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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Amor e Revolução - uma novela que está dando pano pra manga


O texto logo a seguir é do jornalista Paulo Moreira Leite, da revista Época e aborda a novela do SBT Amor e Revolução, trama que vem esquentando o clima político no Brasil. As analises subseqüentes são do meu amigo Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, de onde este post foi pescado

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Amor e Revolução

Fico feliz em constatar que a Censura sofreu uma derrota importante. Militares da reserva tentaram proibir a novela “Amor e Revolução”, do SBT, mas foram derrotados. Acho ótimo.

“Amor e Revolução” é uma novela com vários defeitos mas não se pode deixar de registar sua coragem. Não há notícia, na história da TV brasileira, de um retrato tão cru (e em certa medida cruel) da violência ocorrida nos porões do regime militar. O folhetim exibe cenas de tortura como nunca se viu, sem tratá-la como um evento incomum, mas como um dado banal da luta política no período.

É chocante, mas não deixa de ter seu mérito. O resgate de um fato verdadeiro é sempre um valor positivo — por mais que seja doloroso e inconveniente.

Outro aspecto é que a TV brasileira tem uma dívida histórica com a memória do país. As grandes redes de TV cresceram e se consolidaram durante o regime militar. Não é possível definir uma relação de causa e efeito entre o governo dos generais e a construção das redes nacionais — este processo era inevitável do ponto de vista do progresso das comunicações e iria ocorrer de qualquer maneira.

Mas ele assumiu formas peculiares em nosso país e isso se explica pelas relações promíscuas entre os canais de TV e o regime.

A Censura era uma força determinante no noticiário das emissoras, no foco da cobertura e na escolha dos assuntos. Vivia-se sob um regime de força e é assim que as coisas ocorrem numa ditadura. Mas não só. Havia também o interesse.

O regime militar favorecia e protegia seus amigos e punia quem resistisse. Um dos momentos máximos deste poder autoritário residia no momento de conceder as célebres concessões de rádio e TV. Ganhava-se uma concessão em troca de um currículo de boa vontade. Aliados do governo Goulart foram punidos e perseguidos até que tiveram de entregar os pontos.

O próprio SBT, que exibe Amor e Revolução, enquadra-se nessa categoria. Nos tempos da ditadura, chegou a criar um programa apenas para falar bem de João Figueiredo, um dos presidentes do regime militar. Considerando que desde 1988 o país tem uma nova Constituição, que proibe toda forma de censura, a iniciativa de fazer uma novela sobre um periodo tão marcante é até um pouco tardia.

Num momento em que o Planalto defende a aprovação da Comissão da Verdade, que pretende auxiliar na apuração dos crimes do regime militar, um folhetim desse tipo parece muito mais do que uma simples coincidência.

Mas não deixa de ser elogiavel.

A questão é a novela em si. Já ouvi gente dizendo que a intenção é boa. Eu acho muito fraca. O enredo não tem a envergadura de um processo histórico e trata os conflitos da época de forma simplória e reducionista. Os conflitos lembram filmes de bangue-bangue. Os diálogos são bisonhos e as disputas ideológicas, que envolvem pessoas que ajudaram a decidir o destino do país em determinado momento, são um campeonato de chavões — entre amadores.

Quem quiser entender por que o Brasil passou 20 anos sob um regime militar não irá aprender muita coisa — ou será obrigado a acreditar que tudo se resume a um conflito entre mocinhos e vilões.

Concordo que é fácil distinguir entre o certo e o errado quando se trata de comparar uma democracia com uma ditadura. Não é preciso entrar em discussões “complexas”. Mas tomar partido não basta, vamos combinar.

Os fatos da época estão lá mas não há contexto. Os personagens ficam deslocados, determinadas situações deixam de fazer sentido. Generais e estudantes de 64 fazem discursos como se estivessem em 1968. Um casal apaixonado cultiva flores no maior estilo hippie no mesmo sítio onde se preparam ações armadas.

Novelas são formas legítimas de entretenimento. Mas, quando pretendem falar de processos históricos, precisam ter uma noção mais clara de uma realidade em seu conjunto político, economico, cultural. Caso contrário, fica difícil acreditar naquilo que se vê no vídeo.

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Eis-me de regresso, leitor amigo, para comentar um texto, digamos, 70% honesto – o que não é marca desprezível, em se tratando da origem que tem.

Desde que estreou, no início do mês, que a novela do SBT Amor e Revolução vem sofrendo um processo que pretende desestimular o público de assisti-la. E quem empreende tal processo é a grande imprensa por razões que todos conhecem, ou seja, essa imprensa era aliada dos ditadores.

A argumentação contra a novela tem sido risível. Pode ser usada contra qualquer novela da Globo, aliás, mas só é usada contra a do SBT. Falam dos diálogos “ginasianos”, segundo um colunista da Folha de São Paulo, ou “bizonhos”, segundo o articulista da Época. A novela também conteria imprecisões históricas e seria maniqueísta, agora na visão do jornal e da revista.

Alguém, por acaso, já assistiu a um simples capítulo da novela “das oito” da Globo, por exemplo? Se verossimilhança da trama for o requisito, a novela Amor e Revolução encerra muito mais. Aquele mundinho das tramas globais tem sempre mais de 80% de brancos de aparência européia em um país em que mais da metade da população é descendente de negros. Os ricos todos, salvo o vilão de plantão, amam pobres e não são racistas, como quer Ali Kamel.

Se Paulo Moreira Leite, indiretamente empregado da Globo, quer ser realmente honesto – e ele parece que tentou ser o mais honesto dentro de suas circunstâncias de simples homem empregado em um império de comunicação –, tem que reconhecer que se formos tão exigentes com as novelas do seu patrão quanto estão sendo com a do SBT, nenhuma se salva.

O que mata essas novelas são os modelos transformados, de improviso, em atores. Essa garotada bonitinha, branquinha, loirinha, de olhinhos clarinhos e sobrenome europeu pode ser muito boa para tirar fotos, mas para dramaturgia, é um desastre. São inexpressivos, artificiais. Tudo o que sai de suas bocas, de suas expressões faciais e da linguagem corporal, soa falso.

Nesses quesitos, a novela do SBT tem tantos ou mais bons atores, que convencem, quanto as novelas da Globo.

Jaime Periard, o delegado Aranha, é assustador. Cada vez que aparece no vídeo, com sua perversidade infindável, faz o telespectador ficar tenso. O mesmo acontece com os perturbadores Filinto Guerra (Nico Puig), Fritz (Ernando Tiago) e general Lobo Guerra (Reinaldo Gonzaga). Os vilões são sempre os melhores.

Mas há, também, a convincente interpretação do eterno Claudio Cavalcanti, que interpreta o líder camponês Geraldo, uma espécie de João Pedro Stédile dos anos 1960. Em (bem) menor escala, pode-se, com alguma boa vontade, encontrar outras interpretações passáveis, ainda que sem brilho.

E todos esses colunistas da grande imprensa implicaram com um suposto “maniqueísmo” da trama da emissora de Senor Abravanel. Essa mania desses colunistas de ficarem repetindo todos as mesmas opiniões polêmicas é que responde pelos 30% do artigo de Paulo Moreira Leite que são a mais pura empulhação.

Maniqueísmo? Ora, vá se catar, Paulo! Que maniqueísmo? Você consegue fazer um filme sobre o regime de Hitler apontando defeitos nos que o combateram? A ferocidade, a demência, a vilania dele foi tão grande que qualquer menção a eventuais defeitos dos que o combateram se tornaria absolutamente irrelevante.

Imprecisões históricas? Que imprecisões? Os detratores da incômoda novela falam que não havia tortura nos primeiros anos do golpe. É piada. Quem quiser pode ler os relatos de leitores que viveram a ditadura colocados em todos os posts que escrevi sobre essa novela. Havia tortura de “comunistas” antes e depois do golpe, não só depois do AI-5.

A relevância e a coragem dessa novela, porém, foram muito bem admitidas pelo nosso estimado Paulo Moreira Leite – seu nível de honestidade intelectual, nas suas circunstâncias, chega a ser comovente.

Depois da tentativa de militares de pijama de censurarem a novela na Justiça, então, é que ela começa a ganhar a importância que tantos lhe negaram, inclusive na esquerda, quando este blog já dizia o que viria por ali. Hoje, por exemplo, vários jornais informam que, ao fim do capítulo, vai ao ar parte do longo depoimento gravado por José Dirceu. Vejam, abaixo, nota da Folha de São Paulo:

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Em novela, Dirceu relata maus-tratos sofridos no Dops

VERA MAGALHÃES DE SÃO PAULO

Vai ao ar hoje, no encerramento do capítulo da novela “Amor e Revolução”, do SBT, o depoimento gravado pelo ex-ministro José Dirceu sobre sua prisão pela ditadura, em 1969, e o período em que viveu exilado em Cuba e clandestino no Brasil.

Já gravaram para a trama de Tiago Santiago nomes como Criméia Almeida, ex-guerrilheira do Araguaia, e Rose Nogueira, que dividiu a cela no Dops com a presidente Dilma Rousseff.

A participação de Dirceu é menos dramática. Ele faz uma distinção entre a época em que foi preso, quando a tortura ainda não era corrente, e o recrudescimento posterior. “Quando chegamos ao Dops houve uma sessão de pancadaria, de chutes.”

Ele narra que foram para o 4º RI, unidade do Exército em que Lamarca esteve preso, onde teria havido mais maus-tratos. “A comida era uma lavagem, a cela era pra ter pneumonia e tuberculose. Percebemos que aquilo já era prenúncio do que estaria pra começar de tortura e da ditadura”, diz Dirceu no vídeo, ao qual a Folha teve acesso.

Ele descreve as condições do congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), que levou à prisão de cerca de 800 participantes, em 1969, como “precárias”.

“Nós recebemos a informação de que o lugar estava cercado e decidimos não sair. Fomos todos presos”, conta Dirceu, que está inelegível após ser cassado pela Câmara, sob acusação de ter chefiado o mensalão. Ele é réu na ação penal do STF (Supremo Tribunal Federal).

Seu depoimento, de uma hora, deve ser usado em outros capítulos. A novela do SBT, que vai ao ar às 22h, estreou no último dia 5, com média de audiência de 7 pontos na Grande São Paulo.

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Por sua importância, por todos os créditos que o colunista da própria imprensa golpista admitiu, Amor e Revolução precisa resolver sua única distorção histórica grave, a ocultação do papel da grande imprensa do Rio e de São Paulo que Paulo Moreira Leite admite só em alguma medida porque não trata claramente da conspiração de seus patrões com os militares e os americanos.

As benesses que o corajoso colunista da Época relata que a imprensa golpista recebeu da ditadura e a participação dessa imprensa naquela ditadura – que ele não relata –, tudo tem que ir para a telinha. Silvio Santos e o próprio autor da trama, Tiago Santiago, não podem conspurcar iniciativa tão boa com omissão tão escandalosa que nem o colunista do PIG ousou cometer por completo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Recado da Islândia


Mair Peña Neto, no Direto da Redação


Os jornais brasileiros trataram com muita discrição a segunda rejeição dos islandeses ao pagamento de 4 bilhões de euros ao Reino Unido e à Holanda por conta da quebra de um banco no colapso do sistema bancário da Islândia durante a crise financeira global de 2008.

O assunto é da maior relevância pois envolve a importante questão da socialização das perdas dos bancos privados que alguns países assumem como inexorável. Na irresponsável ciranda financeira que levou à crise mundial ,que ainda cobra seu preço, poucos ganharam. Mas na hora de pagar a fatura, todos os contribuintes são chamados a dar o seu quinhão.

Sob a palavra de ordem “não pagamos a crise deles”, os islandeses se mobilizaram, foram às ruas, derrubaram governo e tornaram público o debate da dívida. Uma primeira negociação indecorosa, proposta pelos credores, estabelecia o pagamento em apenas oito anos, entre 2016 e 2024, com juros de 5,5%. Incrivelmente, ela chegou a ser aprovada pelo parlamento islandês, mas o presidente Olafur Ragnar Grimsson se recusou a assinar o acordo, que acabou indo a referendo.

Em março desse ano, 93% dos islandeses disseram não ao pagamento da dívida. Uma nova proposta foi apresentada, com o pagamento em 30 anos, entre 2016 e 2046, e juros de 3,3% para o Reino Unido e 3% para a Holanda. E, novamente, os islandeses rejeitaram o acordo, com 60% de votos contrários.

A dívida surgiu com uma agressiva política dos bancos islandeses, que foram desregulados em 2001 em meio ao sonho neoliberal. Um dos maiores bancos do país, o Landsbanki, criou contas de poupança online no Reino Unido e na Holanda, sob o nome de Icesave, prometendo as melhores taxas de juros do mercado, acima de 6%. Naturalmente, não teve condições de honrá-las, deixando um rombo de 4 bilhões de euros. Os governos britânico e holandês decidiram por conta própria reembolsar os correntistas e querem que o contribuinte islandês pague a conta.

A Islândia foi severamente atingida pela crise financeira mundial e sua economia foi à bancarrota, com queda no PIB, cortes nos serviços públicos e crescimento do desemprego. Os contribuintes se recusam a aceitar como seu dever pagar pela irresponsabilidade de agentes financeiros privados que jogaram o país no caos. Reino Unido e Holanda não vão sair de mãos abanando, pois receberão dinheiro decorrente da liquidação do patrimônio do Landsbanki por parte do governo islandês. Deveriam se dar por satisfeitos.

A recusa democrática ao pagamento da dívida, que o mercado chamará de calote, trará sérias conseqüências. As notórias agências de risco irão rebaixar o país, a questão será levada aos tribunais e a intenção do governo da Islândia de ingressar na União Européia poderá ser barrada. Faz parte do jogo de pressões. Mas o recado dos referendos islandeses já está dado. Dívidas privadas não são dívidas públicas. E crises econômicas são questões políticas que devem ser tratadas pelas populações e não pelos mercados e governos.

Nossas homenagens botocudas a todos os outros botocudos

Para quem acha que os 26 minutos do documentário abaixo é muito, assista pelo menos os primeiros 6 minutos e me digam, é ou não é muito legal?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Aécio é alérgico a substância do Bafômetro

Além de ser confundido com Mara Maravilha, Aécio Neves quase tem que passar por um teste que poderia ferí-lo gravemente. Aécio passa bem.

Lucas Constantino, no The Jannah Wilson blog's

No último fim de semana, de sábado para domingo às 3:00 da madrugada, o senador Aécio Neves passou por momentos difíceis, trágicos e coloquiais ao ser parado por uma blitz da Polícia Rodoviária Fluminense. Os policiais além de pedirem autógrafos, pediram ao ex-governador de Minas que fizesse o teste do bafômetro. No entanto, Aécio recusou, argumentando sua alergia à substância contida no bafômetro: a creolina. O aparelho possui em sua composição grande quantidade de creolina, o que poderia ser fatal para uma pessoa que possui Síndrome de Catarina.

Além disso, a vistoria feita pelos policiais constatou que o Land Rover cinza-pó do tucano estava com os documentos atrasados por mais de 30 dias. Nossa reportagem conseguiu falar com o senador ainda neste domingo. “Não sabia que o carro estava irregular. Ganhei ele há poucos dias do meu grande amigo-irmão José Serra, nem chequei nada. O problema é que a Dilma exige que a gente pague muito imposto.”, criticou em tom de fúria. Fontes do Ministério das Lamentações confirmam que o brasileiro só não paga mais impostos porque sonega.

Sobre a alergia que impediu o mineiro de fazer o teste do bafômetro, Aécio foi categórico sobre seu problema de saúde. “Não posso entrar em contato com nada que termina com ‘ina’. Menina, Marina, xilocaína, serpentina, dançarina, argentina, penicilina, faxina...” até que nossa reportagem interrompeu: “E cocaína, senador?”. Depois disso, perdemos contato. Tentamos ligar novamente, mas o telefone estava fora do ar. Já enviamos uma carta de reclamação à operadora telefônica responsável pela linha.

Entramos em contato também com o comandante da Blitz que parou o oposicionista de maior expressão no Senado Federal, Tenente-Coronel Jorge Lúcio de Faria. Na cerimônia de condecoração do policial (por sua bravura no 11 de setembro), ele comentou a operação Lei-Seca de ontem: “Eu não percebi que era o Aécio. Pensamos que era a Mara Maravilha e por isso pedimos autógrafos. Mas tudo não passou de uma confusão. Já liguei pra ele e me desculpei”, contou o agora Major Faria.

O nosso especialista em medicina quântica, medicina abortiva e medicina obscura, André Jordano, explicou que a Síndrome de Catarina atinge poucas pessoas no mundo. No entanto, é silenciosa e pecaminosa. “Seus sintomas são de alergia nível alfa. Os olhos incham, as veias estufam e o baço diminui de tamanho. O nome da síndrome foi dado por uma alemã que morreu ao beijar uma mulher chamada Catarina”, afirmou Jordano.

ESSE BLOG NÃO APOIA A LEI DO SILÊNCIO

PS¹: Aécio não precisará pagar a multa por recusar a fazer o teste. Segundo a Constituição, ninguém é obrigado a forjar a própria morte.

PS²: Mara Maravilha deu entrada no Hospital Sírio Libanês por possível trauma de origem alcoólica.

PS³: Esse carro não é do Écin... pegou emprestado do Silvinho Land Rover. Confira


O infatigável D. José I, o Serra


Carlos Motta, no Crônicas do Motta

O infatigável José Serra, provavelmente cansado do ofício de papagaio de pirata ao qual se dedicava depois de perder a eleição presidencial, arranjou um novo ofício, o de articulista da página 2 do Estadão, aquela que exibe diferentes nomes a exprimir sempre a mesma opinião.

Seu artigo de estreia foi por ele denominado Negócio da China, um título, convenhamos, nada original. Serra explicou na notícia que informa os leitores do Estadão sobre a sua nova atividade que gastou duas horas inteiras para escrever a peça - e mais três para pô-la no tamanho exigido pela limitação da folha de papel. Na sua imensa modéstia, ainda informa que costuma escrever rapidamente.

Nem precisava dizer isso, a julgar pelo conteúdo do artigo. Certamente há pessoas que poderiam gastar bem menos tempo para dizer que o Brasil exporta commodities para a China e importa produtos manufaturados dos chineses. Ah, e também que esses danados desses chineses são bons nesse tal de planejamento a longo prazo e nós, pobres brasileiros, não conseguimos pensar muito além do dia de amanhã.

Pronto, trabalho feito. Há, porém, omissões nesse texto do pensador José Serra. Ele se esqueceu, em meio às tantas obviedades que escreveu, de dizer, por exemplo, que a vaca dá leite e o macaco gosta de banana.

Se assim fizesse dignaria ofertar ao leitor, além de seus notórios conhecimentos econômicos, outros de áreas também relevantes como, por exemplo, a biologia e a sociologia.

Certamente haverá mais oportunidades para isso. Pois, por mais que esteja em atividade, o nosso prolífico intelectual e político achará tempo para deslumbrar a todos com suas originais receitas para as mazelas do país, todas bem temperadas com o gosto forte da inveja e pitadas generosas de ressentimento.

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NOTAS BOTOCUDAS

O arrazoado da lavra do Almirante do Tiete está aqui.

Notem que de saída cita o economista argentino Raúl Prebisch - que criou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e, ao lado de Celso Furtado, combateu o pensamento econômico conservador da época e lutou pela industrialização e integração dos países latino-americanos.

Mas quem tem um mínimo de memória lembrará que há poucos meses, durante a campanha presidencial, esse mesmo D. Chirico 1º - combatente indômito do trololó petista, renegou na prática e na teoria as ideias de Prebisch e Furtado.

Agora saca esses mesmos teóricos da algibeira para sugerir a divisão do sistema capitalista mundial entre o centro (ocupado pelos países mais ricos e desenvolvidos) e a periferia (constituída pelas nações pobres, julgadas subdesenvolvidas ou em vias de desenvolvimento), para concluir que a China caminha para se constituir numa economia central e o Brasil segue descontraído na direção oposta, rumo à periferia.

Eita!... pior do que isso deve ser só o artigo defendendo o desarmamento no Brasil escrito pelo iluminado pensador tupiniquim Demetrio Magnoli, que aparece ao lado do texto de Serra - O Pegador Discreto, na mesma pagina 2 da mesma edição do jornalão paulista. Este ultimo não me dei ao trabalho de ler, mas por ai bem se vê que esse jornalão caminha diretamente para o inferno com dois analistas desse quilate.

Ficção e Realidade


Mauro Santayana em seu blog


Victor Hugo,em Les Miserables, definiu a Revolução como “le retour du fictif au réel”. O escritor não examinou, então, as relações mais fundas entre a ficção e a realidade. A frase se insinuava diante das tarefas políticas, na esteira das revoluções, que eclodiam no correr do século 19, a partir da Revolução Francesa de 1789. Ficção e realidade, na política, como em tudo, são categorias que se mesclam. Os projetos políticos, de alguma forma, são ficções, que se realizam, ou não. Mas Victor Hugo teve razão, se quis definir o real como a situação perfeita, aquela que as circunstâncias aceitam e limitam.

Estamos, em tempo revolucionário, como sempre estivemos na História, em si mesma inevitável processo de mudanças continuadas, em que a política pode ser vista como o provisório que dura. Dura mais, ou menos, de acordo com a situação concreta de espaço, modo e tempo.

No plano internacional, o bom senso indica que o poder dos Estados Unidos, baseado na força militar, é mais fictício do que real. A realidade é a falência do país, com dívida de 15 trilhões de dólares – mais do que o seu PIB do ano passado, de cerca de 14 trilhões. O orçamento para este ano de 2011, prevê gastos militares (despesas correntes mais as pensões dos veteranos) de quase um trilhão de dólares, em um total de 3.6 trilhões. Os Estados Unidos, com todo seu poderio bélico, não ganhou uma só guerra que empreendeu, desde a vitória coletiva contra o nazismo, em maio de 1945. Teve êxito em golpes liberticidas contra governos populares da América Latina. As derrotas no Vietnã e na Somália empalidecem qualquer triunfo – e seu desempenho no Oriente Médio não promete melhor sorte.

A reunião entre o Brasil, a Índia, a Rússia, a China e a África do Sul, ocorrida na Ásia, se aceitamos a tese de Victor Hugo, é um dos movimentos para a vitória da realidade contra a ficção. Esses países, em conjunto, contam com mais da metade da população do mundo. O dinamismo de sua economia surpreende os observadores. Ainda que muito desse crescimento, nos dois gigantes asiáticos (Índia e China) se deva à pesada apropriação da mais-valia dos trabalhadores, submetidos a jornadas maiores de serviço e a salários reduzidos, os resultados obtidos os colocam na vanguarda do desenvolvimento nesta década que se inicia.

O mundo começa a não caber na camisa-de-força do condomínio que se estabeleceu com a vitória de maio de 1945 contra a Alemanha e o Japão. Esse condomínio pôde ser mantido mediante o poderio bélico e econômico dos Estados Unidos, o único país a ganhar tudo com o conflito, uma vez que a geografia o preservara de combates em seu próprio território.

É desse desconforto planetário que novos países emergem, a fim de dizer o que pensam e o que querem no cenário internacional. Eles dispõem de inegáveis trunfos, como os da extensão territorial, da população, dos recursos naturais, como minerais metálicos, disponibilidade de energia fóssil e renovável, mananciais de água, biodiversidade e acelerado desenvolvimento da ciência e da tecnologia – e a consciência da necessária soberania.

Estamos em plena revolução política e econômica, que promete reviravolta histórica, mas, como todas as grandes mudanças, carregada de perigos. Ela nos propõe desafios imensos, como os de universalizar a educação, dar novos paradigmas ao desenvolvimento da ciência, domar o progresso, de forma a não comprometer os recursos da natureza, e, ao mesmo tempo, distribuir e manter o bem-estar que a tecnologia nos trouxe. O entendimento entre os países emergentes será sempre provisório, como são os atos políticos, mas deve durar o bastante para redesenhar a geografia do poder no mundo.

domingo, 17 de abril de 2011

O pajé que fala com as árvores

ilustração Juliano Oliveira

Adaptado das crônicas (sempre ótimas) do prof. Bessa Freire, no site Taqui pra Ti


O xamã guarani Wherá Tupã, da aldeia Yynn Moroti Wherá, município de Biguaçu, aqui mesmo na nossa Santa (e bela) Catarina é um pajé guarani que faz até o ateu mais bastardo se sentir filho de Nhanderu? (Nhanderu Tenondé, o criador do mundo)

Nascido em 1911, Wherá Tupã, conhecido como Alcindo Moreira, comemorou seu aniversário de cem anos no dia 25 de janeiro. Casado com dona Rosa Poty-Dja, com ela teve oito filhos – cinco mulheres e três homens – e uma prole de 43 netos, 28 bisnetos e, por enquanto, três tataranetos. Com um século de existência, esbanjando saúde e vitalidade, ele viajou de Florianópolis a Goiânia, acompanhado do filho Geraldo, só para participar da Semana dos Povos Indígenas, realizada de 11 a 15 de abril, na PUC de Goiás.

Todo mundo se pergunta de onde é que esse homem baixinho, pernas e braços musculosos, cabelos grisalhos, olhos sempre brilhando, tira tanta força e energia? “Eu cheguei aos 100 anos, porque tive outra criação, fui educado como um guarani” – ele conta. Aprendeu a cuidar do corpo e do espírito com igual atenção. Ainda hoje, acorda com os galos, faz suas orações, conversa e dá conselho aos mais jovens, vai à roça plantar milho, feijão, aipim, batata doce e hortaliças, base de sua alimentação, onde não entra nem sal, nem açúcar.

Ele tem a certeza que o segredo de sua longevidade reside também no fato de viver sempre cercado de toda a prole, cultivando o afeto familiar. “Ninguém é feliz sozinho” – diz. Dessa forma, vai tecendo os fios da felicidade cotidiana, no convívio com as pessoas queridas, no trabalho diário no qual realiza uma série de exercícios físicos, e na preparação de uma comida saudável.

Alcindo Moreira, tcheramoi, é o líder religioso que preside os rituais na Casa de Reza – a Opy,batiza as crianças, orienta e aconselha os jovens e cuida da saúde de todos, com ajuda de Nhanderu, de quem recebe inspiração e com quem vive em contato permanente: - “Doença? Não sei o que é isto. Médico fica longe de mim. Me trato com as plantas que cultivo na aldeia, seguindo a sabedoria dos meus antepassados”.

Ele é um sábio, um karai. Conhece tudo sobre as plantas. Aprendeu com seu pai, João Sabino Kauã, de quem recebeu algumas sementes. O plantio e a colheita das plantas são frutos da observação sistemática, mas constituem também expressões máximas da religiosidade, do trabalho coletivo e da partilha.

Em 2007, Wherá Tupã, seu filho Geraldo e eu fomos juntos à ilha do Marajó. Tive o privilégio de entrar na floresta, em Soure, com ele e com a pajé Zeneida Lima, quando assisti a uma aula de botânica dada pelos dois. Naquela ocasião, cada planta foi nomeada, identificada, cheirada, tocada com carinho, reverenciada, catalogada, classificada, analisada, com suas propriedades medicinais e alimentícias reconhecidas e enaltecidas.

- As árvores falam – disse ele – a gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem.

Caminho florido

As árvores falam e os guaranis escutam, porque para eles toda a natureza faz parte da sociedade, não está separada da cultura. As plantas, os animais, os acidentes geográficos, os rios, as montanhas, os fenômenos meteorológicos são dotados de humanidade e de consciência. “Essa terra que pisamos é o nosso irmão, ela tem vida, é uma pessoa, tem alma”.

Esse é o arandu porã, o bom conhecimento que os guarani trazem para dentro da academia e que começa a fazer parte das bibliotecas universitárias, pois aparece registrado e analisado nas monografias, dissertações, teses e livros elaborados por mestres e doutores. Alguns deles foram ouvir o xamã Wherá Tupã lá na sua aldeia.

É o caso do trabalho sobre “música e xamanismo guarani” feito na USP pela doutora Deise Lucy Montardo, hoje professora da Universidade Federal do Amazonas; do livro “O caminhar sob a luz, território Mbya à beira do oceano” da doutora Maria Inês Ladeira; das pesquisas de Ana Lucia Notzold e Flávia Melo e das dissertações defendidas na UFSC por Aguirre Neira, Ismênia Vieira, Helena Alpini e tantos outros.

Esses trabalhos criaram uma ponte entre os guarani e a Universidade, confirmando aquilo que escreveu o antropólogo Darell Posey: “Se o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos...”

A botânica é um campo que os guarani dominam bem. No que diz respeito ao uso de plantas medicinais, muitas pessoas, mesmo de diferentes aldeias, até mesmo não-indígenas, se deslocam às vezes de longe em busca dos tratamentos do xamã Alcindo Moreira, tanto para doenças físicas como espirituais. O tratamento que ele dá é muito respeitado e sua sabedoria é requisitada em vários lugares, conforme testemunhou Diogo Oliveira, numa monografia feita para o Laboratório de Etnobotânica do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina:

Na aldeia de Biguaçu existe uma vereda – a trilha da escola, chamada Tape Poty, que significa caminho florido – onde foram colocadas placas com os nomes de algumas plantas utilizadas na medicina doméstica e identificadas por Wherá Tupã. “Vocês pisam nos remédios e não sabem”ele costuma dizer.

Esses saberes tradicionais foram, durante muito tempo (e continuam, por vasta parcela do modus vivendi moderno), pisoteados e discriminados, por serem produzidos por culturas taxadas de “primitivas” e de “obstáculo ao progresso”.

Em Goiania Alcindo Whera Tupã conversou com as crianças e os jovens. Quem sabe essa nova geração aprende a falar com as árvores, eliminando o pesadelo de ter de pedir exame de DNA de Papá Nhanderu Tenondé!