plagiado do blog do Pedlowski
Porque HOJE é sábado!...
* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.
sábado, 3 de novembro de 2012
Quem não tem voto caça com Valério
O alvoroço provocado pela notícia de que Marcos Valério pode ter informações comprometedoras contra Lula, Antônio Palocci e até sobre o caso Celso Daniel chega a ser vergonhoso.
Desde a denuncia de Roberto Jefferson que Valério tem demonstrado grande disposição para colaborar com a polícia.
Foi ele quem entregou a relação de 32 beneficiários das verbas do mensalão, inclusive Duda Mendonça.
Conforme os advogados de um dos réus principais, ao longo do processo Valério fez quatro tentativas de oferecer novas delações em troca de uma redução de sua pena. As quatro foram rejeitadas.
O estranho, agora, não é a iniciativa de Valério, mais do que compreensível para quem se encontra numa situação como a sua. Não estou falando apenas dos 40 anos de prisão.
As condenações de José Dirceu e José Genoíno se baseiam em “não é possível que não soubessem”, “não é plausível”, “um desvio na caminhada” e assim por diante.
Eu acho legítimo pensar que deveriam ser questionadas em novo julgamento, o que certamente poderia ser feito se tivessem direito a uma segunda instância, como vai ocorrer com os réus do mensalão PSDB-MG que foram desmembrados nestes “dois pesos, dois mensalões,” na antológica definição de Jânio de Freitas.
Parece muito difícil questionar o mérito das acusações contra Valério. Ele participava de um esquema para levantar recursos de campanha. Mas seu interesse era comercial, digamos assim. Pretendia levantar R$ 1 bilhão até o fim do governo, disse Silvio Pereira, secretário geral do PT, em entrevista a Soraya Agege, do Globo, em 2006.
Era o titular do esquema, o dono das agências de publicidade, aquele que recolhia e despachava o dinheiro, inclusive com carros forte e conta em paraíso fiscal.
O estranho, agora, não é o comportamento de Valério. São os outros.
É a torcida, o ambiente de vale-tudo.
Ele teve sete anos para apresentar qualquer informação relevante. A menos que tenha adquirido o costume de criar dificuldades para comprar facilidades até com a própria liberdade, o que não é bem o costume dos operadores financeiros, seu silêncio sugere a falta de fatos importantes para revelar. Ele enfrentou em silêncio a denúncia do primeiro procurador, Antônio Carlos Fernando de Souza, em 2006. Assistiu do mesmo modo à aceitação da denúncia pelo Supremo, em 2007. Deu não se sabe quantos depoimentos a Justiça e a Polícia. Seu advogado, Marcelo Leonardo, um dos mais competentes do julgamento, escreveu não sei quantas alegações finais no STF.
Nem mesmo quando , preso por outras razões, tomava porrada de colegas de presídio numa cadeia, lembrou que podia contar algo para se proteger?
A verdade é que os adversários de Lula não conseguem esconder a vontade de que Valério tenha grandes revelações a fazer. Deveriam estar acima de tudo desconfiados e cautelosos, já que as circunstâncias não garantem a menor credibilidade a qualquer denuncia feita DEPOIS que um réu enfrenta uma condenação de 40 anos e não se vislumbra nenhum atenuante para amenizar a situação.
É preocupante porque nós sabemos que é possível transformar versões falsas em fatos verdadeiros.
Basta que os melhores escrúpulos sejam deixados de lado, as versões anunciadas sejam convenientes e atendam aos interesses de várias partes envolvidas. O país tem uma longa experiência com essa turma. Ela denunciou um grampo telefônico que não houve. Falou de uma conta em paraíso fiscal – do próprio Lula e outros ministros – que eles próprios sabiam que era falsa. Também denunciou uma caixa de dólares enviados do exterior para a campanha de 2002 que ninguém foi capaz de abrir para dizer o que tinha lá dentro.
Na prática, os adversários de Lula querem que Valério entregue aquilo que o eleitor não entregou.
O próprio Valério sabe disso. De seu ponto de vista, qualquer coisa será melhor do que enfrentar uma pena de 40 anos, concorda? Qualquer coisa.
Do ponto de vista dos adversários de Lula, também. Qualquer coisa é melhor do que uma longa perspectiva de derrotas, não é mesmo? Talvez não por 40 anos mas quem sabe mais quatro?
É por isso que os interesses das partes, agora, coincidem. O mocinho da oposição tornou-se Valério.
No mundo do “não é possível”, do “é plausível”, do “não pode ser provado mas não poderia ser de outra forma ” as coisas ficam fáceis para quem acusa. A moda ideológica, agora, é acusar de bonzinho quem acha que a obrigação da prova cabe a quem acusa.
E eu, que pensei que a presunção da inocência era um direito constitucional e fazia parte das garantias fundamentais. Mas não. Isso é ser bonzinho, é se fazer de ingênuo.
No novo figurino, as coisas parecem verdadeiras porque não podem ser provadas. É a inversão da inversão da inversão. O movimento estudantil tem uma corrente que se chama negação da negação. Estamos dando uma radicalizada…
A experiência ensina que há um meio infalível de levantar uma credibilidade em baixa. É a ameaça de morte, o que explica a lembrança do caso Celso Daniel.
Os advogados dizem que Valério sofreu ameaças de morte. Já se fala nos cuidados com a segurança pessoal e da família. Também li que a Polícia Federal “ainda “ não decidiu protegê-lo.
Algumas palavras tem importância especial em determinados momentos. A morte de Celso Daniel foi acompanhada por várias suspeitas de crime político mas, no fim de três meses de investigação, a Polícia Civil de São Paulo concluiu que fora crime comum.
Um delegado da Polícia Federal, que seguiu o caso e até participou das investigações a pedido de Fernando Henrique Cardoso, chegou a mesma conclusão. O caso parecia encerrado. Os suspeitos estavam presos, confessaram tudo e aguardavam julgamento. Quem fala em aparelho petista deve lembrar que a investigação tinha o respaldo do comando da polícia do governo Alckmin e da PF no tempo de FHC.
O caso saiu dos arquivos quando um irmão de Celso Daniel alegou que sofria ameaça de morte. Fiz várias entrevistas com familiares e policiais e posso afirmar que nunca ouvi um fato consistente. Nem um grito ameaçador ao telefone. Nem um palavrão no trânsito. Nem um empurrão no bandejão da faculdade.
Nunca. Respeito aquelas pessoas, fomos colegas de luta no movimento estudantil mas aquilo me pareceu uma história sem consistência. Eu ia fazer uma matéria sobre essa denuncia mas aquilo não dava uma linha. Não havia sequer um fato para ser narrado. Nem um boato para ser desmentido. Nada. Fiquei impressionado porque eu havia entrado na história achando que havia alguma coisa, seja lá o que fosse. Nada. Mas a família conseguiu o direito até de viver exilada na França. O caso foi reaberto e, embora uma segunda investigação policial tenha chegado a mesma conclusão, o suspeito de ser o mandante aguarda o momento de ir a julgamento.
Nos últimos meses, com o julgamento no mensalão, os adversários de Lula pensavam que seria possível reverter o ambiente político favorável a Lula, no país inteiro. É este ambiente que coloca a reeleição de Dilma no horizonte de 2014, embora muita enxurrada possa passar por debaixo da ponte. Mas, no momento, essa perspectiva, para a oposição, é insuportável e dolorosa – até porque ela não foi capaz de reavaliar suas sucessivas derrotas do ponto de vista político, não fez um balanço honesto dos acertos do governo Lula, o que dificulta aceitar que o país tem um presidente popular como nenhum outro antes dele, a tal ponto que até postes derrotam medalhões vistos como imbatíveis. No seu apogeu, a ideia de renovação sugerida por FHC foi descartada como proposta petista por José Serra. Assim fica difícil, né.
(Vamos homenagear os postes. Essa expressão foi cunhada por uma das principais vozes da luta pela democratização, Ulysses Guimarães, para quem “poste” era o candidato capaz de representar os interesses do povo e da democracia, mesmo que fosse um ilustre desconhecido. Certa vez, falando sobre a vitória estrondosa do MDB em 1974, quando elegeu 17 de 26 senadores, Ulysses falou que naquela eleição o partido elegeria “até um poste.” Postes, assim, são candidatos que entendem o vento da sua época.)
Semanas antes da eleição do poste Fernando Haddad, o procurador geral Roberto Gurgel chegou a dizer que ficaria muito feliz se o julgamento influenciasse a decisão do eleitor. Muita gente achou natural um procurador falar assim.
Eu não fiquei surpreso porque sempre achei a denuncia politizada demais, cheia de pressupostos e convicções anteriores aos fatos. Eu acho que a denuncia confunde aliança política com compra de votos e verba de campanha com suborno, o que a leva a querer criminalizar todo mundo que vê pela frente – embora, claro, tenha sido seletiva ao separar o mensalão PSDB-MG, como nós sabemos e nunca será demais lembrar. Mas não achei o pronunciamento do procurador natural. Em todo caso, considerando a liberdade de expressão…
Mas a fantasia oposicionista era tanta que teve gente até que se despediu de Lula, lembra?
Embora o julgamento tenha caminhado na base do “não é plausível”, “não poderia ter sido de outro jeito ”e outras considerações pouco conclusivas e nada robustas, faltou combinar com o eleitor.
Em campanha própria, com chapa pura, os adversários de Lula tiveram uma grande vitória em Manaus. Viraram a eleição em Belém onde o PSOL não quis apoio de Lula. Ganharam em Belo Horizonte em parceria com Eduardo Campos, que até segundo aviso é da base de Lula e Dilma.
O PT cresceu no número de prefeituras, no número de votos em escala nacional, e também levou o troféu principal da campanha, a prefeitura de São Paulo. Mesmo com a vitória em Salvador, os partidos conservadores, à direita do PSDB, tiveram a metade do eleitorado reunido em 2008. Isso aí: perderam 50% dos votos.
É neste ambiente que Valério passa ter importância. Quem não tem voto caça com Valério.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Método sem vergonha de colocar interesses próprios acima do interesse da sociedade brasileira
1 ) Texto muito longo - [mas final e fatal!...] - escrito em linguagem técnico-cientifica, que vale cada linha. Merece ser reproduzido na integra neste blog.
2) Esse texto me lavou a alma. Eu já sabia da patifaria, mas posta assim, em linguagem científica, desnuda os donos da notícia que colocam em segundo plano as prioridades da Saúde Pública numa luta ideológica comprometida com o lixo intelectual brasileiro. A simpática vovozinha Eliane Catenhêde e seu irmão siamês ideológico, Merval Pereira, deviam ler e reler esse texto. A justiça deveria castigá-los, obrigando a lerem em voz alta em todas as salas dos cursos de Comunicação Social do país. (Alvaro Tadeu - comentarista do blog do Nassif)
Publicado originalmente em
Physis vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2012
Epidemia midiática: produção de sentidos e configuração social da febre amarela na cobertura jornalística, 2007-2008
Media epidemics: sense production and social configuration of yellow fever in the journalistic coverage, 2007-2008
Cláudia MalinverniI; Angela Maria Belloni CuencaII; Jacqueline Isaac Machado BrigagãoIII
IMestre e doutoranda em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Endereço eletrônico:claudia.malinverni@usp.br
IIFaculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Endereço eletrônico: abcuenca@usp.br
IIIProfessora doutora do Curso de Obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Endereço eletrônico: jbrigagao@yahoo.com
IIFaculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Endereço eletrônico: abcuenca@usp.br
IIIProfessora doutora do Curso de Obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Endereço eletrônico: jbrigagao@yahoo.com
RESUMO
O objetivo deste artigo, situado no campo da comunicação em saúde, é analisar os sentidos atribuídos discursivamente à febre amarela silvestre durante a cobertura jornalística da epizootia da doença, ocorrida no Brasil no verão 2007-2008. Utilizando o referencial teórico das práticas discursivas e da produção de sentidos no cotidiano e as hipóteses de agendamento (agenda-setting) e enquadramento (framing) da notícia, foram analisadas todas as matérias sobre febre amarela veiculadas pelo jornal Folha de S. Paulo, no período de 21 de dezembro de 2007 a 29 de fevereiro de 2008, e todos os documentos oficiais sobre a epizootia emitidos pela autoridade brasileira de saúde pública entre 3 de janeiro e 28 de fevereiro de 2008. Os achados indicam que as estratégias discursivas da cobertura jornalística relativizaram o discurso da autoridade de saúde pública; priorizaram a divulgação do número de casos; enfatizaram a vacinação como o limite entre a vida e a morte, omitindo riscos do uso indiscriminado do imunobiológico; e propagaram a iminência de uma epidemia de febre amarela de grandes proporções. Essas estratégias deram novos sentidos à doença, deslocando o evento de sua forma silvestre, espacialmente restrita e de gravidade limitada, para a urbana, de caráter epidêmico e potencialmente mais grave. Secundariamente, o estudo permitiu identificar os impactos desse discurso midiático sobre o sistema nacional de imunização e os riscos a que a população foi exposta em função dos sentidos produzidos: em 2008, foram registrados 8 casos de reação grave à vacina, dos quais 6 foram a óbito.
Palabras clave: febre amarela; jornalismo; comunicação em saúde; práticas discursivas; agenda-setting; framing.
ABSTRACT
Located in the Field of communication and health, the objective of this article is to analyze the senses attributed in the discourse on yellow fever, during the journalistic coverage of the epizooty of the diseased, occurring in Brazil during the summer 2007-2008. Employing the theoretical reference of discursive practices and sense production in daily life and the hypothesis of agenda-setting and framing of the news, all material on yellow fever issued by the newspaper "Folha de São Paulo" were analyzed during the period comprised between 12/21/07 to 02/29/08 as well as all official documentation on the epizooty issued by the Brazilian authorities on public health during the period comprised between 01/03 and 02/28/08. Finding indicate that discursive strategies of the journalistic coverage rendered relative the discourse of public health authorities; prioritized divulgation of the number of cases; emphasized vaccination as the limit between life and death, refraining to inform the risks of the indiscriminate use of the product and propagated the imminence of a major epidemics of yellow fever. These strategies attributed new senses to the disease, dislodging the event from the wild form, restrict in space and limited in severity, to the urban form, characterized by epidemics and with a more severe potential. Secondarily, this study allowed to identify the impact of this media discourse on the national immunization system and the risks to which the population was exposed due to the senses produced: in 2008, eight cases of serious reactions to the vaccine were registered, and six of these cases resulted in deaths.
Key words: Yellow fever; journalism; communication in health; discursive practices; agenda-setting; framing.
Introdução1
Um dos maiores fenômenos sociais do Ocidente, a comunicação midiática, notadamente em sua vertente de massa, tem desempenhado papel central nos processos de construção da realidade nas sociedades contemporâneas. No campo da comunicação, o jornalismo emerge como área estratégica para a configuração mediada do espaço público, representando uma cultura de forte intervenção no cotidiano das populações, e ancorada em uma relação social "densa e demarcada, um modo específico de buscar e narrar a informação, um tipo de saber, uma práxis que inclui a construção da personalidade pública do jornalista e um ethos jornalístico" (KUCINSKI, 2000, p. 182).
A mídia configura-se, assim, como poderosa prática discursiva capaz de produzir sentidos, por sua vez entendidos como uma construção social, de caráter coletivo e interativo, em que as pessoas, na dinâmica de suas relações sociais, historicamente datadas e culturalmente localizadas, constroem os termos que lhes permitem compreender e lidar com as situações e fenômenos no cotidiano (SPINK; MEDRADO, 2004).
Pela hipótese do agendamento midiático (agenda-setting) do acontecimento cotidiano, as pessoas sabem ou ignoram, prestam atenção ou descuram, realçam ou negligenciam elementos específicos do cenário público. Dito de outra forma, a mídia tem o poder de dizer sobre o que as pessoas devem falar, sendo a realidade social dada, em grande parte, por empréstimo, em "fatias/pacotes" de realidade que as pessoas acessam exclusivamente por meio da mediação simbólica (WOLF, 1999; SHAW, 1979). Ao agenda-setting soma-se a hipótese do framing (enquadramento), o qual, de acordo com Entman (1993), confere à mídia também o poder de definir não apenas o quê, mas como as pessoas devem pensar os temas do cotidiano. Enquadrando o acontecimento a partir de uma "moldura", a mídia direciona o leitor/ouvinte/telespectador para uma realidade parcial (MARECO; PASSETTI, 2010).
Ancorado nesses referenciais, o presente trabalho buscou demonstrar como o jornalismo generalista, por meio da análise da cobertura do jornal Folha de S.Paulo, deslocou discursivamente o sentido de uma doença, neste caso a epizootia de febre amarela, no verão 2007-2008, de sua forma silvestre, espacialmente restrita e de gravidade limitada, para a forma urbana, de caráter epidêmico e potencialmente mais grave.
Modelo de vigilância e a midiatização da febre amarela
A febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, não contagiosa, de curta duração e gravidade variável, causada por arbovírus do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae. De caráter endêmico ou enzoótico (BRASIL, 2005), foi descrita pela primeira vez em 1648, em Yacatán, México, expandindo-se rápida e progressivamente para as Américas Central e do Sul, atingindo também algumas áreas portuárias ao norte do continente americano (LÖWY, 2006). Ainda hoje importante causa de morbidade e letalidade em extensas áreas tropicais das Américas e da África, origem do vírus, a febre amarela afeta anualmente cerca de 200 mil pessoas, provocando 30 mil óbitos (BRASIL, 2008; VASCONCELOS, 2003), sendo, assim, um problema de saúde pública de nível global.
No Brasil, durante décadas, as áreas urbanas foram o principal cenário das epidemias amarílicas, que ocorriam ciclicamente e tinham, em geral, grandes proporções. Esses eventos eram provocados pelo mosquito Aedes aegypti, identificado pelo saber cientifico da época como o único vetor da febre amarela urbana (VASCONCELOS, 2003). Essa crença orientou toda a política pública mundial de combate à doença, particularmente no Brasil, que por mais de meio século centrou sua ação na erradicação do Aedes, da qual a campanha de Oswaldo Cruz, no começo do século XX, é emblemática (VASCONCELOS, 2003; LÖWY, 2006).
Ancorada fortemente no ideário dos pesquisadores norte-americanos da Fundação Rockfeller, a perspectiva da erradicação manteve-se no centro das políticas públicas brasileiras de controle da doença por mais de 20 anos, mesmo depois da descoberta, em 1932, de que a doença é dividida em dois ciclos: um urbano e outro silvestre. Eles diferem, respectivamente, quanto ao agente envolvido na transmissão (mosquitos hematófagos da famíliaCulicidae), hospedeiro amplificador (humanos e símios) e área de ocorrência (cidades e florestas). Embora, dos pontos de vista etiológico, clínico, imunológico e fisiopatológico, trate-se da mesma doença, em ambiente urbano do continente americano, a febre amarela é transmitida exclusivamente pela fêmea infectada do Aedes aegypti, enquanto no silvestre, outras espécies estão envolvidas, principalmente o Haemagogus e o Sabethes(VASCONCELOS, 2003; GOMES et al., 2010; BRASIL, 1999). No que diz respeito ao hospedeiro, a transmissão da febre amarela urbana é feita do A. aegypti para o homem, responsável, portanto, pela amplificação e disseminação do vírus. No ambiente silvestre, os primatas não humanos arborícolas são os hospedeiros primários, sendo os seres humanos não imunizados infectados acidentalmente, quando entram em áreas de circulação do vírus (TAUIL, 2010).
Embora a descoberta do ciclo silvestre tenha evidenciado a impossibilidade de erradicação da doença, a insistência em combater o A. aegypti rendeu ao Brasil a eliminação da forma urbana da febre amarela. Em 1942, o país registrou os três últimos casos de febre amarela urbana em Sena Madureira, no Acre, sendo o território brasileiro declarado livre do A. aegypti em 1958 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) (TAUIL, 2010). O mosquito reinfestaria o Brasil a partir de 1976, como vetor do dengue (VASCONCELOS, 2003; GOMES et al., 2010; BRASIL, 1999; TAUIL, 2010).
A febre amarela silvestre ocorre ciclicamente em três áreas de circulação do vírus, de acordo com classificação do Ministério da Saúde: endêmica, epizoótica ou de transição (o território é livre da doença na área indene). Desde 1997, em razão da mudança de perfil da ocupação territorial (principalmente pelo avanço da agropecuária, da domiciliação de áreas de mata e florestas e pela intensificação do ecoturismo), as áreas de circulação viral vêm sofrendo forte tendência de ampliação (BRASIL, 2004).
Apresentando epizootias regulares a cada 5 ou 7 anos, prevalentemente nos meses de chuva, o ciclo silvestre é monitorado por um sistema público de vigilância que tem como evento sentinela o adoecimento e/ou a morte de macacos. A confirmação desses óbitos é um forte indicativo de que o vírus amarílico está circulando entre a população símia e, consequentemente, de que uma epizootia de febre amarela está em curso, o que representa elevado risco de transmissão da doença a seres humanos não imunizados que entram nessas áreas (BRASIL, s.d.).
Doença de notificação compulsória internacional, submetida ao Regulamento Sanitário Internacional da Organização Mundial da Saúde (RSS/OMS), qualquer evidência de atividade viral, inclusive em áreas indenes, deve ser imediatamente notificada aos diferentes níveis hierárquicos do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 1999). A identificação precoce da circulação viral desencadeia uma série de ações, como a vacinação de viajantes e da população residente nas áreas de transmissão, que têm por objetivo evitar a ocorrência de casos humanos e o ressurgimento da forma urbana (BRASIL, 2005; 2008; s.d; GOMES, 2010; TAUIL, 2010).
Adotado pelo Ministério da Saúde em 2003, esse modelo de vigilância está na base do processo que pôs o surto de febre amarela silvestre, no verão 2007-2008, no centro de interesse da imprensa, desencadeando o processo de midiatização2 do acontecimento amarílico. O primeiro caso humano, divulgado em uma nota técnica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e repercutido no Correio Braziliense, principal jornal da capital federal, desencadeou o processo de agendamento da notícia (MACHADO, 2008). Embora, desde o início, o evento tivesse sido classificado pela maioria dos especialistas e por todas as autoridades de saúde pública como dentro da normalidade, de modo geral, a cobertura jornalística enquadrou a febre amarela silvestre sob a perspectiva de uma epidemia fora do controle.
Metodologia
A Folha de S.Paulo foi escolhida em razão de seu reconhecido papel como jornal formador de opinião em âmbito nacional, muitas vezes servindo como fonte de informação para diferentes mídias (rádio, televisão, internet e jornais regionais). Para dar apoio à pesquisa, foram identificados e analisados documentos oficiais divulgados pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) ao longo do surto de febre amarela silvestre.
As matérias jornalísticas foram entendidas como documentos de domínio público. Como afirma Spink (2000, p. 136), esses documentos estão eticamente abertos a análise exatamente por terem sido tornados públicos de uma forma que permite sua responsabilização, podendo "refletir as transformações lentas em posições e posturas institucionais assumidas pelos aparelhos simbólicos que permeiam o dia a dia ou, no âmbito das redes sociais, pelos agrupamentos coletivos que dão forma ao informal, refletindo o ir e vir de versões circulantes assumidas ou advogadas".
Para analisar as versões circulantes na cobertura jornalística do jornal, a estratégia metodológica utilizada foi a da análise do discurso, pautada na perspectiva de que a linguagem permite construir múltiplas versões de um evento. Nesse processo, os repertórios interpretativos desempenham papel fundamental, sendo, conforme Potter e Wetherell (1987), um conjunto de termos, descrições e figuras de linguagem socialmente compartilhados e utilizados nas produções discursivas como base para a argumentação.
Corpus jornalístico
As matérias analisadas no presente estudo foram publicadas na Edição SP do jornal Folha de S.Paulo.3 O acesso ao noticiário que formou o corpus jornalístico deu-se exclusivamente por meio eletrônico, cujo conteúdo é restrito a assinantes do jornal ou do portal UOL. O período analisado foi de 21 de dezembro de 2007 a 29 de fevereiro de 2008, recorte temporal que compreende a publicação da primeira e da última matéria circunscrita ao fenômeno midiático da febre amarela. Para localização das matérias foi utilizado o termo "febre amarela 2008", em campo de busca próprio do arquivo eletrônico do jornal, disponível no portal UOL. Todas as matérias localizadas sob esse termo foram arquivadas em Word, seguindo-se posteriormente à leitura de cada texto.
O termo "febre amarela" foi localizado em 120 matérias, publicadas em 48 edições e distribuídas por dez editorias:4 "Capa", "Opinião", "Brasil", "Ciência", "Dinheiro", "Cotidiano", "Esporte", "Ilustrada", "Turismo" e "Ombudsman". Desse total, dois registros (e uma editoria, a de turismo) foram descartados em razão de o termo não estar relacionado à cobertura jornalística do episódio ora analisado. Foram efetivamente analisadas 118 matérias, veiculadas em 47 edições e nove editorias.
As matérias do corpus jornalístico foram organizadas por data, título, editoria, autoria e endereço eletrônico de acesso. Os textos foram categorizados em nove gêneros/estilos, de acordo com a prática jornalística: reportagem, texto de opinião, nota em coluna de opinião, notícia, chamada de capa, destaque de página, entrevista, carta de leitor e editorial.
Corpus institucional
Foi feito um levantamento dos documentos oficiais relativos ao surto de febre amarela silvestre, emitidos pela SVS/MS, que serviram de apoio à análise qualitativa do corpus jornalístico. Foram localizados e analisados 40 documentos, entre 3 de janeiro e 28 de fevereiro de 2008, período em que a autoridade de saúde pública manteve comunicações frequentes sobre a situação da epizootia. Os documentos foram divididos em seis categorias, segundo nomenclatura adotada pelo Ministério da Saúde: notícia no portal, aviso de pauta, nota, comunicado, glossário e boletim.
Resultados
A análise do corpus jornalístico foi realizada em duas etapas. Na primeira, um estudo exploratório evidenciou a visibilidade dada ao tema na cobertura do jornal. Na segunda etapa, utilizando os referenciais teóricos citados, evidenciaram-se os processos de agendamento e enquadramento da notícia, bem como a produção de sentidos, por meio de estudo dos repertórios interpretativos que circularam no noticiário. Esses repertórios foram separados em quatro categorias: nomeação, descrição epidemiológica, caracterização da doença e discurso oficial. Cada uma das categorias foi analisada, primeiro, individualmente. Em seguida, buscaram-se os sentidos que o conjunto das quatro categorias produziu sobre a febre amarela transformada em notícia.
A referência à doença sem a indicação (nomeação) de que se tratava do ciclo silvestre tornou, discursivamente, as duas formas (silvestre e urbana) um mesmo e único evento. A estratégia discursiva baseada na descrição epidemiológica (termos e descrições como "áreas de risco", "surto", "epidemia", "notificação de casos", etc.) produziu o sentido de expansão territorial do evento. A caracterização da doença (sintomatologia e tratamento) deslocou o sentido da febre amarela da perspectiva coletiva para a individual: ao reconhecerem sinais e sintomas de uma doença, é possível que os leitores do jornal tenham considerado a chance real de adoecerem. Finalmente, ao relativizar as ações e políticas públicas para o controle e prevenção da doença (o discurso oficial), a cobertura jornalística evidenciou a iminência de uma epidemia fora do controle governamental.
Na primeira etapa da análise foram identificadas as editorias e os estilos/gêneros jornalísticos (conforme ográfico 1) em que foram veiculadas as 118 matérias que compõem o corpus jornalístico. Chama a atenção o número expressivo de textos e notas em coluna de opinião, carta de leitor e editorial (37,3% da cobertura), que são essencialmente de natureza interpretativa e, geralmente, não trazem informação nova, sendo antes a manifestação de um juízo de valor sobre fatos e acontecimentos do que a exposição da verdade factual (BAHIA, 1990; SOUSA, 2006). Já as notícias, de caráter essencialmente objetivo (BAHIA, 1990), responderam por apenas 13,5% da cobertura, enquanto o gênero reportagem, situado entre a objetividade e a subjetividade (BAHIA, 1990), respondeu por 25,7%. A preponderância das matérias de natureza não jornalística implica dizer que a cobertura teve um alto grau de subjetivação (SOUSA, 2006).
Em seguida, realizou-se uma análise das principais estratégias discursivas sobre a febre amarela apresentadas ao longo da cobertura, identificando os modos como a doença foi apresentada, quais sejam: a não discriminação dos dois ciclos epidemiológicos; negatividade, dramaticidade e inevitabilidade; enquadramento epidêmico; e foco na vacina como limite entre a vida e a morte.
Discussão
Qual febre amarela?
Na maior parte da cobertura jornalística, a diferença entre as duas formas da doença (silvestre e urbana) não foi explicitada. O primeiro registro localizado ("Morte de macacos por febre amarela intensifica vacinação", Folha de S.Paulo, 21/12/07), texto do gênero notícia, embora faça referência à ocorrência de uma epizootia, não é explícito quanto ao ciclo que estava em curso, o silvestre. Ao contrário, há referência à forma urbana. O segundo registro ("Parque fechado por febre amarela reabre", Folha de S.Paulo, 02/01/2008) traz um grave erro de informação ao indicar o Aedes aegypti como o vetor envolvido na epizootia. Nas Américas, incluindo o Brasil, os transmissores da febre amarela silvestre são basicamente os mosquitos Haemagogus e Sabethes, sendo o A. aegypti responsável exclusivamente pela transmissão da forma urbana (VASCONCELOS, 2003).
Dois pequenos registros foram localizados nos dias 3 e 5 de janeiro de 2008. No dia seguinte, o jornal publicou notícia sobre a ocorrência do primeiro óbito humano possivelmente provocado pela doença. Embora conciso, o texto ("Morre paciente com suspeita de febre amarela", Folha de S.Paulo, 06/01/08) apresenta alto grau de noticiabilidade,5 sendo identificado neste estudo como aquele que desencadeou o processo de agendamento da doença na Folha.
É importante observar, ainda, que, apesar de os registros se referirem à forma silvestre, em nenhum deles o ciclo é nomeado. Essa nomeação é essencial para identificação epidemiológica do agravo em curso. Ressaltamos que àquela altura, a informação de que se tratava da forma silvestre já havia sido destacada no documento "Vacinação contra febre amarela previne doença no DF" (03/01/2008), amplamente divulgado pela área de comunicação da SVS/MS.
Como já referido, a ausência da nomeação "silvestre" não caracteriza o evento como uma ocorrência geograficamente localizada e de gravidade limitada. À omissão dessa informação soma-se a ênfase dos textos no ciclo urbano, formando um pacote interpretativo segundo o qual o leitor da área urbana, público alvo da edição analisada, poderia ser levado a sentir-se diante de um evento prestes a eclodir na porta de sua casa.
Negatividade, dramaticidade, inevitabilidade
O primeiro óbito suspeito levou o jornal a ampliar consideravelmente o espaço dedicado à febre amarela, enfatizando nos textos o crescimento de casos suspeitos e as consequências da doença, o que amplificou, discursivamente, a negatividade e a inevitabilidade de uma possível epidemia. Publicada em 8 de janeiro de 2008, a primeira reportagem ("Mais uma pessoa morre com suspeita de febre amarela") destacou o número "crescente" de casos suspeitos na região Centro-Oeste, enfatizando sintomas e tratamento dos internados em estado grave. Pela primeira vez, há referência às formas urbana e silvestre; contudo, ao colocar o foco no crescimento de casos e na sintomatologia/tratamento, o texto pode ter induzido o leitor a acreditar que a febre amarela estava se alastrando pelo Brasil.
Em 9 de janeiro, a doença chegou à primeira página da Folha ("Suspeita de febre amarela provoca corrida a postos no DF), ganhando assim status de tema importante e "quente" no horizonte de atualidade jornalística projetado pelo jornal (SOUSA, 2006). Ao longo do período estudado, o tema recebeu 15 capas (12,7% do total da cobertura), das quais 12 foram publicadas quase consecutivamente entre os dias 9 e 21 de janeiro (o tema só não ocupou a primeira página em 18 de janeiro). Sendo a capa um dos mais nobres espaços da mídia impressa, em razão do limitado número de assuntos nela destacados (BAHIA, 1990), esse total demonstra a relevância editorial dada ao tema.
Trechos das chamadas de capa dos dias 11, 15, 16, 17 e 20 de janeiro – "primeira morte", "2ª morte", "5ª morte", "7 mortes", "8 o total de mortes", "9ª morte", respectivamente – evidenciam também que os óbitos foram enquadrados na forma de escalada. Fica implícita nessa sequencia de chamadas de capa a ideia de "descontrole" da epidemia, já que o número de casos fatais "crescia" em progressão aritmética, num curto período de tempo. Essa estratégia discursiva produziu sentidos que salientaram a negatividade, a dramaticidade e a inevitabilidade do acontecimento, enquadramento que conferiu ao registro jornalístico uma natureza mais emotiva do que informativa (SOUSA, 2006).
Enquadramento epidêmico
Das 118 matérias analisadas, 75 (42%) foram publicadas entre 9 e 22 de janeiro (12 edições consecutivas), caracterizando o período como o ápice do agendamento noticioso da febre amarela na Folha e do enquadramento epidêmico. A edição emblemática desse enquadre é a de 14 de janeiro, quando o tema foi manchete (destaque principal da primeira página) e reportagem central da editoria "Cotidiano" (com seis textos e um destaque de página).
Nesse registro, chama a atenção o primeiro texto da reportagem. O título "Ministro vai à TV negar epidemia de febre amarela" alinha-se ao texto de abertura, que diz: "No dia em que o número de notificações de casos suspeitos de febre amarela subiu de 15 para 24, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) foi à TV fazer um pronunciamento em cadeia nacional para dizer que 'não existe risco de epidemia'". Nessa leitura, a ênfase no aumento nas notificações de casos suspeitos relativiza (para baixo) o valor absoluto da informação dada pela autoridade de saúde pública, qual seja, de que o país não corria risco de sofrer uma epidemia de febre amarela. Essa relativização pode ter produzido no leitor leigo a ideia de que o ministro, logo, o próprio governo federal, recusava-se a aceitar um acontecimento que, discursivamente, parecia consumado: os números estavam configurando a febre amarela como um evento epidêmico.
Também se destacam nessa reportagem dois textos do gênero entrevista. No primeiro, um especialista renomado apresenta uma defesa veemente da vacinação antiamarílica obrigatória. Direcionado pela reportagem, que pergunta se ele acreditava na possibilidade de uma epidemia urbana da doença, o especialista confirma os riscos reais de ocorrência dessa forma da doença. Finalmente, o discurso do entrevistado extrapola as proposições científicas e se finca em um postulado moral, segundo o qual, na falta de assertividade do poder público para evitar a "tragédia" iminente, o Brasil dependeria de deliberações divinas: "Rezemos para que isso [a febre amarela urbana] não aconteça" ("Infectologista defende vacina obrigatória", Folha de S.Paulo, 14/01/08).
O segundo entrevistado, contrário à tese da epidemia, responsabiliza a mídia pela criação do sentido epidêmico da doença: "O que acontece é um fenômeno de imprensa. E isso é clássico na história das epidemias. Toda vez que surge uma, os governos negam. E a imprensa vai atrás, no rastro da doença" ("É uma situação normal, diz Dráuzio Varella", Folha de S.Paulo, 14/01/08). Entre as duas entrevistas são apresentados os argumentos dos especialistas que refutam a hipótese de reurbanização da febre amarela e descartam a vacinação em massa, em texto de apenas 135 palavras.
O descuramento (omissão) do discurso oficial é evidenciado na entrevista publicada em 15 de janeiro, na qual uma especialista em Saúde Pública da Universidade de Harvard (EUA) lista uma série de recomendações às autoridades brasileiras para o enfrentamento da febre amarela. Ressalte-se que estas já haviam sido publicizadas pela autoridade de saúde em dois documentos oficiais ("Material de apoio para jornalistas" e "Temporão descarta epidemia de febre amarela"), divulgados pelo Ministério da Saúde em 9 de janeiro, seis dias antes, portanto, da publicação da entrevista. Ambos os documentos descrevem as principais medidas do sistema nacional de vigilância da febre amarela, entre elas a vacinação da população que vive ou viaja para áreas de risco, medida destacada pela norte-americana. Não há no jornal qualquer referência aos documentos oficiais.
Revolta pela vacina, afogando em números
A ênfase na vacinação contra a febre amarela é explicitada na reportagem de 17 de janeiro, cujo texto emblemático tem por título "Com filas nos postos de saúde, Rio vive agora 'revolta pela vacina'". Trata-se de uma referência à centenária "Revolta da vacina", levante popular ocorrido no Rio de Janeiro, no começo do século XX, contra a obrigatoriedade da vacinação da varíola, com amplo apoio da imprensa. Na estratégia discursiva, destaca-se a troca da preposição "da" por "pela", que traz, quase um século depois, a mesma voz jornalística que prega contra a "ineficiência" do poder público brasileiro em controlar epidemias.
A ênfase no aumento progressivo do número de casos humanos suspeitos de febre amarela, com destaque para os óbitos, representou outro importante mecanismo para a configuração simbólica da febre amarela silvestre como uma realidade epidêmica inevitável. No principal texto da reportagem ("Mortes por febre amarela já superam 2007", 17/01/08), o jornal destaca o curto período em que a doença progrediu, 16 dias. O texto compara os casos de 2008 com os de 2007, 2006, 2004 e 2003, omitindo 2001 e 2002, anos inseridos no ciclo regular da epizootia, e que apresentaram números expressivamente maiores do que no mesmo período de 2008. Além da escolha editorial dos dados a serem apresentados ao leitor, a matéria omite o perfil cíclico da febre amarela silvestre, que apresenta epizootias regulares a cada 5 ou 7 anos (BRASIL, 2005; 2008; GOMES et al., 2010).
Um texto do ombudsman do jornal faz uma dura crítica à cobertura jornalística da febre amarela em geral e à da Folha em particular, sobretudo no que diz respeito ao uso dos números:
O exagero da Folha em 2008 contrasta com outro, o de 2001, quando os 22 óbitos se concentraram no primeiro trimestre. Em nenhum dia daquele ano a primeira página se referiu à moléstia [...] nota [de rodapé] anunciara semanas antes as 39 mortes do ano anterior [2000] [...] registros não trouxeram a opinião do então ministro da Saúde [...]. Em 2000, nenhum título da capa falou em morte pela doença ("Jornalismo febril", Folha de S.Paulo, 27/01/08).
Esses números também expressaram o confronto entre a instância discursiva oficial (epidemiologia e poder público) e a instância discursiva midiática, cada uma das quais tentando legitimar e impor a sua perspectiva. Nessa disputa, o enquadre jornalístico deu aos números uma espécie de "autonomia" de sentidos ("os números falam por si"), que desqualificava o discurso oficial, então centrado no argumento epidemiológico que definia o episódio como "dentro da normalidade".
É importante observar, ainda, que a estratégia discursiva calcada na progressão numérica não apenas estabelece a importância do fenômeno em si, como dá a ele um caráter de irreversibilidade (HERZLICH; PIERRET, 2005). Assim, a divulgação sistemática do número de casos suspeitos contribuiu significativamente para a configuração simbólica da febre amarela silvestre de 2007-2008 como uma realidade urbana e epidêmica.
Também chama atenção a politização do tema, que, a partir de 10 de janeiro de 2008, passou a ser destacado em várias edições seguidas nas editorias "Opinião" e "Brasil", espaços de excelência dos temas de interesse nacional, como política e economia. Entre 10 e 21 de janeiro, ápice do agendamento da febre amarela na Folha, 23 das 75 matérias foram publicadas nessas duas editorias, em textos essencialmente interpretativos (editorial, textos e notas de opinião). Ressaltamos que apenas no dia 20 o jornal publicou o primeiro, e único, texto de opinião assinado por um especialista em saúde, sob o título "Nem todos precisam de vacina", na editoria "Cotidiano".
A análise do movimento do noticiário indica que a partir de 21 de janeiro a agenda febre amarela começou a se esgotar na Folha, com deslocamento progressivo dos textos do gênero reportagem para o gênero notícia. Entretanto, o primeiro óbito suspeito de febre amarela vacinal deu novo impulso à noticiabilidade do acontecimento, recolocando o tema na agenda: a doença voltou a ser capa nos dias 1º e 2 de fevereiro. Àquela altura, o Brasil registrava 43 casos de reações adversas à vacina amarílica, mais do que o dobro do total de casos da doença provocados pelo mosquito confirmados em humanos – 19 casos entre dezembro de 2007 e 31 de janeiro de 2008 (BRASIL, 2008).
Em seguida, a Folha de S.Paulo passou a dedicar espaços cada vez menores à febre amarela. Nos dias 13, 16, 19, 23 e 29 de fevereiro, na editoria "Cotidiano", foram veiculados os últimos textos sobre a doença, todos no gênero notícia. Ao longo dos meses seguintes, o jornal restringiu-se à atualização de dados oficiais, sem voltar a dar ao tema o mesmo grau de noticiabilidade observado no período de estudo.
Vacinação, repertório recorrente
A vacinação contra a febre amarela foi um repertório recorrente em praticamente toda a mídia generalista, da qual, neste estudo, o jornal Folha de S.Paulo é representativo. Essa perspectiva midiática causou forte impacto sobre o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde. Entre o final de dezembro de 2007, quando as primeiras notícias sobre a doença começaram a ser veiculadas nacionalmente por diversos veículos de imprensa de todo o país, e 22 de fevereiro de 2008, quando teve início o processo de esgotamento noticioso da febre amarela, foram distribuídas aos estados e ao Distrito Federal 13.630.700 doses da vacina antiamarílica (BRASIL, 2008). Trata-se de um número exponencial, considerando a série histórica do programa, que rotineiramente distribui entre 15 e 16 milhões de doses ao longo de um ano, ou, aproximadamente, 1,35 milhão de doses ao mês (BRASIL, 2008). Em pouco menos de dois meses, mais de 7,6 milhões de vacinas foram aplicadas – 6,8 milhões só em janeiro, mês em que foi registrado o maior volume de notícias sobre a doença (BRASIL, 2008). A grande maioria das pessoas não tinha indicação para a vacina (BRASIL, 2008; 2009).
No início de fevereiro de 2008, em razão do aumento exponencial da demanda interna, o Brasil – um dos três fabricantes mundiais pré-qualificados pela Organização Mundial da Saúde para a produção da vacina amarílica – suspendeu a exportação do imunobiológico (Brasil, 2008; WHO, 2008). Antes, em 18 de janeiro de 2001, o Ministério da Saúde já havia apresentado à OMS um pedido de empréstimo de 4 milhões de doses do estoque de emergência global, para manter em níveis seguros o estoque nacional do antiamarílico e, ao mesmo tempo, assegurar uma eventual campanha de vacinação de emergência (WHO, 2008).
Fabricada desde 1937, no Brasil, pelo Bio-Manguinhos, a vacina contra a febre amarela tem demonstrado segurança e efetividade no controle da doença, com raros registros de complicações graves pós-vacinais – a literatura refere que de 2% a 5% dos vacinados apresentarão algum tipo de reação6. Porém, como qualquer produto farmacêutico, também ela pode apresentar efeitos colaterais ou eventos adversos, algumas vezes bastante graves, como é o caso da doença viscerotrópica (DV). Forma mais rara e grave do vírus vacinal, a DV pode causar choque, derrame pleural e abdominal e falência múltipla dos órgãos (BRASIL, 2005; 2009).
Ao longo das últimas décadas, eventos viscerotrópicos têm sido bastante raros no país. Em nove anos (1999-2007), o Sistema de Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação (EAPV), vinculado ao Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde (PNI/MS), registrou 8 casos, com 7 óbitos. Contudo, em 2008, foram confirmados 8 casos de reação adversa grave à vacina amarílica, dos quais seis foram a óbito. Dessas mortes, duas foram confirmadas como DV e uma, até o encerramento da presente pesquisa, ainda estava em investigação (BRASIL, 2009).
A ênfase na proteção permanente conferida pela vacina contra a febre amarela acabou por alçá-la, simbolicamente, à categoria de "poção mágica". O foco midiático na vacinação como a única estratégia capaz de impedir a ocorrência da doença foi responsável pela busca indiscriminada da população pelo imunobiológico.
Considerações finais
A análise dos repertórios interpretativos que circularam na cobertura da Folha de S.Paulo nos permitiu entender os sentidos produzidos sobre a febre amarela e como, discursivamente, a cobertura jornalística fez existir uma realidade epidêmica. Sob a perspectiva do agenda-setting foi possível constatar que, a partir do momento em que o acontecimento amarílico ganhou relevância editorial, a produção desse sentido se deu em razão da forte presença de dois conceitos: acumulação, uma vez que o assunto foi abordado continuamente em seguidas edições e por um longo período de tempo; e onipresença, sendo o tema exposto em diversas editorias. O direcionamento editorial crivou o acontecimento de subjetividade, como demonstra a análise quantitativa dos gêneros jornalísticos veiculados ao longo da cobertura, na qual há preponderância de textos de natureza interpretativa sobre os de natureza objetiva. Nessa construção, a Folha de S.Paulo, ao mesmo tempo, impôs a febre amarela à agenda cotidiana dos seus leitores e determinou a forma pela qual a doença deveria ser interpretada, enquadrando (framing) o tema como um evento potencialmente epidêmico, perigoso e letal.
Apoiando-se fortemente em fontes contrárias às postulações de normalidade do evento, as matérias produzidas pelo jornal deram intensa visibilidade (saliência) às informações que visavam relativizar a instância discursiva oficial. Esta, por sua vez, embora tenha realizado, ao longo de todo o período estudado, esforços permanentes de comunicação, a fim de minimizar os efeitos dos sentidos que deslocavam a doença para uma forma epidêmica, não conseguiu impor-se ao fluxo discursivo midiático. O motivo dessa ineficácia comunicativa por parte do poder público não foi objeto da presente pesquisa, mas pode ser norteador de futuros estudos, de modo a contribuir para o equilíbrio da complexa e conflituosa relação entre a mídia privada e os gestores da saúde pública.
As repercussões que os sentidos midiatizados da febre amarela tiveram sobre os processos saúde/enfermidade vivenciados pelas pessoas no cotidiano e seus impactos sobre o sistema público de saúde demandam uma discussão crítica sobre o papel do jornalismo generalista no campo da saúde. Todas as práticas discursivas implicam um fazer cotidiano, inclusive do jornalismo. A bandeira da liberdade de expressão, reconhecida e legitimada nas sociedades ocidentais como instrumento fundamental à cidadania, não pode servir de salvo conduto ao fazer jornalístico. Ao contrário, como produtor poderoso de significação e construtor da realidade social, ele também deve ter em perspectiva as complexidades dos processos do adoecimento humano e os limites do conhecimento no tratamento das doenças.
Referências bibliográficas (retiradas aqui no blog - veja o original no link acima)
Notas
1 Este artigo é resultado de dissertação de mestrado, apresentada em outubro de 2011, e não apresenta conflitos de interesse.
2 Processo de midiatização é o deslocamento de um dado acontecimento do cotidiano para o foco de interesse da mídia, consequentemente, sua configuração como notícia que media o espaço público e constrói a realidade social.
3 O jornal Folha de S.Paulo conta com duas edições impressas diárias: a Edição SP, que circula na Grande São Paulo, à exceção do ABCD paulista; e a nacional, disponível nas demais regiões do país. São disponibilizados também cadernos locais, produzidos por equipes regionais, que abordam temas de interesse exclusivo dessas áreas de circulação. A versão digital, disponível no portal UOL, refere-se à Edição SP.
4 De acordo com o Novo Manual da Redação, 1996, no jornal Folha de S.Paulo a cobertura jornalística é dividida em editorias, cada qual responsável por campos temáticos e áreas de abrangência. O jornal também chama essas editorias de cadernos. Nesta pesquisa, usamos exclusivamente o termo "editoria".
5 Conceito da hipótese agenda-setting que indica a relevância de um tema na pauta jornalística.
6 C. Malinverni participou da coleta e análise de dados, da discussão dos resultados e da redação final do artigo. A. M. B. Cuenca participou da coleta e análise de dados e da discussão dos resultados. J. I. M. Brigagão participou da discussão dos resultados e da revisão teórica do artigo.
2 Processo de midiatização é o deslocamento de um dado acontecimento do cotidiano para o foco de interesse da mídia, consequentemente, sua configuração como notícia que media o espaço público e constrói a realidade social.
3 O jornal Folha de S.Paulo conta com duas edições impressas diárias: a Edição SP, que circula na Grande São Paulo, à exceção do ABCD paulista; e a nacional, disponível nas demais regiões do país. São disponibilizados também cadernos locais, produzidos por equipes regionais, que abordam temas de interesse exclusivo dessas áreas de circulação. A versão digital, disponível no portal UOL, refere-se à Edição SP.
4 De acordo com o Novo Manual da Redação, 1996, no jornal Folha de S.Paulo a cobertura jornalística é dividida em editorias, cada qual responsável por campos temáticos e áreas de abrangência. O jornal também chama essas editorias de cadernos. Nesta pesquisa, usamos exclusivamente o termo "editoria".
5 Conceito da hipótese agenda-setting que indica a relevância de um tema na pauta jornalística.
6 C. Malinverni participou da coleta e análise de dados, da discussão dos resultados e da redação final do artigo. A. M. B. Cuenca participou da coleta e análise de dados e da discussão dos resultados. J. I. M. Brigagão participou da discussão dos resultados e da revisão teórica do artigo.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
E não era o lixo!?... até que enfim...
O lixo urbano irregularmente lançado ou disposto tem sido apontado por um sem número de vozes como o responsável maior pelas enchentes. Essa tese tem sido insistentemente sustentada por autoridades públicas, com acrítica aceitação por boa parte da mídia e, pasmem, pela própria população de nossas cidades.
No entanto, como veremos, é uma tese perigosa e equivocada que, ao espertamente jogar à população, por conseqüência de uma sua eventual falta de educação, a culpa pelas enchentes, desvia o foco das atenções, subtrai a importância das verdadeiras maiores causas e alivia a responsabilidade dos seguidos governos que não as atacam devidamente.
As enchentes urbanas são explicadas pelo incrível aumento do volume de águas de chuva que aflui, em tempos sucessivamente menores, para um sistema de drenagem (córregos, rios, bueiros, galerias, canais…) progressivamente incapaz de lhe dar a devida vazão.
Esse aumento do volume de água e a redução do tempo em que chega às drenagens são promovidos essencialmente pela impermeabilização do solo urbano e pela cultura de canalização e retificação de drenagens naturais.
Como um enorme agravante a esse quadro, considere-se ainda o fantástico grau de assoreamento dessas drenagens por sedimentos provenientes dos intensos processos erosivos que ocorrem particularmente nas faixas periféricas de expansão da cidade. Esse assoreamento acaba por reduzir ainda mais a já comprometida capacidade de vazão de toda a rede drenagem.
Ou se ataca essa questão, através de medidas que recuperem ao máximo a capacidade da cidade em reter as águas de chuva, seja por infiltração, seja por acumulação (pequenos reservatórios domésticos e empresariais, calçadas, valetas e pátios drenantes, bosques florestados e arborização intensa, etc,) e combatam a erosão em sua origem, ou nunca nos livraremos do flagelo das enchentes. As bilionárias obras de alargamento e aprofundamento das calhas de nossos rios principais são necessárias, mas a realidade mostra que são insuficientes e já se aproximam de seu limite de benefícios.
O lixo? Claro que o lixo é um fator complicante, e seu lançamento irregular deve ser combatido de todas as formas. Mas seus efeitos principais são para um tipo de enchente muito localizado, junto às proximidades de um bueiro obstruído ou em uma situação que exija o funcionamento de bombas de sucção, por exemplo. Vejam que nas cenas televisadas de enchentes é muito mais comum ver-se água jorrando dos bueiros e bocas de lobo do que sendo impedida de entrar. Essas águas que jorram são o retorno das águas para as quais as galerias e córregos não conseguem dar a devida vazão.
Por outro lado, é importante considerar que do volume total do material de assoreamento das drenagens 90% são constituídos por sedimentos provenientes dos processos erosivos nas frentes de expansão das cidades, e apenas 10% são constituídos por lixo urbano e entulho de construção civil.
Note-se ainda que muito provavelmente apenas uma pequena parte do lixo disperso nas drenagens da cidade seria proveniente do ato deseducado de se lançá-lo irregularmente, há problemas ainda bem sérios de deficiências de recolhimento do lixo doméstico, especialmente em áreas habitacionais irregulares de baixa renda.
Enfim, o sucesso de um programa de combate às enchentes exige, antes de mais nada, a compreensão exata de toda a dinâmica causal do fenômeno, assim como a corajosa decisão das autoridades públicas e privadas em assumir suas intrínsecas responsabilidades. O que não condiz com a comodidade de se jogar às costas da população a culpa pelos problemas.
Agrotóxicos, mais um recorde tupiniquim - o inferno é aqui mesmo
por Paulo Kliass, na Carta Maior
Para aqueles que adoram bater no peito, bem ufanista, a cada anúncio de novo recorde tupiniquim [do agrobiz], eis aqui uma notícia que devemos analisar com muita cautela antes de qualquer comemoração precipitada. Isso porque o Brasil obteve o pentacampeonato mundial no quesito utilização intensiva de agrotóxicos em território nacional. Não, você não se enganou aqui na leitura, não! É isso mesmo: pelo quinto ano consecutivo, de 2008 a 2012, nosso País esteve à frente de todos os demais do planeta quanto ao volume de substâncias venenosas utilizadas nas atividades agropecuárias e correlatas.
Apesar de todos nós termos algum grau de avaliação subjetiva a respeito da gravidade da situação, a observação dos números torna o quadro realmente impressionante. O Brasil consome o equivalente a quase 1/5 do total de agrotóxicos produzidos no mundo: mais precisamente 19%. A título de comparação, os Estados Unidos surgem logo atrás com 17%. Isso significa que, não obstante termos um total de área agrícola cultivada muito menor que os norte-americanos, utilizamos muito mais agrotóxicos do que eles. Portanto, se existe alguma racionalidade nessa desproporção, ela só se explica pela ganância de lucro, a qualquer preço e sem a menor responsabilidade social ou ambiental, por parte das empresas produtores dessas substâncias causadoras de tantos malefícios ao ser humano e ao meio ambiente.
Brasil é recordista mundial no uso de agrotóxicos
Ao longo da primeira década desse milênio, a produção das 8 principais “commodities” em nosso País cresceu 97%, enquanto a área plantada aumentou em 30%. Porém, o total de vendas de agrotóxicos elevou-se em um patamar muito acima: subiu em 200%. Em 2010, foram vendidas 936 mil toneladas de agrotóxicos, um negócio que movimentou o equivalente a US$ 7,3 bilhões. Cálculos desenvolvidos por pesquisadores falam de um consumo médio anual superior a 5 kg por habitante. A importância das cifras negociais da atividade dá a medida de sua capacidade de fazer pressão sobre os órgãos governamentais encarregados de estabelecer as políticas públicas para o setor.
Por se tratar de substâncias especiais, os agrotóxicos são passíveis de regulação e regulamentação por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), assim como ocorre com os medicamentos, alimentos e demais produtos que possam comprometer a saúde. No entanto, ao contrário dos procedimentos adotados para os remédios e assemelhados (revisões periódicas das licenças e autorizações concedidas), os agrotóxicos podem ser fabricados livremente, sem tal reavaliação obrigatória. Os registros dos agrotóxicos junto ao setor público têm seu prazo de validade por tempo indeterminado, enquanto nos países desenvolvidos o período médio é de 10 anos.
Além disso, há uma circunstância agravante: boa parte dos agrotóxicos ainda produzidos aqui em nosso território já teve sua comercialização proibida nos países das matrizes das multinacionais, como Estados Unidos, Canadá e União Européia. No entanto, a exemplo do que ocorre com os demais mercados oligopolizados em escala global, no setor há 13 empresas que dominam quase 90% da oferta mundial de agrotóxicos. No Brasil, as 10 maiores respondem por 75% das vendas. O uso intensivo e continuado dos mesmos produtos acaba por gerar uma resistência e sua própria “eficiência” fica comprometida. Assim, o ciclo econômico e produtivo continua por meio da elevação das doses aplicadas na agricultura e também pela adoção dos novos produtos considerados mais eficazes, uma vez que são ainda desconhecidos do mundo vegetal onde passarão a atuar.
Modelo baseado no agronegócio e os hortifruti: risco crescente
Boa parte desse volume todo está associado ao modelo econômico aqui reinante, ancorado no agronegócio a todo custo. Ao contrário do que imagina o senso comum, as culturas transgênicas acabam por demandar uma quantidade maior de agrotóxicos e que estão sendo cada vez mais proibidos nos países desenvolvidos. A tendência, portanto, é que os requisitos para as importações nesses países sejam ainda mais rigorosos – e isso pode comprometer nossa performance exportadora desse tipo de produto agrícola a médio e longo prazo. A esse respeito, por exemplo, a própria China já inicia um processo de convergência de seus padrões de produção e consumo de produtos agrícolas, sendo mais exigente que as normas frouxas brasileiras.
Outro aspecto significativo é a concessão de estímulo tributário para as empresas produtoras de tais mercadorias. Do ponto de vista do governo federal, elas contam com isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) – ou seja, a incidência de alíquota zero desse tributo. Já com relação aos impostos estaduais, a regra atual prevê uma redução de até 60% na incidência do ICMS. Com isso, o que se verifica é que o próprio Estado brasileiro termina por favorecer e incentivar um tipo de produto que é sabidamente prejudicial à saúde da população e comprometedor da qualidade do meio ambiente.
Essa situação cria uma espécie de esquizofrenia na relação de tal atividade com o poder estatal. De um lado, estimula-se a produção de tais venenos em escala gigantesca e o resultado é a perda de receita tributária em função das isenções de impostos. . Por outro lado, o resultado da utilização desses mesmos produtos na atividade agropecuária compromete, em sentido amplo, as condições sanitárias do País. Ou seja, o Estado é - e será cada vez mais - chamado a realizar despesas com a prevenção e o tratamento das tragédias (individuais e sociais) derivadas do uso de agrotóxicos. E aqui os estudos de técnicos envolvidos com a matéria apontam para o elevado custo social associado ao uso desses produtos. Para cada dólar gasto em consumo de agrotóxico, pode estar embutido uma despesa futura de US$ 1,28 em despesas sociais pelo governo. E são cálculos ainda subestimados, envolvendo apenas as doenças agudas e conhecidas até o presente. Os custos indiretos no futuro apontam para somas muito maiores.
Prejuízos para a saúde e para o meio ambiente
As conseqüências maléficas derivadas desse tipo de opção para a atividade agrícola são inúmeras. Em primeiro lugar estão os próprios trabalhadores envolvidos na produção dos venenos e na sua utilização nas plantações. Em seguida, vêm os consumidores dos alimentos cuja plantação esteve submetida ao uso de pesticidas prejudiciais à saúde humana. E finalmente há um conjunto enorme de efeitos indiretos, derivados da contaminação de solos e águas, cuja quantificação ainda está por ser feita de forma ampla e abrangente. Atualmente, por exemplo, estima-se que por volta de 20% do total de fungicidas seja utilizado pela atividade de hortaliças, normalmente realizada nos cinturões verdes próximos aos grandes espaços metropolitanos, de alta densidade populacional. O uso intensivo desse tipo de agrotóxicos contamina de forma radical os terrenos e os fluxos de água próximos ao habitat urbano.
Os riscos já verificados para a saúde são muitos. As doenças comprovadas vão desde diversos tipos de câncer, passando por um conjunto de distúrbios neurológicos, psiquiátricos, má formação do feto, entre outros. Além disso, as substâncias nocivas terminam por serem transmitidas pelo aleitamento materno, podendo comprometer diretamente as condições de saúde da geração seguinte, mesmo que o contato mais direto com o agrotóxico deixe de existir.
Do ponto de vista empresarial, a lógica que prevalece é a busca incessante de maximização de seus lucros. E ponto final! Assim foi o que ocorreu a partir da década de 1950, com a chamada “revolução verde”. Em nome da elevação da produtividade da produção agrícola, entulhou-se o planeta com essa primeira geração de pesticidas e herbicidas artificiais, que vieram depois a serem proibidos em razão de seu comprovado comprometimento da saúde. O entusiasmo com as possibilidades de ganhos com a produção agrícola foi imediato, mas durou pouco. O famoso e triste caso do DDT talvez seja o exemplo mais simbólico de tal aventura irresponsável. Com a proibição dos produtos dessa fase mais selvagem, a inovação tecnológica foi, aos poucos, incorporando novas fórmulas de aparência mais suave, mas que continuavam a comprometer o ser humano e o meio ambiente. Mas para as empresas, o importante é nunca parar de produzir e de acumular sempre mais. Promove-se a reorganização da produção e as plantas industriais de países com menor rigor de controle passam a produzir os venenos que venham a ser proibidos nos países de origem.
Necessidade de maior fiscalização e a busca de um novo modelo
Ora, para assegurar o bem estar coletivo da geração atual e das futuras contamos apenas com a ação preventiva, reguladora e punitiva do Estado. A visão liberal, de deixar a solução por conta apenas pelo equilíbrio das forças de oferta e demanda, revela-se como uma insanidade completa. E no caso brasileiro, tal presença do poder público deve ir para além de um rigor maior na cassação de licenças reconhecidamente danosas. É essencial a repressão ao contrabando de agrotóxicos que entram ilegalmente pelas fronteiras de países vizinhos, somando-se às toneladas acima mencionadas.
Mas talvez uma das ações mais importantes, do ponto de vista estratégico e de longo prazo, seja mesmo a mudança cultural. O Estado deve utilizar instrumentos de política econômica, de pesquisa científica, de padrões de educação e de campanhas de esclarecimento para mudar a forma como a sociedade encara o agrotóxico. Na contabilidade empresarial, o uso de agrotóxico deve surgir como um fator de produção mais caro, mais custoso do que os métodos agrícolas não agressivos. Do ponto de vista do consumidor, deve haver uma maior conscientização para que sejam mais demandados os produtos orgânicos e que não contenham esses venenos em sua cadeia produtiva. Do ponto de vista dos produtores rurais, devem ser estimuladas e apresentadas as formas alternativas de atividade agropecuária, com recursos da biotecnologia e da tecnologia social, de tal forma que façam chegar à mesa das famílias produtos livres da transgenia e dos agrotóxicos.
Assim como ocorreu com a chamada “revolução verde” de meio século atrás, já é passada a hora do Brasil intervir de forma mais protagonista nessa nova transformação da forma de produção agropecuária. Trata-se de incorporar elementos de sustentabilidade sócio-ambiental, para promover a transição de modelo, rumo a produção de alimentos mais saudáveis para o ser humano e para o futuro de nosso planeta.
Assinar:
Postagens (Atom)




