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sábado, 24 de abril de 2010

Curso Rafael Galvão para sacanear comunistas


Mais um brilhante texto de Rafael Galvão

Este post tem uma missão nobre: iluminar um pouco a indigência direitista no debate social. É um esforço mínimo, claro, dentro das possibilidades de um blogueiro que prefere falar de sacanagem a falar de política. Mas bem intencionado, ainda assim.

Sua razão de ser são alguns dos comentários ao post sobre os canalhas da ditadura militar. Gente que, não contente em defender o indefensável, apela para um argumento raso de desqualificação pessoal: como alguém que defende Stálin pode reclamar de uma ditadura?

Não parecem ter entendido a parte em que se diz “de sacanagem”. ‘Stalinistas” é como trotsquistas barbudinhos do PT, saudosos da picareta no cocoruto de um exilado no México, se referem aos “verdadeiros leninistas” que militaram no glorioso Partido Comunista do Brasil. Não quer dizer que eles ainda defendam Stálin incondicionalmente.

Reconhecer e abjurar os crimes de Stálin contra o seu povo não significa voltar as costas aos grandes avanços sociais naqueles 30 anos. Quem fez isso foi o PPS — e olha só no que deu. Esse tipo de abordagem não é apenas inane, mas enganosa e burra.

A utilização desse argumento simplório incomoda por ser notícia velha e batida. Os crimes de Stálin são utilizado por todo mané de direita para justificar crimes cometidos por suas próprias ditaduras.

É preciso ser completamente idiota para fazer isso. É como justificar os erros de Bush apelando para Hitler. O que me impressiona é o seguinte: ainda que eu fosse um defensor incondicional de Stálin e de seus expurgos, o que isso teria a ver com o caráter malsão da ditadura militar no Brasil? Os fatos mudariam em função da opinião de um pobre blogueiro sem eira nem beira? Torturadores deixariam de ter torturado centenas de brasileiros porque A acredita que Stálin era gente boa? O golpe deixou de levar o Brasil para um longuíssimo período de trevas porque B consegue justificar os expurgos stalinistas?

Conduzir qualquer discussão para esse lado é confissão cabal de idiotice, que me perdoem aqueles que tentaram. Os expurgos stalinistas podem ser compreendidos e discutidos dentro do contexto russo, embora jamais justificados. Pessoalmente, acho que Stálin tem outros problemas também; se a direita fosse mais inteligente e um pouco menos infensa a argumentos fáceis demais poderia apelar a eles e, pelo menos, começar um debate razoável. A “traição” aos comunistas alemães em 1927 (sem certeza da data), por exemplo, na minha opinião foi um fator importante na viabilização do nazismo e condenou a revolução russa. Isso é imperdoável.

Diante de uma situação dessas começo a achar que é meu dever colaborar para o desenvolvimento cultural desse pessoal. A indigência intelectual da direita cansa. Eu fico cansado de ver esse mesmo discurso dos expurgos de Stálin, porque é ineficaz: ninguém mais justifica os erros de Stálin. É difícil para eles ganhar um debate porque eles têm argumentos pobres demais, velhos demais, desgastados demais.

Por isso este blogueiro, com a doçura que mamãe me deu, vou lhes fazer um favor. Está declarada aberta a “Oficina Rafael Galvão de Como Sacanear Comunistas”.

Para começar, me parece exemplo fino de puerilidade e ignorância qualquer bobo de direita apelar para Stálin contra um militante ou ex-militante do PCdoB. Puerilidade e ignorância, porque muito mais grave que ter apoiado Stálin — algo de que nenhum comunista se arrepende, geralmente porque sabe um pouquinho de história — foi ter acreditado que Enver Hoxha era gente boa. Essa, sim, não tem desculpa. A maioria dos comunistas do mundo repudiou Stálin logo após o XX Congresso do PCUS; mas Enver Hoxha continuou sendo admirado pelo PCdoB até bem depois de sua morte.

Quer bater em um militante do PCdoB? Larga um Enver Hoxha nas fuças dele. Dói. Machuca. Magoa. O problema é que 90% dos bobos de direita que acenam com os expurgos stalinistas não fazem idéia de quem diabos foi Hoxha.

Mas isso ainda é muito pouco. Não combina com a direita elitista deste país, que se pretende tão sofisticada e europeia (embora eu ache que ela está mais é para Miami, mesmo). São vocês que, na falta de argumentos concretos, gozam o “analfabetismo” de Lula, não são? São vocês os esnobes que gostam de alardear superioridade cultural, não são?

No reino das discussões bizantinas, se você puder dar uma luz nova a um debate antigo — ou seja, concordando com todo mundo mas de uma maneira ligeiramente diferente — você fará sucesso.

E isso a gente faz assim, ó: quando alguém quiser justificar as atrocidades da ditadura militar mencionando o nome Stálin, e todo mundo estiver fazendo aquela pose típica de intelectual em mesa de bar, você faz a de quem comeu merda e não gostou (a outra pose típica), olha em volta fingindo que é inteligente e larga:

– Jdanov.

E as pessoas em volta vão perguntar: cumé?

– Jdanov. O grande crime de Stálin foi Jdanov.

Pronto. Você acrescentou algo ao debate. 9 entre 10 pessoas na mesa não farão a mínima ideia de quem foi Jdanov. E aí você tem a sua chance.

A essa altura eu deveria sugerir que você, meu caro mané de direita que apela para os crimes de Stálin para tentar desqualificar críticas à ditadura, fosse procurar uma enciclopédia, mas como estou imbuído do senso messiânico de melhorar o seu parco repertório, vai aqui uma explicação sucinta do que estou falando.

Uma das noções mais deletérias instituídas durante a luta pelo socialismo foi o realismo socialista — a ideia de que a obra de arte deve apontar, necessariamente, a solução socialista. Na verdade, o realismo socialista não é algo intrinsecamente nocivo: é apenas uma escola artística, como milhares de outras. É tão válida quanto o naturalismo ou o romantismo ou o barroco, e deu grandes obras como “A Mãe” de Górki ou, aqui no Brasil, “Capitães de Areia” de Jorge, o Amado.

O problema começa quando o Estado passa a defender essa escola como a única admissível e utiliza seus meios de coerção para garantir isso.

Uma revolução se dá em vários campos, e o cultural é um deles. O combate a ela também, e foi por isso que o ocidente promoveu mediocridades como Soljenitsyn. Em um dos tantos desvios do ideário leninista, Stálin resolveu que seria necessário fazer da cultura um campo de combate praticamente militar.

Se o ambiente político russo era propício ao autoritarismo assassino que se tornou uma das marcas de Stálin, por outro lado a cena cultural russa, na virada do século XX, era virtualmente tão intensa quando a francesa. Não é preciso retroceder no tempo em direção a Puchkin ou Gogol, ou mesmo a Dostoiévski ou Tchekov. Naquele momento, a Rússia borbulhava em ideias diferentes, brilhantes e conflitantes.

Um exemplo do que se faria já nos tempos da Revolução, e um dos meus preferidos da virada do século:

À nossa volta floresciam campos vermelhos de papoulas, a brisa da tarde brincava sobre campos de centeio amarelecido e, no horizonte, erguia-se alto o virginal trigo mourisco, como a muralha de um mosteiro longínquo. O plácido Volin ziguezagueava, afastava-se de nós, sinuoso, e perdia-se no bosque de faias, envolvido numa névoa cor de pérola e entre colinas floridas. Depois serpeava lentamente entre plantações de lúpulo. Um sol alaranjado descia no horizonte, parecendo uma cabeça decepada; uma luz suave filtrava-se entre as nuvens, os estandartes do poente ondeavam sobre nossas cabeças. No frescor da tarde era forte o cheiro do sangue dos cavalos mortos na véspera.

Esse é o segundo parágrafo de “O Caminho do Sbruch”, de Isaac Bábel (“Cruzando o rio Zbrucz” na tradução de Cecília Prado, mas eu prefiro esta, de Roniwalter Jatobá). Foi esse ambiente vivo e vibrante que Stálin destruiu ao instituir a política cultural que seria conhecida como Jdanovismo. Ao permitir, grosso modo, que apenas as obras realistas socialistas laudatórias ao regime fossem reconhecidas, Stálin fez com que as artes russas agonizassem e morressem, virtualmente todas elas. Privilegiando a mediocridade apenas porque ela condizia com a sua visão autoritária de mundo, o Jdanovismo destruiu a cultura russa. Um país que tinha dado ao mundo gênios em virtualmente todas as áreas, mas especialmente a literatura, de repente se calou porque a única voz permitida e incentivada era aquela que louvasse o socialismo e o Grande Guia dos Povos.

A União Soviética se recuperou dos expurgos stalinistas — na verdade, saiu deles como uma das duas únicas superpotências do mundo. No entanto, jamais conseguiria se recuperar do Jdanovismo.

É possível apenas imaginar quantos Dostoiévskis e Tolstóis deixaram de aparecer porque o Jdanovismo não permitia visões distintas do mundo; Babel, pelo menos, foi executado por Beria em 1941. E eu consigo pensar em poucos crimes tão grandes — e tão admiravelmente adequados ao discurso elitista da direita — como esse, o de destruir a cultura de um povo.

No fim das contas, é o seguinte: ninguém em sã consciência justifica hoje os expurgos stalinistas. Apelar para eles denota burrice e ignorância, e não apenas porque os crimes de Stálin não justificam os crimes da ditadura militar no Brasil, mas porque há argumentos melhores para tentar essa besteira. Este blog, que pode ser canalha e chauvinista mas tem lá seus parcos conhecimentos de história, cumpre o seu papel de bom samaritano e tenta ajudar as antas de direita a calibrar melhor seus discursos retardados oferecendo alguns subsídios básicos para o seu crescimento espiritual.

Em vez de me xingar, me agradeçam. Se chamei vocês de burros e ignorantes é porque vocês são — mas também porque quero fazer com que vocês melhorem. E voltem na próxima — porque eu e vocês temos certeza de que vai haver próxima — com um discurso melhorzinho.

Espero ter ajudado. E lembrem-se: da próxima vez tentem apelar para a desqualificação pessoal através de Enver Hoxha e Jdanov, em vez dos expurgos stalinistas. O debate fica mais interessante, tipo assim, esteticamente highbrow. Olha que chique.


Comentário

Não pude deixar passar isso. Um dos comentários dos leitores do Rafael foi: “É incrível, a direita precisa de ajuda até para ser direita”. Comentei lá no post do Rafael também.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Caso Aldo Hey Neto - Como terminou isso?...


Aldo Hey Neto, assessor de um secretário do governo LHS Luiz Henrique da Silveira, e operador de altos esquemas desvendados em 2006 pela operação Dilúvio, da Policia Federal, acaba de ser condenado a 14 anos de prisão.
Claro, que vai recorrer da sentença, juntamente com outros seis envolvidos, igualmente condenados a penas de prisão e multas.
Na época em que o esquema foi posto a descoberto foram encontrados na casa de Hey Neto em Jurerê Internacional, em Florianópolis , R$ 649,3 mil e US$ 57 mil. No seu endereço em Curitiba, foram apreendidos mais R$ 161 mil , US$ 467mil, 600 libras esterlinas e 12 mil euros. Ele disse que “o dinheiro não era dele – era tudo uma armação”.
O que ninguém explicou até hoje é de onde essa grana veio e para onde iria. Isso era na época de pleno furor da Tríplice Aliança coordenado pelo guru de todos, LHS.
Aldo coordenava o Compex, um programa do governo do Estado que cortava pela metade a alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para as importadoras inscritas para utilizar os portos e os aeroportos do Estado. Era indicado e apadrinhado pelo secretário da Fazenda de LHS, Max Bornhold e vinha da Secretaria da Fazenda do Paraná – órgão que o cedeu a Santa Catarina, a pedido de Max Bornholdt, que aceitou a indicação feita pelo filho Rodrigo (ambos do PMDB na época).

22 de abril - DIA DA MÃE TERRA (PatchaMama)


Lembrança desse blog botocudo à PatchaMama

A crise financeira mundial se tornou um caso de policia


A crise financeira mundial se tornou um caso de policia. O caso de fraude perpetrada na (e pela) Goldman Sachs é uma advertência que a crise financeira responsável por perdas de milhões de empregos e projetos de vida desfeitos não foram apenas resultado de caprichos do mercado e falta de regulamentação - foi também o resultado de fraude gigantesca em todos os níveis do sistema financeiro internacional.

Essa epidemia de fraudes passou largamente batida, pouco divulgada, nunca amplamente investigada e quase ninguém chegou a ser indiciado ou incriminado.

E o que foi que levou tantas pessoas a intencionalmente tirar vantagem dos outros tantos para
ganho pessoal? Isso permanece em grande parte sem solução pela legislação vigente (nos EUA), coisa que o Obama está querendo mudar, não sem resistência maciça dos conservadores americanos. Aparentemente aqueles, largamente responsáveis pelo esbulho querem deixar como está e continuar a farra.

Embora haja um monte de conversa se desenrolamento internamente no sistema e nos grandes bancos, pouco se fala de como desmontar o sistema que privilegia os corretores trapaceiros e as aplicações fraudulentas que mercadejam. As pessoas eram levadas a acreditar cegamente nos índices e fazer menos perguntas, o que também encorajou bancos de investimentos a mascarar as suas perdas e de jamais expor seus mecanismos de investimentos especialmente concebidos ao desastre depois de cumprir sua função de saque.

Agora começa a aparecer a fraude no coração da crise financeira, você se volta pra tentar explicar a coisa e propor soluções. "Uma vez que você
compreende as implicações da fraude contumaz", diz James Galbraith, um economista progressista na Universidade do Texas, "muda o profissional que deve analisar a crise. Economistas devem passar ao segundo plano e criminalogistas devem assumir a frente”.

Um desses criminologistas - com uma trajetória pessoal de dois marcos regultórios de eficácia surgidos durante a crise do final dos anos 1980 - é William F. Black, agora professor da Universidade de Missouri e autor do livro, "A melhor maneira de roubar um banco é ter um".

Tanto a quebra do Lehman Bros, que iniciou com falcatruas desde 2001, como o caso mais em pauta agora, do Goldman Sachs, são casos crassos de fraude pura e simples. São casos de policia, ou para “criminologistas”, como dizem polidamente o Wall Street Journal e o ótimo Huff Post. Tudo baseado em operações que promovem ganhos “de mentirinha” (liar's loan operations).

Esse é o sistema Neocon que a direita brasileira defende. Tá ruim, hein?

Detalhes completos dessa sujeira toda, nos links no texto.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Recordações pedagógicas de Zé Serra - capitulo 1


Serra saiu do armário em Minas e prometeu desmontar o legado de Lula. Disse o seguinte o candidato do conservadorismo nativo:

a] o PAC “não ecxiste – é uma lista de obras”-- logo, não será continuado;

b] todos os contratos federais assinados durante o governo Lula serão revistos, logo, vai paralisar o Estado e o país;

c] o Mercosul só atrapalha; logo, vai desmontar a política externa que mudou a inserção subordinada e dependente do país herdada de FHC;

d] criticou a Funasa atual, logo, vai repetir o que fez quando foi ministro da Saúde de FHC, entre 1998 a 2002. E o que fez condensa em ponto pequeno o que promete agora repetir em escala amplificada, se for eleito.


Recordações pedagógicas:

I) Serra assumiu o ministério da saúde em 31 de março de 1998, em meio a uma epidemia de dengue; prometeu uma guerra das forças da saúde contra a doença;

II) iniciou então o desmonte que ameaça agora repetir;

III) primeiro, ignorou as linhas de ação e planos iniciados por seu antecessor, o médico Adib Jatene;

IV) em nome de uma descentralização atabalhoada, transferiu responsabilidades da FUNASA, Fundação Nacional de Saúde, o órgão executivo do ministério, para prefeituras despreparadas e sem sincronia na ação;

V) em junho de 1999, Serra demitiu 5.792 agentes sanitários contratados pela FUNASA em regime temporário, acelerando o desmonte do órgão, em sintonia com a agenda do Estado mínimo;

VI) um mês depois, em 1º de julho de 1999, o procurador da República Rogério Nascimento pediu à Justiça o adiamento da dispensa dos 5.792 mata-mosquitos até que as prefeituras pudessem treinar pessoal; pedido ignorado por Serra.

VII) Em 5 de agosto de 1999, num despacho do processo dos mata-mosquitos, a juíza federal Lana Maria Fontes Regueira escreveu: "Estamos diante de uma situação de consequências catastróficas, haja vista a iminente ocorrência de dengue hemorrágica".

VIII) o epidemiologista Roberto Medronho, diretor do Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, completaria: ‘"A descentralização da saúde não foi feita de forma bem planejada. O afastamento dos mata-mosquitos no Rio foi uma atitude irresponsável”

IX) em abril de 2001, a Coordenação de Dengue do município do Rio previu uma epidemia no verão de 2002 com grande incidência de febre hemorrágica. A sugestão: contratar 1.500 agentes e comprar mais equipamentos de emergência; foi ignorada por Serra.

X) O ano de 2001 foi o primeiro em que os mata-mosquitos da Funasa, dispensados por Serra não atuaram . A dengue, então, voltou de forma fulminante no Rio: 68.438 pessoas infectadas, mais que o dobro das 32.382 de 1998, quando Serra assumiu o ministério.

XI) em 2002, já candidato contra Lula, Serra era ovacionado em vários pontos do país aos gritos de 'Presidengue !'. Justa homenagem a sua devastadora atuação na saúde pública.

(Dados colhidos nos arquivos da Fo(a)lha de São Paulo, que preferiu esquece-los)

na abertura do site da Carta Maior

Atualização 21/04 - 21:04

Comentário do jornalista Sylvio Micelli sobre a capa do panfleto semanal colorido que ilustra esse post:

A capa da revista Veja desta semana é risível. E seria cômico se não fosse trágico. Traz um José Serra clicado como um dândi, embalado a vácuo pronto para consumo. Tive a oportunidade de conhecer o ex-governador pessoalmente. Ele não é dócil. Muito pelo contrário. Tem um estilo firme e, aparentemente, está de eterno mau humor. Questão de estilo, apenas. E nem entro no mérito de sua administração que para mim foi péssima. A capa ainda fica mais ridícula ao ler uma chamada no alto para um artigo da “principal” oponente de Serra, Dilma Roussef. Certamente, a revista tentou camuflar dizendo que abre espaço para todos.


Enfim, a revista Veja é isso. Pseudo-jornalismo destinado à classe dominante. E pobre do país que tem uma publicação como esta, entre as mais lidas pela população. Isso explica muita coisa. Em especial nosso eterno atraso para questões muito mais importantes do que simplesmente decidir quem será o próximo presidente do Brasil.

Citricultura- os trabalhadores é que viram suco


A derrubada de pés de laranja de que são acusados os agricultores sem terra que ocuparam as terras – públicas, aliás – da Fazenda da Cutrale, no interior de São Paulo são apenas a casca de uma história muito mais complicada: a história da enorme quantidade de trabalhadores temporários empregados na colheita da fruta, cujo esmagamento se constitui numa indústria bilionária, que supera em muito os famosos laranjais da Flórida.

O Brasil é o maior exportador respondendo sozinho por 8o% do comercio mundial, o que já indica quanto isso é lucrativo. Não há nenhum outro produto industrializado onde a presença mundial do Brasil seja tão marcante.

A produção do suco está concentrada em poucas e grandes empresas. Além da Cutrale, a Citrosuco (grupo Fischer), a Citrovita (grupo Votorantim) e a francesa Louis Dreyfus, controlam praticamente todo o mercado e são acusadas de praticarem cartel e fixarem articicialmente – e para baixo – o preço pago ao produtor. E há muitas outras irregularidades, denunciadas por um dos industriais que integrava o grupo, Dino Tofini, e publicadas pela Folha de S. Paulo em 15/03/2010 e no dia seguinte.

Há anos o Ministério Público do Trabalho tenta interferir nas condições de trabalho de 200 mil trabalhadores. Durante os últimos anos, diversas vezes grupos de colhedores foram libertado de trabalho considerado escravo em diversas fazenda. Eles são “contratados” por empresas e falsas cooperativas, como forma de burlar a legislação. Os salários são aviltantes: eles recebem de R$ 0,35 a R$ 0,40 por caixa de 27 quilos colhida, o que gera uma diária que raramente ultrapassa R$ 10.

Agora os promotores do Trabalho qurem que a industria assuma a responsabilidade pelos colhedores, uma vez que elas compram, antecipadamente e por contrato, a produção das fazendas. Pedem a condenação das grandes empresas em R$ 400 milhões de reais, como noticia hoje o jornal Valor Econômico.

Duas centenas de pés de laranja derrubados por um insensato – ou até um provocador – escandalizam a imprensa, vão para o Jornal Nacional e servem de matéria para os comerciais que a DEMo-ruralista Kátia Abreu vai colocar no ar com o dinheiro da Confederação Nacional da Agricultura.

Duzentos mil brasileiros e brasileiras trabalhando como mouros para ganharem entre R$ 7 e R$ 10 por dia, no estado mais rico da Federação e num dos agronegócios mais lucrativos, não, não é motivo de escândalo.

Afinal, o que são seres humanos diante do valor supremo da propriedade e do capital?

Pescado e adaptado do ótimo blog do deputado Brizola Neto