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domingo, 5 de dezembro de 2010

Yamaha RD-350 - A verdadeira Viúva Negra

A Yamaha é fabricante motocicletas no Japão desde 1954. Seu primeiro modelo – a YA 1, Akatombo (Libélula Vermelha) – era , na verdade uma cópia de uma moto européia, a DKW RT 125, alemã. Com um monocilindro a dois tempos, fez sucesso e em três anos ganhava uma irmã de 250 cm³, dois cilindros e 14 cv: a YD 1, baseada também na alemã Adler MB 250. Dez anos depois, em 1965, a marca chegava ao mercado europeu e americano com a YM 1, um modelo de 305 cm³. Nascia ali o embrião da RD 350.


Foi com a série YR que a Yamaha chegou aos motores de 350 cm³. A YR 1, lançada em 1967, desenvolvia 36 cv a 7.000 rpm e evoluiria para a YR 3 (1969) e a YR 5 (1970). Nesse ano a Kawasaki lançava a Mach III 500, uma das motos mais rápidas de sua faixa de cilindrada, demandando uma resposta à altura da Yamaha – a RD 350, que surgia em 1973.

Yamaha YA-1 de 1955 - Akatombo, a Libélua Vermelha

O primeiro modelo RD 350, lançado em 1973, tinha um temperamento agressivo que faria sua fama por décadas. O motor de dois cilindros a dois tempos desenvolvia a respeitável potencia de 39 cv a 7.500 rpm.


A RD era uma esportiva radical, inspirada na TD1 250 de competição, que chegara ao Brasil em 1969 para rivalizar com as italianas Ducati nas provas de velocidade em Interlagos, o autódromo de São Paulo, SP. O motor de dois cilindros de dois tempos apresentava uma importante solução técnica: o sistema Torque Induction de admissão por válvula de palheta (reed valve), um tipo de válvula unidirecional usada no sistema de admissão entre o carburador e o duto de entrada no cilindro.

Com 347 cm³ de volume (diâmetro de 64 mm, curso de 54 mm), desenvolvia 39 cv de potência a 7.500 rpm e torque máximo de 3,8 m.kgf a 7.000 rpm. Apesar do Torque Induction, que pretendia melhor distribuição da força entre os vários regimes de rotação, a faixa operacional entre o pico de torque e o de potência era bastante estreita, 500 rpm, como num motor de competição. O torque em baixa rotação era quase nulo, contrastando com o surto de potência a partir de 5.000 rpm. Isso era aquele “coice” como aviões a jato ou carros de competição com turbo que liga só a determinada rotação, que agradava a tantos aficcionados do modelo.


Quadro e suspensões (a traseira ainda com dois amortecedores) eram derivados da YR 5, mas havia um freio dianteiro a disco e, na versão RD 350 B, lançada em 1975, câmbio de seis marchas. Leve e firme, ela sentia bastante as irregularidades do piso. Com apenas 143 kg de peso, atingia velocidade máxima de 166 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em cerca de 7 s (segundos), passando pelo quarto de milha (400 m) por volta de 14 s.


A RD 350 chegou ao Brasil em 1974, dois anos antes da proibição da importação de veículos, e logo ficou conhecida como "viúva-negra" – uma aranha venenosa cuja fêmea devora o macho depois de copular – em alusão a seu alto desempenho, e pelo fato de motociclistas incautos sofrerem graves acidentes (muitos fatais) por não conseguirem controla-la naqueles surtos alucinados de potencia que o motor dava.

Nas ruas era comum vê-la disputando "rachas de sinal" com a Honda CB 750, a "sete-galo" (galo é o animal correspondente ao número 50 no jogo do bicho, então 7 + 50 = sete galo), já que a CB 500, a Suzuki GT 380 e outras motos de média cilindrada não eram páreo à altura da RD.

A guerra na WEB está declarada


"A primeira infoguerra séria começou. O campo de batalha é o Wikileaks. Vocês são os soldados", escreveu John Perry Barlow no Twitter.

A batalha entre a censura e a liberdade de expressão está escalando. Esta semana viu Amazon, Tableau, EveryDNS e Paypal abandonarem, em rápida sucessão, os serviços ao Wikileaks, ataques distribuídos de negação de serviço que fizeram com que o site saísse do ar múltiplas vezes e crescente pressão política dos governos dos Estados Unidos (2), daAustrália e da França.

O governo dos EUA chegou ao ponto de avisar a Suíça que ela não deveria conceder asilo político a Julian Assange, relata 20 Minuten. Numa carta aberta no Der Sonntag, o embaixador estadunidense na Suíça, Donald Beyer, escreveu que "a Suiça terá que considerar com cuidado se vai oferecer guarida a um fugitivo da justiça". No entanto, políticos suíços como Cédric Wermuth, presidente do Partido Socialista Jovem, Bastien Girod, presidente do Conselho Nacional dos Verdes e o Partido Pirata Suíço têm reiterado o seu apoio a Assange e a disposição de conceder-lhe asilo.

O massacre vai criando crescente resistência. "A pressão americana para dissuadir empresas nos EUA de apoiar o site do Wikileaks gerou uma reação na internet na qual indivíduos estão redirecionando partes de seus próprios sites para o provedor sueco do Wikileaks", escreve o Guardian. "Ao mesmo tempo, apareceram vários sites espelho do Wikileaks -- no horário do almoço de hoje, a lista já tinha 74 membros e continha sites que têm o mesmo conteúdo do Wikileaks e -- crucial -- linques para baixar os 250.000 telegramas diplomáticos dos EUA". A lista espelho conta agora com centenas de domínios.

Num pronunciamento divulgado pelo Partido Pirata Suíço, o provedor do Wikileaks na Suíça, a Switch, disse que não havia "nenhuma razão" pela qual o site deveria ser forçado a sair do ar, apesar das exigências da França e dos EUA. Em resposta ao governo da França, o provedor francês OVHdeclarou que cabia aos juízes, e "não aos políticos ou ao OVH solicitar ou decidir o fechamento do site".

John Karlung, executivo do provedor sueco do Wikileaks, a Bahnhof, disse ao Daily Beast que "o serviço é oferecido na Suécia -- onde se aplica a lei sueca. Não estamos submetidos à lei dos EUA, da China ou do Irã." Ele disse que os EUA não haviam entrado em contato com a empresa para pedir o cancelamento da hospedagem para o Wikileaks; quando perguntado sobre se a Bahnhof o acataria, no caso de que esse pedido fosse feito, ele respondeu: "claro que não".

Evgeny Morozov alertou no Financial Times que a reação dos EUA contra o Wikileaks e Julian Assange pode ter consequências inesperadas: "o Wikileaks poderia ser transformado, de meia-dúzia de voluntários, em um movimento global de geeks politizados clamando por vingança. O Wikileaks de hoje fala a linguagem da transparência, mas ele poderia rapidamente desenvolver um código de anti-americanismo explícito, anti-imperialismo e anti-globalização [...] Uma tentativa agressiva de perseguir o Wikileaks -- bloqueando o seu acesso à internet, por exemplo, ou atacando seus membros -- poderia instalar o Sr. Assange (ou quem o suceda) ao leme de um novo e poderoso movimento global, capaz de paralisar o trabalho de governos e corporações ao redor do mundo".

Original aqui. Tradução de Idelber Avelar, no Biscoito

sábado, 4 de dezembro de 2010

O galinho Hércoles


xilogravura de Abraão Batista 1977 – CLIQUE PARA AMPLIAR ESTA MARAVILHA

Porque hoje é sábado (2) - da série Testemunhos da Fé
Quando meu pai morreu não deixou nada. Ficamos só eu e minha mãe na nossa casinha, aqui no interior de Goiás. A casa era boa, tinha quintal, dois quartos, tanquinho, cozinha e um banheiro na parte de fora. No quintal havia umas grades que meu pai usava pra guardar seus galos de briga.

Uns dias depois da missa de sétimo dia apareceu o cigano Abel querendo comprar Julião, o frango predileto do meu pai.
- Quanto vale este frango, Abel?... - perguntei.
- Dez real, é pra comer.
- Ok.

Tempos depois vi Abel numa moto super transada, uma Yamaha RD-350. Ele parou a moto do meu lado:
- Valeu, otário, graças ao Julião fiquei rico. Rá! Rá! Rá!... e acelerou com uma velocidade incrível, deixando um rastro de poeira e ressentimento em meu coração juvenil.


O ódio por ter sido enganado cegou-me o bom-senso e a única coisa que se passava na minha cabeça era a busca de vingança.Planejei derrotar o cigano Abel na rinha e recuperar o galo de meu pai.

Infelizmente eu já não tinha galos. Minha mãe os matava, colocava a panela em cima de um braseiro no quintal a madrugada toda pra amolecer a carne, afinal de contas, carne de galo velho não é mole não. Eu saí em busca de um frango bom de briga, mas sem dinheiro, voltei pra casa de mãos abanando.

Meu contato me trouxe a informação que cigano Abel cruzara Julião com Sandra Diva, a melhotr matriz da cidade. Sorrateiro e sagaz, pulei o muro do cigano para capturar um ovo, mesmo temeroso, pois já tinha ciência da participação dos ciganos no espiritismo e até mesmo na maçonaria.Ao longe vi Sandra Diva, como um ninja me aproximei cauteloso. A galinha abriu os olhos de repente e se assustou, mas com uma destreza absurda agarrei seu pescoço e suprimi seu piado. Peguei o maior ovo do ninho.

Agora sim, com a genética privilegiada de Julião e um treinamento esforçado eu teria um frango invencível. Pedi um favor ao Divino Perereca, dono do bar, para ajustar a estufa de salgados para a temperatura aproximada de 38 graus celsius, para improvisar uma poedeira. Tão logo o ovo eclodiu ele correu em casa pra me levar o pintalinho, que era enorme, tinha aproximadamente 15cm e tinha a crista vermelha, como uma chama flamejante. O batizei com o nome de um personagem bíblico, Hércoles.

Ainda na tenra idade iniciei o treinamento, munido de uma suplementação alimentar bem calórica e rica em proteína e minerais. O franguinho comia ração pra cachorro e toddy. De manhã cedo eu iniciava com levantamento de peso, depois meia hora de natação e em seguida um exercício aeróbico. Alternatava os exercícios com ABC, Asa, Bico e Canelada. O treinamento era feito com base no filme Rocky IV. Onde Ivan Drago fazia um treinamento de ponta e tomava bomba, já Rocky corria nas montanhas, cortava lenha e levantava carroças.

Foi assim que ele se tornou campeão mundial.Após 60 dias Hércoles já arrastava sozinho um pneu de camioneta pelo quintal.Sua altura era 1.32m e pesava 35kg. Sem dúvidas o galo mais vistoso de toda Pirenópolis.

Mandei forjar no ferreiro um esporão de prata, e, pra isso, tive que vender meu Atari 2600 com River Raid. Hércoles estraçalhava os galinhos no treinamento, era um banho de sangue.

Agora sim, eu estava pronto para minha vingança. Inscrevi Hércoles no campeonato oficial de briga de galo da cidade, e rapidamente ele foi galgando vitórias até a final, com o Julião, de cigano Abel. A final do campeonato era no ringue que ficava em cima da cachoeira das sete lagoas.

Levei Hércoles amarrado numa cordinha e avistei Abel. A superioridade do meu frango era evidente. Apontei o dedo para o cigano e falei: Seu reino de terror acaba hoje.Ele apenas riu. Antes do início o júiz perguntou qual o valor da minha aposta.
- Aposto minha casa. – disse eu confiante. O cigano repreendeu:
- Pois aposto minha moto, que vale mais que sua casa. Rá! Rá! Rá!
- Pois bem – disse o juíz – Que comece o embate!

A luta começou mal, Julião partiu pra cima e deu uma esporada em Hércoles que o deixou tonto, mas logo teve a reação: Hércoles arrancou seu olho na bicada, deixando-o praticamente invalido para o restante da luta. À partir daí foi fácil, ferroada após ferroada e bicada após bicada, Julião foi se exaurindo. Queda.

A multidão gritava em extase. Levantei Hércoles sobre minha cabeça como se fosse um troféu. Ele abriu as asas triunfante. Cigano Abel ficou possesso. Sacou uma sub-metralhadora UZI e disparou uma rajada contra o meu galinho, que foi atingido em cheio.

- Matei seu galo e o próximo é você - disse apontando a UZI para minha face.

Num ímpeto saltei da cachoeira junto com o galo, que se munindo de suas últimas forças bateu asas e conseguiu me levar com segurança para longe daquele lugar.
Em terra firme, com o galo em meus braços, foi que entendi os desígnios de Deus. O galo doara sua vida para me salvar, assim como Jesus Cristo fez para salvar a humanidade. Chorei muito.
A força policial foi acionada e o cigano foi preso. O lado bom foi fiquei com sua moto, mas Julião infelizmente não resistiu aos ferimentos e morreu sem que eu pudesse dar a ele o enterro cristão que merecia.
Resultado: Dois dos melhores galos de briga goianos mortos, mas um cristão com a fé renovada.
Hoje eu sou um dos obreiros mais conceituados na Igreja Internacional graças ao galinho, que me mostrou os caminhos do Senhor.

Três motivos do porque as mulheres odeiam futebol

Porque hoje é sábado!

A Europa engatou marcha ré - menos a Alemanha



Por Antonio Martins - Outras Palavras

Quebra da Irlanda confirma: “resposta” europeia à crise é a pior possível. Mas retrocesso continua, porque faltam alternativas e há um ganhador oculto: a poderosa máquina de exportação da Alemanha.

Depois de semanas de relutância, o governo irlandês jogou a toalha domingo e pediu socorro à União Europeia (UE) e ao FMI. Receberá, nos próximos meses, um empréstimo que poderá chegar a 100 bilhões de euros. Como de praxe nestas operações, nenhum centavo irrigará a economia, muito menos a sociedade: tudo será destinado para remunerar os credores do país.

Aos irlandeses, caberá uma nova rodada de sacrifícios. Nos últimos meses, eles já haviam sido levados a aceitar um corte brutal nos direitos sociais (inclui reduções de salários e desmantelamento da assistência médica gratuita aos idosos) e o resgate, pelo Estado, de três grandes bancos quebrados. Novas medidas serão anunciadas amanhã, 5 de dezembro.

Mantidas em sigilo, elas parecem graves a ponto de levarem o primeiro-ministro, Brian Cowen, a prometer, para o início do próximo ano, eleições antecipadas – que provavelmente liquidarão seu mandato, mas não diminuirão o retrocesso social.

A quebra da Irlanda segue-se à da Grécia e, salvo em caso de reviravolta, será acompanhada em breve pela de Portugal e da Espanha. Itália e a própria Inglaterra – um dos grandes centros financeiros do mundo – estão intranquilas. A Europa, que no pós-II Guerra estabeleceu formas inovadoras de criar e distribuir riqueza e instituiu o Estado de Bem-Estar Social, agora trocou de papéis. É a região do mundo de onde vem a resposta mais conservadora, burocrática e retrógradas à crise global.

Ela tem dois pilares. O primeiro é a crença na ideia simplória segundo a qual os Estados devem responder a uma crise financeira grave cortando despesas. Logo após a queda da bolsa de Nova York, em 1929, esta postura foi adotada pela maior parte dos países ricos, após a quebra da bolsa. Projetou a economia mundial numa depressão profunda, que suscitou desemprego em massa, guerras comerciais, ondas de nacionalismo xenofóbico e… o nazi-fascismo.

Nos desdobramentos da crise iniciada em 2008, sobressaem três respostas. Em países como a China e o Brasil, os Estados procuram reanimar a economia por meio de investimentos sociais (aumento dos salários e benefícios), em infra-estrutura ou ambos. Nos Estados Unidos, prevalece uma postura mista. Barack Obama propôs uma reforma avançada no sistema de Saúde (que conseguiu emplacar parcialmente), mas também fala em cortar gastos públicos. Além disso, aposta num crescimento ainda maior da capacidade militar dos EUA, e manobra com o poder de “criar” riqueza imprimindo a única moeda de circulação global.

No Velho Continente, não há sequer esta ambiguidade. O Banco Central Europeu, que também teria capacidade de irrigar a economia, recusa-se a fazê-lo. Os Estados-membros da UE quase não têm margem para estimular suas próprias economias – porque estão constrangidos pelas normas comuns do bloco, que os impedem de se endividar. E os órgãos que dirigem a União recusam-se a adotar políticas de investimento em direitos sociais ou obras públicas.

O resultado é uma camisa-de-força que deixa aos Estados nacionais, como única saída, o segundo pilar da “resposta” europeia à crise: um ataque generalizado aos direitos sociais e serviços públicos (veja nossa reportagem e, ao final, exame das medidas adotadas em cada país). Os resultados são os previsíveis. Como demonstrado no século passado (e nas crises cambiais latino-americanas, entre as décadas de 1980 e 2000), os “ajustes fiscais” golpeiam a sociedade, mas nunca satisfazem os credores. Cada concessão é vista como uma demonstração de fraqueza e um sinal de que é possível exigir ainda mais. Nesta segunda-feira (22/11), logo após a capitulação da Irlanda, os mercados financeiros passaram a exigir, de Portugal e Espanha, taxas de juros ainda mais elevadas para a rolagem de suas dívidas.

Dois fatores ajudam a entender por que a Europa sucumbe a esta espiral regressiva. O primeiro é uma crise profunda da esquerda institucional — que parece, em suas diversas vertentes, presa ao século passado. A social-democracia esteve no governo de quase todos os países europeus, ao longo das duas últimas décadas. Ao fazê-lo, numa época em que o neoliberalismo era hegemônico, comprometeu-se diversas vezes com políticas de corte de direitos semelhantes às atuais – ainda que mais brandas. Não é capaz, agora, de enxergar, que a crise reembaralhou as cartas, que respostas novas são possíveis, que é permitido ousar. Na Grécia, em Portugal e na Espanha, as medidas brutais que estão violando o Estado do Bem-Estar Social são adotadas por partidos “socialistas”.

Mas a esquerda radical não é muito diferente, na insensibilidade aos novos tempos. Com as possíveis exceções de Portugal e da Alemanha, continua presa apenas à denúncia e à resistência. Sem ambição para formular alternativas, sem pique para dialogar com setores sociais emergentes, que se orientam por lógicas não-convencionais para os europeus: os imigrantes, por exemplo.

O segundo motor que empurra e Europa para trás é concreto e poderoso. Desde 2009, quando reelegeu-se com base num governo claramente à direita, a chanceler alemã Angela Merkel tem sido a defensora destacada das políticas de “ajuste fiscal” e “austeridade”. Não o faz por mera defesa de valores ideológicos. A economia da Alemanha está posicionada de modo muito particular, na conjuntura que se abriu após a crise.

Há um setor exportador muito robusto, que tira proveito inclusive do desenvolvimento acelerado dos países do Sul. Produz bens de capital sofisticados – máquinas necessárias para o avanço da indústria ou o desenvolvimento da infra-estrutura em países distintos como China, Índia, Angola, Brasil. Ou vende bens de luxo (automóveis Mercedes-Benz ou BMW, digamos) para os novos ricos que estão surgindo nos “mercados emergentes”.

Basta uma rápida consulta aos números da macroeconomia mundial para demonstrar o fenômeno. No período de doze meses encerrado em setembro, a Alemanha obteve o maior superávit comercial do planeta: 210 bilhões de dólares, 20% superior ao da tão falada China e em absoluto contraste, por exemplo, com os déficits da França (- US$ 69,6 bilhões), Reino Unido (-142,8 bi) ou Espanha (-72,9 bi). Impulsionada por este movimento, a economia alemã cresceu 9% no terceiro trimestre do ano – enquanto o resto da Europa vive dificuldades crescentes.

Para grandes empresas germânicas – e para os planos de médio prazo de Angela Merkel (ela só terá de submeter-se a eleições em 2013) – interessa consolidar a posição da Alemanha como grande exportador mundial. A redução de direitos sociais e salários contribuem para tanto: refreiam a capacidade de adquirir produtos importados e barateiam a produção. Neste exato momento, as federações empresariais alemãs estão estimulando seu governo a ampliar os incentivos à imigração de trabalhadores semi-qualificados, como forma de combater o aumento do salário-mínimo, reivindicado pelas centrais sindicais…

Em contraste com as hesitações e incertezas da esquerda, Angela Merkel tem um projeto: quer achatar os custos de produção em toda a Europa, comprimindo principalmente os direitos sociais, e garantir competitividade internacional a longo prazo para as grandes empresas do continente – com clara liderança alemã. É uma aposta extremamente arriscada: para que ela triunfe, será preciso passar por cima de seis décadas de lutas e conquistas dos trabalhadores e sociedades europeias. Derrotar tamanha regressão é perfeitamente possível: a chanceler enfrenta dificuldades políticas em seu próprio país. Mas falta, para resistir, algo essencial: um projeto alternativo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Consumo de derivados do petróleo ultrapassou capacidade de refino do Brasil


Vitor Abdala - Inovação tecnológica e do Agência Brasil

O consumo interno ultrapassou a capacidade de refino porque a Petrobras ficou quase 30 anos sem construir refinarias.

A informação foi dada pela presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que acrescentou que os investimentos em refinarias são necessários e estratégicos para o país.

Margem nervosa

"No Brasil hoje, importamos diesel, querosene para aviação e gás liquefeito de petróleo. Estamos no limite da capacidade das refinarias existentes. Se o Brasil continuar crescendo até 2015 ou até 2020, como nós prevemos, em torno de 4% ao ano, o consumo brasileiro, em 2020, estará próximo a 3,3 milhões de barris por dia. A produção brasileira estará próxima de 4 milhões de barris. E temos só 2 milhões de capacidade de refino", disse Gabrielli.

Segundo o executivo, a Petrobras é uma empresa voltada ao mercado brasileiro. Dentro do país, explica Gabrielli, a empresa não vende o óleo cru, mas sim os derivados.

Por isso, é importante que haja investimentos em novas refinarias, como vem sendo feito com a construção de plantas de refino como as do Rio de Janeiro (Comperj) e a de Pernambuco (Abreu e Lima).

"É absolutamente necessário e estratégico ampliar a capacidade de refino nesse período. É evidente que a margem [de lucro] do refino é uma margem mais nervosa, mais volátil. Mas eu acredito que o investimento é estratégico e tem uma margem razoavelmente estável [no Brasil, porque o país não acompanha a volatilidade dos preços internacionais]", disse.

Novas refinarias

Sobre o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), Gabrielli disse que a Petrobras já assinou mais de 70% dos contratos para as obras. A previsão é que a primeira fase do complexo já comece a operar em 2013.

Para a refinaria do Maranhão, a Petrobras tem-se preocupado em formar mão-de-obra local e conversar com os municípios, a fim de que eles formem um consórcio para lidar com os possíveis impactos sociais gerados pela planta.

No Ceará, a Petrobras diz que está aguardando a legalização do terreno pelo governo cearense, os estudos de impacto ambiental, conduzidos pela Universidade Federal do Ceará, e os estudos sobre os povos e herança indígena da região, feitos pela Fundação Nacional do Índio (Funai). "Mas já iniciamos, em algumas áreas, a sondagem, que é essencial para a iniciar a terraplenagem", disse Gabrielli.

Gabrielli também falou sobre a sociedade com a estatal petrolífera venezuelana PDVSA na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. "As obras estão em pleno andamento. Todos os contratos estão praticamente assinados para o fornecimento de equipamentos para a refinaria. A questão societária nossa com a PDVSA será resolvida num momento adequado. Até hoje nós não recebemos nenhum recurso, mas os contratos estão em vigor e estamos aguardando posicionamento da PDVSA, especialmente no que se refere às garantias para dívida", disse.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fuzis e TVs de longo alcance fazem vitimas no Rio... e em todo o Brasil


Texto da redação do Fazendo Média


Sem nem imaginar o que acontecia naquele momento na Vila Cruzeiro, durante uns 30 minutos da tarde desse 25 de novembro, no CREA-RJ estava uma companheira da África do Sul contando como a proximidade com a copa do mundo fez crescer a violência do Estado e seu aparato repressivo. Foram 55 mil agentes a mais reforçando o contingente policial. E quem esteve atento aos acontecimentos na área da segurança no estado do Rio em 2007, ano dos Jogos Panamericanos, em que a polícia fluminense matou mais de 1300 pessoas, tá ligado no que está por acontecer (ou seria, o que já está acontecendo?).

O que se diz é que a onda de ataques contra ônibus e alguns carros particulares que aconteceram nos últimos dias, e que foi o estopim para a mega-ultra-super-espetacular-operação militar que aconteceu nos complexos da Penha e do Alemão, é uma resposta de bandidos à perda territorial para as UPPs. Mas, ainda fazendo um paralelo de todo esse clima de terror com os mega-eventos esportivos que estão por vir, o deputado estadual Marcelo Freixo diz que as UPPs são “um projeto de cidade e não de segurança pública”. Alertando para o critério de distribuição dessas unidades policiais, ele ainda revela: “é o corredor da Zona Sul, os arredores do Maracanã, a zona portuária e Jacarepaguá, região de grande investimento imobiliário. Então, são áreas de muito interesses para o investidor privado. O Estado, portanto, retoma – militarmente – este território. A retomada é militar para permitir um projeto de cidade, que é a cidade Olímpica de 2016.”.

Porém, para a opinião pública, nacional e internacional, as coisas não podem aparecer desta forma. Há que se tomar o cuidado de transmitir uma situação de controle, e que quando esse controle está em risco, o Estado de imediato responde e… trava-se uma luta do bem contra o mal. Assim, pro emprego de tanta força do Estado, como foi visto, é preciso fazer com que a sociedade no geral acredite nessa força como legítima e necessária. E os grandes veículos de comunicação foram muito eficazes nesse sentido. Os jornais noticiavam com muita ênfase a ação de delinqüentes que incendiavam principalmente ônibus, mas também carros particulares pelo Rio e região metropolitana. Um pânico tomou conta da população que nem percebeu que o alvo da violência desses bandidos era sempre o patrimônio, e nunca as pessoas. Mesmo assim, até quem não era dono nem de carro ou de ônibus, ficou apavorado. Feito isso, consumada a invasão com roubo de pertences e dinheiro de moradores, mortes e prisões arbitrárias, o passo seguinte foi fazer o povo acreditar que a operação significou um marco histórico que fez a violência urbana do Rio virar coisa do passado. E, com o poder de imagens bem selecionadas, somadas às narrativas tendenciosas, muitos morderam a isca e acreditaram na farsa.

O Rio de Janeiro hoje tem mais de mil favelas e quase todas elas sob influência de algum grupo criminoso. Não é sensato acreditar que operações dessa envergadura acontecerão em todas essas comunidades. E até que acontecessem, mesmo que o combate ao tráfico de drogas fosse de fato levado a sério até a sua extinção, ainda assim, sem combater as mazelas sócio-econômicas que produzem o bandido, o máximo que se consegue é a migração desses delinquentes para outros setores do crime. E isso já foi verificado na nossa história recente.

O nomadismo criminal

Duas, das quatro facções que hoje controlam as atividades ilícitas nas favelas do Rio nasceram no fim dos anos de 1970 no presídio da Ilha Grande. Lá, no contato com presos políticos, os presos comuns aprenderam um pouco de táticas de guerrilha, que foram adaptadas pras suas práticas de crimes comuns. Isso se refletiu de imediato na grande incidência nos casos de assaltos a bancos ocorridos nos anos 80. A concentração do crime nessa atividade e com sofisticação inédita entre os bandidos comuns, pode ser apontada como uma “herança” da guerrilha, assim como os seqüestros (sem – nem de longe – querer responsabilizar a militância da luta armada no surgimento desses grupos criminosos).

Com a ascensão de Leonel Brizola – um ex-exilado da ditadura militar, uma vítima da violação dos direitos humanos – ao governo do Rio de Janeiro, uma nova relação entre população pobre e segurança pública começou a se estabelecer. Uma transição de ditadura pra democracia que anistia assassinos e torturadores, cria uma atmosfera de impunidade que faz perpetuar a prática de tortura, assassinatos e outros abusos cometidos por agentes do Estado. E era isso que Brizola queria combater quando proibiu a polícia de meter o pé na porta dos barracos, como ela sempre fez. Incursões em favelas… só com mandado judicial.

Além disso, como tanto os assaltos a bancos como os seqüestros exigem muito planejamento, e os riscos são muito grandes, assim como são grandes as perdas tanto humanas quanto materiais, a bandidagem começou a se focar mais no lucrativo comércio de drogas. Assaltos são crimes contra o patrimônio, e a nossa polícia nasceu em 1809 justamente para garantir o patrimônio, numa época em que o patrimônio estava matando seus donos e fugindo das fazendas para articular a resistência nos quilombos. Já o consumo de drogas vinha adquirindo um glamour cada vez maior no interior das classes média e alta. Assim sendo, trata-se de uma atividade criminosa que ao invés de atacar a classe dominante, ao contrário, acontece com a sua conivência. Essa transição do foco de atuação da bandidagem fluminense do roubo para o comércio varejista de drogas está bem retratada no filme Cidade de Deus, de Fernando Meireles. Nele há uma cena em que o personagem Zé Pequeno reflete, junto com seu amigo Bené, acerca das vantagens do tráfico sobre o assalto. Para isso ele toma como referência o personagem Cenoura, que vendia tóxico e, ao contrário deles, ostentava riqueza pela favela. E se, por um lado as favelas estavam “resguardadas” pela bem intencionada política de respeito aos direitos humanos implementada por Brizola, por outro, elas têm uma geografia que foi favorável para quem quis se defender de ataque inimigo. Por esse motivo foi nelas que se instalou o grosso do comércio varejista de narcóticos.

Ter praticamente acabado com os assaltos a bancos e os seqüestros (o Disque-Denúncia foi criado na ocasião do seqüestro do filho do presidente da Firjan, em 1995, e praticamente extinguiu essa prática criminosa no Rio), não significou ter acabado com o crime no Estado do Rio. Ele só se deslocou de modalidade e de território. Entendendo isso, fica fácil de entender que pode-se até instalar UPPs nas centenas de favelas que hoje existem no Rio, mas se não atacarem as raízes econômicas e sociais da criminalidade, ela sempre existirá. Com caras e endereços novos, mas sempre existirá. Como no passado, vai se encerrar um ciclo pra dar início a outro. E todo aquele espetáculo midiático montado e transmitido quase que 24 horas por dia via algumas emissoras de TV, só tinha mais uma tarefa além da disputa por audiência, e glamourização da violência do Estado: distrair as mentes pra um fato já cantado nos versos de uma música dos Racionais MCs:

“Assustador é quando se descobre/ que tudo deu em nada e que só morre pobre.”