes civis e comandantes militares não mostraram, até agora, o que fazem para que ele nunca mais aconteça.

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sábado, 20 de agosto de 2011

Porque hoje é sábado!... Hugh Laurie

O segundo vídeo diz bastante respeito a este blog

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Os verdadeiros arruaceiros são outros


variações sobre um texto de Vladimir Pinheiro Safatle, no Planeta Osasco

Há algo de profundamente cômico (ou trágico) em ouvir o premiê britânico, David Cameron, afirmar que a Inglaterra está vivendo um "colapso moral" e que devemos colocar os confrontos em Londres e em outras cidades na conta da ausência de valores como "espírito de equipe, decência, dever e disciplina".

Sim, as escolas e as famílias não ensinam mais esses grandes valores, mas, segundo o primeiro-ministro, em seu papel de último esteio moral da ilha, "desencorajam o trabalho" e fornecem "direitos sem responsabilidade". Por muito pouco, não fomos brindados com a brilhante e inovadora ideia de que as altas taxas de desemprego eram fruto da "preguiça".

Alguém deveria ter dito a Cameron que ele não é exatamente um bom enunciador contra o colapso moral britânico, ainda mais depois de um de seus principais assessores ser pego envolvido no escândalo que expôs as relações incestuosas entre a política britânica e o magnata da mídia Rupert Murdoch.

Da mesma forma, quando seu governo destrói todo o resto de sistema público de educação e de assistência social após ter pago (com o beneplácito de seu partido) a conta de bancos responsáveis pela crise de 2008, há de se perguntar se o colapso moral vem da City ou de Tottenham.

Pelo menos Cameron mostrou o que o pensamento conservador pode nos oferecer hoje: ladainhas morais em vez de ações enérgicas contra os verdadeiros arruaceiros, ou seja, esses que operam no sistema financeiro internacional.

No outro lado do Atlântico o céu se tolda de nuvens negras também. Nos EUA, o mercado de trabalho e a inflação deram sinais de piora. O número de pedidos de auxílio-desemprego subiu 9 mil, para 408 mil, na semana passada, superando bastante a expectativa de alta de 5 mil pedidos, para 400 mil. Logo teremos agitação na America do Norte também. Aí quero ver o Tea Party em ação.

Cientistas descobrem como células de câncer se espalham


Redação do Diário da Saúde

Pesquisadores europeus descobriram como as células do câncer geram contrações parecidas com as produzidas pelas células musculares para se espalhar pelo corpo.

Uma proteína chamada JAK desencadeia contrações nos tumores que permitem que as células cancerosas se espremam por pequenos espaços e se espalhem.

A pesquisa, publicada na revista Cancer Cell, foi feita por cientistas do Instituto de Pesquisas sobre o Câncer (ICR), de Londres, e da Universidade de Nice, na França.

Metástase

Quando a proteína JAK é "ligada", ela produz contrações nas células, semelhantes às dos músculos, gerando a força que as células cancerosas precisam para se mover.

A descoberta levanta a possibilidade de que drogas que alvejem a JAK possam impedir a disseminação de tumores, chamado metástase, que é responsável por 90 por cento das mortes relacionadas ao câncer.

Os tumores são formados por células cancerosas, células saudáveis associadas ao tumor e estruturas de suporte, que se juntam na chamada matriz extracelular.

As células cancerígenas se espalham movendo-se para fora do tumor, através desta matriz, atingindo novos locais.

Usando os cotovelos

Em alguns tipos de câncer, as células cancerosas usam a força para "acotovelar" suas vizinhas e abrir caminho através da matriz.

Em outros tipos de tumores, as células saudáveis associadas ao tumor usam a força para criar túneis, pelos quais as células cancerosas podem escapar.

Os cientistas mostraram que tanto a força gerada pelas células de câncer, quanto pelas células normais associadas ao tumor, usam os mesmos processos, baseados na proteína JAK.

Já existem drogas em desenvolvimento para inibir a proteína JAK, mas ainda em estágio de pesquisa.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Porque hoje é 4ª!... para descansar a alma

La Negra e Milton Nascimento - Sugestão de meu amigo Cesário Simões

As sementes e os semeadores da violência


por Boaventura de Sousa Santos(1), no blog Outra Política

Em Londres todos os esforços e recursos são direcionados para salvar bancos, mas nada se faz para resgatar jovens sem recursos. Aí deu no que deu.

Este esclarecedor post vale muito a pena, para que a gente possa compreender onde estão as raízes da violência que se verificou na Inglaterra:


Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta. Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes:

1) a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo,
2) a mercantilização da vida individual e coletiva,
3) a prática do racismo em nome da tolerância,
4) o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos.

Cada um dos componentes tem uma contradição interna. Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.

A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.

Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.

Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.

Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.

Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça. Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.

O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.

Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.

Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.

Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.


NOTA BOTOCUDA

(1) O sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que ficou conhecido aqui na Pindorama pelo “puxão de orelhas” que deu em Fernando Henrique em plena solenidade de sua sagração como Doutor Honoris Causa na Universidade de Coimbra.